domingo, 19 de fevereiro de 2012

Guilherme de Faria declamando seu cordel Romance da Vidência, na Casa das Rosas, no dia 11/02/2012
"A maior diferença é que no Paraíso todo dia era Domingo. E ninguém precisava ir à missa... ( Guilherme de Faria , cordelista sertanejo)
Como já contei, eu tenho um fraco pelo programa humorístico "Two and a Half Man", a mais inteligente, psicológica e engraçada entre as comédias americanas de TV a cabo. Eu vejo o personagem Alan ( o irmão fracassado do Charlie) como o mais defeituoso dos homens: ele é imaturo, mesquinho, aproveitador, parasita, invejoso, avarento, inseguro, ridículo, inepto e feio. No entanto, que grande ator o encarna, que comediante, que timing de comédia! Ele consegue fazer um tipo detestável ficar extremamente engraçado. O curioso, é que o irmão bem sucedido, charmoso, bonito, cheio de presença de espírito e humor sarcástico é justamente o alcóolatra, e que por ser encarnado por outro grande ator, também se torna convincente. A Arte consiste em dotar o impossível de verossimilhança. A Arte pode tudo. (Guilherme de Faria)
Sempre me impressionou o fato dos sonhos se evaporarem de manhã ao acordar, e sumirem completamente. Entretanto tive dois sonhos extremamente reais e magníficos, dos quais nunca me esqueci nem dos mínimos detalhes. Ambos aconteceram no ano de 1977 e marcaram a minha vida de maneira profunda. Eram tão nítidos que ao despertar não os senti como sonhos pois a realidade circundante não era mais acurada que eles. Percebi que tinham sido "reminicênciais" espirituais (no sentido platônico) de outras vidas. Não preciso dizer que ambos diziam respeito à minha anima, isto é, a Alma Welt, que no entanto eu iria nominar e conhecer como grande poetisa gaúcha (!!!), prosadora e pensadora profunda, vinte e quatro anos depois, em 2001. Desde então ela não pára de me "enviar" seus textos diariamente... (Guilherme de Faria)
Vocês viram o que eu vi? Acabo de ver na TV a cabo um trecho de um programa humorístico americano em que uma mãe, usando a tática de psicologia contrária com sua filha adolescente, para que esta não mude o vestido, que ela, a mãe, considerou bem adequado, diz: " Vá tirar esse vestido! Você parece uma prostituta brasileira!"
Fiquei estarrecido e até envergonhado ao perceber em que conta os americanos nos tem... (Guilherme de Faria)
Se Cristo tivesse tido um bom advogado de defesa (se os houvesse) provavelmente teria sido absolvido pelo juiz Poncius Pilatos, pois certamente lembraria aos jurados (se os houvesse) que o réu incentivava o povo ao pagamento dos impostos: "Dai a Cesar o que é de Cesar..." atitude da qual chamaria facilmente testemunhas... (Guilherme de Faria
A propósito de futilidade: eu não suporto esses anúncios de TV em que mulheres comuns, às vezes até bonitas, falam de sabonetes ou cosméticos, parecendo umas débeis mentais... (Guilherme de Faria)
Estou ficando idoso. Minha obra está toda por aí pelo mundo em milhares de casas e alguns poucos museus. Voltem, ah! voltem minha obras.... juntas um bom punhado delas, antes que seja tarde! Quero somente revê-las e se possível passar adiante as que tenho comigo, pois "deste mundo nada se leva" e eu aprecio mais as minhas obras sob esse mistério, que é o olhar do outro... (Guilherme de Faria)
Acabo de chegar de um sarau litero-musical na Casa das Rosas, organizado pela nossa querida amiga, a poetisa e cantora Regina Tieko, grande agitadora cultural. Declamei meu cordel dramático Romance da Vidência...
Meu sobrinho Ilan acaba de chegar de Paris e me trouxe, estranha e gratamente uma barra de chocolate suiço. E eu, provando me dei conta, mais uma vez , de que no Brasil tudo é mentira. Até o nosso chocolate é de mentira...

A famosa Arca da Alma

A famosa Arca da Alma
De tempos em tempos eu republico aqui as fotos da grande arca antiga, colonial, que foi encontrada no sótão do casarão da família Welt, repleta da obra literária da grande poetisa do Pampa, em grande parte ainda inédita, e que levará ainda muitos anos para ser toda compilada, estudada e publicada. Somente de sonetos foram encontrados até o momento 2.116 (!!!).
Para ser franco, devo dizer que no meu tempo de garoto os meninos também não sabiam nada. Pior: era a época dos pequenos cafagestes de quarteirão, devido ao desrespeito com que falavam das meninas e das mulheres. Já era uma época muito ruim. Eu era totalmente atípico e solitário e assim o fui pelo que me pareceu muito tempo... só com dezessete anos eu vim a conhecer gente igual a mim, um grupo de poetas jovens e maravilhosamente subversivos, hoje todos consagrados. Roberto Piva e Claudio Willer eram dois dos mais proeminentes...
Eu fico impressionado, quando tenho algum contato com jovens, de ver que eles não sabem nada. Absolutamente nada! E estou falando de jovens da classe média, que estudam em escolas pagas! Um exemplo: se você lhes pergunta como e porquê houve uma Guerra Mundial, eles nem sabem que houve uma, muito menos duas. (Guilherme de Faria)
O consumo de álcool está crescendo na juventude. Quase já podemos falar em alcoolismo generalizado. Isso porque o adolescente e o jovem já não compreendem divertimento (balada) sem bebida, muita bebida. Isso vai acabar mal, porque não vejo como não comprometerá toda uma geração, que será, no mínimo, de assassinos potenciais ao volante. E de espantosos ignorantes, pois todos sabemos que eles ficam naquela rua do bar, ao lado das escolas, e já nem entram todos dias nas salas de aula. (Guilherme de Faria
É mentira dizer que fora do amor ou do desejo o ser humano ainda gosta ou confia em outro ser humano. Para vocês entenderem o que quero dizer, experimentem passar de locatários a locadores... (Guilherme de Faria)
Não há nada mais chato na vida do que um adolescente. A adolescência dos nossos filhos é para nós como o parto natural para as mulheres: um imenso e quase insuportável sofrimento do qual esquecemos quando já passou...(Guilherme de Faria)
"Da mulher amada, não se tem nojo de nada..." (Guilherme de Faria)
Em breve o governo passará a cobrar imposto sobre o ar que respiramos. Logo nos acostumaremos. Nos primeiros tempos ainda reclamaremos da má qualidade do produto..." (Guilherme de Faria)
Curioso... Os americanos, que são seres humanos muito estranhos, parecem considerar os seios femininos como orgãos sexuais, pela obsessão que por eles demonstram... rrrsss (Guilherme de Faria)
Vou revelar um segredo sobre mim aos meus amigos do face: Eu sinto muito maior satisfação com os elogios que fazem à Alma Welt do que com os que fazem a mim, que há muito tempo já não me emocionam. A razão disso? Creio que eu sou bem mais ela do que eu mesmo, já que ela é a minha anima, portanto a minha verdadeira natureza desde sempre. Eu, como artista plástico, sem saber não fiz mais que invocar a sua imagem por tanto tempo até que ela me apareceu com mais do que a sua bela figura de modelo. Como prêmio pela minha fidelidade ela me deu a sua obra, seus pensamentos e sua beleza interior. A sua Poesia, enfim... (Guilherme de Faria)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Quando eu era criança, e somos quatro irmãos (e não "em" quatro, hem! rrrss), de noite, à mesa de jantar, minha mãe, que conhecia a minha verve, incentivava que eu contasse as experiências do meu dia na escola, e mesmo no trajeto de ida e volta. Eu adorava isso, e acreditem, improvisava pequenas crônicas humorísticas, que faziam enorme sucesso, principalmente com ela mesma, minha mãe, cuja gargalhada me recompensava. Agora vejo que perdi muito tempo sem escrever, pela necessidade de ganhar a vida com as artes plásticas. Mas, para não perder o foco, devo ressaltar que o mérito estava todo nela, na atitude avançada de nossa mãe. Imaginem, uma mãe que se divertia e incentivava à mesa as narrativas reais de uma criança de oito, nove anos, com o risco do ciúmes que produzia nas outras!... (Guilherme de Faria)
Uma das melhores iniciativas que tive na vida, a meu ver, foi começar a escrever para valer em 2001, quando já estava com 59 anos. Não foi tarde demais. Há dez anos escrevendo todos os dias, pude passar a limpo a minha vida inteira. E melhor: entrei na terceira idade sem veleidades de juventude e sem outras vaidades senão a da própria literatura. Acreditem: há dez anos, pelo menos, não posso ser seduzido nem tentado pelas mulheres, mas confesso que ainda me impressiono com os louvores às minha artes, que me enchem de satisfação. Quero dizer com isso que me restou somente a vaidade artística, nenhuma outra... Graças a Deus! (Guilherme de Faria)

Sobre a apreciação da pintura figurativa

No que se refere ao expectador, há três níveis distintos na apreciação de uma pintura figurativa, que são três níveis de aproximação. 1°: Há os que gostam do quadro pelo simples reconhecimento da figura ali representada. Este é o nível mais primário. 2° Há os que gostam do quadro por identificação com a figura ali representada. Trata-se da aproximação sentimental, ainda nada tem a haver com arte. E 3° : Aqueles que apreciam um quadro pelo seu nivel técnico, isto, é, pela destreza de suas pinceladas, visíveis ou não, pelas sua combinação de cores, suas texturas, equilíbrio e originalidade de sua composição; pela harmonia do conjunto, pelo seu mistério e sensibilidade gráfica e plástica. Emfim: por sua "plasticidade". Este e o verdadeiro nível de apreciação da Arte: a dos valores abstratos no figurativo. Quanto à temática... bem, é a sobremesa ou o licor de arremate...(Guilherme de Faria)
"Você sabe, Beth, os críticos de arte, se ainda existissem, diriam que o tema ou o lado "anedótico" da pintura não interessa, queo o que interessa é a qualidade da pintura em si. Mas nunca vi uma pessoa comum que não se interessasse pelo que está representado na pintura figurativa." (Guilherme de Faria em comentário no facebook, sobre uma pintura do século XIX postada por ele)
Sempre pensei desde o seu aparecimento em mim a partir de Julho de 2001, que a Alma Welt, fosse a minha "anima" (no sentido junguiano) que se apresentou como escritora (poetisa e prosadora) depois de ter me ofertado a sua bela imagem de mulher em desenhos, gravuras e pinturas desde 1963. Mas já há algum tempo passei a suspeitar seriamente de que ela existiu ou existe mesmo, em carne e osso, pelo menos num universo paralelo... (Guilherme de Faria)
Quando eu era menino de uns dez anos, meu pai me contou sobre um personagem da Era do Radio, talvez um político (não me lembro o nome) que declarou: "Dêm-me os meios de comunicação e eu faço dois países vizinhos e tradicionalmente amigos entrarem em guerra entre si em 24 horas."
Lembrei-me disso agora ao pensar no poder da Globo em fabricar modas, falsos gostos e promover o vazio como se fosse interessante. A massa é levada pelo nariz como gado... (Guilherme de Faria)
Há não muitos anos atrás, as pessoas ligavam a televisão para ver artistas de talento encenando novelas de dramaturgos como Dias Gomes, ou mini-séries baseadas em livros clássicos da grande literatura lusa ou brasileira; cantores de qualidade, humoristas talentosos, etc. Enfim, artistas... Por isso não posso entender porquê tanta gente fica observando pessoas vazias e banais, sem nenhum talento, por horas, num programa como o BBB. Se fosse um programa com uma seleção prévia para revelar talentos, tudo bem. Mas não! O critério é, visivelmente, a banalidade e a vulgaridade! (Guilherme de Faria
Sempre me espantou observar como as mulheres, mesmo as mais inteligentes, podem passar da apreciação culta de uma bela obra de arte, para um tema de absoluta futilidade. Assim... em segundos! (Guilherme de Faria)
Sinto muito dizer isso, mas sempre desconfiei que a grande dor que as pessoas revelam quando alguém querido ou admirado morre, se deve ao fato de que no fundo as pessoas sabem ou temem que a morte seja o Nada, o total aniquilamento. Pois se as pessoas acreditassem mesmo que existe um mundo post mortem e melhor, não seria motivo de júbilo e de festa? (Guilherme de Faria)
Um amigo neurótico que não tenho, chega invectivando contra os idiotas, contra os políticos corruptos, contra os bêbados na direção, contra o crime crescente... Eu digo a ele: Meu amigo, aceite o mundo como ele é! O brilho, a sensatez, a verdade e a beleza sempre foram a excessão! A caravana insensata passa, rumo ao abismo, sem ouvir nossos latidos de advertência e de protesto. Conforme-se... ou então desenvolva um câncer. Suicide-se, sempre é uma alternativa... (Guilherme de Faria)
Diante de nossa impotência perante programas boçais como o BBB, não nos resta outra alternativa senão nos conformarmos adotando o seguinte pensamento: os idiotas, que formam grande parte da população no mundo todo, têm o direito de se divertir conforme as sua limitada mente e de acordo com sua mediocridade fundamental. Não temos o direito de impingir à sua obtusidade intrínseca programas inteligentes, que seriam dolorosos para eles. Sejamos tolerantes... digo mais: sejamos caridosos com os deficientes, apenas mudemos de canal, lembrando que quando passar o vendaval de tolices e vazio, nem precisamos voltar para a Globo.... Afinal, existe a TV a cabo! ( Guilherme de Faria)
Crédito só seria interessante se fosse dinheiro dado. Mas... emprestado? Ter que pagar? E com juros? É idiota... não é interessante! (Guilherme de Faria)
O político que conseguiu, há muito tempo no Brasil, votar a lei que eliminou a prisão por dívidas, é um benemérito, merece louvores diários. Na antiguidade, em Roma, os insolventes eram transformados em escravos e iam para as galés (ser remadores acorrentados nos porões dos navios de guerra) ou para o trabalho até a morte nas minas. Da Idade Média até o século XVIII os endividados eram jogados nas masmorras e barbaramente torturados para confessar ter dinheiro escondido. No século XIX até o começo do século XX eram simplesmente presos. Quanto a mim, endividei-me com o cartão de crédito há quinze anos atrás e não podendo pagar deixei correr solto por dez anos a divida crescer de uma maneira astronômica. Eu ria e dizia pro Banco : "Vou levar essa dívida para o túmulo!" Resultado eles foram baixando o valor da divida e parcelando. Eu continuava rindo, vivendo e dormindo melhor sem conta, sem talão de cheque e sem crédito. Baixaram tanto que afinal ficou muito fácil saldar. Paguei e imediatamente recuperei a conta e o crédito. Agora não param de me oferecer mais crédito, tentadoramente, num verdadeiro canto de sereia. Seria de morrer de rir, se não fosse capcioso... (Guilherme de Faria)
Em se falando de Arte podemos dizer taxativamente: Um quadro pode até ser bonito, mas um quadro nunca precisa ser bonito. Um quadro precisa é ser "bom". Ser "bom" significa ser "boa pintura", isto é, ser pintado com maestria. (Guilherme de Faria)

