segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Considerações sobre os 421 Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt

(por Guilherme de Faria)

Desde o, providencial para mim, mês de Julho do ano de 2001 quando conheci a poetisa Alma Welt e entrei em contato com a sua poesia, estou convencido da grandeza de seu estro e da profundidade cheia de encanto de sua abordagem literária da vida e do mundo. Mas foi a partir dos Sonetos Pampianos da Alma, que vieram à luz em 2006 me rendi completamente ao gênio da escritora. Considero esta obra como o mais importante conjunto de sonetos jamais escritos em língua portuguesa depois do de Camões. Um imenso ciclo de sonetos que se lidos em seqüência (ou não necessariamente) produz a saga da vida inteira da “guria” pampiana, de sua infância até a sua morte espantosa e romanesca naquela estância gaúcha, no extremo sul do país. Apesar do “pampianos” do título, os sonetos transcendem ao cenário, aliás evocado como pano de fundo, de maneira magistral, pois apenas sugerido, implícito, magicamente, sem descrições. A Autora atinge o universal, e freqüentemente o metafísico, pois as contingências pessoais, inclusive geográficas, por ela abordadas podem sempre ser transportadas para o plano simbólico e mesmo arquetípico, característica somente dos poetas maiores. Sua irmã Lucia Welt comentou nalgum lugar, muito apropriadamente, que Alma seria classificada, pelo critério do grande poeta do romantismo inglês, John Keats, como “egotista sublime”, isto é, o poeta que usa a si próprio, suas circunstâncias e experiências, até mesmo sua personalidade como apoio de um salto transcendente, para nitidamente abordar, isto sim, a condição humana, no que esta tem de mais elevado, não excluindo portanto o trágico e nem mesmo patético de nossa passagem efêmera num mundo por nós mesmos construído, para o bem e para o mal.
A portentosa série dos Sonetos Pampianos da Alma, constitui portanto um conjunto monumental construído por infinitos momentos intimistas (o que seria uma contradição em termos, se não fosse justamente a sua originalidade) delicados ou surpreendentes que narram a vida da autora, suas origens, sua infância privilegiada no ambiente rural da estância de sua família, cercado por um vinhedo arcaico, pois presidido, por assim dizer, por um lagar evocado amiúde com encanto erótico-simbólico, quando a autora declara, insolitamente, ter rolado nua, por pura volúpia, naquela papa rubra como o sangue:

A Alma do meu vinho (de Alma Welt)

(3)

Doces manhãs da minha juventude!
Embora ainda viva um seu momento
Já o sinto afastar-se em pensamento,
Já não as posso sentir como antes pude...

Outrora eu vi meu corpo se integrar
No lago e na campina sob as chuvas,
Mas foi ele consagrado em meu lagar,
Que rolei nua no mingau das minhas uvas

Que quando vazadas nos tonéis
Me tornariam vinho e sua canção
Para alguns cúmplices fiéis,

E me lembro que este tinto foi servido
Com malícia especial por meu irmão
Brindando a todos com o vinho proibido...

06/12/2006


Alma percorre todos os climas e tons da vida de sua personalidade exuberante , intensa e profunda, freqüentemente cismadora ou em devaneio, mas logo entusiasmada, apaixonada às raias do delírio pela experiência de estar viva e tudo amar: sua terra, sua paisagem plana extraordinária, apenas ondulada de coxilhas que ela não se peja (já que isso já fora feito, como imagem tradicional, por muitos poetas gaúchos) de comparar com as ondas de um mar paralisado no tempo, o tempo metafísico da Poesia:

Soneto da Alma Nadadora ou a Nereida dos Pampas
(2)

Meu Pampa, oceano dos amores
Que me viram infanta nua nestas plagas,
Singrando entre as ervas, entre as flores
No jardim ou nas coxilhas como vagas

Que minh'alma nadadora acompanhava
Com o olhar e o coração mergulhador,
Imersa que ao nascer já me encontrava
Nas ondas de um mar encantador...

