domingo, 19 de novembro de 2017

Se eu fosse um ensaísta político, estes seriam alguns títulos de livros que eu escreveria:


1. Como o Brasil se tornou uma desgraça
2. As origens da calamidade brasileira
3. O idiota útil socialista.
4. Como o socialismo destruiu o ensino no Brasil
5. O projeto idiotizante
6. Por quê o Brasil se tornou um país ridículo
7. A escolha do Mal pelo brasileiro comum
8. Brasil, um país destruído
9. Um país nas trevas da ignorância.
10. Brasil - Raízes da boçalidade.

sábado, 2 de setembro de 2017

FRASES ATRIBUÍDAS À DILMA ROUSSEFF:


1. Gato e lebre têm lábio leporino, e daí provavelmente a confusão para quem não come nem um nem outro...
2. Os cachorros não têm sombra, porque são eles as sombras das crianças.
3. Economia é doméstica, cada um que cuide dela em sua casa.
4 . Cuba não pode importar coca-cola, por isso lá não não tem mais cuba libre.
5. Me chamam de anta, sem nem saber que a anta tem um nariz grande, enquanto eu tenho um narizinho bem pequeno, vejam...
6. Eu ainda vou salvar o Brasil, contra tudo e contra todos...
7. Disseram que eu roubei bancos, mas a verdade é que eu não fiquei com um centavo daquele dinheiro que roubamos.
8. A história da mandioca é verdade, mas ninguém entendeu a raiz do problema.
9. Quanto a estocar vento, fui muito mal compreendida. Eu não disse que já temos tecnologia para isso. De qualquer modo, trata-se de um projeto engavetado...
10. Sou uma pessoa incompreendida por usar metáforas como os profetas. Só porque sou mulher no nosso país machista.
11. Hei de voltar mesmo que a maioria não queira.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Dentro e fora (de Alma Welt)

Temos muito que fazer, limpar a casa,
Varrer, bater os bons tapetes nos varais,
Espanar, lustrar, lavar, polir os metais,
Cuidar daquele cano que ainda vaza...

Prendas domésticas, Alma, a esta altura?
Bem, desculpem, não me peguem no concreto;
Falo sempre de dentro, ou na mistura
Da alma com a matéria, pra dar certo.

Dentro e fora, a vida é dupla ou dúbia
E vivemos nos dois reinos, na fronteira
Um pé em cada lado, Egito e Núbia.

De um lado, o antigo e grandioso,
Do outro, negro, igualmente belicoso,
Enquanto te preparas pra ir à feira...

.
03/07/2017

sábado, 17 de junho de 2017

MINHA HISTÓRIA NA LITOGRAFIA (das Memórias de Guilherme de Faria)

"A arte litográfica consiste em obter o máximo de efeito com um mínimo de recursos." (Alois Senefelder, inventor da litografia, no século XVIII).
"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso, sou doido com todo direito a sê-lo. Com todo direito a sê-lo, ouviram?"
(Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa).

Se a alguém ocorresse perguntar o que ocorreu com a minha produção de litografias, já que foi tão prolífera e de tanto sucesso durante vinte anos, devo contar uma história: No final dos anos 60 se estabeleceu em São Paulo, primeiramente na rua Urano na Aclimação e depois passando para rua Amália de Noronha, em Pinheiros, um modesto ateliê de litografias, com uma prensa antiga e um pequeno estoque de pedras da Bavária, fundado pelo gaúcho Otávio Pereira, que no começo daquela década tinha ido aos Estados Unidos com a intenção de estudar ballet clássico para se tornar um bailarino profissional. Por alguma razão seu projeto não se realizou, e Otávio, para sobreviver, encontrou emprego de granitador e esponjador no Studio Gemini, de Los Angeles, que naquela época estava empenhado na edições dos artistas da Pop Art, como Robert Rauchemberg, Jasper Johns, Frank Stella e outros como o alemão geométrico Albers, tendo como produtor e editor Garo Andresian que depois dirigiu a Gráfica Tamarindo na Universidade do Novo México. O Otávio Pereira, começando como operário, não tardou a aprender o ofício de impressor, que por si mesmo é quase uma arte porque exige uma certa sensibilidade e um apurado senso de cores.
Voltando ao Brasil, em São Paulo, com um pequeno capital, Otávio começou a procurar uma prensa antiga de litografia e um estoque de pedras da Bavária, para fundar seu ateliê de lito, seu novo sonho e projeto. Começaria ali a segunda saga da litografia no Brasil, já que no século XIX teria havido a primeira, com grandes artistas-cronistas de costumes como Jean-Baptiste Debret, e mais tarde Angelo Agostini.
Para manter o seu Ateliê de Litografias, que ele batizou URANO, por causa da rua, Otávio procurava os artistas mais conhecidos de São Paulo e propunha a eles desenharem nas pedras, e ele, com seu primeiro impressor e um *granitador e *esponjador, o jovem Zé Carlos, ex assistente de coveiro, e também Roberto Giarffi, o "alemão", fariam o processamento e a impressão das tiragens que Otávio dividiria com os artistas, já que estes em geral não tinham dinheiro para pagar esse trabalho, nem teriam meios eficientes de comercializá-lo.
Os primeiros artistas brasileiros dessa fase a utilizarem regularmente o ateliê Urano foram a Maria Bonomi, que já era famosa xilógrafa, o Yvald Granato, pintor e desenhista do Rio de Janeiro, que mudara-se para São Paulo e o Rubens Gershman, também do Rio, mas morando aqui naquela época, e o pintor surrealista Otávio Araujo, Tomoshige Kusuno e outros. Então a gráfica mudou-se para a rua Amália de Noronha, em Pinheiros .
Os artistas dividiam as pequenas tiragens, e a Gráfica Urano não tendo um mercado estabelecido para essas espécie de gravuras vivia na corda bamba, endividada e à beira da falência, principalmente por Otávio ser mais um artista do que um empresário. Então, o quê fazer?
Então Otávio conheceu o empresário Fernando Silva, baiano elegante, culto e rico, colecionador de arte, que morava numa mansão do Jardim Europa, cheia de quadros, e, à propósito, casado com uma linda americana loira natural de olhos verdes amendoados, Katrin, de quem, encomendado por ele pintei um belo retrato a óleo (episódio curioso que um dia contarei em detalhes). Fernando seria o primeiro financiador da gráfica do Otávio mas por poucos anos. Foi nesse tempo o primeiro contato que tive com a Urano e o Otávio, por volta do ano de 1968.
Durante o vernissage de uma exposição individual dos meus desenhos na Galeria Cosme Velho na Alameda Lorena, Fernando e Otávio apareceram e começaram a me "cantar" para fazer litografias na gráfica deles. Tentavam me seduzir dizendo, por exemplo: "Seu desenho tem vocação litográfica, Guilherme. Veja estas aguadas de nanquim, estas texturas... você pode conseguir esses efeitos na pedra, usando "touche" magro, de água (uma espécie de nanquim litográfico), fazendo um "lavis" para essas transparências. E você terá seu desenho multiplicado pela tiragem em edição, e ganhará muito mais dinheiro..." ( Ah! o canto das sereias!... )

