segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

De Pijama (conto de Guilherme de Faria)

(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os Telhados )


“Life, my friend, is the Nightmare...”



Cheguei esta madrugada carregando minha pequena valise. Como é gratificante retornar de uma bem sucedida viagem, entrar no edifício, tomar o elevador deserto e, chegando ao meu andar, abrir a porta e penetrar no aconchego do lar. Só me decepcionou não encontrar minha mulher e meus filhos no apartamento. Cheguei cheio de saudade e de uns poucos pequenos remorsos, é verdade... Afinal vocês sabem, trabalho é trabalho, a morte é certa, e o que tem de ser feito, tem de ser feito.
Trato de abrir minha maleta e vestir logo meu pijama. Com certo enternecimento, confesso, visto o paletó e as calças vermelhas com estas pintinhas brancas. Foi-me dado por ela, Elisa, minha amada esposa, que aguardarei impaciente, pois deve estar na casa de algum parente, logo chegará. Quero fazer-lhe uma surpresa e não comuniquei a ela o dia e a hora da minha chegada.
Epa! Não estou reconhecendo meus objetos! Nem esta cama. Acenderei todas as luzes. Meu Deus, este não é o meu apartamento!
Não é possível, ou se parece comigo. Errei de andar!
Devo sair imediatamente. Vejamos, onde está a porta de entrada. Na sei mais! Ouço, risos! Mas de onde vêm? Ah! Uma escada, só me resta ir em frente, descer por ela, não posso ser encontrado aqui, assim, não tenho outra saída..
Oh! Santo Deus, estou num duplex. Entrei pelo andar superior! Nunca soube que houvesse disso neste prédio. –Senhoras, senhores, mil perdões. Desculpem-me, não me olhem assim, acabo de entrar por engano, sou morador de um andar acima neste mesmo edifício, não me conhecem? Deixem-me explicar. Não quero atrapalhar a festa. Quero dizer, os senhores estão chegando de alguma, não é mesmo? Estão alegres, graças a Deus, já compreenderam meu equívoco. Não, obrigado, senhorita, é muita gentileza a champanhe. Mas veja, acabei de chegar de viajem, e... amanheceu já. Sim, a senhorita é gentil. Não precisa se incomodar me conduzindo ao meu andar. Pode ser comprometedor para a senhorita. Quero dizer, estou nestes trajes íntimos, desculpe, quero dizer... Sim, por aqui... compreendo. Bela piscina a senhorita tem! Mas a senhorita não deve deixar seus convidados. Faz questão mesmo? A senhorita, permita-me dizê-lo, tem um sorriso irônico, não? Deve ser muito bem humorada. Esta situação não a constrange... Sim, entendo, por aqui, este corredor. A senhorita está quase me amparando com o seu braço, agradeço. Assim, descalço... pisando em ovos, não é mesmo? Ho, ho!... Como poderei lhe agradecer? Servir-lhe-ei um café no meu apartamento, aceita? Ah! meu Deus, ainda há gente compreensiva neste mundo. Mas , senhorita, estamos num jardim a céu aberto. Não entendo como chegaremos ao meu andar por aqui. Este portão? Ah! Sim, obrigado. Espere, não me empurre. Senhorita, SENHORITA! VOCÊ ME EMPURROU NA RUA, DESGRAÇADA! Estou na caçada, na rua dos fundos! ABRA, SENHORITA! Que significa isso? Não sou nenhum ladrão, juro! Jogue minha maleta, pelo menos! Ficou aí no andar de cima. Pelo amor de Deus! Ah! maldita... e gargalha ainda por cima. EXIJO QUE JOGUE MINHA MALETA POR CIMA DO MURO. SE NÃO, SERÃO OS SENHORES OS LADRÕES, OUVIRAM? Malditos. Não adianta, este portão não abriria nem a maçarico...
Tenho que sair daqui e encontrar a entrada do prédio. Que rua seguir, meu Deus? O caminho mais curto... Que vergonha! A rua já está começando a se movimentar. Olham para mim. Vou disfarçar, fazer-me invisível à custa de naturalidade e descontração. Ouvi isto certa vez. Mas conseguirei? Não é do meu feitio. Não agüento, sou assim, quê posso fazer?
Espere aí! Que escândalo é esse? E não é comigo... Um camburão de polícia! Prendem prostitutas! Que algazarra! Como poderei passar por eles? Não posso recuar agora. – Ei! Espere, Elisa! Larguem-na, miseráveis! Essa é minha esposa. Elisa! O que está acontecendo? Não senhores, não permito, entro junto, daqui não saio. Essa é a minha mulher! Deve haver um engano. Larguem-na, abram esta porta! Vamos ficar aqui mesmo ou em qualquer lugar, mas não me separo dela! Elisa, olhe para mim. Fiquem quietas, senhoras, parem de rir e de gritar. Tenham compostura. Elisa, que há com seu rosto? Está todo inchado! Seus dentes, meu Deus, todos quebrados! Já sei, você quis me vingar, atracou-se com aquela maldita, deu-lhe uma boa surra. Eu sei, Elisa, você faria isso, sim! Mas pobrezinha, o seu rosto, Elisa, o que há, que riso é esse? Você zomba de mim... Não ! Não! NÃO É VOCÊ! NÃO É ELISA! Enganei-me, meu Deus. Mais uma vez. Parem o camburão, quero descer imediatamente, abram esta porta! Não me belisquem, senhoras. Senhor Guarda, pare o carro, ouça-me! Não senhor. De pijama? Na rua? Não... Atentado ao pudor? Mas senhor... Tarado? É um engano, eu lhes juro, posso provar quem sou. Levem-me para minha casa. Mostrarei meus documentos. Estão na minha mala de viajem. Não os tenho aqui... Esperem, voltem! Posso explicar tudo. Parem, senhoras. Solte meu pijama. É de bolinhas mesmo, e daí? Não me toquem, senhoras, nunca lhes dei essa intimidade. Não ousem. Não ousem me beijar, LARGA! LARGA! Senhor Guarda, faça alguma coisa! Está bem, vamos à delegacia. Muito bem. Lá saberão tudo! Provarei tudo e terão que pedir desculpas. Alguém terá de fazê-lo.
Chegamos? Não empurrem, posso caminhar sozinho. Não sou nenhum marginal. Por quê aqui? Com toda essa gente, esta sala enorme... Não poderiam poupar-me isso? Terei que esperar muito? Aqui, no meio dessas mulheres e desses... Olhem, o Delegado, os senhores Investigadores, estão todos aqui mesmo, nas mesas. E não posso falar ao delegado imediatamente? Está bem, fico calado. Que lugar confuso, Santo Deus. Hem? Nada, não falei nada. Estou esperando, como vê...
