quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Quando a tristeza bate à porta.

"Uma vez, no Rio de Janeiro, nos anos 60, saí ao mesmo tempo com o pintor baiano Raimundo de Oliveira do ap do Alair Gomes (depois revelação póstuma como fotógrafo) em Ipanema, onde eu tinha ido com o poeta catarinense Marcos Konder Reis. Na rua pegamos o mesmo táxi pois íamos na mesma direção, e sentados no banco de trás pude prestar mais atenção naquele homem, mais velho que eu, de enorme e desproporcional cabeça bexiguenta sobre um corpo pequeno e desajeitado, meio gordo. Notei-lhe a imensa tristeza mesmo sem ele abrir a boca, aliás não ouvi em nenhum momento a sua voz. Também mal sabia quem era ele. Éramos apenas dois desconhecidos que partilharam um táxi, e ele desceu antes. Quando voltei a São Paulo, visitando o meu moldureiro, Decorações Porão (na Alameda Barros), o Mário, um dos dois sócios, me mostrando um trabalho que estava emoldurando e me chamou atenção, disse: "Este é um trabalho do Raimundo de Oliveira. Você conhece?" E eu fascinado com a força primitiva daquela obra, que emanava uma fé ingênua e autêntica que me faltava, me lembrei: "Ah! Fiz uma corrida de táxi junto com ele, no Rio, mas ele não abriu a boca." E o Mario: "Ele vem sempre aqui, emoldura bastante conosco. A Giovanna Bonino lá do Rio compra sempre as obras dele que vendem muito bem. É um bom amigo, um cara muito triste, bebe muito. Uma vez ele bebeu tanto que tentando voltar para casa entrou num prédio errado e bateu na porta de um apartamento, chorando tanto e tão desamparado que o casal de moradores o deixou entrar e cuidou dele com carinho, deixando-o dormir no sofá!" Eu, impressionado com aquela história, fiquei recordando as feições tristes daquele grande artista, tão feio, coitado, com as faces marcadas de bexiga, e tão infeliz. Por um momento fiquei triste por ele, e pela primeira vez agradeci a Deus, intimamente, ser um jovem razoavelmente bonito, e me envergonhei de ser tantas vezes igualmente triste. Não! Eu não tinha direito de sentir-me infeliz. Era também artista, não consagrado como o Raimundo, mas não carregava o peso social da feiura física, nem da carga pesada e atávica do nordestino no Sul. Eu era um jovem paulista dos Jardins, empobrecido mas oriundo da classe média, um privilegiado, afinal..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota:
Raimundo Falcão de Oliveira (Feira de Santana BA 1930 suicidou-se em Salvador BA em 1966, com apenas 36 anos de uma vida triste mas fecunda, com sua arte profundamente religiosa que, no entanto não venceu o desalento íntimo de uma alma hipersensível, que sofria com a sua feiura, meramente física...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sangue de Boi

Quando em 1964, um casal conhecido meu, de minha abandonada classe média, me visitou no meu ateliê-porão da rua Mato Grosso, tratei de recebê-los com naturalidade, mas falando só e com entusiasmo de minhas pinturas. Entretanto, vinte anos mais tarde, eles, me encontrando em melhor situação me disseram: "Guilherme há vinte anos atrás nós visitamos você no seu ateliê, você estava começando, você se lembra?" Eu não me lembrava. Então a esposa dele disse: "E nós ficamos muito impressionados, porque vimos que você não tinha fogão nem geladeira e só uma espiriteira à álcool numa pia imunda da minúscula cozinha onde você pintava uma tela imensa, porque só ali havia um pequeno vitral por onde entrava a luz. Então perguntamos: "Você não come? Está pálido e magro! Você precisa comer! E você respondeu: Ah! Não preciso não... Olha, tenho esse garrafão de Sangue-de-boi (um vinho terrível) e quando tenho fome bebo dele no gargalo, depois faço um novo furo no cinto com o canivete, e aperto, vejam!" (e você ficou mostrando o cinto com detalhes técnicos)" Eu ri, fazendo um esforço para me lembrar daquilo, sem consegui-lo. Então a moça completou: "Para dizer a verdade, achamos que você estava meio louco e saímos dali muito tristes..." Eu me lembrei então, muito vagamente, daquilo tudo, não como um simples pesadelo, mas como um conto antigo, literário, cínico ou amargo, de minha própria invenção... (das Memórias de Guilherme de Faria)

Vendendo o meu peixe.

