Quando centenas de milhões de pessoas têm exatamente o mesmo sentimento
e a mesma opinião sobre determinado assunto ou evento, me vem um irresistível
impulso de ir a contrapelo, na direção oposta, com opinião discordante do coro
dos contentes ou dos indignados. Desculpem-me se puderem (duvido) ... é que sou
definitivamente antissocial em minha essência, marginal por temperamento e
portanto uma pessoa perigosa, de poucos amigos. Por isso me dou bem neste facebook porque posso exercer minha
sociabilidade virtual, já que a verdadeira, a do mundo real, me fez fracassar
na vida apesar da admiração de muitos que me conhecem tão pouco. "Por
quê?" pode alguém perguntar... Suponho que minha natureza de artista me
pôs à parte do rebanho e explica minha admiração pelos lobos, minha
identificação com eles sobretudo quando nas noites do Norte gelado uivam
nostalgicamente para a Lua... Sim, sou abominavelmente solitário em minhas
neves, e sobrevivi a mim mesmo porque, por sorte mas não por acaso, descobri a
verdadeira natureza da minha Anima, e me tornei afortunadamente um duplo de
estranha harmonia, já que tal fenômeno (o duplo) em geral contém um elemento
grotesco, de conflito. Sim, a Alma Welt me proporcionou uma sobrevida e um
agradável alívio da solidão, já que minha musa e minha deusa nasceu de mim
mesmo. Sou um Pigmalião de mim, pagando somente o preço do impalpável, do
intangível físico. Mas, o que é o corpo físico na verdade? Uma miragem... Há
muito tempo abandonei toda a veleidade de comunhão e harmonia perfeita com a
mulher real, esse enigma de carne tão cobiçado. Minha mulher está em mim, sem
prejuízo do Animus que também me anima, gradativamente abrandado,
rarefazendo-se lentamente... Por isso posso conviver pela primeira vez, mas já
há vinte anos, com uma mulher de verdade, tolerando sua natureza tão diversa,
já que da minha musa Alma Welt eliminei tudo o que na personalidade real
feminina me aborrecia. Um monstro psicológico? Podem estar certos... mas como
vêm, capaz desta terna confissão, cheia de cinismo e auto-complacência. Na
verdade, não me perdoem... alertem, sim, seus filhos, se possível, para que não
sigam esse lusco-fusco, os obscuros e luminosos caminhos solitários da Arte, e
de sua terrível e bela alma nua... (Guilherme de Faria)
terça-feira, 13 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
A visita a Lúcio Cardoso.
(retrato de Lúcio Cardoso)
Em 1965, estando no Rio de Janeiro em companhia do poeta catarinense Marcos Konder Reis que eu hospedava em São Paulo, fui levado por ele a conhecer o grande escritor mineiro Lúcio Cardoso, seu amigo, autor do genial romance epistolar Crônica da Casa Assassinada, que àquela altura eu ainda não tinha lido. Eu ouvia muito falar do Lúcio Cardoso pelo Marcos e outros amigos literatos. Estórias míticas de desregramento, bebedeiras homéricas e genialidade literária. Lúcio havia sofrido em 1962 um derrame e estava semi-paralisado e com a fala comprometida. Fomos recebidos efusivamente no modesto apartamento, pela sua irmã devotada, Lelena Cardoso, que morava com ele e o cuidava. Pessoas de uma simpatia mineira cativante... Lúcio, tentava falar e emitia sons, com os olhos brilhantes de entusiasmo, e me parecia ligeiramente débil, retardado, pela limitação dos movimentos e da fala, mas também por uma espécie de ingenuidade inesperada que emanava como uma aura, de sua pessoa. Disfarcei o tempo todo o meu constrangimento, imaginando o homem brilhante que ele fora, a julgar por sua lenda que incluía até mesmo um amor platônico por parte da Clarice Lispector. Ele arrastava uma perna pela pequena sala procurando coisas para mostrar, e o mais embaraçoso é que a mão perdida pendia na ponta do braço direito duro esticado, retorcida para dentro, colada na sua braguilha. Eu desviava os olhos, sorrindo o tempo todo, fingindo não prestar atenção aos detalhes constrangedores. Mas a simpatia e o acolhimento cordial ao visitante novato que eu era, apresentado como uma revelação de desenhista pelo Marcos, ajudavam a atenuar meu mal estar. Mostrei, a instâncias do poeta meu amigo, meus desenhos que eu carregava pra todo lado no Rio, numa pasta. A acolhida foi entusiástica, cheia de elogios, e eu ofereci ao Lúcio o desenho que mais o entusiasmou. Logo ele quis me mostrar suas pinturas festejadas, de paisagens indistintas e coloridas que fazia a óleo diretamente com os dedos da mão esquerda, sobre papel, e me ofereceu a menor, bem pequena, que modestamente escolhi. Depois do cafezinho mineiro fomos embora com calorosas despedidas, e eu fiquei com uma impressão vaga, decepcionada, de ter chegado muito tarde na casa de um gênio perdido, como quem visitasse Nietszche, louco de sua sífilis terminal, acolhido por sua irmã Elizabeth. A lembrança da irmã simpática e natural, acolhedora e bem mineira, se sobrepunha na minha memória, e eu olhando de vez em quando aquela pequena paisagem de montanha mineira, quase abstratizada, procurava um vago lampejo da mente brilhante que se perdera pelo seu próprio "desregramento" rimbaudiano "de todos os sentidos", no qual, na verdade eu mesmo estava mergulhando, talvez não com tanta ferocidade como atribuíam àquela sombra do homem que já era uma lenda da nossa literatura..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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