Que vexame! Ser olhado com desprezo pelos mais desprezíveis cidadãos. Não me tinha ocorrido esta possibilidade. Vanitas, vanitatis... Miséria, eu filosofando! E de pijama. Sou um ser decaído, está na cara, fora da hora e do lugar... Vingam-se, fatalmente. É só isso que querem. Espreitam como répteis pela nossa queda. Nós, os burgueses, não é mesmo. Não sou um Diógenes, não quero um tonel. Quero minhas calças e meu apartamento. Parem de me olhar, malditos! Não estou nu. Tenho este pijama sobre o corpo, não vêem?
De bolinhas, de bolinhas! Ah! a desdentada , como pude confundi-la, meu Deus. Dentes podres. Olhos pisados. Arre! Por que olham sempre para baixo? Minha braguilha... Está fechada. Sempre esteve fechada, pelo menos isso. Ah! o botão está aparecendo, maldito, é isso! Não mereço! Não mereço isso tudo! Até ontem eu estava tão digno... Mas não! Não me vencerão pelo pijama! Prometo a mim mesmo que...
Como, senhor? Vou ser atendido. Atendido não? Interrogado? Mas... ali? Sim, com licença. Mas estão todos os Investigadores em torno da mesa... O Delegado, na cabeceira... Mas senhores, por que esta reunião geral. Desculpem-me. Está bem, só respondo... compreendo. Sento aqui nesta cadeira, longe da mesa? Mas senhores, não estou em julgamento... Estou?
Bem, senhores, entrei no apartamento errado. Sou morador daquele prédio. Não, não. É fácil verificar.... meu apartamento é no terceiro andar. De pijama? Troquei-me antes de perceber. Não acreditam? A moça ofereceu-se para me conduzir ao meu apartamento. É verdade, juro. Oferecer-lhe-ia um café. Não! Não tive nada com a moça, mal a vi. Ela me empurrou na rua. De maldade, sim, de maldade. Minha mala, meus documentos estão lá no andar de cima. Sobre a cama. A cama? Não, não estive nela. Mas, senhores, onde querem chegar? Estupro? Não a violentei! Que é isso? Não tive relações com a moça. Onde me levam? Não acreditam numa estória dessa? Mas que estória? Quem faria isso de pijama? Não! Não invadi aquele apartamento de pijama. Não premeditei, não premeditei nada. Senhores , aonde me levam? Quê? Recolher material? Sentar-me aqui, meu Deus, que horror... Isto parece um banco de tortura, tão complicado... Baixar a calça? Senhores, que ignomínia! Recuso! Recuso-me, não posso. Quê? Não, está bem. Prefiro sentar-me nesta coisa ignóbil. Ma senhores, isto está limpo? Tenho que sentar-me nu aqui, na frente de todos? Mandem sair as mulheres e esses... N/ao? Está bem. Não me aperte. O senhor está apertando meu pênis. O que vai fazer? O senhor está me machucando. Tem prática de quê? Esperma Recente? Senhor, não adianta espremer. O senhor está vendo? Está forçando. Que horror, meu Deus. Não, é urina, um pouquinho de urina. Isso mesmo. O senhor me espremeu muito, o que quer? Urina mesmo. Para o laboratório... Ah!... pois bem, vai ver. Agora o senhor verá. Exame de urina, sim senhor... e grátis, vai ver. Está bem, calo-me, mas vai ver. Oops!...
Que agonia!... Quanto tempo devo ainda esperar? Pelo menos posso vestir as calças do pijama? Oh! meu Deus! O que houve com o mundo? Devo estar no Inferno. É isso! Morri! Estou morto. A morte deve ser isso. A gente sente, o corpo é o mesmo, a mente também. Se não, por que seria o Inferno? Não adianta filosofar. Nunca saberei de que lado estou. É isso , nossa vida é oscilante, dos dois lados da linha. Hoje no Inferno, amanhã fora, depois novamente, nunca se sabe bem que lado é qual... Filosofando... Baboseira. Paciência, hei de sair daqui. Sou inocente. Sou inocente.
Ah, senhor, chegou o resultado. Como? Confirmaram minha estória. Estou livre. Por incrível que pareça, o senhor diz... Claro. Oh! meu Deus, ainda existe justiça neste mundo. Eu sabia. Eu sabia. Não disse? O senhor verificou tudo. Tim tim por tim tim. O senhor está espantado? Mas o que há de espantoso num homem honesto, embora de pijama, não é mesmo? Não quer saber mais de conversa? Está cheio... Está bem. Mas o senhor viu, não viu? Talm com lhe contei.sim, saio, saio. Por aqui, está bem. Estou livre. Posso ir para casa. O senhor vai me levar, naturalmente. Não? Mas... essa escada, dos fundos... Pelo quintal? Ah...
Senhor, que horta estranha é essa aí em baixo? Uma horta aqui, nos fundos da delegacia? As couves e repolhos parecem boiar numa... massa infecta... Hobby do delegado? Ora, vejam só. Como? Os esgotos das celas deságuam aí nesses canteiros? Ah... depois as verduras são servidas aos presos... Aqui ninguém come de graça... compreendo. É uma invenção engenhosa, não há dúvida... O moto-perpétuo, hem, o delegado descobriu o o moto perpétuo, não é isso? Opa! Este corrimão está solto. Oh! Segure-me! Oh! Não. Não. Não!
A grade estava podre! Estou atolado! Não enxergo nada. Oh! Não... Estou enlameado de... merda. Meu Deus! EXIJO QUE ME PRENDAM!TENHO QUE IR PARA UMA CELA! COM MUITA ÁGUA! PRECISO LAVAR-ME! EXIJO SER PRESO. NÂO SAIREI ENQUANTO NÂO ME LAVAR E VESTIR! E...QUE MINHA FAMÌLIA VENHA ME BUSCAR, NA CELA! NA CELA. EXIJO! Não? Como? Não posso? Sou um maldito inocente? Desastrado? MAS EU EXIJO!!! Não? Cometerei um crime. Qualquer um. Já cometi, veja: amassei as couves do delegado! Arrancarei as couves do delegado! Veja! Veja. Mais! Mais! Pronto. Não! Não me empurre. Para onde? Esse portão? Oh! Não me empurre com essa vassoura. Deixe-me ficar. Tenho de ser preso. Preciso me lavar. Não feche. Pare, por favor. Não feche! Abra essa porta. Abra! O SENHOR ME JOGOU NA RUA! MEU DEUS, ESTOU NA RUA! NA RUA! NA MERDA! E DE PIJAMA!