Um dia, durante temporada daquela exposição, aceitei ser levado por eles até a Urano, onde eles já tinham uma pedra preparada para mim sobre a mesa. Me deram o touche e eu com o meu pincel de desenho fiz rapidamente um desenho sobre a pedra. Eles correram a processá-la e a tirar uma única prova para me seduzir. Realmente ficou muito boa mas não foi feita tiragem porque eu ainda não estava disposto a me dedicar àquilo. Onde andará aquele exemplar único de minha primeira lito?
Entretanto por incompetência administrativa ou por falta de mercado, a gráfica Urano começou a dar prejuízo e o Fernando Silva desfez a sociedade e abandonou o negócio na mão do Otávio, que endividado faliu, e a prensa e as pedras foram confiscadas pelos credores.
Foi então que o Granato lembrou-se de um colecionador seu amigo do Rio, o Elsio Motta, ex oficial da Marinha que tinha se mudado para São Paulo onde acabara de deixar as Indústrias Pignatari onde ocupara um cargo executivo e saíra com um pequeno capital de indenização que pensava em investir num negócio. Granato apresentou o Elsio ao Otávio e os dois fizeram sociedade na Gráfica que passou a se chamar Ymagos ( que significa Imagem em grego). Elsio pagou as dívidas da gráfica e resgatou a prensa e as pedras. Começaria a nova e grande fase da Gráfica que aos poucos compraria mais prensas e mais pedras da Bavária (chegando mais tarde a importar algumas bem grandes, que vinham de navio). Logo acrescentaria uma molduraria para ter mais autonomia e se chamaria Glatt -Ymagos (Glatt significa vidro em alemão).
Então, em 1970, esta nova dupla apareceu na minha nova exposição de desenhos na Galeria Cosme Velho e renovou seu canto de sereia. Mas eu continuava refratário a essa técnica, pois estava empenhado nos meus desenhos e na pintura a óleo em que eu começara uma nova fase que chamei de "baconiana", já que tinha uma visível influência do pintor inglês Francis Bacon que me impressionara muito. Então, em 1971, casado (pela quarta vez) com Elisa Nazarian (que muitos anos mais tarde, depois de separados, se tornaria notável escritora com vários livros publicados), perdemos nosso primeiro filho com um mês e dez dias e, traumatizados, aceitamos um convite do meu amigo e marchand Giuseppe Baccaro, que solidário, nos convidou para nos mudarmos para Olinda PE, onde ele estava morando, me oferecendo um casarão colonial maravilhoso que ele restaurou pensando em nós, na rua de São Bento, para morarmos gratuitamente e instalar meu ateliê para continuar pintando num novo cenário, belíssimo, que ajudaria a curar nossa depressão. Santo Baccaro! Que saudade desse grande amigo da minha juventude! .

Em 1974 voltei com a família (minha mulher e meus filhos Tamayo e Rhena, que nasceram em Recife) para a minha São Paulo definitivamente, inaugurando em Julho minha exposição individual de óleos da minha "fase baconiana" na Galeria Arte Global, da Rede Globo de Televisão, na Alameda Santos. Durante a montagem ali chegou a dupla Elsio Motta e Otávio, novamente, que tendo proposto à direção da Galeria que lançasse a cada exposição uma litografia do expositor para oferecer um produto mais barato e acessível ao público comum, já que os quadros, pelos altos preços só eram acessíveis a uma elite econômica. A proposta pegou, e eu fui o primeiro a ser envolvido e não tive escapatória. Assinei o contrato triangular para uma edição de lito a ser lançada na minha exposição de pintura, quase como um brinde, baratíssima, praticamente de graça. Fui à gráfica, e tentando evitar concorrência com meus próprios desenhos de nus, lancei sobre a pedra, a pincel e touche, um desenho de um touro das cavernas, em preto e branco, com uma segunda impressão, uma mancha vermelha no peito do animal. Foi um sucesso fenomenal! Tiramos uma edição de 100 exemplares, que eram vendidos na galeria durante a exposição, tão barato que as pessoas tinham direito a adquirir somente uma, colocando seu nome num livro. Acontece que as galerias enviavam funcionárias que compravam e voltavam com outros nomes e no final a galeria liberou e elas saíam com diversos rolos debaixo do braço. O meu touro começou a aparecer à venda nas galerias a preços bem maiores. O público incrivelmente reconhecia meu traço mesmo numa figura de animal e não somente nos nus que me haviam consagrado. Percebi que o mercado tinha fome desse tipo de produto de arte, mais acessível e democrático. Então me rendi e disse ao Elsio e ao Otávio: "Enfileirem dez pedras que vou lá lançar dez imagens de uma vez, em poucos minutos". Como? (eles se espantaram). "Sim" - eu disse- "Vocês me viram desenhar o touro. Meu desenho é zen, gestual , instantâneo, com a mente em branco, ao nível dos reflexos. Aprendi a desenhar a pincel, vendo uma certa cena de filme de esgrima samurai, da vida do *Myamoto Musachi. Tanto faz lutar contra um antagonista como contra uma academia inteira. Enfileirem dez pedras e me deem dois minutos, me observando". Eles retrucaram: "As mesas não são tão longas, cabem cinco pedras. Serve?" Sim, vamos lá!" - eu disse.
Logo eu estaria assinando as primeiras cinco edições de litos com os meus nus da fase dos corpetes, semelhantes aos meus desenhos originais da fase de sucesso nascida em 1964.Desde o princípio Elsio contaria com a preciosa colaboração de sua paciente esposa Anália (a Analita) que faria a limpeza e supervisão de milhares de tiragens inteiras e de sua filha Patricia Motta, a herdeira da Ymagos e sua única grande diretora e impulsionadora nas últimas décadas.
Começou assim a festa da gravura que para mim durou vinte anos (de 1974 a 1995) e quase mil edições.
Muita coisa ocorreu durante esse período, claro, referente à fase das litos, que aos poucos contarei futuramente.

FIM


Notas
* "granitador" é uma operário que lixa as pedras litográficas com um pó carborundum (um esmeril com diferentes números de grão de polimento ), com água, e girando uma pedra sobre a já desenhada e editada, com a mão ou com um rebolo elétrico com outra pedra de lito com a face lisa para baixo, sempre com o pó de esmeril , gastando uma fração de milímetro para a pedra ficar pronta para se fazer um novo desenho por outro artista ou pelo mesmo. As pedras são de uso comum aos diversos artistas, e a cada tiragem a matriz tem que assim ser limpa e quase polida para um receber um novo desenho com materiais gordurosos.
Quanto ao * "esponjador", é um operário que fica do outro lado da prensa, oposto ao do impressor, esponjando a pedra desenhada já preparada quimicamente com uma mistura de goma arábica e ácido nítrico e com o pigmento preto dos crayons litográficos já lavados por um solvente, e assim o desenho ficando só como um fantasma de gordura. para manter a pedra úmida por igual por causa da goma arábica que não sai com o solvente, para o impressor passar varias vezes sobre a pedra o rolo entintado. A água repele gordura e gordura atrai gordura. Assim, a superfície úmida repele a tinta do rolo e não se suja, e onde o artista desenhou, a gordura saponificada pelo acido nítrico atrai a tinta do rolo e o desenho aflora entintado. Coloca-se o papel por cima, depois uma placa fórmica engraxada por cima da folha e desce- se a alavanca da ratora da prensa e o impressor gira a manivela, a mesa corre sob a ratora, sob enorme pressão. Levantas-e a ratora e puxa-se a mesa que corre solta de volta. Tira-se a placa de fórmica e depois com dois dedos levanta-se por uma ponta da folha delicadamente com o primeiro exemplar impresso. Repete-se este processo quantas vezes for a tiragem combinada.

*Myamoto Musachi. - foi o maior samurai do Japão, histórico, real, mas que se tornou quase mítico, criador do "estilo duas espadas". Os japoneses fizeram inúmeros filmes sobre sua vida e seus inúmeros duelos que se tornaram lendários (na verdade bem documentados). A visão de uma determinada cena de esgrima samurai, na forma de koan (pequena fábula zen) em um desses filmes me produziu um "satori" ( espécie de iluminação que me ensinou a desenhar com um pincel nacional longo, da Tigre, de poucas cerdas muito longas, finíssimo, na vertical como um calígrafo japonês produzindo as linhas moduladas que sugerem os volumes, eu de pé, gestualmente, com a mente em branco, ao nível dos reflexos do espírito. O desenho nasce fluido e espontâneo, frente aos olhos dos espectadores, perfeito, sem modelo nem esboços, retomadas ou rasuras, definitivo, sem nunca perder uma folha do precioso e caro papel Shoeller alemão.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Um depoimentinho...