Olympia - Margaret Bowland, 2007

Presumo que Margareth Bowland, ao entitular esta sua tela "Olympia" , faz uma alusão à famosa tela de Manet, de mesmo nome, que tanto escândalo fez ao ser exposta no Salon de 1865, por razões totalmente equívocas. As pessoas não se davam conta que o revoltante não era ser o retrato de uma cocotte nua na cama, recebendo flores de um admirador pelas mãos de uma serva negra, mas sim a subalternidade da negra, tão obscura que seu rosto quase se funde ao fundo escuro da tela. Já aqui a pintora americana coloca a negra e a loura americana gloriosamente nuas, lado a lado, na mesma cama. Palmas para essa pintora!
O Mundo é mau, todo mundo sabe disso. Os católicos o chamavam de "Vale de Lágrimas"...Entretanto continuamos colocando nossos filhos no mundo, acreditando, talvez, que eles o tornarão melhor. O problema são os filhos dos outros... Guilherme de Faria
Por que será que toda vez que alguém diz "o povo" isso e aquilo... se coloca fora do povo, mesmo que em seguida tome um ônibus ou o metrô? (Guilherme de Faria)
Uma amiga do face forneceu em comentário dados de pesquisa da Onu sobre a situação atual das mulheres no mundo, e esses dados são estarrecedores. A julgar por eles, as mulheres continuam escravas dos homens ou cidadãs de terceira classe. O avanço social das mulheres foi mínimo ou irrelevante. Não me admira que a poetisa Alma Welt tenha decidido abandonar este mundo (se é que isso aconteceu) ou tenha sido vitima fatal do homem, o que é mais provável... (Guilherme de Faria)
O Brasil, a sexta potência econômica do mundo? Isso quer dizer que novos latifúndios foram criados e mais cem favelas nasceram... (Guilherme de Faria)
Alguém se declara decepcionado? Alguém tinha dúvida de que o Capitalismo foi criado para enriquecer os ricos e empobrecer os pobres? (Guilherme de Faria)
Nos anos 70, para provar que eu podia ter sido um "expressionista alemão" rrrrssss, como Otto Dix, George Grosz ou Emil Nolde, eu fiz uma porção de litos a pincel, grotescas, bem expressionistas, com tiragens baixas (esta por exemplo está numerada 16/30) , porque meu editor dizia que iriam "encalhar". De um jeito ou de outro todas se esgotaram. Agora são raríssimas. Se o Brasil fosse um país sério, que tivesse "mercado de arte", estas deveriam ser as mais caras hoje em dia... (Guilherme de Faria)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O físico Stephen Hawking afirma não existir Deus. Ora, isso é tão absurdo quanto afirmar que Deus existe. Não sabemos e não temos meios de afirmar uma coisa ou outra. A existência ou não de Deus é um completo mistério. E é justamente nisso que consiste o problema. (Guilherme de Faria)
Dostoiévski colocou na boca de Ivan Karamazov, o intelectual dos Irmãos Karamazov, a seguinte frase perturbadora: "Se Deus não existe, tudo é permitido." As implicações dessa lógica são imensas. Uma delas é que a moral existe fora e acima do homem, pois do contrário a Justiça e o Bem seriam tão relativos que perderiam todo o valor. E nem sequer poderíamos identificar o Mal... (Guilherme de Faria

A Negra da Tarsila (crônica de Guilherme de Faria)



A Negra da Tarsila)

(crônica de Guilherme de Faria)

No ano de 1965 fui visitar uma das minhas tias que estava bastante velha, numa cadeira de rodas e não saia mais para nada. Entro em sua casa no elegante bairro do Pacaembú, povoada de objetos de arte, uma casa estranha em sua arquitetura da década de 20, que me fascinava desde a infância.
Lembro-me sobretudo dos quadros espalhados pelas paredes da casa toda. Na grande sala de jantar, havia várias naturezas mortas, escuras, com grandes tachos de cobre pintados com um realismo notável, de autoria de Pedro Alexandrino, que destoavam da arquitetura da casa. O que me fascinava mesmo, na infância, era um grande quadro da Tarsila, este sim no estilo Art-Déco com faixas de cor paralelas no fundo, representando uma negra com o beiço inferior deslocado, o seio pendente por cima do braço direito dobrado sobre o ventre, sentada no chão com as pernas meio cruzadas. Soube muitos anos mais tarde tratar-se da “ A Negra”, da fase antropofágica da Tarsila, maravilhosa obra, tão importante quanto o “Abaporu”, e agora no acervo do MAC.
Não encontrei esse quadro em sua casa nesta ocasião. Perguntei por ele à minha tia e ela respondeu:

—"Estou meio magoada com a Tarsila. Ela havia me dado esse quadro como presente de casamento. O Vicente não gostava do quadro. Eu também não. Ele implicou com o beiço deslocado e o seio por cima do braço, para dizer o mínimo. Há um ano Tarsila telefonou pedindo o quadro emprestado para uma sua retrospectiva, entreguei-o sem recibo a um portador que ela mandou, e o quadro nunca mais voltou. Mas na verdade, não faço questão, nunca gostei do quadro mesmo!..."

Quase caí para trás. O único quadro realmente bom e valioso e que ainda por cima combinava com a arquitetura de sua casa (ela nem percebia isso), ela o perdera e ainda estava aliviada!
Tarsila sabia o que fazia. Ela teve a chance de consertar o destino, pelo menos desse quadro. Na sua juventude, elegante e rica, presenteara seus quadros freqüentemente a quem não os compreendia ou dava valor. Então ela resgatara a Negra, que voltara ao grande público, vendido ou doado a um importante museu. Não há injustiça no mundo...
Alma Welt não estava no centro do Mundo... Não conheceu platéias nem honrarias. Seus leitores, ela os teve na rede por breves e intensos dois anos, e começavam a crescer. Entretanto não era de periferias, mas lá do verdadeiro fim do mundo, onde o vento sopra sem barreiras, eternamente, cruelmente... Conhecia dentro e fora amplidões que os nossos olhos normalmente desconhecem. Vivendo nas planícies sem fim de seu Pampa amado, conhecia solidões, lonjuras e silêncios que a nós seriam mortais. Também a ela o foram, essa é a verdade... Mas como resistiu! Como derramou versos que encheriam cochilhas não fossem eles represados na Arca de sua Alma, que ora derrama seu conteúdo sobre nós, perplexos, encantados, emocionados com tal dor, alegria e êxtase... com tão grande e trágica beleza! (Guilherme de Faria)
No futuro o homem trabalhará pouco ou nada. Entretanto não será mais livre, teremos ingressado na Era da Robótica, no Império das Máquinas. Na Era do Consumidor Puro, seremos governados pelo Grande Olho Eletrônico. Não mais livres para consumir, mas obrigados mesmo a isso, seremos mais escravos do que nunca. E haja diversão e shows dia e noite, como forma de entorpecimento e direcionamento das massas. Mas... o que digo? Dei-me conta agora de que já entramos nessa era! (Guilherme de Faria)
Tudo é uma questão de vestimenta. O homem de terno e gravata não aceita deixar milhares de alqueires de terras com quem anda nu ou de tanga. A prova disso é que para aceitá-los um pouco, fomos logo dando aos índios nossos ridículos calções vermelhos, chinelos de dedos e bonés. Somos mesmo muito mesquinhos..." (Guilherme de Faria)
Tudo é uma questão de vestimenta. O homem de terno e gravata não aceita deixar milhares de alqueires de terras com quem anda nu ou de tanga. A prova disso é que para aceitá-los um pouco, fomos logo dando aos índios nossos ridículos calções vermelhos, chinelos de dedos e bonés. Somos mesmo muito mesquinhos..." (Guilherme de Faria)
A julgar pelos filmes de ação americanos, a metralhadora é a menos eficiente das armas. Repararam quantos milhares de balas elas disparam contra alvos fixos ou móveis sem acertar uma única bala? Sinceramente... eu diria que os americanos são um povo muito bobo, se eles não fossem tão ricos e não fossem o mais poderoso país do mundo. Aliás, para mim esse é o grande mistério: como um povo tão infantil dominou o mundo dessa maneira... (Guilherme de Faria)
Acho o Natal uma festa muito sanguinária, principalmente para o perú... (Guilherme de Faria)
O chamado "sonho americano" é todo ele dinheiro. Mas não podemos censurá-los por isso: desde o culto do "bezerro de ouro" é esse o sonho de toda humanidade, desde que associamos o dinheiro à liberdade e ao poder. As tábuas da lei foram quebradas antes mesmo de serem observadas. A humanidade cultua o dinheiro, o seu único deus. E na hora final a maioria reza secretamente para ter muito dinheiro no Paraíso..." (Guilherme de Faria)
Muito se fala na religiosidade dos antigos egípcios, de sua espiritualidade. Nada mais falso. A meu ver, os egípcios antigos são o exemplo de maior materialismo que podemos conceber, a ponto de quererem preservar o corpo, isto é, a matéria, a todo custo pelo elaborado embalsamamento e carregar seus tesouros para o túmulo, na esperança de levarem a mesma vida de confortos na eternidade. Um povo sem espiritualidade nenhuma, cujo legado mais durável foi a invenção da cerveja e o mistério da construção das pirâmides. Mas, que engenho e bela arte eles tinham! ( Guilherme de Faria)
Se compararmos o número e a gravidade de coisas idiotas que cometemos ao longo de nossa História, com as inteligentes, criativas e sensatas, teremos que reconhecer, com o saldo final, que o ser humano é pouco inteligente, muito deficiente mesmo... não passamos de débeis mentais. (Guilherme de Faria)
Uma das coisas mais espantosas, verdadeiras, e cruéis que vi e ouvi na televisão (e eu mal acreditava nos meus olhos e ouvidos) foi um repórter americano entrevistando um índio pele-vermelha numa reserva (há duas décadas atrás). O repórter disse ao índio: " Vocês devem ter muito ódio e ressentimento pelo que fizemos a vocês, com todos os massacres, torturas, injustiça e roubo de suas terras que nós brancos cometemos, não?" E o índio calmamente respondeu: "Bem... durante algum tempo, sim. Mas, pensando bem, nós já estamos vingados: NÓS ENSINAMOS O BRANCO A FUMAR..." (Guilherme de Faria)
Se os homens se matassem simplesmente com o cigarro, o álcool e as drogas, não deveríamos nos importar muito, pois seria uma maneira eficaz de assegurar um relativo equilíbrio demográfico. É preciso que milhões de pessoas morram todos os anos para que não haja uma mortandade ainda maior pela fome no mundo (que apesar dos massacres pelas guerras, drogas, cigarro e álcool, está havendo). O problema é que os dependentes químicos aborrecem! Ah! Como chateiam os outros, como enfernizam a humanidade com suas manias, repetições, obsessividade e insensatez. Ah! A chatice! A única coisa realmente imperdoável!... (Guilherme de Faria)
O mundo poderia ser tão bom se o homem fosse um ser inteligente!... (Guilherme de Faria)
Um homem inteligente se interessa por absolutamente tudo o que concerne ao humano, ao planeta, aos animais, às plantas, aos astros, ao Universo, a tudo... Não acredito, por exemplo, na inteligência de alguém que nunca se perguntou qual a lei de física que rege o ato de se martelar um prego na madeira (Terceira Lei de Newton, lei de ação e reação). (Guilherme de Faria)
Quando o grande William Turner estava bem velho, agentes da Corôa Britânica foram à sua pequena e modesta casa na beira do Tâmisa portando alguns milhares de libras para adquirirem para a coleção real o seu grande quadro entitulado "Dido Construindo Cartago", de sua fase inicial, que ele havia exposto com grande sucesso na Royal Academy 50 anos atrás, quando tinha influência ainda do pintor francês Claude Lorraine, que ele muito admirava. Turner disse aos agentes: "Poupem os dinheiros públicos" e mostrou a eles o seu testamento que doava à nação toda a sua obra, acumulada, colecionada e frequentemente rematada por ele em leilões de espólio de famílias nobres. Os agentes admirados se retiraram. Pouco anos depois Turner faleceu e os agentes voltaram para fazer o inventário das obras da coleção do mestre (hoje na Tate Gallery). Eles entravam e saíam perplexos, abanando as cabeças. "Nunca vimos algo assim antes"- eles diziam- "desde o desenterro de Pompéia!" Uma camada de dez centímetros de poeira cobria tudo dentro da casa. Milhares de telas, cadernos, álbuns, aquarelas soltas, tudo, tudo coberto por uma camada de pó de mais de cinqüenta anos! Nunca Turner permitiu que uma empregada passasse um pano ou espanador em nada. Moral da estória? Não tem moral, é apenas uma curiosidade sobre as idiossincrasias de um gênio... (Guilherme de Faria)
Não temos tempo suficiente na vida para adquirir sabedoria. Por isso os sábios são poucos. Mas talvez a maioria de nós não esteja interessada em ser sábia porque não sabemos para quê isso serve. É o utilitarismo de nossa época que faz da sabedoria uma coisa tão rara. Um exemplo: um americano típico diria para um sábio ou mesmo um mero intelectual: "If you're so smart, why ain't you richer?" (Guilherme de Faria)
Posso congratular-me comigo mesmo: persegui meus sonhos de criança com persistência ímpar. Não os atingi a todos, mas o caminho que eles me fizeram percorrer revelou-se fecundo e surpreendente. Percebi que o destino é o caminho e não a chegada, que diminuiu consideravelmente de importância. Passei a vida desenhando, pintando, escrevendo, declamando e palestrando. Um entre milhares que também o fizeram. Mas não disperdicei meus dias em trabalhos inúteis ou estéreis, somente me ocupei do que amo: a sagrada Arte, que me comove e reverencio como nos primeiros dias... (Guilherme de Faria)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Negra da Tarsila (crônica de Guilherme de Faria)