FIM

1976

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

VENENO PARA RATOS

(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os telhados )


Minha mulher insiste em que eu compre um mata-ratos. Não podemos continuar assim, com a casa infestada. É um perigo, ela diz. Ela exagera, naturalmente. Deve haver quando muito um camundongo por aí. Não me incomoda. Mas a ela deixa à beira do terror. É natural, nas mulheres.Façamo-lhe a vontade. Saio hoje para procurar o bendito produto, embora não saiba onde encontrá-lo, não estou acostumado.
Andei bastante por aí, a esmo, e não consegui encontrar uma loja especializada. E os olhares, então, dos balconistas? Chamam o gerente, que por sua vez chama o dono quando este está na casa. Olham-me fixamente, e isso confesso está me fazendo mal. Dão-me vagas indicações, tal firma, talvez, é difícil... Para quê quer o senhor
Um mata-ratos? Quase chegam a perguntar. -Para matar ratos, ora essa! – tenho vontade de gritar-lhes. Mas não vou me deixar alterar por circunstância tão ridícula. E os gerentes, meu Deus! Uns vermes que se põe na frente do balcão com ares de donos, quando deveriam estar atrás, como todo mundo sabe.
Despistam a origem e procedência do maldito mata-ratos, como um verdadeiro complô. Logo pra cima de mim, esse clima. De mim, homem pacato e inofensivo. E digo mais, humanista! Toda a minha vida tenho sido um humanista. E a minha biblioteca está superlotada!
Bolas, deixemos isso para lá. Tenho esperança que a minha mulher desista e esqueça os ratos. Afinal, afora isso, posso dizer que tenho um lar feliz, com as crianças, os cachorros e o papagaio.

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Preciso sair novamente, minha mulher passou uma noite de cão. E eu com ela. Não conseguiu pregar o olho, ouvindo as patinhas e os guinchos dos supostos ratos. Ratazanas, ela afirma. Enormes, devorando tudo. Descendo do forro e se lançando “a uma verdadeira orgia na cozinha”. Ela me fez descer para verificar, armado no mínimo de uma vassoura. Ela jamais saberá que me detive na sala, onde abri um livro, e de onde lhe gritava palavras tranqüilizantes de tempos em tempos.. Amanhã comprarei o veneno. Não resta outra solução. Pelo menos para tranqüilizá-la de vez. Não me entendam mal, quero dizer... acabarei com os ratos quer eles existam, quer não.