Vindo de uma família de classe média culta empobrecida, eu sempre fui pobre sem me deixar seduzir pelo comunismo como a maioria dos artistas da minha geração. Isso porque não sou invejoso da fortuna alheia. Quando jovem eu tive a secreta e tola esperança de ficar rico com minha arte (que fazia sucesso) sim, como todos os artistas têm, mas não fui capaz de fazer as necessárias concessões para isso. Na verdade, eu não tinha a veia comercial, e deixei que outros comercializassem minhas obras, eu ficando com a menor parte. Eu me deixei explorar alegremente, lisonjeado de que meu trabalho vendesse, e tão precocemente entrasse no "mercado", ainda que na mão dos outros e não na minha. Ingenuidade? Eu pensava que isso era uma boa estratégia de longo prazo... Mas isto aqui é Brasil, então já viram, né? Fiquei famoso e continuei pobre, coisa que só acontece neste país. Mas eu tenho um trunfo: apaixonei-me de tal forma pela minha arte, que fui descartando todos os outros desejos e veleidades. Não desejo mais nada material a não ser o pão nosso de cada dia, um bom chuveiro elétrico, e um bom provedor de Internet...

(Guilherme de Faria)

terça-feira, 30 de maio de 2017

"Seis graus de aproximação" (crônica de Guilherme de Faria)


Ontem foi aniversário do meu filho mais velho, que passo meses sem ver. Encontrei-o por acaso na rua Augusta, quando eu saía de uma farmácia e ele estava com sua mãe, uma "ex", mãe de três dos meus filhos, e que há muitos anos eu não via. Foi perturbador, emocionante. Os dois sempre tiveram uma relação tumultuada, e vê-los juntos se dirigindo a um cinema, provavelmente na Paulista, foi comovente... Eles estavam adiantados para o horário da sessão e pudemos conversar por uma hora, de pé na frente da Farmácia. Naturalmente começamos a conferir episódios do nosso passado e me dei conta de como nossas visões dos acontecidos não conferiam, a não ser em poucos detalhes mais superficiais. A realidade é subjetiva, assim como os espelhos. Entretanto eu pude ver através de sua pele sofrida, a jovem, quase adolescente que ela fora, e sua beleza, que eu ainda reconhecia, apesar de tudo. Meu filho, cuja barba começa a branquear lembrou episódios de nossa relação em sua infância, que não me desabonam, e que arrematou me abraçando. Nessa noite custei a dormir, revisando cada minuto de nossa conversa a três. Num certo momento, meu filho tirou de uma sacola os livros que sua mãe lhe dera há pouco, como presente. Tratava-se das Crônicas Completas de Rubem Braga, e ele perguntou se eu o havia conhecido e lido, e se gostava. Sim, eu havia lido algumas num passado remoto, e que mal me lembrava. Quanto a se o tinha conhecido pessoalmente, eu lembrei: "Esse é mais um de que eu tenho pelo menos dois dos "seis graus de aproximação" (possíveis entre todos nós no mundo, teoria matemática ou espiritual, em que acredito). E recordei: " No começo dos anos 90, eu estava com o pintor Siron Franco, saindo da gráfica Ymagos onde ele fora fazer uma litografia para lançar na exposição da novas maravilhosas pinturas que ele estava para inaugurar na Galeria Paulo Vasconcelos. Assim que chegamos na Galeria ele ligou interurbano para o Rubem Braga seu amigo, no Rio, para comunicar e convidar para a sua exposição. A certa altura de sua breve conversa, ele disse: "Advinha com quem estou agora aqui na galeria? Com o Guilherme de Faria! " Esperou um segundo e tapando o bocal me disse: "O Rubem disse: "Aquele, das peladas? Pergunta a ele se ele ........ essa mulherada toda?" Eu soltei uma gargalhada, perdoando, no ato, a vulgaridade jocosa típica do carioca, talvez lisonjeado pelo grande cronista conhecer minha arte.
Afinal o Rubem Braga não tinha como saber que eu jamais tivera modelos, e que desenhava e pintava de imaginação, ou simplesmente a minha própria anima, o que, na verdade, não me poupou de grandes problemas com as mulheres.
Olhei minha ex mulher, e ela abanava a cabeça...
(Guilherme de Faria)

domingo, 28 de maio de 2017

Esperando na calçada (de Guilherme de Faria)

Já perdemos nossa trilha no deserto,
E vemos passar as caravanas
De que não podemos chegar perto,
Cães, latimos como simples doidivanas.

Vivemos à margem de um processo
Que se passa sem nós e à revelia,
Enquanto decidem no Congresso
Se teremos ou não segunda via...

Ficamos esperando na calçada
Que um juri que não nos representa
Tenha uma atuação sincera e isenta.

Nossa mídia já está toda viciada
Mas se o "crack" não na Bolsa se apresenta, *
Deixa a gente igualmente preocupada...

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28/05/2017

Nota
* Mas se o "crack" não na Bolsa se apresenta - aqui usei um duplo sentido da palavra "crack". que em relação à Bolsa de valores é quando a Bolsa quebra, como em 1929. Atualmente o "crack" da "Cracolandia" paulista é motivo de preocupação e polêmicas.

Quisera (de Guilherme de Faria)

Quisera minha pátria redimida
De sua indigna e torpe condição
De balcão de negociatas, e guarida
De uma vil e perigosa facção.

Estragaram o país que já foi belo
Ou pelo menos melhor do que é agora;
Cansado estou até do meu libelo,
Penso em fazer a mala e ir embora...

Mas ir embora para onde? Me pergunto,
Pois vejo que o mundo se vendeu,
A diferença é só pão com presunto...

Por aqui vou ficando, amargurado,
Vendo que o Moro prendeu e não prendeu,
E o mouro toma a França ali ao lado...

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28/05/2017

sábado, 22 de abril de 2017

O POETA (das Memórias de Guilherme de Faria)

Dentre os inúmeros episódios marcantes da minha juventude, já bem adentrado na fase profissional como artista, um deles eu hesitei rememorar aqui por escrito, até agora, devido a fatores de escrúpulos de intimidade, de dramaticidade, e porque um dos protagonistas ainda vive. Entretanto, resolvi narrá-lo agora porque me convenci de que não citando nomes de pessoas vivas, temos o direito de divulgar nossas memórias sem consultá-las, tanto mais que a intenção é enaltecê-las, e não denegri-las.