A Negra da Tarsila
(crônica de Guilherme de Faria)

No ano de 1965 fui visitar uma das minhas tias que estava bastante velha, numa cadeira de rodas e não saia mais para nada. Entro em sua casa no elegante bairro do Pacaembú, povoada de objetos de arte, uma casa estranha em sua arquitetura da década de 20, que me fascinava desde a infância.
Lembro-me sobretudo dos quadros espalhados pelas paredes da casa toda. Na grande sala de jantar, havia várias naturezas mortas, escuras, com grandes tachos de cobre pintados com um realismo notável, de autoria de Pedro Alexandrino, que destoavam da arquitetura da casa. O que me fascinava mesmo, na infância, era um grande quadro da Tarsila, este sim no estilo Art-Déco com faixas de cor paralelas no fundo, representando uma negra com o beiço inferior deslocado, o seio pendente por cima do braço direito dobrado sobre o ventre, sentada no chão com as pernas meio cruzadas. Soube muitos anos mais tarde tratar-se da “Negra”, da fase antropofágica da Tarsila, maravilhosa obra, tão importante quanto o “Abaporu”, e agora no acervo do MAC.
Não encontrei esse quadro em sua casa nesta ocasião. Perguntei por ele à minha tia e ela respondeu:

— Estou meio magoada com a Tarsila. Ela havia me dado esse quadro como presente de casamento. O Vicente não gostava do quadro. Eu também não. Ele implicou com o beiço deslocado e o seio por cima do braço, para dizer o mínimo. Tarsila telefonou pedindo o quadro emprestado para uma sua retrospectiva, entreguei-o sem recibo a um portador que ela mandou, e o quadro nunca mais voltou. Mas na verdade, não faço questão, nunca gostei do quadro mesmo...

Quase caí para trás. O único quadro realmente bom e valioso e que ainda por cima combinava com a arquitetura de sua casa (ela nem percebia isso), ela o perdera e ainda estava aliviada!
Tarsila sabia o que fazia. Ela teve a chance de consertar o destino, pelo menos desse quadro. Na sua juventude, elegante e rica, presenteara seus quadros freqüentemente a quem não os compreendia ou dava valor. Então ela resgatara a Negra, que voltara ao grande público, vendido ou doado a um importante museu. Não há injustiça no mundo..."

PAGU, UMA GAFE (crônica de Guilherme de Faria)


PAGÚ, UMA GAFE
(Crônica de Guilherme de Faria)

Num período de minha vida, ao redor dos quarenta anos, quando entre casamentos eu costumava almoçar no apartamento de minha mãe, com prazer pois conversávamos fartamente sobre Literatura (ela era muito letrada em geral, mas principalmemte em literatura acadêmica francesa, que ela lia sempre no original, claro), enquanto esperava o almoço, tocou a campainha e eu atendendo, fiz entrar uma senhora de meia idade, amiga de minha mãe, de aspecto imponente, aristocrático. Enquanto esperávamos na sala, minha mãe na cozinha acabava de preparar o almoço, depois de interromper o seu trabalho para receber a amiga, e nos apresentar com as palavras: "Olhe, Guilherme, ela é sobrinha da nossa ilustre Tarsila do Amaral!" Eu, então, pensando ser a propósito, para puxar conversa comecei a falar sobre a maravilhosa biografia da Pagu, do Augusto de Campos, que eu estava lendo, entusiasmado com aquela figura hoje lendária do modernismo, uma pioneira da emancipação feminina, linda moça de origem operária que se torna mulher do Oswald de Andrade depois que este deixou a Tarsila, e se torna jornalista, comunista, uma das Musas do Modernismo, vai presa, se exila e se torna amiga do último Imperador da China com quem passeava de bicicleta dentro dos muros da Cidade Proibida, e termina a vida escrevendo crônicas estupendas sobre o Movimento Surrealista e o teatro de vanguarda mundial, em jornais de São Paulo...
De repente, logo de saída sou interrompido pela tal senhora, subitamente transtornada, tremendo, colérica, com o rosto vermelho, com o dedo em riste, quase gritando com fúria sagrada:

- "Aquele homem horrível, Oswald, grosseiro, que trocou uma RAÍNHA (!!!) como a Tarsila, por aquela mulherzinha vulgar! Tarsila era um rainha!!" (ela repetia com ênfase, prestes a ter uma apoplexia).

Eu devo ter empalidecido, envergonhadíssimo com a minha gafe e não falei mais nada, tão constrangido que, por minha vez, desconcertei a furibunda senhora paladina de sua tia, a grande Tarsila. Não havia mais ambiente e a senhora tratou de desculpar-se mas somente por não poder ficar para o almoço, o que a minha mãe, vinda da cozinha, muito lamentou, conduzindo-a até a porta, pedindo desculpas...

Meditando sobre este episódio algum tempo depois, dei-me conta da imensidão dos preconceitos sociais da época de nossas mães e avós, e mais admirei a Pagu e a grande Tarsila, por suas atitudes pioneiras, revolucionárias, as duas afrontando o ambiente elitista e tacanho que dominava a nossa Arte naquelas primeiras décadas do século, uma pelo lado de dentro da aristocracia e a outra pelo de fora. Duas heroínas...

14/12/2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma Temporada no Inferno (crônica de Guilherme de Faria)

Quando eu era um garoto de uns doze anos, tendo me tornado um pequeno rato de biblioteca e estando um tanto franzino, minha mãe decidiu me enviar para uma colônia de férias para me "enrijecer". Escolheu o "Paiol Grande" uma instituição tipicamente americana, embora fosse de padres católicos de origem canadense. O diretor do Paiol era o Father Leising um padre dos Oblatos de Maria Imaculada ( estranho... nunca me ocorreu descobrir o que é "oblato"). Também não me lembro de jamais ter visto o father, mas sua presença era sentida, não sei porquê. Mas o que quero contar é como tive um encontro desastrado com a cultura americana, que quase conseguiu apagar o encantamento que eu tinha com o cinema de Hollywood e suas estórias, musicais e estrelas maravilhosas. Nos primeiros dias fui escalado para uma excursão a cavalo que durou dois dias de sofrimento sacolejando por campos e montanhas no lombo daquele animal com que eu nunca antes tivera contato. Passei fome, frio, e sobretudo um imenso cansaço e dores no corpo todo, sobretudo nas pernas. Quando afinal chegamos de volta ao acampamento, todo de chalés (o meu era no alto do morro), apeando eu mal podia me manter de pé, caminhava cambaleando e ao começar a subir a ladeira perigosamente próxima de um campo de futebol americano onde estavam jogando os garotos americanos que nunca se misturavam conosco (os brasileiros) e mal os avistávamos, resvalei na borda escarpada do campo e caí dentro dele. Imediatamente me tornei alvo dos Yankes, que vieram na corrida e se atiraram em cima de mim aos montes, embolados, sempre gritando naquela algaravia enrolada, incompreensível. Eu tentava levantar e correr graças à adrenalina que explodiu, mesmo com aquelas dores que mal me permitiam andar. O garotos, extremamente fortes, de pulsos grossos como os tornozelos, louros, ruivos e sardentos, verdadeiramente selvagens, se divertiam em me perseguir e derrubar-me de borco agarrando-me pelas pernas e amontoando-se sobre mim. Eu tentava galgar o barranco mas ele me arrastavam para baixo, sempre gritando coisas das quais eu só distinguia: "Kill him! Kill him!"
Só me soltaram quando eu, desesperado, lutando que estava pela minha vida, virei-me para trás e gritei entre dentes, guturalmente, com um esgar de fúria e desespero:" LARRRRGGAA!" Me lembro do olhar de espanto do último que ainda me agarrava, e que me largou e ficou me olhando de mãos na cintura.
Eu afinal saí do território mortal deles, sem mais olhar para trás. E subi mancando e cambaleando para o meu chalé para afinal cair na cama, absolutamente exausto e moído.
Essa experiência me deu uma amostra muito clara de uma faceta da cultura americana que me faria preferir continuar sonhando com os filmes de Hollywood e nunca almejar conhecer aquele país ao vivo, mesmo acaso fosse convidado um dia.

Mas a verdade é que minha mãe tinha razão: ao final daquelas sofridas férias de um mês, na minha temporada nada rimbaudiana no inferno, eu tinha enrijecido um pouco... E voltei botando banca nos jogos de rua do meu quarteirão.

São Paulo, 13/12/2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Segredo do Artista (de Guilherme de Faria)

Vou revelar um segredo: Começando bem cedo na vida a desenhar, pintar e escrever, vacinei-me contra os excessos da admiração a outros artistas. Elegi minha própria arte desde o começo como a que eu mais amaria e admiraria através da vida. Agora, depois de milhares de obras, eu concluo que com tal atitude eu descobri o segredo de ser artista. Consiste nessa espantosa escolha e certeza: a de que a tua arte é imprescindível e definitiva. Se não pensares assim, não serás um artista, mas um simples admirador ou imitador. (Guilherme de Faria)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A reação de Machado Guerreiro (de Guilherme de Faria

Toda família tem seus códigos particulares, suas brincadeiras próprias de que nos lembramos para o resto da vida com carinho. Quando eu era criança, uma vez, meu pai sendo médico hematologista, cientista de laboratório, conversando com minha mãe à mesa do jantar citou uma certa "Reação de Machado Guerreiro". Eu, suscitado pelas palavras em que vi uma cena "viking", dei uma risada tola, repetindo "machado guerreiro"... Meu pai imediatamente me apontou o dedo repetindo essas palavras caricaturalmente entre falsos risos entrecortados e voz de débil mental: "machado guerreiro... hehehe...", no meio das risadas dos meus irmãos e até de minha mãe . Fiquei envergonhado mas ao mesmo tempo achando mais graça ainda. Nunca mais esqueci do que se tornaria um bordão repetido com dedos apontados cada vez que algum de nós dizia uma bobagem à mesa. Meu pai, nivelando-se jocosamente a mim numa tolice, incentivou meu senso de humor autocrítico para o resto de minha vida... (Guilherme de Faria)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Onde os ciprestes se juntam (para Amy Winehouse)
(de Guilherme de Faria)


Onde os ciprestes se juntam
e ao vento gelado das cidades do norte
se curvam
onde os corvos revoam crocitando
agourando a vida dos homens
desde sempre
Onde os relógios batem horas em salas tristes
Amy Winehouse ainda vacilante desfila
e ondula seu corpo esguio
maltratado pela auto-mutilação
de suas feias tatuagens
na sua brancura outrora imaculada
tão cedo rejeitada
de volta ao negro
ela voltará sempre
com sua voz negra do melhor do blues
e da alma
Amy voltará sempre
e com ela conviveremos ainda
por muito tempo
por amor à sua doçura invencível
sua expressividade trágica
indisfarçada
e para sempre legada
à nossa própria tragédia de viver.

Amy
quê dizer?
senão que te amamos
e quiséramos abraçar
teu corpo martirizado
e juntar com a mão
sobre teus apliques e desajeitados cabelos
tua linda cabeça ao nosso ombro
como o faríamos a essa girl
que bem sabemos
foste e serás
agora para sempre
de volta ao negro
mas também
a nós...


27/07/2011

Meu auto-retrato (de Guilherme de Faria)


Auto-retrato de Arnold Böcklin (grande simbolista suiço)

Meu auto-retrato (de Guilherme de Faria)

O meu auto-retrato imaginado
Seria como o do mestre suíço
Que captou um som meio arpejado
Daquele violino insubmisso

Nas mãos de dedos descarnados
Da fiel companheira de atelier
Desde tempos mal recompensados
Senão pelas delícias de beber...

Mas devo também lembrar o logro
Que fiz à minha acompanhante
Querendo os seus préstimos em dobro

E pra tê-la bem mais tempo do meu lado
Jogando para um tempo mais distante
A paga por seu zelo devotado...

domingo, 27 de junho de 2010


Portinari- Futebol dos meninos de Brodósqui


DECÁLOGO DO FUTEBOL (de Guilherme de Faria)

1.Não se iludam, futebol é um jogo de azar. Reparem, a bola só entra quando ela quer.