"Quando em 1964 eu estava pintando o meu Apocalipse, sobre duratex, no meu atelier num porão de um cortiço paupérrimo, na rua Mato Grosso (atrás do Cemitério da Consolação), uma senhora caridosa, velha, vizinha de cubículo, vinha na minha meia-porta-e-janela me oferecer um prato montanhoso de refeição operária. Eu ficava muito grato, claro, agradecia, comia, e devolvia o prato vazio. Então ela me disse um dia: "Olha, moço, esse quadro é muito grande. Porque você não serra um pedaço dele, como aquele peixe ali... Seria mais fácil você vender." Eu respondi: "É verdade, a senhora tem razão, seria mais fácil eu vender o meu peixe..." Então, um dia, ouvi ela comentando com outra: "Pobre moço! É pobre como Jó! Não deve vender nada! Também... cada coisa feia!" Eu ri muito, sozinho, no meu desolado e sujo ateliê, talvez um pouco amargamente..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Apocalipse - óleo s/ duratex, 1964, 170x210cm

sábado, 26 de setembro de 2015

"Quando criança, passeando com meu pai, capitão médico reformado da cavalaria, num clube hípico, nos deparamos com um cavaleiro, que apeado lutava, exasperadamente, com a rédea de um cavalo arisco e assustado que queria empinar. Meu pai gritou para o cavaleiro: "Experimenta um pouco de amor!" O cavaleiro, então, fez um carinho no focinho e no pescoço do animal que imediatamente se acalmou. Depois fez um gesto rápido de mão, meio envergonhado, em agradecimento ao meu pai. Naquele dia passei a olhar o meu pai com outros olhos, já que até então o considerava distante e um pouco assustador." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Os haitianos, coitados, vêm para o Brasil crentes de que isto aqui é um país decente e viável, que tem empregos para todos. De onde eles tiraram essa idéia? Isto aqui é o fim da picada. Reparem: são todos homens altos e fortes, o que quer dizer que lá eles pelo menos comiam. Aqui, logo estarão passando fome e embora visivelmente boas pessoas não terão outra saída para sobreviver senão o crime. Querem apostar?
A orelha de Van Gogh
"Quando meu filho, garotinho ainda, me perguntou::" Pai, quem foi Van Gogh? Me conte sobre ele." Eu respondi: "Ah! filho, Van Gogh foi um grande artista, um pintor muito bem sucedido. O pintor de maior sucesso do mundo." Então, o garoto disse: "Mas, papai, minha professora disse que ele era pobre, cortou a orelha e deu um tiro no peito"... Fiquei uns segundos em silêncio e respondi: "Bem... como homem ele era muito infeliz, mas como artista ele deu muito certo, fez uma grande obra, pintou muitos quadros maravilhosos que estão nos maiores museus do mundo. Não é isso que interessa?" Então o garoto disse: "Mas, pai, mamãe sempre diz que o que interessa é ser feliz...." Eu disse: "Sim, para as pessoas comuns. Para o artista, não. Para o artista, o que interessa é realizar grandes obras, custe o que custar." O garoto insistiu: "Então, você, papai, não é feliz?" Fiquei um pouco embargado e disse: "Sou... sim. Sou muito feliz de ter um filho inteligente como você, que gosta de me pegar em contradição..." E o abracei. " - (das Memórias de Guilherme de Faria)
A aurora da minha vida (crônica de Guilherme de Faria)
A verdade é que sou um homem antigo (quem diria...) e como brasileiro urbano, paulistano, tenho uma nostalgia provinciana de casas de sapé desconhecidas, de pé de manacá, jacarandá, piruá... "da aurora da minha vida que os anos não trazem mais"... Ah! Matinês de domingo com os filmes do Mazaroppi e os da Atlândida com Oscarito, Grande Otelo, Cyl Farney, o vilão José Lewgoy e a mocinha, Eliana. E carrinho de rolemã descendo desabaladamente a ladeira pela calçada da rua transversal até sair pela tangente na esquina, nos ralando todos. Ah! Estilingue de forquilha de jaboticabeira e borracha de câmara de pneu; jogo de taco no meio da rua já asfaltada (um só automóvel a cada meia hora), bolinhas de gude tiradas de vidros giratórios de balas coloridas. compradas num armazém cheiroso de Secos e Molhados, de português, de caixas de madeira com os secos, com pequenas tabuletas do preço do kilo fincadas entre os grãos e umas conchas cônicas de alumínio, e mantas de bacalhau seco empilhadas na porta. Jogo de abafa de figurinhas de álbum de colar, acocorados na calçada... Ah! Almanaque anual do Mickey, e do Tico Tico, presentes preferidos no Natal, com o Reco Reco, Bolão e Azeitona (do Sá), e os almanaques da Vida Infantil e da Vida Juvenil, esta com as estórias do CB contra o vilão alemão ex-SS nazista Queixo de Ferro. Meu Deus! Nunca encontrei mais ninguém que parecesse lembrar disso tudo! Estou ficando velho, cheio de lembranças que nem eu parecia mais ter, nem ligar...
Um sogro que não cheguei a conhecer, costumava dizer (segundo a minha mulher): "Estando rezando ou trabalhando, está bom..." Eu imagino um sogro ideal dizendo: "Sossegue, minha filha, ele estando pintando, tá bom." (Guilherme de Faria)
Quando jovem, eu arrisquei a vida muitas vezes. Mas não foi por coragem, não. Foi por desassossego, inadvertência ou luxúria. (Guilherme de Faria)