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Hoje, após mil e uma peregrinações, consegui uma boa pasta mata-ratos. Graças ao dono de um bar que me deu a dele. Estava bem ansioso para livrar-se do produto, pareceu-me. Prefere ratoeiras, ele disse. São mais seguras e vez por outra apanham um gambá ou coisa que o valha. Não me convenceram suas razões, mas agradeci sua gentileza, ainda mais que o tubo parece novo, não foi sequer espremido e a caixa está perfeita, a bula bem dobradinha dentro.

Meti a caixa no bolso e voltei rapidamente para casa, ansioso por abri-la e desdobrar a bula, coisa que não se pode fazer por aí a esmo, sentado num balcão de um boteco qualquer. Há sempre alguém nos observando nesses lugares. Os bares já não me agradam como antigamente, não posso sequer tomar meus remédios com água mineral, sem perceber que me olham. Já notei mesmo, uma vez, alguém, talvez um policial disfarçado que se abaixou para pegar o papel de estanho das minhas pílulas anti-alérgicas, enquanto eu me afastava. Vivemos numa era inquisitorial, ninguém se iluda. Mas propícia, por isso mesmo, às Grandes Artes e à Filosofia. Como Toledo, de El Greco, se lembram? Como Toledo.

Tranquei-me no quarto e conscienciosamente retiro o tubo da caixa e desdobro a bula. Enquanto leio concentradamente as recomendações e a fórmula, observo o desenho e os dizeres impressos sobre tubo. Uma caveira, meu Deus, e duas tíbias! E um rato, naturalmente, fulminado, de pernas para o ar. Perigo, aqui diz. Deixe longe das crianças e dos animais domésticos. Precauções... veneno violento. Aqui a fórmula: Arsênico, estricnina... Basta, Santo Deus! Não me atrevo a continuar a leitura. Reparo se a tampa plástica está bem apertada. Guardo tudo na caixa novamente e vou ao banheiro lavar as mãos; aproveito para escovar os dentes e fazer um bom bochecho.

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Procurarei um lugar seguro para guardar o veneno, até segunda ordem. Vou trancá-lo à chave na gaveta da minha mesa no escritório. Parece o único lugar privado nesta casa, onde a família, as empregadas, os cachorros, o papagaio e os ratos reinam, absolutamente. Não tenho chave de mais lugar algum, com excessão da porta de entrada, naturalmente, que mantenho trancada a sete chaves. Com todos esses perigos que rondam por aí... na calçada, em frente, na rua atravancada de automóveis que passam em alta velocidade... Devo zelar pelos meus dependentes. Os livros, os cachorros, as empregadas e os papagaios.
É preciso manter tudo sob controle. Assim tudo correu bem até hoje, embora isso me custe um esforço e um desgaste excessivos. Mas um homem é um homem. Deve saber dar ordens ao jardineiro, bem como exercitar os músculos da alma. É isso! Ponham peso, ponham peso! Sou um halterofilista da alma! As responsabilidades quanto mais se somam, mais fortalecem o espírito.
Vou anotar isso no meu caderno de Máximas e Aforismos.

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Hoje à noite quando todos estiverem dormindo, poderei pôr as iscas na cozinha, desde que levante mais cedo que todos amanhã, bem entendido. Um pouco de pasta num pedaço de pão ou de queijo em cantos bem escondidos. Atrás da geladeira. Não! É um absurdo. Não se pode correr um risco desses. As crianças, os cachorros... Não há lugar onde não fucem, não se escondam, não brinquem! Que loucura, Santo Deus, pensar em aplicar essa maldita pasta. É evidente que os acidentes mortais começam por imprudências como essa. Não pensar nos outros, eis todo o perigo. Minha gaveta... É claro que não é um lugar seguro, o móvel pode ser vendido, a gaveta aberta. Entre o fundo e a gaveta... Não. Bem se pode imaginar esses móveis sendo desmontados por restauradores, no espólio das famílias. Sabe-se lá onde vão parar as coisas! Nada nos pertence no plano material. As casas, as cadeiras e as estantes estão perpetuamente em trânsito de família para família através dos anos, das gerações. Tenho bastante conhecimento da vida para prever o itinerário de uma mesa de escritório. De uma mesinha de cabeceira, até mesmo.
Vou escondê-lo atrás de um livro na estante, bem no alto. Do meu livro de máximas, ou do Rabelais, por exemplo. Ninguém aqui lê o Rabelais há séculos. Não, não posso. Uma empregada pode cismar de desempoeirar justamente esses livros, os mais bem fornidos em segredo e poeira. Encontra a pasta... Sabe-se lá que idéias podem se passar na cabeça dessa gente. Uma tentação, um mau pensamento... Nunca sabemos a quantas andamos com as empregadas. Elas sempre nos odeiam, certamente. Têm lá os seus motivos para isso. Todos os salários são insatisfatórios. Além disso somos sempre mais odiados quando pagamos do que quando somos pagos. As revoluções começam assim. Haja vista...
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Estou desesperado. Devo livrar-me dessa ameaça o quanto antes. Ah! o vaso sanitário... Uma boa descarga. Não, não é seguro. Muita coisa já voltou de lá, é sabido. Os meandros hidráulicos de um vaso sanitário, quem os conhece?
Imagino bem suas curvas falsas como de certas mulheres, suas armadilhas, seus mecanismos de defasagem e devolução. Estive para sucumbir certa vez, ao cochilar sobre o vaso. Fui despertado, felizmente pelo grugulejar do monstro, sentindo as polpas frias. Não se pode confiar nesses aparelhos, humanizados pela nossa longa e confidente convivência.
Além do mais, os esgotos, aonde vão parar? É evidente que um tubo destes, desembocando num rio da periferia, possivelmente flutuariam sendo pescado pelos moleques. Passaria fatalmente de boca em boca como pastas de dentes ou geléia. Esses meninos são loucos por pastas de dentes, comem-nas instantâneamente!