2.O gol deveria ser bem mais largo, pois os espectadores gostam mesmo é de goleada.

3.Eu soube que alguns intelectuais portugueses, durante a reforma ortográfica da língua, propuseram que se passasse a escrever “furtebola”, pois, afinal, se trata de furtar a bola do adversário.

4.O futebol é a prova de que o ser humano continua infantil por toda vida. Mas, pensando bem, todos os esportes o são.... Que digo? Tudo, tudo na vida é infantil!...

5.Por trás de uma partida de futebol, há sempre uma guerra dissimulada... O ser humano não tem jeito.

6. A testosterona é um hormônio que sobe a níveis nunca vistos numa partida de futebol. Daí o caráter altamente sexual desse jogo, com seus abraços e carícias ardentes.

7.Os americanos são ainda mais infantis que os brasileiros, por isso o seu futebol consiste em roubar a bola com a mão, fugir, e todos se amontoarem por causa dela.

8.A primeira vez que joguei futebol na vida, fiz um gol-contra por engano. Mas como achei graça da situação e de mim mesmo, caindo na gargalhada, quase fui linchado. Então descobri que eu seria, ou um traidor ou um poeta. Optei pelo segundo.

9.O futebol só tem importância porque as paixões nos mantêm vivos, embora, paradoxalmente, possam também nos conduzir à morte.

10.O futebol voltará a se constituir uma arte se incentivarmos os jogadores a se considerarem artistas, e não simples profissionais milionários.

Guilherme de Faria, 27/ 06/ 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010

THALITA (conto de Guilherme de Faria)

Começo a escrever aqui minhas memórias de infância e o farei aos poucos, em trechos e fragmentos encadeados, que espero que os amigos leitores tenham paciência de acompanhar. Assim, aos poucos, como um antigo romance-folhetim. Espero que os distraia e divirta. Se possível os encante.

THALITA
(conto de Guilherme de Faria)

Dei-me conta, afinal. De repente dei-me conta de que tinha que contar o que vou contar. Talvez a única estória verdadeira, autêntica, no que me diz respeito. A minha história. Uma estória... de amor.

DILIM DILIM DILIM DILIM!... A campainha parecia soar sempre nos momentos mais impróprios, nos momentos de disputa ou de briga entre garotos, coisas de honra, com que não se brinca. Lembro-me que tive interromper uma luta de socos e pontapés, e que obviamente eu estava perdendo... e sob vaias declarar que minha mãe estava me chamando para o almoço. Voltei correndo, humilhado, envergonhado, aliviado e furioso. Era difícil perdoá-la, pelo menos naquele momento. Tanto mais que, vendo minha fúria ela me olhou longamente, tudo compreendeu e... riu. Sim, riu... deu uma maravilhosa gargalhada que acabei acompanhando, porque se algo tínhamos em comum, minha mãe e eu, além do gosto pela literatura... era o senso de humor.

Ah! A campainha... Era uma sineta de prata. Menos que isso. Era um sininho todo em baixo relevo, com alguns trechos vazados e os nomes dos doze apóstolos gravados a toda volta, em latim, o que me causava uma estranheza deliciosa. Mas sobretudo o arremate superior em forma de um golfinho estilizado numa espécie de mergulho retorcido, para que o pegássemos pela sua cauda em leque, para balançar a campânula e agitar o badalo de prata pra fazer soar aquele tinir agudo, quase insuportável. O animal tinha escamas e boca grotesca de peixe, tal como se viam nos mapas antigos nalguns livros da biblioteca de meu pai, desenhos a partir das descrições dos navegantes que não sabiam descrever bem esses animais estranhos e que também confundiam as baleias com o Leviatã. Esse era o sininho, ou campainha, que minha mãe usava para chamar-nos para o almoço, e que devíamos obedecer como a maior das regras. Uma regra sagrada. Minha mãe a inventara para não se igualar às outra mães do nosso bairro, melhor dizendo, do nosso quarteirão de bairro paulistano pequeno burguês, e que se esgoelavam com suas vozes agudas para chamar seus moleques, à vezes distantes, no fim da quadra, brincando ou conversando besteira nas esquinas. Minha mãe, não! Era uma “lady”. Não gritaria na rua, onde jamais nem sequer levantava a voz como algumas das mães que, segundo ela, se comportavam como “lavadeiras”.
Mulher de médico culto, ela mesma bastante ilustrada, amante de literatura francesa, minha mãe realmente destoava das mães de meus colegas de rua que me ensinavam palavrões e malícias, que aprendi mas logo rejeitei intimamente por reconhecer-lhes a espantosa vulgaridade. Mas eu tinha que disfarçar! Na verdade era tímido e inseguro, e tinha que disfarçar o meu secreto desprezo por eles, para tentar me integrar para ser aceito, pois meu aspecto um tanto aristocrático, agora vejo, lhes infundiu suspeitas desde o início.

Vínhamos de um outro bairro, onde eu nascera e passara a minha primeira infância. Agora estávamos ali. A rua era um play-ground de asfalto, ou melhor, uma pequena praça de guerra dos meninos e suas brincadeiras brutas, competitivas e seus códigos de honra e de macheza. Quanto a mim, era um menino louro, delicado, embora não fosse propriamente franzino. Gostava de música clássica, que era a predileção de meu pai e tínhamos em casa em pesados discos de ebonite. A vitrola chiava, e trocávamos as agulhas de metal quando começava a repetir grotescamente uma frase melódica, de maneira irritante. Meu pai amava Beethoven. Eu também.

Mas o que marcou mesmo essa fase de minha infância foi a descoberta, ou o deslumbramento pela figura feminina na pessoa das meninas do nosso quarteirão. Que diferença dos meninos! Seres etéreos, distantes, delicados, que com seus vestidinhos quase sempre brancos, de manguinhas curtas bufantes, laço atrás, perninhas torneadas despontando de uma zona de mistério tão logo ali e tão inacessível, e terminadas por meínhas soquete e sapatinhos de fivela. Brincavam entre si e não se misturavam nunca com os meninos. Eu ficava horas vendo-as brincar seus encantadores e incompreensíveis jogos de palmas acompanhadas de versinhos rimados. Que gestos graciosos, que dança sutil e natural, meneios delicados, compassados, às vezes ligeiramente sinuosos! Sim, elas eram superiores e... eu queria ter nascido uma delas, essa era a verdade...

Então, ela apareceu. Era uma menina deslumbrante, diferente da outras que já me encantavam. E elas se apagaram, esmaeceram diante da luz dessa menina excepcional, de uma beleza exótica, sim, que parecia vir de um outro mundo, desconhecido de nós todos. E realmente era assim. Filha de um americano e de uma brasileira que tinha o aspecto de uma índia mexicana (simpática e doce senhora), Thalita, era nome da pequena deusa que chegou como uma estrela em nosso quarteirão, e tudo mudou.

Ela apareceu pela primeira vez na nossa rua, vinda uma transversal, umas dez casas abaixo de nossa esquina, uma mansão moderna, na verdade uma das poucas daquele nível em nosso bairro, daquelas que olhamos com curiosidade, senão inveja, como um lugar misterioso onde seres de outra categoria vivem suas vidas dificilmente imagináveis. Era bela, viva, esportiva e elegante. Vestia comumente a primeira calça "jeans" que vi na na vida. Aliás ainda não existiam no Brasil essas caças, e Thalita era uma pioneira também nesse sentido. Calças de cor “índigo blue”, como ela nos ensinou, e que por si só nos deslumbravam. Mas, ah! seu corpo, esguio para a idade, bem feito e com uma cintura fina, bundinha saliente, arrebitada (coisa que nas outras meninas não era muito notada) modelada pela calça justa, coisa que nunca tínhamos visto até então. Ela logo se impôs nos jogos de rua dos garotos, introduzindo a “queimada”, que não conhecíamos, e do qual as outras meninas não ousavam participar devido à violência das boladas, em que os meninos se esmeravam, em especial sobre ela, a femeazinha, como certa afirmação de nossa masculinidade. Mas ela agarrava as bolada com grande habilidade e reflexos nada comuns às garotas, pensávamos nós. Foi também a introdutora dos patins de rodas, em que se exibia quase como uma profissional, a nosso ver, pois girava e conseguia patinar de costas. Thalita era um portento, uma espécie superior vinda de algum outro planeta.
Não preciso dizer que me apaixonei imediatamente por essa menina fascinante e integralmente bela. Eu iria viver o maior e mais puro e solitário amor romântico que me seria dado experimentar na minha vida.
E então... ali naquela rua, naqueles dias, começaram meus precoces sofrimentos...

Ah! Quanto sofrimento cuja inutilidade eu iria constatar somente vinte anos mais tarde!.. Quantas lágrimas, planos não executados, hesitações, recalques, auto-repressões dolorosas!
E erros, também, lamentáveis erros infantis. Por exemplo: um dia, durante o jogo de queimada, cometi uma falta e ela se aproximou indignada, disse coisas de que não me lembro mais, virou-se para prosseguir. Eu, hipnotizado que ficara com seu olhar furibundo, ao vê-la de costas não resisti, ai de mim, e dei-lhe um tapa de mão cheia naquela bundinha atrevida e tão tentadora (essa era a verdade). Ah! Para quê... Ela virou-se como um raio e me deu um tapa violentíssimo, e com uma unha afiada, de lambuja, e que quase me derrubou, como um soco. Eu cambaleei, tentando me equilibrar, pateticamente. Chocado, pus a mão no rosto que já sangrava com um grande arranhão, como eu iria logo conferir dentro de casa, ao espelho, onde envergonhado me recolhi me auto-expulsando do jogo. Durante a semana inteira seguinte eu iria ostentar uma cicatriz no rosto, carregada com um estranho misto de perplexidade, vergonha e orgulho, como um troféu de guerra, e de amor... Eu tinha também conhecido a força da dignidade feminina, tão precoce em seu orgulho implacável. Eu não iria ser jamais um “cafajeste” (como eu ouvia os adultos dizerem de certos homens). E eu me prostraria aos pés dessas pequenas deusas. Eu haveria de fazer delas minhas musas, mesmo que precisasse vez por outra me defender de sua subjacente e antiga tirania...

Então começou a agonia. Eu a via quase todos os dias, e aqueles em que ela não aparecia eram vazios e nostálgicos. E sua presença era um misto de êxtase e dolorosa observação de seus mínimos gestos e olhares. Ela era tão natural!... Quanto a mim tinha perdido minha naturalidade e me sentia travado, em perpétuo suspense, esperando... Esperando o quê? Não sabia, e me sentia no escuro, no coração das trevas de um amor romântico mas sem definição, mais no mundo dos instintos, do inconsciente, do que de uma razão ainda incipiente, em formação.
Em compensação, todos os parâmetros de cavalheirismo, de velada corte, estavam presentes, talvez assimilados pelo meu contacto com os livros, com os clássicos e sua literatura cortesã. Sim eu era um romântico, mas não daquele romantismo dos anos 50 onde estávamos, mas de um tempo mais bem mais recuado, século ou XVIII ou XIX, no mínimo.
Estávamos nos nossos doze anos e começavam os bailinhos de pré-adolescentes. Thalita foi a primeira a organizar esses saraus em sua casa, em que o pai americano nunca estava, graças a Deus. Na verdade ele nunca foi visto por ninguém e era um mistério. Thalita nunca se referia a ele, e a presença de um pai americano em sua vida só era percebida pelo fato de que ela estudava no Graded School, e falava o nome das estrelas de Hollywood com aquele sotaque das meninas americanas mesmo, estranhamente enrolado, que a nós, garotos brasileiros, paulistanos, soava um pouco esnobe, e nos inibia pois jamais poderíamos falar assim, éramos subdesenvolvidos, eu assim me sentia, nitidamente, diante dela, a pequena deusa semi-americana do nosso quarteirão...

Mas, voltando aos bailinhos, devo confidenciar minha primeira memória erótica, se posso assim dizer, relativa à minha pequena Musa. Lembro-me de como, depois de muita hesitação fiz o convite segurei a sua mão (!!) e cingi a sua cintura pela primeira vez, para dançar um fox ou um bolero no baile de seu aniversário, em sua casa. Que emoção, que calor me subiu o corpo... eu tremia! E então, ao aproximar meu rosto do seu, eu aspirei o seu perfume... e ele permanece até hoje nas narinas da minha memória. Acreditem: eu sinto ainda hoje, 58 anos depois, esse perfume subitamente vindo a mim quando menos espero.

Lembro-me também de que, convidado para uma festa de São João em sua casa, minha mãe se esmerou em me fantasiar de caipira, com lenço vermelho no pescoço, camisa xadrez, chapéu de palha desfiado, bigodinho pintado a carvão com rolha, e tudo mais. Ao chegar assim na casa dela, não encontrei ninguém mais fantasiado, muito menos a minha deusa, e foi um vexame, uma vergonha incrível, uma humilhação para o garoto tímido e orgulhoso que eu era. Foi o que hoje em dia chamaríamos "pagar um mico". Bati em retirada e cheguei chorando de raiva, revoltado contra minha mãe, que mais uma vez caiu numa gargalhada, me abraçando, me acariciando o cabelo, e assim me desarmando. Mais uma vez tive que rir junto com ela. E acabamos às gargalhadas, eu rolando no chão de rir de mim mesmo. Graças a Deus, minha mãe tinha um maravilhoso distanciamento literário da vida ou a verdadeira perspectiva dela, que herdei... e isso me salvou.