Aqui nesta soleira estou sentada
Como atenta salva-vida numa praia
A olhar o horizonte que desmaia,

Ou sonhando qual nereida num rochedo,
Que é esta casa-grande naufragada
Num mar de fantasia e engano ledo.

28/11/2006

ou


O Fanal da pradaria (de Alma Welt)
(18)

Verde Pampa de minha terra natal
Onde a alma navega entre as coxilhas
Aos olhos do peão como um fanal
Sobre mar pleno de encantadas ilhas!

Galopes infinitos, plenitude,
Integração cavalo e cavaleiro
O antigo ideal de completude:
O centauro uno e derradeiro...

Como eu mesma, peona e poetisa
Dualidade também de que me orgulho
Fiel pagã e grã-sacerdotisa

Desta porção extrema do país
De cuja saga imersa num mergulho
Eu volto como santa e meretriz!

24//11/2006


Agora vejam um outro aspecto desse mergulho:


Quando volto ao casarão (de Alma Welt)
16

Quando volto ao casarão após a lida
É que passo a ter do mundo um panorama,
A olhar a vida aqui da minha cama
E sentir a minha alma agradecida.

A vista do jardim... além, o pampa,
Eis a minha verdade, ah! o pomar,
O bosque, a cascata, ali a rampa
Que leva até o vinhedo e o lagar!

O ser humano, eu vejo, se debate
Perplexo, na vida e no mundo
Procurando a superfície e não o fundo,

E percebo que o homem só suporta
O rumor e agitação, sem que se farte,
Pelas paredes, quatro, além da porta...

5/12/2006


Compreendi ao ler este soneto, a afirmação da poetisa em conversa íntima comigo, uma vez, de que, apesar de toda a sua energia e entusiasmo “tinha passado a vida na cama...” Isto quer dizer, que apesar sua exuberância e alegria de viver, às vezes parecida com as de uma criança, Alma considerava que a vida se condensava e cristalizava em significado, em sentido, na contemplação ou na reflexão posterior ao ato, ao gesto e ao impulso, coisa típica dos pensadores e filósofos, mas também dos poetas que passam a amar a Poesia, essa Tradução, tanto quanto a própria vida em si. Seria essa, talvez, a “doença dos poetas”, aquilo que tantas vezes os abismam na morte, como uma vertigem do olhar profundo, uma tentação do espírito que conduz o corpo ao aniquilamento, por libertação, por vôo, por amor das alturas e conseqüentemente das profundezas? Eu não teria a pretensão de responder. Diante dos poetas maiores, ou dos trágicos, me ponho perplexo...
Alma Welt, a sublime poetisa morreu afogada em circunstâncias misteriosas no “poço da cascata” de sua estância em 20/01/2007, no auge de seu talento e beleza, mas emergiu na brancura de sua nudez resplandecente para ficar brilhando para sempre no cenário claro e escuro da nossa literatura freqüentemente trevosa e rasa, mas onde ela cintila como pura estrela que ela mesma sabia ser:

Estrelas que mais brilham (de Alma Welt)

224

Me lembro do meu Vati me contar
Que as estrelas viviam e morriam
Depois de envelhecer e definhar
Mas que no final, pasme! explodiam!

Para de novo tudo tudo começar
Mas em "super-nova", em brilho incrível.
E eu então comecei a matutar
Se não ocorre o mesmo em nosso nível

Pois como estrelas que um dia pereceram
E já não estarão na Branca Via
No exato lugar onde nasceram

Tenho certeza que eu por certo voltaria
Mesmo que outro fosse o meu pomar,
Querendo (que vergonha!) mais brilhar...


20/12/2006

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A última vez que Alma esteve aqui (crônica de Guilherme de Faria)


Detalhe do meu desenho "Eros e Psiqué" reproduzido inteiro na capa do livro contos da Alma, de Alma Welt, em que a Psiqué é um retrato fiel da poetisa Alma.