Vou sair à rua e livrar-me dele. Não posso devolvê-lo, despertaria suspeitas. Que devolve um veneno violento? Além do mais já não me lembro do bar onde mo passaram... Ah! O infame! Estou sendo usado, é evidente. Quem presenteia o seu próprio veneno? E ainda por cima com aqueles ares de de generosidade e desprendimento. Oh! Meu Deus!...
Estou andando há horas pelo bairro todo e não vejo onde possa jogar o maldito. Trago-o bem embrulhado no bolso do paletó, disfarçando o volume com a mão. Entretanto sei que me olham, não posso sequer sacá-lo sem ser notado. Fazê-lo escorregar para uma lata de lixo... Não! Os cachorros vira-latas e os mendigos não o deixariam escapar!
Estou cheio de sobressaltos, ziguezagueando pelas calçadas, preciso disfarçar. Como pude sair à rua com um troço deste. Quisera estar em casa, imediatamente. Afastei-me muito! Passei por uns terrenos baldios... Nem pensar neles! Todos os vagabundos, gatos e malfeitores têm neles suas bases. Cairiam sobre o veneno como sanhaços, eu sei. Preciso chegar depressa, mas não posso correr, seria perseguido e cercado em segundos. Que agonia!
Pronto, estou em casa. A porta bem trancada. Estou inundado de suor. Vou tomar um banho e dormir. Mas não me separei dele! Dormirá comigo, no bolso do pijama. Não pregarei o olho, já sei. Se adormecer, vou amassá-lo, rompê-lo: CONTAMINAREI A CAMA TODA!
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Passei uma noite terrível. Minha solidão aumentou devastadoramente. Não posso partilhar minha carga com ninguém aqui. Foi-me dada esta missão, a mim, que sou o homem da casa. Meu silêncio cresceu e já não encontro apoio ou desabafo pois devo manter as aparências para não assustar ninguém. Pobres frágeis criaturas...
Perambulo pela casa, o veneno no bolso. Não posso continuar assim. Sou muito lúcido para expor-me aos perigos de uma... distração!
É isso! Sei alguma coisa sobre a nossa vida inconsciente. Ou melhor, não sabemos nada. Pressentimos e convivemos com ela à distância da espessura de um vidro. A vitrine do Sonho... Ela nos dirige às vezes, e nos ironiza. Está sob nós como a segunda camada da pele. E não sabemos quando somos nós ou ela. Como posso responsabilizar-me até o fim?
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Esta noite sento-me à escrivaninha e escrevo. Dói-me a cabeça e a dor moral é maior. Tenho os olhos enevoados e escrevo. Minha resignação está ainda em carne viva, “Não culpem ninguém”... “ A mim coube a responsabilidade pela segurança de todos”...” Só faço questão absoluta da cremação”...
Aperto o tubo que ergo na mão esquerda convulsa... SOU O GUARDIÃO DO VENENO PARA TODO O SEMPRE!

FIM

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Apocalipse (pintura de Guilherme de Faria )


O quadro "Apocalipse" , pintura a óleo s/ duratex, de 1964, de autoria Guilherme de Faria, medindo 170x 270cm, citada no conto "O Navio sob os Telhados", e que os vizinhos sugeriam que o autor cortasse por ser grande demais, para vender no picado...

O NAVIO SOB OS TELHADOS (conto de Guilherme de Faria )


O NAVIO SOB OS TELHADOS
(Capa de “O Navio sob os Telhados”, litografia de Guilherme de Faria)