Ouvi dizer que Dom João VI, no Rio de Janeiro, costumava a ir ao teatro, assistir peças de costumes de companhias nacionais e estrangeiras, dramalhões tremendos como óperas. O monarca gordo e comilão levava cestas de coxas de frango assado, que comia com a mão sem parar no camarote real durante as representações. Então, a boca, as mãos e a roupa engorduradas, cochilava por vários minutos e a intervalos acordava perguntando à sua mulher: "Já se casaram esses bêbados?"
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Nota
Quem me contou isso rindo muito foi meu pai, quando eu era criança. Nunca soube se é verdadeiro. Eu achei pitoresco... Mas o fato é que Dom João VI foi o melhor governante que o Brasil já teve. Todas as sua obras no Brasil foram grandes e duradouras: a Imprensa Régia (depois Imprensa Nacional), a Casa da Moeda, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Museu de Belas Artes, a Escola Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, a abertura dos portos às nações amigas, etc... A julgar por essas obras, foi o governante mais inteligente que tivemos..
O envelhecimento dos seguranças
Ultimamente, quando saio do meu ap para andar, reparo, no meu quarteirão tão comercial, o envelhecimento a olhos vistos dos mesmos seguranças na frente das lojas... Como estão envelhecidos! O que aconteceu com eles? Gostaria o que meu espelho me respondesse a essa questão, mas com mais sinceridade... Estarei eu também tão envelhecido? O que está acontecendo, assim tão de repente?
"Quando criança, vendo as ilustrações de Gustave Doré para os grandes clássicos, na biblioteca de meu pai, houve um momento, talvez apenas infantil, em que me pareceu que não existia coisa mais importante no mundo do que aquilo: desenhar o mundo, ou pintá-lo. Estranhamente, esse momento interior não passou até hoje. Sim, toda arte parte de um sonho infantil persistente, ingenuo, poderoso..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Se eu tivesse que exprimir por um extremo meu estado interior em qualquer época da minha vida, inclusive hoje em dia, eu diria: "Estou apenas fazendo um enorme esforço para me manter vivo..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Quando eu era criança as cidades do interior eram para mim resumidas na imagem de um burrinho carregando latões de leite, lentamente, numa rua de terra...
Apesar de tudo, não podemos dizer que o mundo atual se tornou um lugar sórdido, se nos lembrarmos das duas Guerras Mundiais do século passado...
"Uma vez, quando eu já estava nos quarenta, fui visitar a minha mãe que tinha mudado de apartamento no mesmo prédio nos Jardins, por motivo de reforma. Toquei a campainha e me vi diante do mais absoluto terror, que transpirava através da porta. "Quem é? Quem é?"(com sotaque)... e gemidos, quase gritos de pânico, seguidos de ruido de trancas e correntes. Percebendo ter me enganado de apartamento, pedi desculpas e afastei-me. Depois, já no ap provisório de minha mãe, contei pra ela o meu descuido e percalço. Ela disse: " É um casal de velhos judeus, sobreviventes do Holocausto. Não recebem visitas nunca. Na certa pensaram ser a Gestapo que lhes batia novamente à porta. Reze por eles, meu filho, porque jamais houve sofrimento maior... " (das Memórias de Guilherme de Faria)