Estou me tornando um velho solitário. Entre meus livros, telas e papéis, pintura e desenhos, compondo meus cordéis com paixão e assim continuo em contato com o mundo. Prossigo ilustrando os poemas que Alma me envia pela Internet e montando seus livrinhos que apresentamos em kits de madeira, para leitores especiais que percebem a preciosidade dessa espécie artesanal de edição da grande poetisa.
Mas, quando Alma Welt se digna a visitar-me, isto é, trazer pessoalmente seus poemas e romances para eu ilustrar e prefaciar, minha solidão se ilumina. Eu renovo meus sonhos por mais muitos meses.
Alma esteve aqui, ontem. Ainda estou embargado (ou embriagado). A "guria" está mais bela do que nunca. E como é meiga e carinhosa! Ela chegou no fim da tarde, e depois de um profundo abraço (ah! o abraço perfumado da Alma! ) começamos imediatamente a conferir nossas produções (as dela muito superiores e prolíferas) e a fazer planos.
A certa altura Alma pegou o violão e cantou, com sua linda voz macia e sussurrante a composição que a sua nova amiga Kibsel fez para um soneto seu e também a de seu amigo músico, o João Roque, para um poema seu de verso livre. Coisas lindas!
Ficamos tantas horas conversando e declamando nossos poemas, que ficou tarde e eu sugeri que ela dormisse aqui. Minha mulher está viajando para Minas e tudo estava muito propício. A guria hesitou, claro, com escrúpulos. Mas exausta aceitou, já que tenho um sumiê no escritório em que eu poderia dormir, oferecendo-lhe a minha cama.
Vocês, caros leitores do.... já imaginaram a minha tortura. Não preguei o olho a noite toda. Esta mulher magnífica, que já tive o privilégio de ter nos braços há alguns anos atrás, e por um ano inteiro, agora inacessível, por tudo, pelo rumo que a vida tomou...
Levantei-me muitas vezes para ir à cozinha beliscar bolachas doces e beber coca-cola light, para não engordar... ai de mim!
Até que, na alta madrugada, não resisti mais e aproximei-me da porta e abri-a com cuidado, só para observá-la adormecida. Minha alma precisava disso.
Alma estava nua e descoberta (como seu costume, no verão) adormecida, eu percebi, pela luz da lua que entrava pela janela semi-aberta. Não resisti, acendi a luz confiando em que ela não despertaria. E Alma não acordou!
Eu pude, meus amigos, ficar ali por pelo menos quinze minutos, diante do leito, contemplando esta escultura viva do mais puro mármore de Carrara. Sua perfeição inacreditável, seus seios pequenos, redondos, parecendo virginais, de bicos cor de rosa, seu ventre de alabastro, de suave curva terminando num montículo de pelos dourado encimando os lábios descobertos e levemente rosados de sua vulva perfeita como uma concha perfumada (eu confesso que a auri com minhas narinas bem perto). Suas pernas compridas, magníficas, ligeiramente abertas expunham esse tesouro, e eu pude ver que estava úmida de agradáveis sonhos, que escorriam cristalinos para os lençóis (jamais os lavarei). Seus pés delicados, estreitos, compridos, de pura seda, com dedos longos e nobres, o segundo mais comprido que o primeiro como o das estátuas gregas. Seus lábios de rosa, entreabertos, suas pálpebras de seda, seus cabelos dourados, luminosos, esparzidos...
Amigos, eu chorava e... não percebia.
A beleza feminina, nesse nível, comove, e eu creio que me nutro dela desde o nosso primeiro encontro.
Alma parece saber disso. Ela sabe, e veio me presentear, agora eu vejo. Veio alimentar de beleza o amigo que lentamente envelhece...