Habito um porão inabitável. Qualquer coisa como uma toca, cujas paredes se cobrem lentamente de musgo e cujo teto poreja água a um palmo do meu crânio. Aqui trabalho. Sou observado e observo o corredor desta espécie de vila por uma meia-porta-e-janela, única fonte de luz. Antigo prostíbulo, creio, todo o beco, que não passa de cômodos a fundo e de um único lado de um comprido corredor descoberto. Uma faixa pintada no chão desemboca sob um alto portal de ferro batido com laivos de art-nouveau. Afora o portão, feiúra e miséria no corredor e dentro as portas.
Minha atividade desperta curiosidade nos vizinhos. Gente simples, que se debruça na portinhola, fala comigo e me dá palpites. Abanam a cabeça e noto-lhes um ar de piedade e incompreensão: ”Um moço tão distinto, coitado, não deve vender nada. Também, cada coisa feia...”
Trazem-me às vezes, carinhosamente, um prato enorme, montanhoso, de refeição operária. Arroz, feijão, couve, tutu, às vezes uma carninha, outras coisas. É engraçado.... essa gente parece comer bem. Ou pelo menos muito. Aceito, agradeço e como.
Continuo a trabalhar. Um amigo chegado há horas e estendido em minha cama, me aponta com o dedo e um olhar neurótico seus próprios pés, incapaz de se mexer. – “Desvie os pés dos pingos d’água, ora essa!” Mas ele deixa cair a cabeça no travesseiro imundo e se resigna, os mumificados, a água escorrendo pelos sapatos.
Há qualquer coisa de insondável nisso tudo. O hálito cavernoso de minha residência me consome...
Os vizinhos me alertam contra Dona Gertrudes. Querem-lhe mal e vice-versa. Ela não mora no raso como nós. Vem varrendo água de muito longe, não descobri de onde, lá por cima. Meu porão tem uma fachada, vejam só, que termina bruscamente e não se vê mais nada, nem casas nem telhado acima. Estamos no rés-do-chão da Vida, creio eu....
Uma cascata de água suja, seguida de uma frenética vassoura, despenca pela escadinha de cimento que ancora ao lado da minha porta. No fim da vassoura vem a Sapa (é como eu a chamo, mentalmente). Literalmente uma Sapa. Baixinha, gorda, esborrachada, com larga boca em curva descendente, óculos grossíssimos que lhe põem os olhos esbugalhados. E um saiote, meu Deus! Branco, rodado, muito curto para tão veneranda Sapa.
Ela varre a imaculada e exata largura de sua faixa territorial, seu passadiço até o cais da rua. E invectiva contra a fila amontoada de latas de lixo, papéis picados e pontas de cigarro que se acumulam nos dois terços da largura do beco.
“- Porcos imundos, gente suja, veja isso, é demais, etc.”- Dona Gertrudes me aponta a desolação poluída do beco, e pressinto que daí por diante vou se disputado como testemunha pelos dois partidos. Contemporizo. A diplomacia me cai bem, baixo que estou. Dona Gertrudes se entusiasma. Lá vem ela com um prato cheio também. E fala, como fala! Não percebo bem, mas ela me conta coisas e me convida a subir ao seu terraço, às suas plantas.
Deixo-me levar, não há retorno agora. A Sapa ciceroneia os seus domínios, lá vamos nós! E subo. O terraço não termina aqui, é estranho...Uma passarela de madeira escala as ondulações. Estamos na superfície. Os telhados... Percorremos um corredor envidraçado que ondeia sobre tábuas estranhamente inclinadas. Mal posso descortinar a paisagem. Paisagem? Estou preocupado com o piso!
Chegamos a um enorme galpão com madeiramento à mostra, de uma manifesta sabedoria naval. Um bom salão... Viro-me para todos os lados. Pequenos seres me observam com seus olhos de vidro e pestanas lustrosas. Por todos os lados Dona Gertrudes me presenteia com a visão de suas preciosas prendas. Bonecas e mais bonecas de plástico, industriais, monstruosas, forradas de tecidos franjados, rendas, babados, quinquilharias. Centenas de pequenos monstros rechonchudos que pressinto sobre as pregas e os bordados de uma alvura obsessiva, entre fitas e adereços cor-de-rosa e azul celeste. Arre! Por hoje chega. Despeço-me da Sapa debaixo de conselhos, advertências, mezinhas e receitas para os meus pulmões de náufrago, e volto atarantado ao meu porão.

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Conseguirei que a água corra das torneiras? Já arranquei as vísceras das paredes, e os tubos pendem obscenamente sem resultado algum. Está tudo obstruído há séculos, como intestinos podres. _ não, não aceito encomendas, minha senhora. Faço catres e alcatres só para mim mesmo. Meu negócio é outro, está vendo? Preciso apenas de mais um banco manco e uma mesa tesa. Daí esses cavacos. Faz favor...
- “Não, não corto esse pedaço. É grande assim mesmo. Eu sei que é melhor “após a chuva”, mas não é da minha especialidade. Cada um faz o que pode, né? É o Apocalipse, minha senhora. O fim dos Tempos, pois é... Tá lá na Bíblia. Procure lá. Pois é...
Não, encomenda não, me desculpe. Dinheiro, só de graça, trabalho demais, não tenho tempo, compreenda.”

Droga, ai vem o Krishnamurti do número 4. Filosofia espiritualista, né seu Rodolfo? Vai bem com os paletós, compreendo. A sua solidão espiritual durante as costuras. Passar tudo a ferro, não é mesmo? As cuecas do espírito... Não se zangue, seu Rodolfo. Devagar, devagar, divaguei. Compreendo: é preciso crer para ver. Senão descamba. É mesmo. Decaímos muito, decaímos muito, concordo. O Apocalipse vai bem, obrigado. Não, não corto, não corto.

Da minha janela diviso o seu André sentado à sua porta gritando as maiores pragas para a sua santa mulher. A saber:

Filha da puta! Merda de vida! etc.