Mas, ah! Entre tantas lembranças, a mais emocionante, e tátil, que impregnou meu corpo todo para sempre, foi quando convidado para brincar em sua casa, que tinha um imenso gramado nos fundos cercados de árvores e jardins, começamos um pega-pega disfarçadamente erótico em que fingíamos lutar, e eu a derrubei na grama e rolei com ela terminando por cima. Ela lutava como uma pequena leoa e eu a subjuguei, meu corpo sobre o dela em toda extensão, sentindo suas coxas roliças nas minhas, e sobretudo o seu púbis no meu, segurando seus pulsos para cima colados no solo enquanto ela forcejava, falsamente furiosa, eu percebi. Então fui descendo, olhos nos olhos, os dela fuzilando, aproximando meu rosto do dela, minha boca da sua, sentindo o seu hálito doce, perfumado e... a beijei, acreditem ou não. Ah! Aí ela pareceu ficar furiosa mesmo... e me empurrou de cima com tal força que fiquei caído ao lado dela por uns segundos, em êxtase e susto, ofegantes os dois, enquanto ela, soerguida, apoiada nas palmas me olhava fixamente nos olhos. Então ela se levantou e correu para dentro de casa. Eu também me levantei e saí, confuso, mas com o coração palpitante, pelo jardim de minha deusa, até o portão e voltei para casa sonhando sem imagens, só emoções, somente uma infinita ternura, um amor que doía fininho, como uma lâmina que entrava lentamente no meu coração de menino...

Daí em diante eu não teria mais um único pensamento que não fosse relacionado à minha pequena deusa, a menina amada de minha alma. E mergulhei morbidamente num estado de dor permanente, numa embriaguês de amor sem esperança (ah! se eu soubesse, então, que estava enganado, que havia, sim, esperança!...) Mas eu interpretara erroneamente a sua reação, a sua indignação, a sua súbita retirada, pois não nos vimos por uma semana inteira depois daquilo. Eu achei que me precipitara, que tinha sido atrevido, que tinha agido como um “cafajeste”, conforme os conceitos vigentes naquela época. Eu a beijara à força! Eu era culpado! Como fui fazer uma coisa assim? Eu era um ridículo! Como eu poderia esperar ser amado por uma garota assim tão superior?

Então, chegou o dia de seu aniversário. Eu tinha acabado de chegar dos jogos de rua, morávamos num sobradinho modesto, desses geminados, e no andar de cima, no quarto de meus pais, minha mãe notou que minha calça estava descosturada num certo ponto e pediu-me que a tirasse para ela costurar. Eu fiquei de cueca samba-canção, ali de pé diante dela esperando o concerto ficar pronto, ela sentada na cama com agulha e linha. Subitamente ouvimos a voz da Thalita, chamando minha mãe ao mesmo tempo que subia rapidamente a escada: “Dona Helena! Dona Helena!” Em pânico, mal tive tempo de esgueirar-me para trás da porta e ela entrou: “Dona Helena, eu vim trazer o convite da minha festa de aniversário para o Guilherme e as meninas.”- disse ela estendendo um envelope cor de rosa. Minha mãe olhou em volta e disse: Ué... ele estava aqui agora mesmo! Sumiu... que coisa! Você não cruzou com ele aí no corredor:” -Não, não o vi, dona Helena... (minha mãe, com os olhos postos na costura não percebera a minha manobra, e ali estava eu atrás da porta, de cueca, suando frio, sentindo que eu morreria se minha deusa me pegasse assim, sem calças,escondido atrás da porta, tremendo, ridículo para a eternidade.
Thalita logo se despediu depois daquelas indefectíveis palavras: -“E como vai a sua mãe? Que beleza! Você fará treze anos? Que linda idade! (cada palavra prolongava minha agonia).
Thalita saiu da zona de perigo, desceu a escada e ganhou a rua. Eu empurrei a porta e desabei a chorar, mas ali, de pé, diante de minha mãe surpresa, de olhos arregalados: “Ué você estava aí?” e logo entendendo tudo soltou aquela gargalhada redentora, a maior que vi, dela, em minha vida... e me abraçou: “Ah! Filho... vem cá! Eu entendo...” e ria, ria, enquanto eu chorava e ria ao mesmo tempo, profundamente aliviado: minha amada não me pegara sem calças, de cuecas... eu me salvara! Ainda haveria esperanças...

A verdade é que meu romance infantil, de um jeito ou de outro se desenvolveu, embora naquele ambíguo tom de amizade que não satisfaz jamais um coração amante, e mais o exaspera, produzindo uma espécie de ferida que não cicatriza, sempre arranhada, sempre sangrando, com perigo permanente de degenerar numa infecção. Eu sofria quando estava diante dela e sofria quando distante. Tentei infantilmente um meio de comunicação, construindo um bondinho teleférico miniatura, muito engenhoso, feito com o brinquedo de construções Mecano, e estendendo um longo barbante grosso desde uma pequena torre perto da janela de meu quarto, atravessando por cima da rua à altura de um andar superior de sobrado e passando por cima de quintais (que tive de invadir pulando muros, para instalar) até a janela do quarto dela nos fundos da casa, dando para o jardim, e onde ela amarrou a ponta do “cabo”. Uma pequena manivela enrolava o cabo que passava por uma roldana lá na “torre” da minha amada. Eu colocava bilhetes com mensagens no bondinho e o conduzia até lá com o giro paciente da manivela. É claro que meu sistema provocou vaias e gozações dos outros garotos lá embaixo, na rua, que deram um jeito de sabotá-lo lançando pedras amarradas em longos barbantes de pipas que pescando meu fio o partiram, derrubando e destroçando meu pequeno teleférico. Um dos meus bilhete caiu-lhes nas mãos, foi disputado e rasgado, mas ainda assim lido fragmentariamente em tom caricatural e malicioso pelos garotos, produzindo mais vergonha a este pobre e desajeitado Romeu dos primórdios da comunicação tecnológica.

Devo reconhecer que minha paixão de infância repousava no fato de que Thalita era muito superior às outras meninas do quarteirão, e isso dava a ela esse caráter de jovem musa, de pequena diva. Entretanto sabemos que o amor é um processo subjetivo, e não exige tantas qualidades do objeto amado para existir, e comumente mesmo lhe empresta algumas inexistentes: “Quem ama o feio”... Mas a cada nova prova, mais meu coração a confirmava, e eu sofria com a inacessibilidade da minha eleita, de quem eu nem sabia, na verdade, o que esperar, o que desejar.
Um dia as meninas resolveram montar um teatrinho na garagem da casa de uma delas, que, com os portões abertos para a rua, produziu uma pequena platéia dos garotos na calçada, e de algumas meninas mais tímidas, que não participariam, isto é, não tiveram coragem de se exibir para os moleques. Espantei-me de ver que a Olívia, pobre Olívia, que os meninos chamavam de “Olivia Palito”, a mais feinha e desajeitada delas, estava no elenco de dançarinas que iriam se apresentar juntas numa coreografia (na verdade eu ainda não conhecia esta palavra) dirigida pela Thalita, que, naturalmente, seria a primeira bailarina, a estrela.

Quando soou a música americana de um disco na vitrola e se abriu a cortina improvisada, meus olhos caíram sobre minha amada e não desgrudaram mais. Eu permaneci hipnotizado o tempo todo, pela graça e elegância de seus gestos adoráveis. Ela tinha talento! (também não pensei nesta palavra). E custei a perceber os risos e gargalhadas que os meninos soltavam ao desempenho da desengonçada Olívia, que parecia uma pequena pata, às raias do constrangedor. Pobre criatura! O que foi feito da Olívia Palito, como terá sido a sua vida? Talvez, ironicamente tenha sido o mais feliz dos destinos entre elas todas. E sei por que digo isso... Vocês também saberão...

Quando somos crianças, o tempo apresenta uma estranha ambigüidade. Parece parado, nada muda, seremos crianças eternamente, tornarmo-nos adultos parece improvável. Minha amada existiria como aquela menina linda, para sempre... Quanto a mim, não a alcançaria nunca apesar de ela estar ali, tão perto de um toque da minha mão. Mas eu não ousava tocá-la... não fóra dos bailinhos em que, então, eu a cingia pela cintura, sentindo sua mão quente na minha e... o perfume do seu rosto maravilhoso, tão próximo do meu.
Mas o tempo passou, imperceptível. Minha hstória era estória dos meus fugazes e eternos momentos com ela, ou somente diante dela. Cada movimento, cada palavra, cada olhar... encadeados numa história solitária, sem esperança, mais dor do que prazer. E ela se tornou de súbito uma mocinha. Lembro-me que foi um choque para mim, ve-la não mais naqueles jeans, mas num vestido tubinho da moda, com sapatos de salto alto, e batom. Tão diferente, de repente. Ou eu não percebera os sinais. A transição. Thalita não brincava mais, falava de um namorado que eu nunca vira e que era da idade do meu irmão mas velho. Eu continuava um menino. Como podia ser isso? Eu ficara para trás, eu que na verdade nunca a alcançara. E o que nunca fora meu estava perdido... Thalita casou com o tal rapaz que, visto uma única vez por mim, parecia destoar tanto dela, parecia nada ter em comum com ela. Mas era rico...
Não fui ao casamento, não mais a via, já havia tempos, ela já estava entrando no terreno das lembranças. E eu a preservaria como uma memória sagrada, por toda a vida.

Tornei-me um artista, ou já o era, não sei. Muita água correu, novos sofrimentos e algumas conquistas. Novos amores. Lentamente eu me esqueci do meu primeiro amor.
Então, quando eu já estava nos meus quarenta anos, um dia recebi um telefonema da Thalita, que casada já há muitos anos e com uma filha moça, vinha se dedicando à arte da joalheria moderna, de prata, e ia fazer uma exposição. Falamos longamente ao telefone, e ela foi estranhamente íntima, como não o fora comigo em nossa infância. Garanti a ela que iria ao coquetel de sua exposição na galeria.

Então... ah! Antes não fosse! Encontrei Thalita bebendo muito, sem parar, em seu vernissage. Excitada, deslumbrada e rapidamente bêbada, tropeçando pelos degraus da galeria ao levar amigos visitantes para olhar esta ou aquela peça deixando cair o copo estrepitosamente, pegando outro drink rapidamente, das bandejas. Ela ainda conservava alguma beleza mas já se percebia umas sombras no seu rosto, e um tom macilento, doentio, de quem já bebia há muito tempo. Senti clara e nitidamente que ela era alcoólatra, e não querendo presenciar um vexame maior que poderia arruinar a imagem sagrada que eu trazia de nossa infância no meu coração, bati em retirada sem me despedir dela.

Passaram-se alguns dias e ela me telefonou, me convidando para conhecer a sua casa, que novamente era perto da minha e eu nem sabia. Recebeu-me sozinha (marido e filha estavam viajando) e com um copo de wisky na mão mas ainda não embriagada, começou falando de sua vida, e de uma psicoterapia ou análise que fazia com um famoso psicanalista. De repente, subitamente comovida, ela disse que me amava desde a infância... que sempre me amara. Ai de mim, ela também me amava e eu nunca soubera!... Mas a essa altura eu já via os sinais de sua embriaguês e resolvi bater em retirada, não sem antes beijá-la na boca que ela me ofereceu pela primeira vez na vida, infelizmente um beijo arruinado pelo gosto e o cheiro do wisky. Saí dali muito perturbado. Meu amor se tornara uma bêbada, não era a mesma pessoa, não era a mais a pequena deusa de minha alma, a pequena Psiqué do meu quarteirão, de minha sofredora e bela infância.

Passou-se mais alguns meses, subitamente recebi o telefonema de sua filha, uma moça que nada tinha em comum com a mãe, parecendo estranhamente racional e fria e que, depois constatei, não tinha herdado a sua beleza nem de longe. A moça contou-me ao telefone, sem uma lágrima sequer, que a sua mãe se suicidara na sua frente com um tiro na cabeça, e que o velório seria naquela noite. Mas incrivelmente acrescentou detalhes chocantes: Thalita estava fazendo um monólogo provocativo, muito violento, diante dela, despejando todo o seu ressentimento por tão grande falta de afinidades, tanta incompreensão mútuas, tantas mágoas entre mãe e filha. E subitamente sacara a pistola de uma gaveta. A bala entrara na têmpora e saíra por um olho (!!!), ela contou (e essa imagem chocante permanece na minha imaginação desde então, como se a tivesse presenciado). Thalita foi levada de maca, ainda viva, morrendo a caminho do hospital, delirando poética e infantilmente, menina novamente, lembrando de sua escola, a Graded School, onde fora feliz...

Quando entrei no recinto do velório, o seu marido, que eu conhecera há anos atrás formalmente e nunca mais vira, chorava copiosamente e abrindo os braços dramaticamente clamou bem alto no meio de todos presentes, familiares e amigos do casal: “ELA GOSTAVA TANTO DE VOCÊ!” E me abraçou soluçando de maneira patética, me segurando, colado a mim, sua face áspera colada na minha, sua cabeça em meu ombro, enquanto eu, constrangido, acariciava as suas costas. Nada daquilo me parecia real. Eu não sentia ressonância daquilo tudo em meu coração.
Não derramei uma lágrima sequer...

Fiquei para o enterro, segurei na alça do caixão. As lagrimas não vinham. Mas finalmente, ali, ao pé da cova, com as últimas pás de terra eu comecei a me lembrar da menina de ouro, a menina que iluminou a minha infância, apesar de tanto equívoco, tantas barreiras que erguêramos em nós mesmos. E me lembrei de sua confissão tardia, de que ela me amava, de que me amara sempre e... afinal acreditei. Ela me fizera uma grande dádiva, não importa se a revelação foi feita em estado de embriaguês : "In vino veritas"...
Eu poderia voltar para casa, minha infância voltara, estava tudo certo. Um artista é sempre criança, e eu poderia sempre rir de mim mesmo como minha mãe me ensinara e um artista que ri está salvo, nada mais poderá doer tanto...