17/11/2006

quarta-feira, 26 de março de 2008

Sobre o erotismo em Alma Welt (por Guilherme de Faria)

(artigo de Guilherme de Faria)



Parece-me oportuno fazer algumas considerações sobre a faceta erótica na literatura desse fenômeno literário chamado Alma Welt. A escritora vem se destacando nitidamente em sites literários da Internet, o LL e o RL bem como nos blogs de sua obra admnistrados pela sua irmã Lucia com a minha colaboração como ilustrador e por vezes prefaciador.
Observando o número de leituras de cada texto seu, coisa a que ela me convidou para analisar, percebemos juntos que o número de leituras dos seus textos eróticos excedem em muito os dos outros textos. Na verdade deve ser assim com qualquer escritor aqui do Recanto. Os textos eróticos parecem ser os mais acessados e populares. Mas o que significa isso? Vou arriscar algumas opiniões.
Percebemos que muito raramente os textos eróticos recebem comentários. Suponho em primeiro lugar que isso se deva ao receio do leitor se comprometer, e seu desejo de se manter anônimo e secreto, isto é, furtivo e ”transgressor”. Por quê transgressor? Trata-se de uma questão cultural. Vivemos numa sociedade de cultura judaico-cristã, há dois mil anos. Durante todo esse tempo triunfou sobre a sociedade, moldando-a culturalmente, uma profunda “consciência infeliz” em relação ao sexo. O cristianismo, como já o fazia o judaísmo, considera o sexo como a primeira conseqüência do pecado original, antecedida apenas pelo descoberta súbita do conceito de bem e de mal. Infelizmente o sexo foi colocado do lado do “mal”, no inconsciente profundo da humanidade e isso explica o detalhe da nudez envergonhada no mito de Adão e Eva imediatamente após a sua expulsão do Paraíso, e aquelas supostas “folhas de parreiras”, na verdade caricaturais frutos de uma tradição anedótica.
Mas por quê, diabos, o sexo foi jogado na conta de um “pecado”, se é justamente ele que produz a vida? Bem, creio que muito já se escreveu, e se especulou sobre isso. À luz da antropologia, por questões meramente climáticas o homem teve crescente necessidade de cobrir sua nudez para proteger-se do frio ou mesmo do sol excessivo. Mas parece que nas regiões tropicais e subtropicais não havendo necessidade disso, os homens continuaram a viver nus. Nesse momento me lembro de um episódio curioso do conto “Chuva”, das “Histórias dos Mares do Sul” do grande escritor´inglês H. Somerset Maughan , que ninguém mais lê, em que ainda no começo do conto, um pastor luterano, numa ilha da Oceania, então colônia inglesa, dizia numa festa, para uma recém-chegada do “reino”, com evidente orgulho, se vangloriando, que a maior dificuldade que tinha tido, quando ali chegara, fora a de incutir nos nativos a “consciência de pecado” para então poder salvá-los pela catequese. Me lembro como isso causou uma revolta instintiva em mim, e uma repulsa pela estupidez humana. Assim, com todos os povos nativos e primitivos foi feita essa violentação cultural primária, como primeiro contato pelo opressor branco, europeu.
Mas porque faço esse extenso prólogo, se quero me referir aos textos “eróticos” da nossa escritora gaúcha Alma Welt? Porque, me parece que é visível pelos leitores sensíveis e argutos, que a “candura” e naturalidade de sua explicitude na descrição de cenas de sexo, em que ela se coloca, com até evidente volúpia, é devida justamente a uma fenomenal ausência de consciência de pecado ou de culpa. O lirismo de suas descrições de sexo explícito, produz no leitor esclarecido, uma sensação, ou melhor dizendo, uma experiência estética. Alma Welt nos faz ver a beleza do sexo, em suas mais diferentes “performances”: hetero, homo, vaginal, oral e anal, até mesmo,como ela diz, “gloriosos ménages-a-trois” e