Tem o olho direito vazado. Ou é o esquerdo. E sanguinolento. Perdeu-o ontem na sarjeta, de onde sua mulher o recolheu para a ressaca e o desespero de hoje, estou vendo.
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Noite. Marina irrompe pelo portão com armas e bagagens, os olhos arregalados e estoura em minha sala, apavorada, perscrutando a “pornela” fechada atrás de si. Ponho-me à espera também, olhando a madeira que se torna quase viva. Três minutos. Pá Pá Pá. Passo duros e bufos que se precipitam pelo corredor e se chocam contra a minha “japorta”. Ouço um vivo range de dentes através dela e a tensão muscular insuportável. Dois minutos. Marina de olhos vidrados, verrumando-os no postigo. A veneziana estala e ele se prcipita de cabeça na monha sala, meio pendurado pela cintura. Apavorado, mantenho-me heroicamente estático em sua frente, Marina, afásica, colada na parede atrás de mim. –“Alto lá!” (deixo de dizer). Estou agarrado pelos braços à altura dos bíceps por munhecas enormes e fortíssimas. Os dentes dele rangem em minha frente enquanto tomo um ar sereno e beatífico à custa de pavor. “Devo dominar o animal magnífico com meus olhos espiritualizados e severos...” Arre!!! Três minutos eternos de tensão e meus braços roxos quase escorrendo entre seus dedos. Ele desaba no banco à minha frente, sacudido de tremores. Uma ligeira pausa e lá vem de novo o ranger de dentes que parece nascer de algum lugar que não a sua boca, no ar, atrás de mim. Ah! Rangem agora em uníssono os dele e os da mulher-baixo-relevo-na-parede-atrás. Estou falando manso Há alguns minutos sem perceber. Repetindo frases de domador firme e amoroso, até cessar lentamente os ruídos e os passos. – CHEGA! NÃO AGUENTO MAIS! BASTA! (Ainda bem que eles foram embora juntos há algum tempo). Tenho os braços adormecidos e dou o maior esbregue na solidão do meu porão atormentado.

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Hoje minha cabine amanheceu verde. O teto suando em toda extensão. Envolto em vapor gelado, visto meu guarda-pó de banho. Vou ter uma conversinha com a dona Gertrudes de homem para homem. Tanta água à tona e meu chuveiro afônico... Trifásico, afásico. Raios! Afino o ouvido para a cascatinha. Lá vem ela. Pego-a na altura dos escaleres, vai ver.- Como vai, Dona Gertrudes? O Capitão voltou? É preciso manter o convés limpo, não é mesmo? Nunca se sabe...
Ah!, é Dona Gertrudes? Gostaria de ver. Subamos. É mesmo! Tutu! Veja só...E sapatilhas! Não como Marina não, Dona Gertrudes, ela faz moderno. Essas coisas... Dançarina, pois é... Lamentável. Essas são bailarinas, hem, Dona Gertrudes? Tal e qual. Ah! A senhora fez também... Quando criança? Ah!... Não, dona Gertrudes, passos modernos, assim. Isso, vamos lá. Pois é, modernismos. Muito bem. Pelo salão todo Ah! Clássico, prefere... Pas-de-deux, não é Dona Gertrudes Pelços corredores! Saltemos! Quê? O que diria o Capitão, Dona Gertrudes? É mesmo... é preciso disciplina a bordo, concordo. Paremos, Uf, uf. É o retrato dele? Seu filho oficial... Ah! E as bonecas... Não, Dona Gertrudes, ela é do moderno. Canal 13, Pois é até mais, Dona Gertrudes, fica para outra vez. Ahoy, não é mesmo? Ah! Ah! Ahhhooooyyyy!!!

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Noite, outra vez. Todo dia, noite. Droga, Marina aqui agora. Minhas tias tinham que me fazer esta visita? Vinte anos, ou três, pelo menos. – Não, tia Judith. Sente-se aqui. Não tenho bolos, pois é. Só rum. Não querem? Sentemo-nos na cama. O tapete está fora de foco? Não, não varro. A limpeza... Aqui é o porão... Eu sei que foi a senhora que deu, Tia Mode, mas... Chama-se Marina, né Marina? Montero. Pois é. Isso mesmo. Artista. Assim, pardinha, né, tia Mode? Uma graça, não? Tia Judith, a senhora está bem? Sente-se aqui. A senhora não está bem acomodada, deve ser. Não tia Mode. Moderno. Canal 13, por aí... Maqravilhoso, não? Isso, Marina, faz para elas verem. Ligo a vitrola. Incrível, não acham? Não, não se incomodem, ela está acostumada. Contorcionismo, não é mesmo? Espere aí, eu afasto as cadeiras, podem ficar nelas, eu arrasto, hummm. Estão com pressa? Faz daquele jeito, Marina, isso!
Ta ta ta tará-rá! Grande! Tia Mode, tia Judith! Prá quê essa pressa? Marina, pare! Dê um beijo na tia Mode, na tia Judith. Gostaram, né? Voltem sempre. Um pouco úmido, faz mal pra artrite.... Ah... canal 13, tia Judith. Canal 13!