Em 1970, estávamos no auge do regime militar no Brasil, e eu, casado com a que viria ser mãe de três dos meus filhos, morava numa vila em plena rua Augusta, e pintava e desenhava intensamente para realizar uma exposição marcada para dali a dois meses na Galeria Portal, que ficava na Avenida Paulista. Neste período surgiu em meu ateliê, trazido por um amigo comum, um poeta talentoso, ainda jovem mas dez anos mais velho que eu, que muito falante e interessante passou a vir todos dias passar muitas horas falando, muito exuberante e confessional, enquanto eu pintava para a exposição. Ele era engraçado e agradável, ele logo se tornou muito amigo meu e de minha mulher, a Elisa (que esperava nosso primeiro filho). Dois meses se passaram e tendo os quadros ficado prontos, na véspera do vernissage ele saiu tarde de minha casa combinando de nos vermos no dia seguinte na Exposição. Chegou o grande dia, ele não apareceu em casa e nem de noite durante o vernissage, que foi um sucesso de público e de crítica. Estavam todos lá, artistas conhecidos, amigos, jornalistas e o publico usual, sem faltar as indefectíveis e lindas "marias-vernissages". Estava "todo mundo" lá, com exceção do meu novo amigo poeta. Acompanhado de minha mulher, eu estranhei e comentei com ela, mas entretidos com os convidados, deixamos passar... O que teria acontecido?
No dia seguinte ao vernissage o poeta também não apareceu. Nós, minha mulher e eu, estranhamos, mas não fizemos muita questão, pois estávamos necessitados de sossego e privacidade, após tanta sociabilidade um tanto forçada, contrária ao meu temperamento recluso, de poucos amigos. Entretanto, todos os dias nos lembrávamos dele, o poeta estranhamente ausente desde o dia da inauguração. Eu ia todos dias à Galeria Portal conversar com os visitantes e ficava sabendo que o poeta não aparecera lá em nenhum horário. Passada uma semana eu comecei a telefonar para o pequeno hotel na "boca do lixo", na rua Aurora, no centro da cidade, em que ele nos dissera que morava há meses, cujo nome nos dera e do qual descobri o telefone na lista.
Eu passei a telefonar uma vez por dia e era sempre atendido por uma mesma voz, de um porteiro que me pedia pra esperar para ele ver se o poeta estava no quarto, e logo voltava para comunicar que não, não se encontrava no hotel naquele momento. Aquilo era muito suspeito... Por quê meu amigo nunca estava no hotel se não tinha feito um check out, pago a sua conta, ido embora? Por quê simplesmente nunca se encontrava? 

Uma tarde eu estava almoçando com Elisa num restaurante da Augusta e num repente resolvi telefonar dali mesmo para o hotel. Comuniquei o meu desassossego à minha mulher, levantei-me e fui ao balcão pedir para usar o telefone. Liguei e a mesma voz repetiu que o poeta não se encontrava no quarto. Eu ia desligar quando o porteiro continuou, baixando a voz, e em surdina disse: "Eu já conheço a voz do senhor que sempre procura pelo seu amigo... Mas eu não podia falar porque o gerente proibia e estava sempre por perto... Olhe, foram "os home" que levaram o seu amigo..."
Eu pus a mão na cabeça,TINHAM SE PASSADO DEZ DIAS! Urgia fazer alguma coisa!
Logo me veio à cabeça a ideia de procurar um poderoso advogado que me recomendaram em 1965, e que naquela ocasião procurei para conseguir um porte de arma pois estava sendo perseguido por um maníaco que me agredira gravemente a mim e minha segunda mulher, num episódio um tanto sórdido que um dia contarei. Esse advogado era o dr. Idel Aronis (agora falecido há muitos anos), que logo simpatizara comigo e tendo ouvido minha estória me apresentou e me recomendou a um delegado (também já falecido) que era irmão do pintor Clovis Graciano e que tendo portanto um irmão artista famoso, tinha simpatia pelos pintores. Este delegado me concedeu porte de arma para mim e minha mulher, compramos revólveres numa loja com permissão e andamos armados por pouco tempo, em segurança em plena época da ditadura! Mas isso é uma história que contarei noutra oportunidade. Pois bem, fui procurar o dr Idel e contei-lhe o que acontecera com o poeta meu amigo. Ele me perguntou se meu amigo revelara simpatias comunistas, se era doutrinário, etc. Eu respondi que o poeta era de esquerda, mas sonhador e ilusionista era extremamente "gauche" na vida, muito mais no sentido drummondiano do que ideológico. O dr. Idel argumentou que se meu amigo fosse "quente" como os militares costumavam chamar os suspeitos de militância socialista armada, ou "terroristas", até a mãe dele poderia não estar sabendo, dado o código de silêncio que imperava entre "eles" (a propósito, o poeta era órfão de pai e mãe e não tinha nem família). Então eu descrevi mais detalhadamente a personalidade do meu amigo e as características psicológicas que me faziam ter certeza ser ele um indivíduo incapaz de ação. O dr Idel, refletiu e disse: "O que você diz, Guilherme, faz sentido e por isso vou tentar salvar o seu amigo, mas lhe advirto que já interferi e tirei muitos das garras do DOPS e eles se aborreceram e já quase me deram um basta. Eles devem estar interrogando o seu amigo e se ele for "quente", nada poderei fazer. Entretanto, pelo que você me disse, acho que há uma chance. Se ele não for um militante clandestino, eles estarão torturando seu amigo psicologicamente, não fisicamente. Os intelectuais resistem menos à tortura psíquica que os mais simples... Vou localizar onde seu amigo está preso e em breve me comunicarei com você dando uma posição. Aguarde."
Nos despedimos, eu com o coração opresso, mas com alguma esperança, e fui pra casa fazer o relatório dessa entrevista à minha mulher, que esperava em angustiado suspense.

No dia seguinte já recebia eu um telefonema do Dr Idel, dizendo: "Guilherme, já localizei o seu amigo. Você tinha razão. O seu amigo estava no DOPS . Esteve sendo interrogado mas não chegou a entrar no pau. Felizmente você me procurou a tempo, pois amanhã ele começaria a ser torturado para valer, no pau de arara. Mas eu conhecia o delegado do caso, fomos colegas na São Francisco e eu cheguei abraçando-o: "Como vai a família?!" Então contei-lhe o que você me disse sobre o poeta, sem citar seu nome, Guilherme, claro. Você tinha razão, o que aconteceu foi o seguinte: seu amigo foi a uma festa num apartamento e falou a noite toda com um rapaz desconhecido, e falou muito sobre política, teorias, ideais, etc. O rapaz só ouvia. Passado uns dias o rapaz desconhecido foi preso numa Operação Bandeirante, que fechou uma rua e pego dentro de um Volkswagen encontraram folhetos doutrinários, armas e coquetéis Molotov no carro. E encontraram com ele uma agenda em que estava escrito: "Em caso de necessidade procurar o... ( o nome e sobrenome do seu amigo) que é um bom camarada", e continha o nome do hotelzinho. Os policiais foram lá prenderam o poeta em seu quarto e aprenderam todos os seus livros, um deles publicado, e seus manuscritos, que estão avaliando. O tal rapaz militante está sendo desde então "interrogado" e sob tortura não comprometeu o seu amigo. O poeta está agora recomendado por mim e não vão mais encostar a mão nele, o delegado me prometeu. Ele vai ser acareado com o militante, e este, confirmando sua inocência, ele será solto. Você e sua mulher fiquem tranquilos, é coisa de só mais alguns dias. "
Passada mais uma semana o poeta de repente apareceu em casa. Estava acabado, muito magro, com profundas olheiras, os olhos muito parados, a fala mais lenta. Nós o abraçamos aliviados, mas impressionados... Entretanto não tardou a narrar em detalhes sua aventura. Ele contou:
"Eles invadiram meu quarto no hotel e com violência me levaram com meus livros e manuscritos. Me encapuzaram e me jogaram num carro. Rodaram por quinze minutos e depois, me retirando ao trancos do carro me conduziram por compridos corredores. Retiraram meu capuz me jogaram numa solitária escura, sem nenhuma janela. Na penumbra tentei distinguir os detalhes do "ambiente". Eu estava apavorado, claro. Mas pensei : " Vou ficar aqui talvez por muito tempo. Preciso fazer algo, senão vou enlouquecer." Então, procurei nos bolsos alguma coisa e só encontrei um maço de cigarros vazio. Dobrei-o meticulosamente muitas vezes e fiz com ele um papelote, quase um origami. Peguei uma ponta solta de um fio da meia e puxando-o desfiei uns 50cm. Cortando o fio com os dentes, amarrei o papelote, e ficando de pé no leito de cimento, prendi a outra ponta numa pequena rachadura no teto, fazendo uma espécie de móbile. Então, comecei a examinar a cela na penumbra, olhando muito de perto as paredes cobertas de inscrições, rabiscos e desenhos, alguns feitos provavelmente com sangue, eu percebi. Nada alentador. Decorada a minha cela, sentei-me no chão em posição de lotus e tentei meditar..."