A falecida Emi Bomfim, que era "marchand de tableaux" e casada com um grande poeta consagrado, me disse um dia: "Guilherme, sei que os artistas são pessoas muito diferentes das outras, as normais. Não podemos cobrar deles o que cobramos das pessoas comuns. Sou insuspeita para dizer isso, você sabe..." Eu a admirei e me senti confortado, pois eu vivia lutando com meu sentimento de culpa e com minhas ex companheiras que me cobravam coisas, comportamentos e atitudes que não estavam em mim..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Convivi muito com o mestre no Romance de Leonardo da Vinci de Dimitri Merejkowski e com o grande arquiteto, escultor e pintor em A Vida de Michelangelo de Romain Rolland. Mas também com o rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda, bem como com o desastrado cavaleiro de La Mancha e seu fiel escudeiro. A vida real? Nunca a conheci bem. Ouvi dizer que há quem a aprecie muito... (Guilherme de Faria)

Sobre os políticos

"Sempre tive, desde menino, uma grande repulsa pelos políticos. Sempre me pareceram uns canalhas, e a política a mais desprezível das atividades. É claro que é um sinal da minha imaturidade emocional, ou talvez não passe de uma idiossincrasia. Sei bem que a política é uma atividade necessária, pois os países precisam ser governados e ter obras e serviços públicos. Mas o fato de necessitar a conquista do poder para exercê-la em plenitude faz do político um sujeito suspeito e perigoso. A prepotência e a tirania potencial é inerente a todo poder." ( das Memórias de Guilherme de Faria)

Sobre a atual situação da Grécia

Os gregos deveriam adotar novamente os deuses do Olimpo e o culto dos heróis e semideuses da sua antiguidade. A meu ver seria a única solução digna para este povo maravilhoso, que não merece o prosaísmo e a mesquinharia desta nossa era... (Guilherme de Faria)

Celebridade televisiva

Ontem vi no supermercado uma celebridade recente e instantânea da televisão. Ele olhava furtivamente à sua volta. Queria reconhecer ser reconhecido...

Alma Welt

"Como muitos já sabem, a poetisa Alma Welt existe e mora dentro da minha alma. Eu me orgulho dela tanto mais que é melhor como artista e como pessoa do que eu mesmo. Falo isso sem falsa modéstia." (das Memórias de Guilherme de Faria)

De Sintonias

"Quando meu filho mais velho era um garotinho, ele perguntou-me um dia: "Pai, como se faz para ganhar dinheiro, para ficar rico?" Eu pensei um pouco e respondi: " Filho, para ganhar muito dinheiro é preciso a gente estar sintonizado na frequência do dinheiro o tempo todo, sabe... estar na onda do dinheiro." Ele insistiu: "Como, pai? Não entendi... " E eu: "Bem, é como numa rádio. Eu estou sintonizado na frequência da Radio Cultura, ouvindo música clássica o tempo todo." - "E não tem rádio do dinheiro? - "Tem filho... Até tem, mas eu não gosto, prefiro música clássica. Você sabe, Beethoven, Mozart, Chopin...- "Ah, Pai. assim não dá, você não está me ensinando de verdade..." - E eu: "Olha, filho vou procurar um livro chamado "Manual do Pequeno Banqueiro". Mas não sei se existe esse livro. Eu mesmo não sei ensinar o que nunca aprendi. Meus pais, seus avós, também gostavam de música clássica. Você vai ter que descobrir sozinho, mas comece trabalhando..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Vergonhas