FIM

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

De Pijama (conto de Guilherme de Faria)

(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os Telhados )


“Life, my friend, is the Nightmare...”



Cheguei esta madrugada carregando minha pequena valise. Como é gratificante retornar de uma bem sucedida viagem, entrar no edifício, tomar o elevador deserto e, chegando ao meu andar, abrir a porta e penetrar no aconchego do lar. Só me decepcionou não encontrar minha mulher e meus filhos no apartamento. Cheguei cheio de saudade e de uns poucos pequenos remorsos, é verdade... Afinal vocês sabem, trabalho é trabalho, a morte é certa, e o que tem de ser feito, tem de ser feito.
Trato de abrir minha maleta e vestir logo meu pijama. Com certo enternecimento, confesso, visto o paletó e as calças vermelhas com estas pintinhas brancas. Foi-me dado por ela, Elisa, minha amada esposa, que aguardarei impaciente, pois deve estar na casa de algum parente, logo chegará. Quero fazer-lhe uma surpresa e não comuniquei a ela o dia e a hora da minha chegada.
Epa! Não estou reconhecendo meus objetos! Nem esta cama. Acenderei todas as luzes. Meu Deus, este não é o meu apartamento!
Não é possível, ou se parece comigo. Errei de andar!
Devo sair imediatamente. Vejamos, onde está a porta de entrada. Na sei mais! Ouço, risos! Mas de onde vêm? Ah! Uma escada, só me resta ir em frente, descer por ela, não posso ser encontrado aqui, assim, não tenho outra saída..
Oh! Santo Deus, estou num duplex. Entrei pelo andar superior! Nunca soube que houvesse disso neste prédio. –Senhoras, senhores, mil perdões. Desculpem-me, não me olhem assim, acabo de entrar por engano, sou morador de um andar acima neste mesmo edifício, não me conhecem? Deixem-me explicar. Não quero atrapalhar a festa. Quero dizer, os senhores estão chegando de alguma, não é mesmo? Estão alegres, graças a Deus, já compreenderam meu equívoco. Não, obrigado, senhorita, é muita gentileza a champanhe. Mas veja, acabei de chegar de viajem, e... amanheceu já. Sim, a senhorita é gentil. Não precisa se incomodar me conduzindo ao meu andar. Pode ser comprometedor para a senhorita. Quero dizer, estou nestes trajes íntimos, desculpe, quero dizer... Sim, por aqui... compreendo. Bela piscina a senhorita tem! Mas a senhorita não deve deixar seus convidados. Faz questão mesmo? A senhorita, permita-me dizê-lo, tem um sorriso irônico, não? Deve ser muito bem humorada. Esta situação não a constrange... Sim, entendo, por aqui, este corredor. A senhorita está quase me amparando com o seu braço, agradeço. Assim, descalço... pisando em ovos, não é mesmo? Ho, ho!... Como poderei lhe agradecer? Servir-lhe-ei um café no meu apartamento, aceita? Ah! meu Deus, ainda há gente compreensiva neste mundo. Mas , senhorita, estamos num jardim a céu aberto. Não entendo como chegaremos ao meu andar por aqui. Este portão? Ah! Sim, obrigado. Espere, não me empurre. Senhorita, SENHORITA! VOCÊ ME EMPURROU NA RUA, DESGRAÇADA! Estou na caçada, na rua dos fundos! ABRA, SENHORITA! Que significa isso? Não sou nenhum ladrão, juro! Jogue minha maleta, pelo menos! Ficou aí no andar de cima. Pelo amor de Deus! Ah! maldita... e gargalha ainda por cima. EXIJO QUE JOGUE MINHA MALETA POR CIMA DO MURO. SE NÃO, SERÃO OS SENHORES OS LADRÕES, OUVIRAM? Malditos. Não adianta, este portão não abriria nem a maçarico...
Tenho que sair daqui e encontrar a entrada do prédio. Que rua seguir, meu Deus? O caminho mais curto... Que vergonha! A rua já está começando a se movimentar. Olham para mim. Vou disfarçar, fazer-me invisível à custa de naturalidade e descontração. Ouvi isto certa vez. Mas conseguirei? Não é do meu feitio. Não agüento, sou assim, quê posso fazer?
Espere aí! Que escândalo é esse? E não é comigo... Um camburão de polícia! Prendem prostitutas! Que algazarra! Como poderei passar por eles? Não posso recuar agora. – Ei! Espere, Elisa! Larguem-na, miseráveis! Essa é minha esposa. Elisa! O que está acontecendo? Não senhores, não permito, entro junto, daqui não saio. Essa é a minha mulher! Deve haver um engano. Larguem-na, abram esta porta! Vamos ficar aqui mesmo ou em qualquer lugar, mas não me separo dela! Elisa, olhe para mim. Fiquem quietas, senhoras, parem de rir e de gritar. Tenham compostura. Elisa, que há com seu rosto? Está todo inchado! Seus dentes, meu Deus, todos quebrados! Já sei, você quis me vingar, atracou-se com aquela maldita, deu-lhe uma boa surra. Eu sei, Elisa, você faria isso, sim! Mas pobrezinha, o seu rosto, Elisa, o que há, que riso é esse? Você zomba de mim... Não ! Não! NÃO É VOCÊ! NÃO É ELISA! Enganei-me, meu Deus. Mais uma vez. Parem o camburão, quero descer imediatamente, abram esta porta! Não me belisquem, senhoras. Senhor Guarda, pare o carro, ouça-me! Não senhor. De pijama? Na rua? Não... Atentado ao pudor? Mas senhor... Tarado? É um engano, eu lhes juro, posso provar quem sou. Levem-me para minha casa. Mostrarei meus documentos. Estão na minha mala de viajem. Não os tenho aqui... Esperem, voltem! Posso explicar tudo. Parem, senhoras. Solte meu pijama. É de bolinhas mesmo, e daí? Não me toquem, senhoras, nunca lhes dei essa intimidade. Não ousem. Não ousem me beijar, LARGA! LARGA! Senhor Guarda, faça alguma coisa! Está bem, vamos à delegacia. Muito bem. Lá saberão tudo! Provarei tudo e terão que pedir desculpas. Alguém terá de fazê-lo.
Chegamos? Não empurrem, posso caminhar sozinho. Não sou nenhum marginal. Por quê aqui? Com toda essa gente, esta sala enorme... Não poderiam poupar-me isso? Terei que esperar muito? Aqui, no meio dessas mulheres e desses... Olhem, o Delegado, os senhores Investigadores, estão todos aqui mesmo, nas mesas. E não posso falar ao delegado imediatamente? Está bem, fico calado. Que lugar confuso, Santo Deus. Hem? Nada, não falei nada. Estou esperando, como vê...
Que vexame! Ser olhado com desprezo pelos mais desprezíveis cidadãos. Não me tinha ocorrido esta possibilidade. Vanitas, vanitatis... Miséria, eu filosofando! E de pijama. Sou um ser decaído, está na cara, fora da hora e do lugar... Vingam-se, fatalmente. É só isso que querem. Espreitam como répteis pela nossa queda. Nós, os burgueses, não é mesmo. Não sou um Diógenes, não quero um tonel. Quero minhas calças e meu apartamento. Parem de me olhar, malditos! Não estou nu. Tenho este pijama sobre o corpo, não vêem?
De bolinhas, de bolinhas! Ah! a desdentada , como pude confundi-la, meu Deus. Dentes podres. Olhos pisados. Arre! Por que olham sempre para baixo? Minha braguilha... Está fechada. Sempre esteve fechada, pelo menos isso. Ah! o botão está aparecendo, maldito, é isso! Não mereço! Não mereço isso tudo! Até ontem eu estava tão digno... Mas não! Não me vencerão pelo pijama! Prometo a mim mesmo que...
Como, senhor? Vou ser atendido. Atendido não? Interrogado? Mas... ali? Sim, com licença. Mas estão todos os Investigadores em torno da mesa... O Delegado, na cabeceira... Mas senhores, por que esta reunião geral. Desculpem-me. Está bem, só respondo... compreendo. Sento aqui nesta cadeira, longe da mesa? Mas senhores, não estou em julgamento... Estou?
Bem, senhores, entrei no apartamento errado. Sou morador daquele prédio. Não, não. É fácil verificar.... meu apartamento é no terceiro andar. De pijama? Troquei-me antes de perceber. Não acreditam? A moça ofereceu-se para me conduzir ao meu apartamento. É verdade, juro. Oferecer-lhe-ia um café. Não! Não tive nada com a moça, mal a vi. Ela me empurrou na rua. De maldade, sim, de maldade. Minha mala, meus documentos estão lá no andar de cima. Sobre a cama. A cama? Não, não estive nela. Mas, senhores, onde querem chegar? Estupro? Não a violentei! Que é isso? Não tive relações com a moça. Onde me levam? Não acreditam numa estória dessa? Mas que estória? Quem faria isso de pijama? Não! Não invadi aquele apartamento de pijama. Não premeditei, não premeditei nada. Senhores , aonde me levam? Quê? Recolher material? Sentar-me aqui, meu Deus, que horror... Isto parece um banco de tortura, tão complicado... Baixar a calça? Senhores, que ignomínia! Recuso! Recuso-me, não posso. Quê? Não, está bem. Prefiro sentar-me nesta coisa ignóbil. Ma senhores, isto está limpo? Tenho que sentar-me nu aqui, na frente de todos? Mandem sair as mulheres e esses... N/ao? Está bem. Não me aperte. O senhor está apertando meu pênis. O que vai fazer? O senhor está me machucando. Tem prática de quê? Esperma Recente? Senhor, não adianta espremer. O senhor está vendo? Está forçando. Que horror, meu Deus. Não, é urina, um pouquinho de urina. Isso mesmo. O senhor me espremeu muito, o que quer? Urina mesmo. Para o laboratório... Ah!... pois bem, vai ver. Agora o senhor verá. Exame de urina, sim senhor... e grátis, vai ver. Está bem, calo-me, mas vai ver. Oops!...
Que agonia!... Quanto tempo devo ainda esperar? Pelo menos posso vestir as calças do pijama? Oh! meu Deus! O que houve com o mundo? Devo estar no Inferno. É isso! Morri! Estou morto. A morte deve ser isso. A gente sente, o corpo é o mesmo, a mente também. Se não, por que seria o Inferno? Não adianta filosofar. Nunca saberei de que lado estou. É isso , nossa vida é oscilante, dos dois lados da linha. Hoje no Inferno, amanhã fora, depois novamente, nunca se sabe bem que lado é qual... Filosofando... Baboseira. Paciência, hei de sair daqui. Sou inocente. Sou inocente.
Ah, senhor, chegou o resultado. Como? Confirmaram minha estória. Estou livre. Por incrível que pareça, o senhor diz... Claro. Oh! meu Deus, ainda existe justiça neste mundo. Eu sabia. Eu sabia. Não disse? O senhor verificou tudo. Tim tim por tim tim. O senhor está espantado? Mas o que há de espantoso num homem honesto, embora de pijama, não é mesmo? Não quer saber mais de conversa? Está cheio... Está bem. Mas o senhor viu, não viu? Talm com lhe contei.sim, saio, saio. Por aqui, está bem. Estou livre. Posso ir para casa. O senhor vai me levar, naturalmente. Não? Mas... essa escada, dos fundos... Pelo quintal? Ah...
Senhor, que horta estranha é essa aí em baixo? Uma horta aqui, nos fundos da delegacia? As couves e repolhos parecem boiar numa... massa infecta... Hobby do delegado? Ora, vejam só. Como? Os esgotos das celas deságuam aí nesses canteiros? Ah... depois as verduras são servidas aos presos... Aqui ninguém come de graça... compreendo. É uma invenção engenhosa, não há dúvida... O moto-perpétuo, hem, o delegado descobriu o o moto perpétuo, não é isso? Opa! Este corrimão está solto. Oh! Segure-me! Oh! Não. Não. Não!
A grade estava podre! Estou atolado! Não enxergo nada. Oh! Não... Estou enlameado de... merda. Meu Deus! EXIJO QUE ME PRENDAM!TENHO QUE IR PARA UMA CELA! COM MUITA ÁGUA! PRECISO LAVAR-ME! EXIJO SER PRESO. NÂO SAIREI ENQUANTO NÂO ME LAVAR E VESTIR! E...QUE MINHA FAMÌLIA VENHA ME BUSCAR, NA CELA! NA CELA. EXIJO! Não? Como? Não posso? Sou um maldito inocente? Desastrado? MAS EU EXIJO!!! Não? Cometerei um crime. Qualquer um. Já cometi, veja: amassei as couves do delegado! Arrancarei as couves do delegado! Veja! Veja. Mais! Mais! Pronto. Não! Não me empurre. Para onde? Esse portão? Oh! Não me empurre com essa vassoura. Deixe-me ficar. Tenho de ser preso. Preciso me lavar. Não feche. Pare, por favor. Não feche! Abra essa porta. Abra! O SENHOR ME JOGOU NA RUA! MEU DEUS, ESTOU NA RUA! NA RUA! NA MERDA! E DE PIJAMA!