algumas subcategorias ou parafilías brandas como a urolagnía, e o sado-masoquismo-psico-sexual leve. Mas como, perguntaria alguém, ela pode conciliar “candura” e inocência primordiais com sado-masoquismo ou mesmo as chamadas “perversões”? Não seria isso uma contradição em termos? Justamente aí se encontra a característica única e original dessa escritora singular. Mas para entendê-la precisamos conhecer a natureza do “pathos weltiano”, a que já me referi em outros estudos sobre a musa gaúcha. Creio que a explicação de sua poderosa afirmação erótica associada à beleza, está na reação psíquica que a autora lançou mão para fazer sobreviver a sua sexualidade plena, apesar de estar sendo criada na infância e adolescência por seu pai, artista culto e libertário. Numa verdadeira experiência de paganisação (se assim podemos dizer) o pianista-cirurgião Werner Friedrich Welt, fazia de sua filha predileta, Alma, uma verdadeira “cobaia” de seu paganismo ideal, subtraindo-a à influência católica, moralista e repressiva, de sua mulher, Ana Morgado Welt, a “Açoriana”.
A esse respeito é significativo um determinado parágrafo da própria Alma, na sua novela Ariadne, da Trilogia Mítica que ela publicou a tempos no Recanto, em que o seu analista, o doutor Platus, (não sabemos se é uma figura real ou fictícia na história pessoal da Alma ) interpreta o episódio traumático, da estória de sua paciente, em que esta foi flagrada nua junto de seu irmãozinho também nu, o Rôdo, no pomar, deitados debaixo da macieira sagrada de Alma (onde ela havia gravado um coração com as iniciais A e R, com o canivete de seu irmão, que este havia ganho do pai, e que servira para cortar o cordão umbilical de Alma). Alma conta como foram agarrados pelos cabelos, subitamente, erguidos e arrastados sob os gritos furibundos de sua mãe, e obrigados a cobrir com as mãos “a suas vergonhas” enquanto, no caminho , chorando assustadíssimos, eram alvo das gargalhadas dos peões. Essa experiência, altamente traumática teria destruído a sexualidade de qualquer criança, castrando-a talvez irremediavelmente para o resto da vida. Mas não a Alma. Seu pai já havia inoculado de antemão o antídoto contra o veneno da consciência de pecado, na sua obra-prima: a menina artista Alma Welt, pequena “anima-mundi”. Alma sobreviveu ao trauma, pela sabedoria da intervenção carinhosa de seu pai naquele episódio, descrito no romance A Herança.
Mas qual foi o mecanismo psíquico que ajudou a guria a superar a tentativa de castração por sua mãe? Trata-se do seguinte: Alma parece ter associado imediatamente o sofrimento ao sexo, mas revoltando-se o acolheu, assimilou-o para não reprimir-se ou castrar se, isto é: assumiu o sexo pleno e livre, mas associando-o à dor física assumida e procurada para maior prazer, resultando numa derivação masoquista, que a faz desejar ser açoitada até o orgasmo (pelo rabo-de-tatu de seu avô, que ela descobriu, já moça, numa arca do sótão do casarão familiar de sua estância pampiana.)
Entretanto, essa vertente sado-masoquista em evolução ainda hoje, é tão assumida, que a própria Alma a descreve e analisa em sua obra, num permanente exorcismo dos demônios culturais, familiares e sociais que sitiam esta poetisa de estro incomum, super-dotada pela natureza, de talento e beleza excepcionais.
Venho acompanhando de muito perto, o desabrochar do talento literário desse fenômeno literário estonteante. E se alguém me pergunta como posso conhecer essa misteriosa mulher, tão arisca e arredia no plano pessoal quanto aberta e exposta no literário, e se tudo isso é verdade, a começar pela sua beleza física que começa já a tornar-se mítica, eu só posso responder como o velho morubixaba do Y-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias :

