"Uma vez, no Rio de Janeiro, nos anos 60, saí ao mesmo tempo com o pintor baiano Raimundo de Oliveira do ap do Alair Gomes (depois revelação póstuma como fotógrafo) em Ipanema, onde eu tinha ido com o poeta catarinense Marcos Konder Reis. Na rua pegamos o mesmo táxi pois íamos na mesma direção, e sentados no banco de trás pude prestar mais atenção naquele homem, mais velho que eu, de enorme e desproporcional cabeça bexiguenta sobre um corpo pequeno e desajeitado, meio gordo. Notei-lhe a imensa tristeza mesmo sem ele abrir a boca, aliás não ouvi em nenhum momento a sua voz. Também mal sabia quem era ele. Éramos apenas dois desconhecidos que partilharam um táxi, e ele desceu antes. Quando voltei a São Paulo, visitando o meu moldureiro, Decorações Porão (na Alameda Barros), o Mário, um dos dois sócios, me mostrando um trabalho que estava emoldurando e me chamou atenção, disse: "Este é um trabalho do Raimundo de Oliveira. Você conhece?" E eu fascinado com a força primitiva daquela obra, que emanava uma fé ingênua e autêntica que me faltava, me lembrei: "Ah! Fiz uma corrida de táxi junto com ele, no Rio, mas ele não abriu a boca." E o Mario: "Ele vem sempre aqui, emoldura bastante conosco. A Giovanna Bonino lá do Rio compra sempre as obras dele que vendem muito bem. É um bom amigo, um cara muito triste, bebe muito. Uma vez ele bebeu tanto que tentando voltar para casa entrou num prédio errado e bateu na porta de um apartamento, chorando tanto e tão desamparado que o casal de moradores o deixou entrar e cuidou dele com carinho, deixando-o dormir no sofá!" Eu, impressionado com aquela história, fiquei recordando as feições tristes daquele grande artista, tão feio, coitado, com as faces marcadas de bexiga, e tão infeliz. Por um momento fiquei triste por ele, e pela primeira vez agradeci a Deus, intimamente, ser um jovem razoavelmente bonito, e me envergonhei de ser tantas vezes igualmente triste. Não! Eu não tinha direito de sentir-me infeliz. Era também artista, não consagrado como o Raimundo, mas não carregava o peso social da feiura física, nem da carga pesada e atávica do nordestino no Sul. Eu era um jovem paulista dos Jardins, empobrecido mas oriundo da classe média, um privilegiado, afinal..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota:
Raimundo Falcão de Oliveira (Feira de Santana BA 1930 suicidou-se em Salvador BA em 1966, com apenas 36 anos de uma vida triste mas fecunda, com sua arte profundamente religiosa que, no entanto não venceu o desalento íntimo de uma alma hipersensível, que sofria com a sua feiura, meramente física...
Raimundo Falcão de Oliveira (Feira de Santana BA 1930 suicidou-se em Salvador BA em 1966, com apenas 36 anos de uma vida triste mas fecunda, com sua arte profundamente religiosa que, no entanto não venceu o desalento íntimo de uma alma hipersensível, que sofria com a sua feiura, meramente física...