FIM

1976

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

VENENO PARA RATOS

(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os telhados )


Minha mulher insiste em que eu compre um mata-ratos. Não podemos continuar assim, com a casa infestada. É um perigo, ela diz. Ela exagera, naturalmente. Deve haver quando muito um camundongo por aí. Não me incomoda. Mas a ela deixa à beira do terror. É natural, nas mulheres.Façamo-lhe a vontade. Saio hoje para procurar o bendito produto, embora não saiba onde encontrá-lo, não estou acostumado.
Andei bastante por aí, a esmo, e não consegui encontrar uma loja especializada. E os olhares, então, dos balconistas? Chamam o gerente, que por sua vez chama o dono quando este está na casa. Olham-me fixamente, e isso confesso está me fazendo mal. Dão-me vagas indicações, tal firma, talvez, é difícil... Para quê quer o senhor
Um mata-ratos? Quase chegam a perguntar. -Para matar ratos, ora essa! – tenho vontade de gritar-lhes. Mas não vou me deixar alterar por circunstância tão ridícula. E os gerentes, meu Deus! Uns vermes que se põe na frente do balcão com ares de donos, quando deveriam estar atrás, como todo mundo sabe.
Despistam a origem e procedência do maldito mata-ratos, como um verdadeiro complô. Logo pra cima de mim, esse clima. De mim, homem pacato e inofensivo. E digo mais, humanista! Toda a minha vida tenho sido um humanista. E a minha biblioteca está superlotada!
Bolas, deixemos isso para lá. Tenho esperança que a minha mulher desista e esqueça os ratos. Afinal, afora isso, posso dizer que tenho um lar feliz, com as crianças, os cachorros e o papagaio.

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Preciso sair novamente, minha mulher passou uma noite de cão. E eu com ela. Não conseguiu pregar o olho, ouvindo as patinhas e os guinchos dos supostos ratos. Ratazanas, ela afirma. Enormes, devorando tudo. Descendo do forro e se lançando “a uma verdadeira orgia na cozinha”. Ela me fez descer para verificar, armado no mínimo de uma vassoura. Ela jamais saberá que me detive na sala, onde abri um livro, e de onde lhe gritava palavras tranqüilizantes de tempos em tempos.. Amanhã comprarei o veneno. Não resta outra solução. Pelo menos para tranqüilizá-la de vez. Não me entendam mal, quero dizer... acabarei com os ratos quer eles existam, quer não.

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Hoje, após mil e uma peregrinações, consegui uma boa pasta mata-ratos. Graças ao dono de um bar que me deu a dele. Estava bem ansioso para livrar-se do produto, pareceu-me. Prefere ratoeiras, ele disse. São mais seguras e vez por outra apanham um gambá ou coisa que o valha. Não me convenceram suas razões, mas agradeci sua gentileza, ainda mais que o tubo parece novo, não foi sequer espremido e a caixa está perfeita, a bula bem dobradinha dentro.

Meti a caixa no bolso e voltei rapidamente para casa, ansioso por abri-la e desdobrar a bula, coisa que não se pode fazer por aí a esmo, sentado num balcão de um boteco qualquer. Há sempre alguém nos observando nesses lugares. Os bares já não me agradam como antigamente, não posso sequer tomar meus remédios com água mineral, sem perceber que me olham. Já notei mesmo, uma vez, alguém, talvez um policial disfarçado que se abaixou para pegar o papel de estanho das minhas pílulas anti-alérgicas, enquanto eu me afastava. Vivemos numa era inquisitorial, ninguém se iluda. Mas propícia, por isso mesmo, às Grandes Artes e à Filosofia. Como Toledo, de El Greco, se lembram? Como Toledo.

Tranquei-me no quarto e conscienciosamente retiro o tubo da caixa e desdobro a bula. Enquanto leio concentradamente as recomendações e a fórmula, observo o desenho e os dizeres impressos sobre tubo. Uma caveira, meu Deus, e duas tíbias! E um rato, naturalmente, fulminado, de pernas para o ar. Perigo, aqui diz. Deixe longe das crianças e dos animais domésticos. Precauções... veneno violento. Aqui a fórmula: Arsênico, estricnina... Basta, Santo Deus! Não me atrevo a continuar a leitura. Reparo se a tampa plástica está bem apertada. Guardo tudo na caixa novamente e vou ao banheiro lavar as mãos; aproveito para escovar os dentes e fazer um bom bochecho.

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Procurarei um lugar seguro para guardar o veneno, até segunda ordem. Vou trancá-lo à chave na gaveta da minha mesa no escritório. Parece o único lugar privado nesta casa, onde a família, as empregadas, os cachorros, o papagaio e os ratos reinam, absolutamente. Não tenho chave de mais lugar algum, com excessão da porta de entrada, naturalmente, que mantenho trancada a sete chaves. Com todos esses perigos que rondam por aí... na calçada, em frente, na rua atravancada de automóveis que passam em alta velocidade... Devo zelar pelos meus dependentes. Os livros, os cachorros, as empregadas e os papagaios.
É preciso manter tudo sob controle. Assim tudo correu bem até hoje, embora isso me custe um esforço e um desgaste excessivos. Mas um homem é um homem. Deve saber dar ordens ao jardineiro, bem como exercitar os músculos da alma. É isso! Ponham peso, ponham peso! Sou um halterofilista da alma! As responsabilidades quanto mais se somam, mais fortalecem o espírito.
Vou anotar isso no meu caderno de Máximas e Aforismos.

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Hoje à noite quando todos estiverem dormindo, poderei pôr as iscas na cozinha, desde que levante mais cedo que todos amanhã, bem entendido. Um pouco de pasta num pedaço de pão ou de queijo em cantos bem escondidos. Atrás da geladeira. Não! É um absurdo. Não se pode correr um risco desses. As crianças, os cachorros... Não há lugar onde não fucem, não se escondam, não brinquem! Que loucura, Santo Deus, pensar em aplicar essa maldita pasta. É evidente que os acidentes mortais começam por imprudências como essa. Não pensar nos outros, eis todo o perigo. Minha gaveta... É claro que não é um lugar seguro, o móvel pode ser vendido, a gaveta aberta. Entre o fundo e a gaveta... Não. Bem se pode imaginar esses móveis sendo desmontados por restauradores, no espólio das famílias. Sabe-se lá onde vão parar as coisas! Nada nos pertence no plano material. As casas, as cadeiras e as estantes estão perpetuamente em trânsito de família para família através dos anos, das gerações. Tenho bastante conhecimento da vida para prever o itinerário de uma mesa de escritório. De uma mesinha de cabeceira, até mesmo.
Vou escondê-lo atrás de um livro na estante, bem no alto. Do meu livro de máximas, ou do Rabelais, por exemplo. Ninguém aqui lê o Rabelais há séculos. Não, não posso. Uma empregada pode cismar de desempoeirar justamente esses livros, os mais bem fornidos em segredo e poeira. Encontra a pasta... Sabe-se lá que idéias podem se passar na cabeça dessa gente. Uma tentação, um mau pensamento... Nunca sabemos a quantas andamos com as empregadas. Elas sempre nos odeiam, certamente. Têm lá os seus motivos para isso. Todos os salários são insatisfatórios. Além disso somos sempre mais odiados quando pagamos do que quando somos pagos. As revoluções começam assim. Haja vista...
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Estou desesperado. Devo livrar-me dessa ameaça o quanto antes. Ah! o vaso sanitário... Uma boa descarga. Não, não é seguro. Muita coisa já voltou de lá, é sabido. Os meandros hidráulicos de um vaso sanitário, quem os conhece?
Imagino bem suas curvas falsas como de certas mulheres, suas armadilhas, seus mecanismos de defasagem e devolução. Estive para sucumbir certa vez, ao cochilar sobre o vaso. Fui despertado, felizmente pelo grugulejar do monstro, sentindo as polpas frias. Não se pode confiar nesses aparelhos, humanizados pela nossa longa e confidente convivência.
Além do mais, os esgotos, aonde vão parar? É evidente que um tubo destes, desembocando num rio da periferia, possivelmente flutuariam sendo pescado pelos moleques. Passaria fatalmente de boca em boca como pastas de dentes ou geléia. Esses meninos são loucos por pastas de dentes, comem-nas instantâneamente!

Vou sair à rua e livrar-me dele. Não posso devolvê-lo, despertaria suspeitas. Que devolve um veneno violento? Além do mais já não me lembro do bar onde mo passaram... Ah! O infame! Estou sendo usado, é evidente. Quem presenteia o seu próprio veneno? E ainda por cima com aqueles ares de de generosidade e desprendimento. Oh! Meu Deus!...
Estou andando há horas pelo bairro todo e não vejo onde possa jogar o maldito. Trago-o bem embrulhado no bolso do paletó, disfarçando o volume com a mão. Entretanto sei que me olham, não posso sequer sacá-lo sem ser notado. Fazê-lo escorregar para uma lata de lixo... Não! Os cachorros vira-latas e os mendigos não o deixariam escapar!
Estou cheio de sobressaltos, ziguezagueando pelas calçadas, preciso disfarçar. Como pude sair à rua com um troço deste. Quisera estar em casa, imediatamente. Afastei-me muito! Passei por uns terrenos baldios... Nem pensar neles! Todos os vagabundos, gatos e malfeitores têm neles suas bases. Cairiam sobre o veneno como sanhaços, eu sei. Preciso chegar depressa, mas não posso correr, seria perseguido e cercado em segundos. Que agonia!
Pronto, estou em casa. A porta bem trancada. Estou inundado de suor. Vou tomar um banho e dormir. Mas não me separei dele! Dormirá comigo, no bolso do pijama. Não pregarei o olho, já sei. Se adormecer, vou amassá-lo, rompê-lo: CONTAMINAREI A CAMA TODA!
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Passei uma noite terrível. Minha solidão aumentou devastadoramente. Não posso partilhar minha carga com ninguém aqui. Foi-me dada esta missão, a mim, que sou o homem da casa. Meu silêncio cresceu e já não encontro apoio ou desabafo pois devo manter as aparências para não assustar ninguém. Pobres frágeis criaturas...
Perambulo pela casa, o veneno no bolso. Não posso continuar assim. Sou muito lúcido para expor-me aos perigos de uma... distração!
É isso! Sei alguma coisa sobre a nossa vida inconsciente. Ou melhor, não sabemos nada. Pressentimos e convivemos com ela à distância da espessura de um vidro. A vitrine do Sonho... Ela nos dirige às vezes, e nos ironiza. Está sob nós como a segunda camada da pele. E não sabemos quando somos nós ou ela. Como posso responsabilizar-me até o fim?
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Esta noite sento-me à escrivaninha e escrevo. Dói-me a cabeça e a dor moral é maior. Tenho os olhos enevoados e escrevo. Minha resignação está ainda em carne viva, “Não culpem ninguém”... “ A mim coube a responsabilidade pela segurança de todos”...” Só faço questão absoluta da cremação”...
Aperto o tubo que ergo na mão esquerda convulsa... SOU O GUARDIÃO DO VENENO PARA TODO O SEMPRE!

FIM

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Apocalipse (pintura de Guilherme de Faria )


O quadro "Apocalipse" , pintura a óleo s/ duratex, de 1964, de autoria Guilherme de Faria, medindo 170x 270cm, citada no conto "O Navio sob os Telhados", e que os vizinhos sugeriam que o autor cortasse por ser grande demais, para vender no picado...

O NAVIO SOB OS TELHADOS (conto de Guilherme de Faria )


O NAVIO SOB OS TELHADOS
(Capa de “O Navio sob os Telhados”, litografia de Guilherme de Faria)


Habito um porão inabitável. Qualquer coisa como uma toca, cujas paredes se cobrem lentamente de musgo e cujo teto poreja água a um palmo do meu crânio. Aqui trabalho. Sou observado e observo o corredor desta espécie de vila por uma meia-porta-e-janela, única fonte de luz. Antigo prostíbulo, creio, todo o beco, que não passa de cômodos a fundo e de um único lado de um comprido corredor descoberto. Uma faixa pintada no chão desemboca sob um alto portal de ferro batido com laivos de art-nouveau. Afora o portão, feiúra e miséria no corredor e dentro as portas.
Minha atividade desperta curiosidade nos vizinhos. Gente simples, que se debruça na portinhola, fala comigo e me dá palpites. Abanam a cabeça e noto-lhes um ar de piedade e incompreensão: ”Um moço tão distinto, coitado, não deve vender nada. Também, cada coisa feia...”
Trazem-me às vezes, carinhosamente, um prato enorme, montanhoso, de refeição operária. Arroz, feijão, couve, tutu, às vezes uma carninha, outras coisas. É engraçado.... essa gente parece comer bem. Ou pelo menos muito. Aceito, agradeço e como.
Continuo a trabalhar. Um amigo chegado há horas e estendido em minha cama, me aponta com o dedo e um olhar neurótico seus próprios pés, incapaz de se mexer. – “Desvie os pés dos pingos d’água, ora essa!” Mas ele deixa cair a cabeça no travesseiro imundo e se resigna, os mumificados, a água escorrendo pelos sapatos.
Há qualquer coisa de insondável nisso tudo. O hálito cavernoso de minha residência me consome...
Os vizinhos me alertam contra Dona Gertrudes. Querem-lhe mal e vice-versa. Ela não mora no raso como nós. Vem varrendo água de muito longe, não descobri de onde, lá por cima. Meu porão tem uma fachada, vejam só, que termina bruscamente e não se vê mais nada, nem casas nem telhado acima. Estamos no rés-do-chão da Vida, creio eu....
Uma cascata de água suja, seguida de uma frenética vassoura, despenca pela escadinha de cimento que ancora ao lado da minha porta. No fim da vassoura vem a Sapa (é como eu a chamo, mentalmente). Literalmente uma Sapa. Baixinha, gorda, esborrachada, com larga boca em curva descendente, óculos grossíssimos que lhe põem os olhos esbugalhados. E um saiote, meu Deus! Branco, rodado, muito curto para tão veneranda Sapa.
Ela varre a imaculada e exata largura de sua faixa territorial, seu passadiço até o cais da rua. E invectiva contra a fila amontoada de latas de lixo, papéis picados e pontas de cigarro que se acumulam nos dois terços da largura do beco.
“- Porcos imundos, gente suja, veja isso, é demais, etc.”- Dona Gertrudes me aponta a desolação poluída do beco, e pressinto que daí por diante vou se disputado como testemunha pelos dois partidos. Contemporizo. A diplomacia me cai bem, baixo que estou. Dona Gertrudes se entusiasma. Lá vem ela com um prato cheio também. E fala, como fala! Não percebo bem, mas ela me conta coisas e me convida a subir ao seu terraço, às suas plantas.
Deixo-me levar, não há retorno agora. A Sapa ciceroneia os seus domínios, lá vamos nós! E subo. O terraço não termina aqui, é estranho...Uma passarela de madeira escala as ondulações. Estamos na superfície. Os telhados... Percorremos um corredor envidraçado que ondeia sobre tábuas estranhamente inclinadas. Mal posso descortinar a paisagem. Paisagem? Estou preocupado com o piso!
Chegamos a um enorme galpão com madeiramento à mostra, de uma manifesta sabedoria naval. Um bom salão... Viro-me para todos os lados. Pequenos seres me observam com seus olhos de vidro e pestanas lustrosas. Por todos os lados Dona Gertrudes me presenteia com a visão de suas preciosas prendas. Bonecas e mais bonecas de plástico, industriais, monstruosas, forradas de tecidos franjados, rendas, babados, quinquilharias. Centenas de pequenos monstros rechonchudos que pressinto sobre as pregas e os bordados de uma alvura obsessiva, entre fitas e adereços cor-de-rosa e azul celeste. Arre! Por hoje chega. Despeço-me da Sapa debaixo de conselhos, advertências, mezinhas e receitas para os meus pulmões de náufrago, e volto atarantado ao meu porão.