“Meninos, eu vi!”

05/08/2006

quinta-feira, 20 de março de 2008

SOBRE A PEÇA TEATRAL "O REI DOS URUBÚS", DE LEO CORTEZ

Saí siderado da peça "O Rei dos Urubus" do dramaturgo e ator Léo Cortez que está sendo representada no Centro Cultural São Paulo.
A força dramática e a eficiência dramatúrgica do texto inusitado que descreve os bastidores, às vezes o próprio set televisivo em pleno ar ao vivo de um canal jornalístico de televisão em que os os protagonistas e os coadjuvantes ( se é que os há) são os próprios jornalistas imersos em sua paixão doentia comum: a do sucesso de audiência, os altos índices que perseguem numa verdadeira "briga de foice de elevador" (para reciclar uma expressão antiga). A verdadeira carnificina psicológica e verbal que eles empreendem no dia a dia de sua atividade em torno de um programa de cunho jornalístico sensacionalista sobre personagens reais de dramas do momento, sempre histórias patéticas de paixões clandestinas testemunhadas por personagens humildes, logo acuados, ameaçados pelos protagonistas do escândalo por um lado e pela verdadeira chantagem dos jornalistas por outro. Paralelamente os jornalistas duelam entre si nos bastidores do programa e às vezes no próprio programa em pleno ar, numa verdadeira meta-linguagem teatral, pela liderança do programa e o "prestígio" decorrente dessa posição na hierarquia jornalística, sempre abaixo, na verdade, de um poderoso chefão da empresa, a palavra final e o verdadeiro cérebro demoníaco por trás de tudo isso, e que no entanto não aparece senão por referência e citações, pois representa, no fundo, a propria idéia das força diabólica invisível e inacessível que manipula os cordéis da nossa sociedade. O personagem representado pelo ator e dramaturgo autor da peça, Léo Cortez, se sobressai pela pujança de sua atuação, na expressividade neurótica vociferante e gesticulante (na medida certa numa grande atuação). Ele nos faz recordar o ator Jack Nicholson em seus melhores momentos de personagens neuróticos. Faz lembrar também certos personagens de Nelson Rodrigues a quem aliás o dramaturgo Leo deve alguma coisa, no mínimo pela admiração que sua geração tem pelo genial Shakeaspeare tupiniquim, grande mestre da chamada carpintaria teatral, que aliás Léo Cortez maneja com surpreendente maturidade, embora seja autor jovem.
Como eu dizia, Léo Cortez como ator é hipnótico, não deixa nosso olhar desviar-se de sua atuação sarcástica e corrosiva, cheia de nuances que vão da vociferação paroxística aos trejeitos sutis da exaustão de si próprio. Também o ator Daniel Dottori que faz o sobrinho do chefão que aliás se revela ao final o verdadeiro "rei dos urubus", pois o personagem Robério encarnado pelo autor passa surpreendentemente ao papel de vítima, morrendo no palco em plena apoplexia ( boa palavra antiga para o nossos atuais enfarte ou derrame).
Também devo ressaltar a atuação da única atriz na peça, Glaucia Libertini, que faz a jornalista apresentadora do nefasto programa, e que vestida com o característico mau gosto dessas peruas televisivas, está perfeita na sua desfaçatez e no seu "à vontade frente às cameras", mas que trai sua fragilidade ou vulnerabilidade nos bastidores dominados pelas feras masculinas, mais cínicas que ela, a diva do programa.
Quero pois parabenizar o diretor Marcelo Lazzaratto, os excelentes atores, e saudar Léo Cortez, esse excelente autor jovem do nosso teatro paulistano, que à frente de sua "Companhia dos Gansos" veio para ficar com seus textos de crítica social ácida, embora humorística, que como na sua fantástica peça anterior reduz a "escombros" a edificação das construções burguesas sobre a areia de suas mentiras, preconceitos e veleidades.

GUILHERME DE FARIA

Nota de edição
(Guilherme de Faria é artista plástico, escritor e poeta cordelista. Como editor lançou pelas suas artesanais Edições do Pavão Misterioso" seus próprios cordéis bem como a obra em versos que prefaciou e ilustrou da grande poetisa gaúcha Alma Welt, verdadeira musa da nova geração da poesia brasileira (vide Contos da Alma (editora Palavra&Gestos), na Livraria da Vila (da Alameda Lorena ), na Livraria Cultura e no IMS (Instituto Moreira Salles).

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Evocação de Alma Welt (de Guilherme de Faria)

Considerações sobre a posteridade da poetisa e musa gaúcha


Passados cinco meses* do seu falecimento, arrisco-me a fazer algumas considerações e prognósticos sobre a posteridade e permanência do fenômeno Alma Welt, a grande poetisa gaúcha, inspirada intérprete da alma e cenário de sua terra natal, o Pampa, e sobretudo de sua própria vida de poeta amorosa, confessional, lírica e apaixonada. Ninguém mais do que eu pode testemunhar sobre ela, pois me orgulho de ter sido o primeiro a descobri-la, quando estava aqui em São Paulo, auto-exilada (como ela dizia) pela morte de seu querido pai, que ela chamava o “Vati”, e que tanto ela celebrou nos seus textos e poesia, com aquela nostalgia que nos comovia por sua dor e beleza incontestáveis e universais.