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Dona Inalda veio me pedir que pare de riscar fósforos de noite. Os estalidos não a deixam dormir. Além disso faz mal para a minha saúde, tanto fósforo assim. É preciso dosar, ela diz. Aproveito e convido-a para jogar palitinhos. Prefere bingo. “Não, não tenho, Dona Inalda, que distração a minha! Bingo, taí...” (arrumo disfarçadamente a cama, cobrindo as manchas suspeitas.) Que diabo! Um homem tem direito de se divertir sozinho, sem prestar contas a ninguém. Minha cama está na sala, vá lá... Mas não tenho culpa do camarote estar fazendo água.

Dona Inalda parou de lançar olhos suspeitosos e sente-se mais à vontade. Velhota simpática... “É uma flauta, Dona Inalda. Não, não toco, só apito. Desde criança, Dona Inalda, quando ouvi pela primeira vez o Bartolo. “Seu Bartolo tinha uma flauta... ! Firí-rí-rí. Firí-rí-rí-rí-Fiiii-Fiiiiii!

Toma chá comigo a Dona Inalda. Estamos íntimos. Da próxima vez, tomo chá com ela.

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Vou tirar isso a limpo. Não me dão recursos. Não há condições. Não tem almoxarifado. Água entrando, água entrando e o Capitão não vem. Dona Gertrudes que se cuide. É muita responsabilidade para uma senhora. Ainda mais em tais condições. Viúva em vida. Esperando, esperando. Raios, o Capitão está faltando com os seus deveres. Iremos a pique sem mais contemplações. Tenho vontade de precipitar as coisas. Não, não posso fazê-lo sem antes conhecermos as Ilhas, sem termos nos movido um centímetro sequer. Que humilhação, meu Deus! Que humilhante, naufragarmos aqui mesmo, ao pé do cais...
Falta manutençãoo, é o que digo. Tenho vontade de fazer motim, para o bem da dona Gertrudes. Vou demovê-la de sua inércia tão pouco masculina. Droga, é preciso que alguém assuma o comando, nem que seja provisoriamente. Dona Gertrudes! Dona Gertrudes! Raios! Esta morta, por hoje.

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Hoje amanheci numa vaga melancolia, e com a veia lírica. Devo mostrar meus versos ao resto da tripulação? Não estou bem certo... Não se usa mais poemas desde o tempo das escunas, com seus mastros e tudo. Além disso, prefiro declamá-los para a Dona Inalda, que tem senso crítico e é vagamente demodée. Cada um com suas fraquezas, não é mesmo?

“Salta espuma bravia, salta e dança.
Como um demônio, eu lhe digo, como um demônio...”

Visitas novamente. Não posso. Não posso. Não estou para sociedades. Batam quanto quiserem na minha porjela. Não tenho tempo nem dinheiro para acotovelamentos. –Merda! Vão embora!
Boa, meia palavra bosta. É preciso controle sobre a situação. Sangue frio. Andaram perguntando por mim à Dona Inalda, ela me contou. Mas posso confiar na nossa boa camaradagem de velhos marujos. Ah! Ah! Cuca fresca, lirismo! Adoro meus serões matinais. Pena a Dona Inalda não estar aqui. Não me arrisco a sair, isso não! Com todos esses ratos de bordo, que sobem pelas amarras... que se danem! Não é hora de subirem a bordo, ratos de água doce! O navio vai a pique, sabiam?! Não, não sabem. É um segredo entre mim e a Dona Inalda. Mas devo agir. DEVO AGIR DIANTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS! !

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Tenho tudo preparado. Sei como retirar Dona Gertrudes da sua inércia. Pego-a hoje na lavagem do convés. Uma mãozinha, um versinho, verão! Dona Gertrudes não resiste ao entusiasmo trabalhista. Devo contribuir com minha parte, vou esvaziar meu balde de fósforos, já que aqui não tem almoxarife nem contra-mestre. Raios! E ouvido atento para a sua banheira... é o sinal. La vem ela. Lá vem ela. Dona Gertrudes! Como passa, Dona Gertrudes? Vento de estibordo, hem? E nós aqui, atracados... Vou pegar minha vassoura e um balde, espere. Vamos lá, assim é melhor. Mais água.. Vamos subir, é preciso vir trazendo lá de cima, não é mesmo? Não poupemos água. Agora os panos. Com os rodos, assim... Dona Gertudes, o porão está fazendo água, vamos descer. É preciso calafetar. Talvez um pouco de alcatrão. Vê? Assim vamos a pique. Não podemos ficar parados. Pegue ali o machado. Eu fico com este aqui. Ali, aquele banco, e a mesa. Temos muita lenha. Ateie fogo! Isso! O armário. Metamos o machado em tudo. Assim. Abaixo essa estante, os livros, ateie. Deixe-me fazê-lo. Esta cama, por quê não? Está úmida? Meta o machado ali naquela coisa. Tudo! Tudo! O Apocalipse! É preciso fazer-nos ao largo. Mais! Mais! O fogo está alto, mais ainda. Juntemos tudo. Vamos zarpar! O navio! O NAVIO! Estamos fazenda água. Ao largo! A toda marcha! Preparem os escaleres! Mais lenha, Dona Gertrudes! MAIS LENHA! MAIS LENHA! MAIS LENHA!


FIM

São Paulo, 1975