"Passados uma meia hora, abriu-se subitamente o postigo, uma fresta estreita na horizontal na porta de ferro, e apareceu o rosto de um velhote de grandes bigodes de foca, com olhinhos maliciosos mas não maus, até humanos, eu percebi. Por alguma razão eu me senti em boas mãos. Ele me olhou um pouco e perguntou: "Hei, rapaz, porque é que você está aqui? O que é que você fez?" E eu: "Nada. Não fiz nada. Acho que é porque sou poeta... " Ele fechando um olho exclamou: "Poeta? Hiiiii..." E fez jocosamente aquele gesto obsceno com as mãos: top top. Fechou o postigo. Dali a uns segundos abriu novamente o postigo e perguntou: "Poeta, está com fome?" Surpreso eu respondi: "Estou." Ele fez um gesto de espera, com a palma da mão. Fechou o postigo. Passados uns cinco minutos, abriu-se novamente o postigo e o velho me passou pela fresta, com alguma dificuldade, um caprichado sanduíche de presunto, queijo e tomate, atravessado carinhosamente por um palito com uma azeitona espetada em cima. Deduzi que fora coletado aos poucos com contribuições das celas ao lado. Agradeci ao meu bom carcereiro e comi com prazer. Voltei a meditar, agora com alguma esperança... "
Passados mais um alguns minutos, uma voz no corredor gritou alto: "HEI, VOCÊ AÍ NO FUNDÃO! QUEM É VOCÊ? Eu respondi também gritando: "EU? SOU UM POETA!" Uns poucos segundos e novo grito: "POETA! MANDA O POEMA! " Comecei a declamar alto um poema meu:

"Sou um poeta, vago-simpático

meio lunático, psicopático;

sou um poeta de um povo angélico

triste, famélico psicodélico.

Sonho em colorido meu povo sofrido

ganhando um estojo de tintas berrantes

e o que era antes miséria e desgraça

renasce com graça coberto de flores.

Todo mundo pintado, contente da vida,

de fantasia o ano inteirinho..."

..................................................

E continuei declamando o poema até o fim. Quando terminei fez-se um silêncio de alguns segundos e começaram estalidos de dedos, ritmados, como uma ovação em código, crescente, longamente.... e um grito: "BRAVO, POETA!"

As lágrimas me começaram a escorrer..."
................................................................
Passado o dia e uma das mais negras noites da minha vida, na manhã seguinte a cela se abriu, vieram me buscar para interrogatório. 


Fui levado a uma sala que não era propriamente a sala de tortura que eu imaginava e temia. Não. Era a própria sala do delegado sentado à sua mesa, com uma cadeira na frente dela onde fui "convidado" a sentar a um gesto seu. Em cima da mesa estavam meus manuscritos empilhados e um exemplar do meu livro de poemas publicado, no centro, em frente ao delegado. Havia um ventilador à sua esquerda e até mesmo uma estante de livros atrás, com muitos volumes. Ao meu lado permaneceu de pé um agente carrancudo, homem enorme, verdadeiro armário. O delegado me olhou longamente, com ar de enfado, com os cotovelos na mesa, as mãos postas. Depois de um silêncio que me pareceu muito longo, ele falou:
"Então você é o poeta, hem!... Hummm... não tenho paciência, não vou perder meu tempo. Sabe o que a gente faz com poetas aqui? Não? A gente enterra aqui mesmo no quintal e cimenta. Tá cheio de poetas por aqui... Bem, vamos ver o que o poeta escreve... (abriu o livro numa determinada página que me pareceu marcada com um tira de papel) e leu:
"... o poeta leva seu cão raivoso a passear" . Ah! Ele gosta de passear com o cão raivoso! Sargento! Vamos buscar o nosso cão, que é bastante raivoso para eles darem um passeio! Não? Não. Acho que não dará certo... Esse passeio fazemos às vezes e não acaba bem, faz muita sujeira... Vejamos, outra poesia (abriu noutra página):
"Caminho contra o vento e a porrada do sargento... "
Ah! (exclamou o delegado) "Ele caminha contra o vento! Sargento, liga o ventilador e arma a porrada. O poeta vai caminhar contra! "
O sargento ligou o ventilador e ergueu o braço e o enorme punho fechado no ar."
"Fui levado a uma sala que não era propriamente a sala de tortura que eu imaginava e temia. Não. Era a própria sala do delegado sentado à sua mesa, com uma cadeira na frente dela onde fui "convidado" a sentar a um gesto seu. Em cima da mesa estavam meus manuscritos empilhados e um exemplar do meu livro de poemas publicado, no centro, em frente ao delegado. Havia um ventilador à sua esquerda e até mesmo uma estante de livros atrás, com muitos volumes. Ao meu lado permaneceu de pé um agente carrancudo, homem enorme, verdadeiro armário. O delegado me olhou longamente, com ar de enfado, com os cotovelos na mesa, as mãos postas. Depois de um silêncio que me pareceu muito longo, ele falou:
"Então você é o poeta, hem!... Hummm... não tenho paciência, não vou perder meu tempo. Sabe o que a gente faz com poetas aqui? Não? A gente enterra aqui mesmo no quintal e cimenta. Tá cheio de poetas por aqui... Bem, vamos ver o que o poeta escreve... (abriu o livro numa determinada página que me pareceu marcada com um tira de papel) e leu:
"... o poeta leva seu cão raivoso a passear" . Ah! Ele gosta de passear com o cão raivoso! Sargento! Vamos buscar o nosso cão, que é bastante raivoso para eles darem um passeio! Não? Não. Acho que não dará certo... Esse passeio fazemos às vezes e não acaba bem, faz muita sujeira... Vejamos, outra poesia (abriu noutra página):
"Caminho contra o vento e a porrada do sargento... "
Ah! (exclamou o delegado) "Ele caminha contra o vento! Sargento, liga o ventilador e arma a porrada. O poeta vai caminhar contra! "
O sargento ligou o ventilador e ergueu o braço e o enorme punho fechado no ar.
Eu gelei. Fechei os olhos. Mas nada aconteceu. Abri os olhos e acho que os arregalei. O delegado soltou uma gargalhada sinistra enquanto o "sargento" voltava lentamente à sua posição normal, de braços cruzados, ao meu lado. O delegado estancou de súbito a sua risada e, sem transição, fechou a cara. Disse: "Chega! Já cansei. Tire esse cara daqui. " E fui levado de volta, quase arrastado.
Entretanto, Guilherme, não me levaram para o "fundão", mas para uma grande cela coletiva, onde estavam os "companheiros", já bastante ambientados e organizados, com regras de convívio coletivo, turnos alternados de usos das melhores camas, e até um fogãozinho jacaré onde eles mesmo faziam comida! Era a cela dos "cabeça", os intelectuais. Me receberam muito bem, com muita camaradagem, como se eu fosse um ativista como eles. Faziam muitas brincadeiras uns com os outros e riam muito. Dai pra diante a coisa melhoraria um pouco, se não fosse o fato de, de vez em quando virem agentes armados buscar algum companheiro, que não voltava mais. Nessas ocasiões se fazia um protesto ruidoso e depois um silêncio na cela que durava uma hora. Mas quando se sabia que um companheiro era buscado para ser solto (não sei como eles sabiam distinguir isso) , quando este se despedia emocionado, de todos, abraçando cada um, saía acompanhado de um alto coro de todos, cantando os versos imortais de Caymmi :