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Conseguirei que a água corra das torneiras? Já arranquei as vísceras das paredes, e os tubos pendem obscenamente sem resultado algum. Está tudo obstruído há séculos, como intestinos podres. _ não, não aceito encomendas, minha senhora. Faço catres e alcatres só para mim mesmo. Meu negócio é outro, está vendo? Preciso apenas de mais um banco manco e uma mesa tesa. Daí esses cavacos. Faz favor...
- “Não, não corto esse pedaço. É grande assim mesmo. Eu sei que é melhor “após a chuva”, mas não é da minha especialidade. Cada um faz o que pode, né? É o Apocalipse, minha senhora. O fim dos Tempos, pois é... Tá lá na Bíblia. Procure lá. Pois é...
Não, encomenda não, me desculpe. Dinheiro, só de graça, trabalho demais, não tenho tempo, compreenda.”

Droga, ai vem o Krishnamurti do número 4. Filosofia espiritualista, né seu Rodolfo? Vai bem com os paletós, compreendo. A sua solidão espiritual durante as costuras. Passar tudo a ferro, não é mesmo? As cuecas do espírito... Não se zangue, seu Rodolfo. Devagar, devagar, divaguei. Compreendo: é preciso crer para ver. Senão descamba. É mesmo. Decaímos muito, decaímos muito, concordo. O Apocalipse vai bem, obrigado. Não, não corto, não corto.

Da minha janela diviso o seu André sentado à sua porta gritando as maiores pragas para a sua santa mulher. A saber:

Filha da puta! Merda de vida! etc.

Tem o olho direito vazado. Ou é o esquerdo. E sanguinolento. Perdeu-o ontem na sarjeta, de onde sua mulher o recolheu para a ressaca e o desespero de hoje, estou vendo.
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Noite. Marina irrompe pelo portão com armas e bagagens, os olhos arregalados e estoura em minha sala, apavorada, perscrutando a “pornela” fechada atrás de si. Ponho-me à espera também, olhando a madeira que se torna quase viva. Três minutos. Pá Pá Pá. Passo duros e bufos que se precipitam pelo corredor e se chocam contra a minha “japorta”. Ouço um vivo range de dentes através dela e a tensão muscular insuportável. Dois minutos. Marina de olhos vidrados, verrumando-os no postigo. A veneziana estala e ele se prcipita de cabeça na monha sala, meio pendurado pela cintura. Apavorado, mantenho-me heroicamente estático em sua frente, Marina, afásica, colada na parede atrás de mim. –“Alto lá!” (deixo de dizer). Estou agarrado pelos braços à altura dos bíceps por munhecas enormes e fortíssimas. Os dentes dele rangem em minha frente enquanto tomo um ar sereno e beatífico à custa de pavor. “Devo dominar o animal magnífico com meus olhos espiritualizados e severos...” Arre!!! Três minutos eternos de tensão e meus braços roxos quase escorrendo entre seus dedos. Ele desaba no banco à minha frente, sacudido de tremores. Uma ligeira pausa e lá vem de novo o ranger de dentes que parece nascer de algum lugar que não a sua boca, no ar, atrás de mim. Ah! Rangem agora em uníssono os dele e os da mulher-baixo-relevo-na-parede-atrás. Estou falando manso Há alguns minutos sem perceber. Repetindo frases de domador firme e amoroso, até cessar lentamente os ruídos e os passos. – CHEGA! NÃO AGUENTO MAIS! BASTA! (Ainda bem que eles foram embora juntos há algum tempo). Tenho os braços adormecidos e dou o maior esbregue na solidão do meu porão atormentado.

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Hoje minha cabine amanheceu verde. O teto suando em toda extensão. Envolto em vapor gelado, visto meu guarda-pó de banho. Vou ter uma conversinha com a dona Gertrudes de homem para homem. Tanta água à tona e meu chuveiro afônico... Trifásico, afásico. Raios! Afino o ouvido para a cascatinha. Lá vem ela. Pego-a na altura dos escaleres, vai ver.- Como vai, Dona Gertrudes? O Capitão voltou? É preciso manter o convés limpo, não é mesmo? Nunca se sabe...
Ah!, é Dona Gertrudes? Gostaria de ver. Subamos. É mesmo! Tutu! Veja só...E sapatilhas! Não como Marina não, Dona Gertrudes, ela faz moderno. Essas coisas... Dançarina, pois é... Lamentável. Essas são bailarinas, hem, Dona Gertrudes? Tal e qual. Ah! A senhora fez também... Quando criança? Ah!... Não, dona Gertrudes, passos modernos, assim. Isso, vamos lá. Pois é, modernismos. Muito bem. Pelo salão todo Ah! Clássico, prefere... Pas-de-deux, não é Dona Gertrudes Pelços corredores! Saltemos! Quê? O que diria o Capitão, Dona Gertrudes? É mesmo... é preciso disciplina a bordo, concordo. Paremos, Uf, uf. É o retrato dele? Seu filho oficial... Ah! E as bonecas... Não, Dona Gertrudes, ela é do moderno. Canal 13, Pois é até mais, Dona Gertrudes, fica para outra vez. Ahoy, não é mesmo? Ah! Ah! Ahhhooooyyyy!!!

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Noite, outra vez. Todo dia, noite. Droga, Marina aqui agora. Minhas tias tinham que me fazer esta visita? Vinte anos, ou três, pelo menos. – Não, tia Judith. Sente-se aqui. Não tenho bolos, pois é. Só rum. Não querem? Sentemo-nos na cama. O tapete está fora de foco? Não, não varro. A limpeza... Aqui é o porão... Eu sei que foi a senhora que deu, Tia Mode, mas... Chama-se Marina, né Marina? Montero. Pois é. Isso mesmo. Artista. Assim, pardinha, né, tia Mode? Uma graça, não? Tia Judith, a senhora está bem? Sente-se aqui. A senhora não está bem acomodada, deve ser. Não tia Mode. Moderno. Canal 13, por aí... Maqravilhoso, não? Isso, Marina, faz para elas verem. Ligo a vitrola. Incrível, não acham? Não, não se incomodem, ela está acostumada. Contorcionismo, não é mesmo? Espere aí, eu afasto as cadeiras, podem ficar nelas, eu arrasto, hummm. Estão com pressa? Faz daquele jeito, Marina, isso!
Ta ta ta tará-rá! Grande! Tia Mode, tia Judith! Prá quê essa pressa? Marina, pare! Dê um beijo na tia Mode, na tia Judith. Gostaram, né? Voltem sempre. Um pouco úmido, faz mal pra artrite.... Ah... canal 13, tia Judith. Canal 13!

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Dona Inalda veio me pedir que pare de riscar fósforos de noite. Os estalidos não a deixam dormir. Além disso faz mal para a minha saúde, tanto fósforo assim. É preciso dosar, ela diz. Aproveito e convido-a para jogar palitinhos. Prefere bingo. “Não, não tenho, Dona Inalda, que distração a minha! Bingo, taí...” (arrumo disfarçadamente a cama, cobrindo as manchas suspeitas.) Que diabo! Um homem tem direito de se divertir sozinho, sem prestar contas a ninguém. Minha cama está na sala, vá lá... Mas não tenho culpa do camarote estar fazendo água.

Dona Inalda parou de lançar olhos suspeitosos e sente-se mais à vontade. Velhota simpática... “É uma flauta, Dona Inalda. Não, não toco, só apito. Desde criança, Dona Inalda, quando ouvi pela primeira vez o Bartolo. “Seu Bartolo tinha uma flauta... ! Firí-rí-rí. Firí-rí-rí-rí-Fiiii-Fiiiiii!

Toma chá comigo a Dona Inalda. Estamos íntimos. Da próxima vez, tomo chá com ela.

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Vou tirar isso a limpo. Não me dão recursos. Não há condições. Não tem almoxarifado. Água entrando, água entrando e o Capitão não vem. Dona Gertrudes que se cuide. É muita responsabilidade para uma senhora. Ainda mais em tais condições. Viúva em vida. Esperando, esperando. Raios, o Capitão está faltando com os seus deveres. Iremos a pique sem mais contemplações. Tenho vontade de precipitar as coisas. Não, não posso fazê-lo sem antes conhecermos as Ilhas, sem termos nos movido um centímetro sequer. Que humilhação, meu Deus! Que humilhante, naufragarmos aqui mesmo, ao pé do cais...
Falta manutençãoo, é o que digo. Tenho vontade de fazer motim, para o bem da dona Gertrudes. Vou demovê-la de sua inércia tão pouco masculina. Droga, é preciso que alguém assuma o comando, nem que seja provisoriamente. Dona Gertrudes! Dona Gertrudes! Raios! Esta morta, por hoje.

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Hoje amanheci numa vaga melancolia, e com a veia lírica. Devo mostrar meus versos ao resto da tripulação? Não estou bem certo... Não se usa mais poemas desde o tempo das escunas, com seus mastros e tudo. Além disso, prefiro declamá-los para a Dona Inalda, que tem senso crítico e é vagamente demodée. Cada um com suas fraquezas, não é mesmo?

“Salta espuma bravia, salta e dança.
Como um demônio, eu lhe digo, como um demônio...”

Visitas novamente. Não posso. Não posso. Não estou para sociedades. Batam quanto quiserem na minha porjela. Não tenho tempo nem dinheiro para acotovelamentos. –Merda! Vão embora!
Boa, meia palavra bosta. É preciso controle sobre a situação. Sangue frio. Andaram perguntando por mim à Dona Inalda, ela me contou. Mas posso confiar na nossa boa camaradagem de velhos marujos. Ah! Ah! Cuca fresca, lirismo! Adoro meus serões matinais. Pena a Dona Inalda não estar aqui. Não me arrisco a sair, isso não! Com todos esses ratos de bordo, que sobem pelas amarras... que se danem! Não é hora de subirem a bordo, ratos de água doce! O navio vai a pique, sabiam?! Não, não sabem. É um segredo entre mim e a Dona Inalda. Mas devo agir. DEVO AGIR DIANTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS! !

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Tenho tudo preparado. Sei como retirar Dona Gertrudes da sua inércia. Pego-a hoje na lavagem do convés. Uma mãozinha, um versinho, verão! Dona Gertrudes não resiste ao entusiasmo trabalhista. Devo contribuir com minha parte, vou esvaziar meu balde de fósforos, já que aqui não tem almoxarife nem contra-mestre. Raios! E ouvido atento para a sua banheira... é o sinal. La vem ela. Lá vem ela. Dona Gertrudes! Como passa, Dona Gertrudes? Vento de estibordo, hem? E nós aqui, atracados... Vou pegar minha vassoura e um balde, espere. Vamos lá, assim é melhor. Mais água.. Vamos subir, é preciso vir trazendo lá de cima, não é mesmo? Não poupemos água. Agora os panos. Com os rodos, assim... Dona Gertudes, o porão está fazendo água, vamos descer. É preciso calafetar. Talvez um pouco de alcatrão. Vê? Assim vamos a pique. Não podemos ficar parados. Pegue ali o machado. Eu fico com este aqui. Ali, aquele banco, e a mesa. Temos muita lenha. Ateie fogo! Isso! O armário. Metamos o machado em tudo. Assim. Abaixo essa estante, os livros, ateie. Deixe-me fazê-lo. Esta cama, por quê não? Está úmida? Meta o machado ali naquela coisa. Tudo! Tudo! O Apocalipse! É preciso fazer-nos ao largo. Mais! Mais! O fogo está alto, mais ainda. Juntemos tudo. Vamos zarpar! O navio! O NAVIO! Estamos fazenda água. Ao largo! A toda marcha! Preparem os escaleres! Mais lenha, Dona Gertrudes! MAIS LENHA! MAIS LENHA! MAIS LENHA!


FIM

São Paulo, 1975