Sim, eu descobri, incentivei, prefaciei, ilustrei a lancei a gloriosa poetisa, consciente de ter nas minhas mãos um fenômeno raro: uma alma lírica que conseguia ser ao mesmo tempo que uma grande amorosa e uma pensadora de rara lucidez (vide seus pensamentos no Leia Livro), características em geral contraditórias ou antagônicas. Mas eu que privei de sua intimidade por algum tempo, seduzido, é verdade, inebriado e prosternado, por assim dizer, aos pés da beldade, pude contudo observá-la e analisá-la (aceditem!) malgrado a paixão que não pude e nem quis evitar, pois como sabem, mesmo sob o prisma puramente físico Alma era a mais bela mulher que meus olhos puderam contemplar nesta vida. Sua beleza resplandecia, pois a par de uma anatomia privilegiada, vinha também de dentro, tinha respaldo numa alma límpida e pura, elevada e bafejada pelas Musas, ela que se tornou por si mesma uma musa do Pampa, de sua terra e contexto excepcionais, já que filha de um estancieiro e vinhateiro, que era ao mesmo tempo um médico e um pianista, um homem culto, às raias da erudição, detentor de imensa biblioteca clássica dentro da qual ele criou sua filha predileta em contato com os deuses, os da Arte, da Literatura, da Música, da Poesia e... os outros, aqueles do Olimpo e também os do Walhalla, de sua origem germânica. Mas foi sobretudo no caldo de cultura do grande romantismo alemão, de Goethe, Schiller, Hoffmann, Holderlin, até chegar em Nietzsche e Rainer Maria Rilke, que ele alimentou a sua obra-de-arte viva: sua filha que ele considerava um presente dos deuses e que a eles deveria ser devolvida. O cirurgião-estancieiro-pianista Werner Fiedrich Welt educou sua filha como uma pequena pagã, longe o quanto possível da influência de sua esposa católica, Ana Morgado, numa experiência perigosa de criar um ser sem o senso do pecado original, livre e sem preconceitos, feita para o amor e a entrega, sem medo do sexo, e mesmo celebrando-o a cada nova “aventura”, como um dádiva dos deuses. Confesso que isto me deslumbrou e viver a minha descoberta artística, ao mesmo tempo como paixão e fruição por pelo menos um ano da carne deslumbrante de um ser de feminilidade gloriosa e poética, de beleza divina, marcou–me para o resto dos meus dias, a mim, que já não era um garoto, mas sim um homem maduro, no começo do envelhecimento que todavia foi estancado por essa experiência maravilhosa. Já narrei nosso encontro em crônicas que publiquei no Recanto das Letras, e que foram apagadas, quando fomos, eu e ela expulsos daquele site, por intriga de invejosos, que tomaram como notícia falsa o anúncio do suicídio da nossa Poetisa.
Pessoas quiseram acreditar, talvez por defesa, que Alma era apenas ( ! ) um heterônimo meu, já que percebiam a nossa estreita ligação, e a paixão com que eu a celebrava e celebro nos meus textos a seu respeito. Entretanto devo dizer que não poderia haver maior honra do que me atribuírem a autoria de seus textos e até da criação dessa Musa pampiana (eu que sou um paulistano empedernido e enraizado!). Quem me dera possuir o talento transcendente de minha adorada Musa, que iluminou quase tardiamente minha vida de artista plástico e cordelista, no ocaso do meu percurso! Mas que injeção de ânimo (ou deveria dizer de Anima), de entusiasmo, de rejuvenescimento mesmo, esse encontro providencial me causou! Por um ano inteiro privei de sua companhia, de seu carinho, de seu amor e paixão, e porquê não dizer: do seu corpo deslumbrante e miraculosamente branco que era uma festa de prazeres e de fruição estética, como quem se deita com uma deusa, a própria Vênus (perdoem-me talvez o acesso de parnasianismo... ) Sim, quem amou e foi amado um dia por essa diva, quase não tem mais o direito de continuar a viver, senão em memória, em