"Minha jangada vai partir por mar,
Vou trabalhar meu bem querer.
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
um peixe bom eu vou trazer.
Meus companheiros também vão voltar
e a Deus do céu vamos agradecer.. "



Era de chorar, Guilherme. Pelo menos eu chorei, da primeira vez que aconteceu...
Um dia me buscaram, eu não sabia para quê, temi o pior, mas fui apenas colocado na frente de um rapaz que reconheci com dificuldade ter conhecido superficialmente numa festa. Ele estava quase irreconhecível, com o rosto coberto de hematomas. Mas fomos apenas acareados e o rapaz declarou ser eu inocente, apenas tendo tido um papo superficial comigo naquela festa, sem nunca mais termos nos visto. Fui levado de volta à cela coletiva, e não soube mais daquele pobre rapaz.
Assim se passaram muitos dias, perdi a conta, depois soube que foram apenas dez. Chegou o dia em que me buscaram na cela e para minha própria despedida emocionada os companheiros entoaram em coro os versos do pescador...
Fui libertado e não acreditava... Como? Devolveram até meus livros e manuscritos, e voltei para o meu hotelzinho espelunca. E fiquei sentado na cama, atônito por um dia inteiro, me pareceu. Então me lembrei de vocês, meus amigos, e estou aqui... " 



Elisa e e e ficamos tremendamente impressionados com a narrativa do nosso amigo, e emocionados, claro. Então eu disse a ele:
"Olhe, você não sabe mas foi salvo e solto pelo advogado dr Idel Aronis, e nós temos que ir lá, juntos, agradecer a ele. Ele vai ficar muito contente com isso e em conhecer você pessoalmente, garanto. ´Vou telefonar para ele para marcarmos hora. Pode ser?
O poeta ficou surpreso, entendeu naquele momento porquê foi solto. Ficou perplexo e disse: "Sim, claro, vamos lá logo, o mais cedo possível. Eu não sabia... "
E ficou me olhando, constrangido... me pareceu.
Marcada a hora por telefone com o dr Idel, nos encontramos no dia seguinte, os três, na sala dele do seu escritório de advocacia. Foi um momento muito emocionado, em que nós dois fomos abraçados pelo grande advogado, homem alto e forte, que se declarou enormemente gratificado com o desfecho de tudo aquilo, sobretudo com o privilégio, como ele disse, de salvar um poeta.
A propósito, quando procurei o dr Idel, quando me dei conta do perigo que o meu amigo corria, eu lhe disse que não tinha dinheiro para pagar os seus inestimáveis serviços e perguntei se ele aceitaria um quadro meu em pagamento. O dr Idel respondeu: " Claro, meu amigo, eu adoro arte e aprecio muito as suas obras, que noto por aí nas galerias, desde que o conheci em 1965 naquele episódio do porte de arma, que por sinal não sei como acabou, pois você só reapareceu agora, com este caso. Eu coleciono quadros e frequento os leilões da Collectio e quase arrematei um dia uma tela sua lá."


Ouvindo isso eu prometi ao dr Idel Aronis, um quadro a óleo meu em agradecimento. Isto se tornaria um outro "caso", que contarei nas minhas Memórias, certamente, algum dia.
Quanto ao poeta, retomamos a nossa amizade, que a propósito, nunca mais foi a mesma, pois percebi daí por diante, um certo retraimento na atitude do poeta em relação a mim, uma espécie de constrangimento, infelizmente, que não me atrevo a interpretar...
O Poeta fez um grande carreira, se tornou famoso (talvez menos do que merece) e teve recentemente suas Obras Completas publicadas em muitos volumes por uma grande Editora. Está hoje com 80 anos, e permanece muito magro e jovem de espírito. Devo finalizar dizendo que este caso também me foi muito gratificante, tanto mais que se trata de um grande poeta, mesmo, enorme, que escreve em prosa e verso como um deus da escrita. Daqueles poucos que aparecem em cada geração,
 conquanto sua crença idealista num utópico socialismo revele uma certa ingenuidade, o que não chega a ser um pecado num tão grande poeta.


FIM


quarta-feira, 22 de março de 2017

A Passagem do Tempo (crônica de Guilherme de Faria)

Nesta minha Oscar Freire envelheço e por causa da Internet não posso dizer como Mario de Andrade da sua Lopes Chaves, que "nem sei quem foi"... Entretanto me acompanha igual perplexidade, não tanto pela lenta metamorfose das paredes, das vitrines e das calçadas, mas pelo visível envelhecimento dos seguranças dessas lojas, que me denunciam o meu próprio envelhecimento. Também o desaparecimento de certos personagens, como o meu vizinho de meia idade, homem baixinho e gordo, que por longo tempo empurrou a cadeira de rodas de um seu decrépito e visivelmente atrabiliário irmão, até que desapareceram, quase imperceptivelmente, a cadeira e o irmão. Então fui interceptado na calçada durante anos pelo baixinho (que também envelhecia lentamente) com seu andar lento e pesado, com uma indefectível bolsa estilo anos 60 a tiracolo, para me mostrar um caderninho sem pauta onde ele aplicadamente desenhava mal e escrevia coisas que, cheio de deferência, me chamando de "professor", submetia à minha constrangida apreciação. Também ele sumiu, afinal, um dia, e fiquei sabendo pelo meu envelhecido porteiro, que o baixinho se deteriorara de uma maneira terrível, se desfazendo aos poucos, literalmente, em pedaços... Assim também as notícias de falecimentos de artistas de minha geração, que se vão inexoravelmente, dois ou três por ano, e são lembrados com respeito nos dois ou três primeiros meses... Tudo passa, "o tempo voa" e nos agarramos na aba de sua velha casaca, ou simplesmente desenhamos nos nossos caderninhos sem pauta, para mostrar aos nossos vizinhos, os outros seres humanos, para que aprovem, talvez para que se lembrem um dia, de nós....

sábado, 18 de março de 2017

Desventuras do artista quando jovem.