"Tenho vergonha de muitas coisas que fiz na juventude, algumas poucas ações e atitudes, mas principalmente de muitos desenhos e pinturas que considero ruins e que deixei ir embora para o mundo, que fizeram sucesso mas que eu destruiria, se pudesse..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Maktub

"Uma vez um vizinho muçulmano me disse: "Tens medo de avião, não viajas nunca. Mas se o destino te reservou seres devorado por tubarões no meio do Oceano Pacífico, eu te garanto: lá estarás bracejando naquelas águas, de terno e gravata, no dia e hora aprazados. Maktub!". (das Memórias de Guilherme de Faria)

Postei no face

O mundo começou numa segunda-feira e nesse dia está tudo por fazer. Ai! Que preguiça!.. (Guilherme de Faria)

Eu e o Wesley

"Uma vez em 1962, já um jovem artista profissional, pobre como Jó, eu vinha subindo a Augusta a pé do lado da cidade em direção à Paulista, para depois descer para os Jardins, e passou o Wesley Duke Lee no seu espantoso e belo MG e disse: "Oi Guilherme, sobe aí !" e me deu uma carona. Ligou imediatamente o rádio do carrinho e tava tocando uma música estranhíssima e fascinante, que gritava: "I wanna hold your hannnnd!! " E o Wesley exclamou: "Esses caras são "du caralho!" Eu nunca tinha ouvido um som assim, mais estranho que o do Elvis Presley na época do seu surgimento nos anos 50. O Wesley, quase dez anos mais velho do que eu, tinha o dom de estar na vanguarda, afinado com o seu tempo, o que nele consistia numa grande sofisticação. Quanto a mim, eu sempre fui mais antigo, amava demais o século XIX e tateava desconfiado no meu século, com um certo retardo. Por exemplo, não me deixei seduzir pela Pop Art no seu surgimento e influência avassaladora no mundo e portanto também na São Paulo dos anos 60 e 70. Eu mal tinha chegado numa espécie de expressionismo vienense do começo do século, a que os críticos de São Paulo chamaram bondosamente de "nova figuração" na qual me inseriam. E lá íamos nós, descendo a Augusta naquele carrinho esporte conversível, que parecia ser o único de sua espécie, em direção ao ateliê do Wesley, que ficava em cima da loja de discos Hi Fi, em plena Augusta, enquanto soava aquele grito em coro (a que nos juntamos) que mudaria o mundo: "I wanna hold your HAAANNNNND!!!! ..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Sobre aulas de arte para criançase

Para crianças a gente não dá aula de arte, não... Elas fazem o que querem, e são artistas natas, sempre. Depois, crescendo, a maioria abandona a arte. Só os que permanecem crianças, não no sentido de imaturidade, se tornam artistas. (Guilherme de Faria)

"No pubic hair!"