nostalgia, saudade e dor. Todavia, devo reconhecer que ela se deu a mim por generosidade e até por gratidão, e eu deveria, pois, me envergonhar de não ter podido abrir mão de tão imensa dádiva, pois percebo que o amor maior de sua experiência paulistana foi a modelo Aline, que ela celebrou em versos imortais. Também a jovem Andréa, com quem manteve um uma correspondência amorosa-virtual alucinante, do qual ela publicou algumas cartas belíssimas, que constituem um verdadeiro romance epistolar erótico–digital, por e.mail, que espero ver um dia publicado completo em livro, para deleite de seus leitores e admiradores. E finalmente o último grande amor de Alma, por uma sua aluna, que mereceu dela um maravilhoso “Drama lírico em 42 sonetos(cenas) e três Atos”, que ela titulou “Sonetos a Mayra” ( não sabemos se é o nome verdadeiro da pequena musa de nossa Musa), que eu ilustrei fartamente e espero conseguir editor. Alma nessa obra, como já era característica sua conta uma estória de amor através de um ciclo de sonetos curiosamente narrativos, de extraordinária pungência e inspiração lírica, cheios de paixão e erotismo. Confesso que a principio quase me causou despeito, por não ter merecido na nossa relação algo assim, uma obra equivalente que evocasse ou celebrasse de tal maneira encantadora o nosso relacionamento, e então pus-me eu mesmo a narrá-lo em algumas crônicas que publiquei naquele Recanto e aqui no nosso LL e que reconheço não lhe fazem justiça, pois estão longe do seu estro magistral, de poetisa predestinada à glória imortal.
Agora paira um silêncio misterioso, eu sinto, sobre a querida Musa Pampiana. Não temos senão raros comentários aos seus textos aqui no Leia livro, embora possamos perceber pelo registro de acessos diários nos tópicos de seus textos no Google, que ela continua imensamente procurada e lida. Mas, por quê, eu pergunto, não a comentam, ela que foi tão louvada no RL ? Um silêncio recente pesa talvez sobre os mortos. Eu mesmo quase não ousava mais escrever sobre ela, mas como a uma criatura sagrada que não se pode nominar em vão...
Perdoe-me, Alma, o meu longo silêncio de cinco meses, desde que nos deixou perplexos, chocados e inconformados. A sua morte deliberada, desesperada talvez, soou como uma bofetada em nossa face. Não se importava, perguntamos então naquele momento, com o nosso amor, com o nosso misto de carinho e reverência, com a nossa admiração? Como pôde partir sem um adeus, sem um bilhete aos seus leitores, aos seus admiradores e amigos? Bem... alguns de seus últimos sonetos, agora vemos, já indicavam o seu propósito, como o celebrado "A Carruagem". Ficamos perplexos e logo... revoltados. Você foi, como punição, expulsa póstuma e imediatamente, com imenso escândalo, de um site que a consagrou (e eu contigo). Logo percebi que acompanhá-la no seu relativo exílio literário era também honra e destino: não deixaria jamais a minha deusa, a pequena grande Alma, a poetisa maior que me fez cativo para a eternidade. Estarei aos seus pés, como diria a outra, Ana Cristina César, para sempre esperando, esperando um retorno, um aceno, até o fim do meu próprio exílio nesta terra, nem que seja como o que Lúcia, sua devotada irmã, testemunhou e me contou, lá no seu verde Pampa, em torno ao casarão: seu lindo e translúcido espectro vagando, vagando e nos chamando a acompanhá-la...
Aonde, Alma? Aonde?

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A Carruagem

(útimo soneto escrito por Alma Welt e publicado no seu site, ora estranhamente cancelado. )

Um piano toca no salão!
Ah! E não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim na carruagem!

19/01/2007

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*Nota
Agora já se passou um ano da morte da amada Alma...