(das Memórias de Guilherme de Faria)
1
No final do ano de 1969 fui à Suíça para encontrar-me com uma namorada, linda garota de olhos cor de mel, filha de pai suíço (e mãe carioca), com quem eu tinha praticamente vivido em São Paulo por um ano, e que tendo seu pai se empenhado em afastá-la de mim, um artista pé-rapado paulistano, antecipara a ida dela (que falava alemão) à cidade natal dele, Basel, com um emprego que com seus contatos garantiu para ela num grande escritório de arquitetura. Entretanto combináramos, ela e eu, nos encontrarmos lá para vivermos juntos viajando pela Europa depois de cumprido por ela aquele estágio obrigatório nas condições que seu pai impusera. Demorei uns três meses para liquidar minhas parcas posses, minha parte num pequeno apartamento que eu tinha (em sociedade com minha segunda ex-mulher) além de meus móveis e meus quadros para poder ter dinheiro para a passagem e pelo menos para o primeiro ano com ela naquela cidade antes de sairmos pelo mundo, como era o seu sonho. Entretanto, como eu bebia demais, aquilo tudo era demais para mim, acima das minhas forças, principalmente porque eu já me encontrava no estágio alcoólico de uma certa depressão crônica, permanente. Nos três meses que me separaram da minha namorada "suiça", eu, carente, sem saber viver sozinho me envolvera com outra moça, de vinte anos, filha de pai armênio, que viria a ser a minha quarta mulher, a futura mãe de três de meus filhos. Foi esta que me levou no seu fusca, chorando, numa corrida patética ao aeroporto, para me entregar altruisticamente à minha namorada já "anterior" sem eu reconhecer. Resultado: eu tomaria aquele avião completamente dividido, me sentindo miseravelmente deprimido e já pensando em voltar. Lembro-me que antes do embarque as pessoas me olhavam muito pelo meu aspecto: cabelos e barba compridos, com uma espécie de sobretudo preto de lã que parecia uma casaca do século anterior, e que me dava, imagino, a aparência sombria de um jovem russo saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie de Raskolnicov do Crime e Castigo. Estávamos em plena ditadura militar, e com sequestros que haviam de aviões por "terroristas", as revistas eram severas. Sobre minhas roupas na mala havia minha caixa de tintas e pincéis com uma pequena faca sem ponta que eu usava às vezes como espátula, e que foi confiscada na revista, chamando mais a atenção para a minha constrangida pessoa. Dentro do avião, um português de meia idade, muito desenvolto, sentado ao meu lado puxou conversa. Perguntou: "Por que vais à Basiléia? Não tem nada lá, nem montanhas, e os suíços são uns "pizzas frias!" Aquilo me deixou mais deprimido ainda...
Depois do longo voo, torturante naquelas circunstâncias, sobrevoamos uma Paris noturna, que eu não haveria de conhecer, pois pousamos em Orly, onde sem sair do aeroporto fizemos baldeação e chegamos a Basel de noite, sem dar para perceber nada do aspecto da cidade. Tomei um táxi e pedi, em inglês, a um motorista mudo e insondável, para me levar a um hotel bem modesto e barato, onde me registrei sempre me sentindo observado com desconfiança, para passar a noite, esperando o amanhecer para telefonar para o escritório de Arquitetura Burkhardt para chamar minha namorada para ela me buscar. Bem cedinho telefonei do hotel e esperei-a no refeitório tomando o café da manhã. Nem dez minutos se passaram e ela entrou no pequeno saguão, andando em minha direção. Não era mais ela! Em três meses havia se passado uma vida sem eu perceber... ela ainda era linda, mas não a reconheci mais dentro de mim. Estava tudo perdido, eu me sentia trincado, numa situação falsa, já não reconhecia meus sentimentos, ela não merecia isto, era eu o culpado, eu só queria sumir, voltar ao meu ateliê, colar os cacos, me retomar...
Ela me levou até o pequeno prédio de três andares, de apartamentos minúsculos onde ela alugava uma espécie de kitchnette, e em que o zelador ou proprietário, mais um suíço calado e sinistro, também me olhava com olhar insondável, e em que, eu, já ligeiramente paranoico, via desconfiança e desprezo. Minha namorada me deixaria ali sozinho, saindo cedo todos os dias para ir ao trabalho, enquanto eu tentava desenhar em papéis sobre uma pequena mesa, ou tomava banho num banheira com uma ducha manual absurda com feitio de telefone, ou então saía para conhecer a cidade, demasiado limpa, às raias da assepsia, muito triste sob um céu baixo de chumbo sob o qual colegiais adolescentes, meninos e meninas louros, de bicicleta, pedalavam tranquilos, certamente dirigindo-se à escola, sem contudo alegrar as ruas em que predominava o crocitar lúgubre dos corvos que dominavam os ares e as árvores desgalhadas naquele fim de outono... crow, crow, crow...
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Naqueles dias, naquela cidade triste, naquele quarto estranho, ouvindo o crocitar dos corvos da minha depressão, eu só pensava em voltar ao Brasil. Eu saía de noite com minha namorada e íamos a cafés ou bistrôs, onde bebíamos vinho. Sem eu perceber, o álcool deteriorava mais ainda meu estado de espírito. Para piorar, chegavam quase diariamente de São Paulo cartas para mim, da nova rival da minha namorada, aumentando a minha divisão e meu mal estar. Minha namorada interceptou uma dessas cartas, lutamos por ela, e desisti. Era uma carta romanticamente estratégica, calculadamente sentimental e manipuladora, e ela, furiosa, leu-a em voz alta, ironizando, ridicularizando-a. Minha situação psicológica ficou insuportável pelo conflito interno e também pelo sentimento de culpa. Uma tarde fui ao banco retirar dinheiro e um funcionário, jovem suíço-brasileiro, talvez gerente, observando-me tão nitidamente deprimido parecendo um farrapo humano, se aproximou de mim e disse baixinho: "Rapaz, posso lhe apresentar um conterrâneo seu que reúne compatriotas em sua casa, para reuniões de apoio"... e deu-me um cartão com um nome e telefone. Percebi que ele deduziu (erroneamente) ser eu um militante de esquerda, certamente torturado, exilado. Agradeci a esta boa alma, me sentindo ainda mais confuso, envergonhado... Então decidi voltar a São Paulo. Não havia se passado mais que um mês e meio. Ela, a duras penas aceitou minha partida dizendo: "Então vá, "coizinho" (ela me chamava assim), pode ir embora, mas não volte para aquela ditadura, para aquele país horrível! Vá para Paris, que está a apenas duas horas de trem, daqui. Se não for, como artista vai se arrepender para o resto da vida!"
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...

Então, fomos de trem para Zurique onde eu pegaria um avião para o Brasil. Lembro-me bem da viagem de trem, onde eu já me senti bastante aliviado por estar voltando. Entretanto, era ela que estava me levando ao encontro da outra, para me entregar para a outra, numa estranha simetria inversa, que me parecia bastante sugestiva. De quê? Da generosidade e altruísmo da mulheres quando amam de verdade. Estarei enganado? Eu, fragilizado, na qualidade de "homem-objeto" em que me encontrava, dependia dessa generosidade, eu estava em frangalhos...
Em Zurique, comprada a passagem, eu teria que esperar muitas horas para o voo, então fomos passear, conhecer um pouco a cidade, que esta sim me pareceu belíssima, imponente, com um magnífico lago onde nadavam cisnes brancos, vistos da ponte maravilhosa onde ondulavam em mastros flâmulas de aspecto medieval. Percebia-se a riqueza daquela cidade em tudo, nas vitrines das lojas em que, quando se via um quadro exposto, por exemplo um Modigliani, era um original mesmo, em magnífica moldura, e não uma cópia ou um poster. Outras apresentavam na decoração espadas, montantes, alabardas, elmos e armaduras medievais verdadeiras, nunca cópias. Eu me sentia pequeno, um jeca, um terceiro-mundista subdesenvolvido diante daquilo tudo. Fomos fazer hora num grande restaurante onde em compridas mesas coletivas, os convivas cantavam uma espécie de brinde, em coro, alegremente erguendo grandes canecos de cerveja, em que depois de uma frase curta levemente modificada a cada vez, o coro repetia algo como Saf Haus, Saf Haus, Saf Haus (Quem nasceu em Janeiro... chupa tudo, chupa tudo, chupa tudo... Quem nasceu em Dezembro...) Um dia eu iria cantar isso para meus filhos se divertirem... E foi ela, minha abandonada namorada, que a meu pedido traduziu o significado daquela canção, que me parecia uma amostra da distante alegria do mundo, da vida dos normais, dos leves e despreocupados, e talvez muito mais íntegros habitantes do mundo real...
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
Aquilo afinal me fez bem, melhorando um pouquinho a minha auto-estima, já que sempre fui consciente de falar um português perfeito com dicção bem articulada a minha vida toda, fruto talvez das minhas leituras dos clássicos. Afinal eu não era tão... assim, um pé rapado, pelo menos não na minha terra...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
FIM