"Quando, nos anos 60 passei a desenhar gestualmente nus femininos sem modelo (nunca os tive) a pincel e nanquim, as figuras quando frontais ostentavam os pelos púbicos, mais por uma questão de equilíbrio gráfico no espaço do papel. É verdade que as moças não se raspavam ali naquela época e eram naturalmente peludas. Mas é claro que eu poderia seguir a convenção clássica, como se via nos grandes nus dos museus... Entretanto aquele grafismo feito com uma rápida pincelada de nanquim equilibrava lindamente o conjunto e por isso era tolerada pela "freguesia". Mal tolerada, na verdade, porque os nus de costas vendiam muito mais. De qualquer modo meus desenhos nunca eram pendurados nas salas mas sempre nos quartos. Nas "alcovas" como eu gostava de imaginar... Já nos anos 90, reencontrei uma amiga, a grande e bela dramaturga Consuelo de Castro, com quem eu flertara durante uma noite daqueles tumultuados anos 60 numa festa em seu apartamento. Passamos 30 anos sem nos ver, e, maduros (ela ainda bela) nos reencontramos por acaso numa leitura dramática e ela me disse: "Guilherme, eu tenho até hoje um belo desenho seu, de nu, que você me presenteou naquele dia, mas aconteceu uma coisa estranhíssima com ele: estava emoldurado com vidro numa parede que dá para uma janela do meu ap, e um dia voltando de noite, reparei que havia um buraco de bala no púbis negro da figura, que atravessou o vidro, o papel e atingiu a parede. Suponho que um vizinho moralista lhe deu um tiro de calibre 22 ou de chumbinho. Vê, que coisa, não?" Eu fiquei pasmo, chocado, e até mesmo triste. Depois me lembrei que nos anos 70 meus desenhos exportados pela Glatt-Ymagos, faziam sucesso nos States, mas meus marchands e editores de litografias, receberam um pedido assim: "Send us more Guilherme, please, but no pubic hair! " Tudo muda... agora as moças andam raspadinhas, e os pêlos, que na arte clássica não eram aceitos, na minha ficaram atemporais, espero, como a gloriosa celulite das modelos de Rubens e Rembrandt..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

O príncipe e o mendigo


"Em 1968, se não me engano, eu, jovem artista despontando mas vivendo com muita precariedade num apartamento térreo de um pequeno prédio da rua Augusta (do lado da cidade), fui contatado pelo cônsul americano Niles Bond que tendo visto meus desenhos em galerias, quis que eu ilustrasse seu livro de poemas Arcanum, que já contava com o prefácio de outro Guilherme, esse ilustre, o de Almeida. Tendo eu realizado os desenhos e o livro publicado pela Melhoramentos, recebi dele o suficiente para comprar um modesto banco giratório de desenhista na casa Michelangelo. Como não tinha dinheiro para o frete, carreguei-o sem embalagem, nas mãos e nas costas durante todo o percurso (era de metal cromado) desde a loja na Ipiranga, subindo a Augusta com seu peso crescente numa verdadeira Via Crucis . Pois não é que encontro o Niles Bond, o americano maduro de dois metros de altura, na rua Martins Fontes, que me olhando com curiosidade, disse apenas, com aquele forte sotaque: "Rapaz, que esforço, hem!!" E eu, me sentindo um pateta, respondi: "Pois é, sr. Niles, tenho trabalhado tanto que resolvi sentar um pouco..." Ele ficou mais perplexo ainda com a minha resposta e eu aproveitei para seguir em frente, enquanto ele me seguia com o olhar, eu senti, como se segue um idiota (deve ter abanado a cabeça). Pensei comigo, juro que pensei, que aquele gringo estava tendo a medida do nosso subdesenvolvimento justamente comigo, quase um mendigo, seu jovem, pobre e excêntrico ilustrador brasileiro. Sim, porque com o seu prefaciador, o outro Guilherme, ele certamente sabia que estava diante de um velho "príncipe"... (das Memórias de Guilherme de Faria)

Sonho de criança

"Meu sonho quando criança era tornar-me um pintor, um artista. E me parecia um sonho monumental, ambicioso demais, quase impossível. Não pensava um só minuto em ficar rico. Famoso? Talvez, acho que sim... Mas como não pensei em ficar rico, nunca me sintonizei em dinheiro. Hoje acho que apesar de inteligente fui sempre muito ingênuo. Talvez até um pouco bobo." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Ainda sobre a Alma Welt

Uma amiga recente me perguntou: "Guilherme, será que você, através da sua Alma Welt, não estará saindo do armário?" Eu ri muito. Foi a primeira vez que me fizeram tal pergunta em 15 anos, desde a minha criação da Musa.-"Não, amiga- respondi- A alma de um artista é sempre uma mulher: sua Anima, de quem mana a sua criatividade, sua arte mesma. O Animus, de quem deriva o pai, o provedor e o comerciante, pode ficar um pouco rebaixado quanto mais sintonizado em sua anima se torna o artista. É o meu caso. Mas, repare, minha munheca é firme..." rrrrsssssss

Sobre a Era do Celular

Vivemos na Era das Comunicações, e de um jeito ou de outro estamos nos comunicando. Os críticos dos novos tempos zombam ou lamentam os jovens agarrados aos celulares. Que queriam? Preferiam os adolescentes falando besteira ao vivo e palrando como papagaios nos lanchonetes?. Um novo silêncio paira nos lugares públicos... Saudemos a nova era!  (Guilherme de Faria)

Sobre o facebook

O facebook é perfeito: cada um dá o que tem. Se escolhes pensamentos, coisas e vídeos interessantes, teu critério te revela. Ninguém é pior ou melhor que aquilo que posta. Falar mal do facebook, isso sim, é tolice. O mundo virtual é um espelho perfeito do real, existem boas e más pessoas, heróis e bandidos. inteligentes e idiotas, tal como no mundo lá fora. Mas, aqui no mundo virtual existe liberdade e fantasia para todos. E sobretudo, podemos ser melhores do que somos... o que por si só é louvável. rrrrrrssss. (Guilherme de Faria)

De Sábados e Domingos

"Os sábados se sobrepõem muito rapidamente. Eu os noto por um violininho chato, monótono e melancólico aqui na minha Oscar Freire... E vou envelhecendo, agora mais rapidamente do que gostaria... Sim, o Tempo foge, e eu o noto pelos sábados e domingos se empilhando, tão iguais e tão próximos..." (Guilherme de Faria)

Alma Welt

Alguns amigos, recentes e antigos, que há décadas não me viam ou não acompanharam mais de perto o meu trabalho, me perguntam: "Quem é Alma Welt?". Como Gustave Flaubert disse no tribunal a respeito de sua Madame Bovary, eu parafraseio: " Alma Welt c'est moi! " (Guilherme de Faria)
"O Brasil se tornou um país decadente e degradado sem nunca ter sequer se aproximado de sua sonhada grandeza. Um país profundamente triste, que gargalha em lágrimas, traído, como palhaço de uma ópera patética." (Guilherme de Faria)

DE VIOLINOS,GATOS E CIMENTO


Neste sábado acordei tarde com um gato miando desesperadamente lá em baixo, na rua. Logo dei-me conta de que era um violinista e seu acompanhante, um baixo elétrico funéreo, e pensei em como a vida é triste e difícil de ganhar. Então lembrei-me de que quando criança de uns seis anos pedi aos meus pais um violino, que eu queria aprender a tocar, achava lindo e triste o Jacha Heifetz tocando as Árias Ciganas de Sarazate, que alternavam tristeza e euforia, num disco de ebonite que eu botava pra tocar tão repetidamente na vitrola, que chiava. Lembro-me então que meu pai, rindo, disse: "Melhor não, filho. Criança tocando violino é igual a gato miando. Ninguém aguenta. Você não disse também que quer ser pintor? Ah! Você sabe a estória do pintor português que numa exposição temática sobre os "Sentimentos" pintou um burrinho ao lado de uns sacos de cimento na porta de uma venda? Um crítico, surpreso, perguntou-lhe qual o título do quadro e o pintor respondeu: "BURRECIMENTO"... Então eu ri muito e nunca mais pensei em ser violinista. Preferi causar outros "burrecimentos"... (Guilherme de Faria)

O PINTOR IMAGINÁRIO DE MINHA MÃE


"Domingo, sempre silencioso aqui na minha Oscar Freire onde envelheço lentamente, pintando ainda e começando a ter memórias de que não me dava conta. Sim, e as mais singelas começam a ter proeminência, como sempre acontece com os velhos... Ah! Eu nem sequer sabia que apreciava tanto o humor de meu pai, já que a sua neurose comprometeu, para nós, da família, sua imagem por tanto tempo. Mas devo dizer que o humor na minha infância vinha pelos dois lados, minha mãe também o tinha, e bem peculiar. Lembro-me, por exemplo, que quando ao final do meu quarto casamento, queixei-me a ela pela incompreensão das mulheres e ela simplesmente disse: "Meu filho, homens e mulheres são tão diferentes entre si, que se não fosse a atração sexual, passariam um pelo outro com total indiferença, como o elefante pela girafa..." Isso dito por um mulher de sua geração!! Lembrei-me também, agora mesmo, que quando eu era menino ela me disse que me imaginava "já velho, sereno, com grande barba branca e um chapéu de aba larga com um cavalete armado no campo, pintando a paisagem, acompanhado por um cachorro". Não aconteceu... Não tornei-me um pintor de ar livre como aquela espécie de Monet que ela imaginava. Tornei-me um pintor de apartamento, mas com tal nostalgia de paisagens, que as pinto "imaginárias" e nelas coloco a minha Alma, vagando, ela sim, com o cachorro que nunca tive... Tornei-me, de qualquer modo, um imaginário, como o pintor dos sonhos ingênuos de minha mãe. E "demodé", nada contemporâneo, ligeiramente patético. Mas, pensando bem, neste mundo, quê artista não o é? ..." (Memórias de Guilherme de Faria)
Há quatro horas atrás me marcaram num anúncio de encontro num clube de degustação de whisky, charutos e cigarrilhas. Como só entrei agora aqui no face, aquilo ficou quatro horas na minha página, para estranheza, talvez, dos amigos que sabem que sou abstêmio. Sou ex-fumante e bebedor, e me livrei dessas drogas em 1981. Sou um sobrevivente. Considero que comecei a viver a verdadeira vida de 81 para cá. ( Guilherme de Faria)
"O mundo nunca foi um lugar feliz ou propício por si mesmo. Não é o Éden, todos sabemos disso. Por isso temos que lutar para nos sentirmos razoavelmente bem, ou para sobrevivermos o mais tempo possível. Ou então pela conquista da felicidade como reza a improvável mas inspiradora cartilha dos americanos. Sem a esperança de felicidade o mundo afundaria no seu próprio caos infernal. "Pro céu eu vou nem que seja à paulada", dizia o Augusto Matraga, (na sua " A Hora e vez de..." de Guimarães Rosa). Quanto a mim, eu nunca desisti de ser feliz, mesmo sendo um artista. Mas, a esta altura, já acho mais importante a procura do que o encontro." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"O público das Artes Plásticas no Brasil me parece que vai muito bem, porque perdeu os preconceitos. Ninguém parece estranhar que eu venha pintando há duas décadas paisagens românticas com ou sem figuras, num estilo aproximado do século XIX europeu. Ninguém ainda, com desdém me chamou de "acadêmico". Mas porquê o venho fazendo? Certamente por coerência com meu temperamento, embora eu goste e respeite muitos abstratos e até contemporâneos. Chego a admirar alguns grafiteiros, pelo seu enorme talento plástico e criatividade figurativa. Quanto a mim,vou fazendo o que posso, o que sai de mim. Tudo pode acontecer..." (Memórias de Guilherme de Faria)

Versinhos Urbanos de Melancolia (de Guilherme de Faria)


Vôa o Tempo, vão-se os dias,
vão-se os meses e os sonhos
vão-se as mães e as tias,
chegam dias mais tristonhos...
A vida é perda constante
não adianta nem chorar.
Já se esgarça o barbante,
e o pião nem quer rodar...
Vou-me embora pro ranchinho
Ah! lembrei que nunca o tive,
Só me resta o meu vizinho,
se é que ele ainda vive...
Vou tocar-lhe a campainha
mas ele pode estranhar...
Direi que pensei que era a minha
pra ele me desculpar...
Detesto modismos. Quando ouço a palavra "desconstrução", levo imediatamente a mão aos coldres... rrrrrrsss  (Guilherme de Faria)
Para a minha sensibilidade estética, nada mais triste que a visão de uma bela mulher tatuada. Aquilo dá uma aparência suja, são maus desenhos sempre, e é um modismo brega... (Guilherme de Faria)