quarta-feira, 15 de março de 2017

Retrato de um artista quando jovem

Estive pensando em algumas figuras de minha juventude, que se esvaeceram, se distanciaram e desapareceram numa espécie de neblina da memória, mas que voltam às vezes como espectros, aqueles que morreram por seus excessos, tão próprios da nossa geração. Hoje sonhei pela primeira vez com o Marcio Mattar, breve amizade dos meus vinte anos, um jovem artista do Rio de Janeiro, natural da Zona Norte (Rio Comprido) que apareceu como um cometa em São Paulo, no começo dos anos 60, excepcionalmente belo e encantador, conquistando facilmente amigos no ambiente artístico da nossa "Paulicéia Desvairada ". Lembro de que uma vez, eu morando num ateliê- porão ( meu "Bateau-Lavoir" paulistano da rua Mato Grosso), praticamente na miséria, o levei um dia à casa de minha mãe para filarmos uma bóia, e ela, encantada com ele, praticamente o queria adotar. Entretanto, Marcio bebia com uma sede avassaladora. Dois anos mais tarde, eu já casado com Jomara, fomos visitá-lo, próspero, na sua casa enorme de Santa Tereza, onde ele fazia sucesso com móveis belíssimos, rústicos, de madeira pesada que ele construía com as próprias mãos, queimando a peroba com maçarico e depois esfregando com escovas de aço, num trabalho sujo e pesadíssimo, que ele, atlético e às custas da energia adicional do álcool, conseguia realizar entre ressacas homéricas e dolorosíssimas. Ficamos hospedados, Jomara e eu, na casa dele e vimos esse trabalho impossível, feito praticamente sozinho, que o sustentava no mundo dos seus ricos clientes, e talvez falsos amigos emergentes da Zona Sul do Rio, numa festa contínua de álcool e drogas, que ele entremeava com seu labor titânico. Mas certamente foi o álcool que o exauriu, e ele morreu por volta dos trinta anos, de cirrose e exaustão. Que posso dizer disso? Marcio viveu intensamente e se queimou como uma tocha, numa imensa voracidade de vida, arte, trabalho, prazeres e desespero. Quanta angústia devia sentir, sem nunca se queixar!... Era um instintivo, um primitivo de nova era, e por isso se consumiu mais rapidamente, enquanto nós, negociávamos com o álcool para durar mais, certamente por uma certa malícia intelectual, senão covardia mesmo... 
(das Memórias de Guilherme de Faria)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Como já sabiam os gregos e romanos (e os antigos em geral), a alma de uma pessoa, homem ou mulher, é sempre uma mulher. É por isso que a Alma Welt, sendo minha anima viva, é profundamente feminina (coisa que eu mesmo, no todo, não o sou) a despeito de faltar nela futilidade e vaidade, coisas tipicamente femininas que no entanto ninguém até hoje cobrou ou sentiu falta nela. É curioso ver como as leitoras se identificam com ela, mesmo sem estas duas características. Talvez seja porque tais atributos negativos não sejam puramente femininos e os homens também os possuam. De qualquer modo, no terreno sublimado da poesia essas duas coisas não entrem em linha de conta senão como humor ou autocrítica... (das Memórias de Guilherme de Faria)

terça-feira, 7 de março de 2017

Da grandeza de Servir

 No último domingo, terminado o concerto das Bachianas de Villa-Lobos, no Municipal, caía uma intensa chuva que prendeu toda a platéia, de pé no saguão do teatro, por pelo menos meia hora esperando a chuva passar. Quando amainou a enfrentamos, minha irmã e eu até aquela galeria em frente, onde era a antiga Light (sou também antigo), que já estava fechando, mas que nos informaram que havia ali dentro uma padaria que ainda estava servindo. Havia uma única mesa desocupada e cheia dos restos de refeição anterior. Para garanti-la sentei-me meio constrangido enquanto minha irmã ficava numa pequena mas demorada fila para fazer o pedido e pagar. Como ela demorava, virei-me para uma rapaz que estava atrás de mim, de pé meio curvado sobre a a mesa de uns rapazes do lado, e julgando-o um garçom pela sua camisa branca, estranha, sem gola, de tipo russo, pedi-lhe delicadamente que aproveitasse para tirar a minha mesa. O rapaz disse: "Senhor, não trabalho aqui, também sou cliente, eu sou da orquestra. Eu ri de mim mesmo e desculpei-me muito, pelo engano. Depois de um minuto, voltei-me para ele e perguntei: "Você é de que orquestra?" E ele: "do Municipal... " Então eu disse: "Ah! Parabéns! Acabamos de sair de lá! Que maravilha de orquestra! Você está de parabéns! Qual é o seu Instrumento? "Viola", ele respondeu. E eu (para mostrar conhecimento): " Ah aquele violino grande, mais grave, entre o violino e o cello...Gosto muito! Parabéns mesmo! " E a conversa acabou por aí...
Entretanto, como minha irmã demorava, mais uns cinco minutos e um dos rapazes da mesa ao lado, levantou-se e disse: "Não sou garçom, senhor, mas vou retirar a sua mesa." E o fez rapidamente, enquanto eu agradecia, surpreso com tanta gentileza, que expressei e agradeci. Depois de um momento dei-me conta de que naquela mesa eram todos músicos da Orquestra Sinfônica, que eu não havia atinado por serem tão jovens. Aquele rapaz, tão prestativo... quereria ele também um elogio? Quando pensei isso, eles já tinham levantado e saído.
Entretanto ficou-me a impressão de modéstia e prestatividade que deve ser a tônica de todo músico de orquestra, humildes na servidão e grandeza de seu ofício virtuose, no anonimato tão conformado mas tão pleno de recompensa íntima pela própria Música... e pelo aplauso sincero do público. Honra aos músicos anônimos, servidores do Mundo...


( das Memórias de Guilherme de Faria)

domingo, 5 de março de 2017

CASA COM ELA!

Estávamos em 1968, e havia no ar uma revolução social dos costumes e do comportamento jovem. Eu como artista em lenta ascensão, livre do meu primeiro "casamento" fracassado por imaturidade, confesso aproveitava ao máximo as oportunidades amorosas e sexuais que se me apresentavam. Num certo momento, conheci na casa do meu marchand italiano Baccaro, uma garota linda que me pareceu deslumbrante por suas pernas compridas, fora do padrão brasileiro de então. Era do Sul, de Santa Catarina, e seu sotaque também me encantava. Imediatamente passamos a noite juntos e no dia seguinte ela me levou para a sua casa em Florianópolis (fomos de ônibus, claro). Chegamos de noite. Era uma casinha de madeira com um sótão encantador, e depois dela me apresentar apressada e impacientemente sua mãe, uma mulher simples com cara de camponesa alemã, subimos para aquele sótão e lá ficamos numa farra inebriante para mim, sem descer até o dia seguinte, quando acordei nos seus braços com o som de uma verdadeira música vocal que vinha lá de baixo, da cozinha. Era um uma espécie de monólogo ou relato, na mais bela voz e sotaque que eu jamais ouvira. Fiquei tão curioso que me desvencilhei dos braços de minha jovem amante e vestindo-me apressadamente desci daquele sótão e me deparei com uma empregadinha muito branca, jovem, que falava com a sua patroa. Elogiei tanto o seu modo de falar, seu sotaque, verdadeira música para os meus ouvidos, que, surpresa, ela me informou ser descendente de portugueses açorianos. Muitas décadas depois, eu iria emprestar esse sotaque à minha suprema criação, a poetisa Alma Welt, por conta de sua ascendência açoriana materna, conjugada com as compridas pernas alemãs de seu lado paterno...
Mas, como acabou a minha aventura catarinense? Pateticamente... Convidado a sentar na mesa da cozinha para o café da manhã antes que minha namorada descesse, a senhora, em lágrimas, começou a me implorar pela sua filha: "Casa com ela, meu filho, casa com ela! Tu pareces ser um bom rapaz, educado! Pelo amor de Deus, casa com ela!" Eu, constrangidíssimo, me vi numa situação inusitada, isto é, verdadeira, diante do sonho falso em que estava vivendo. Percebi, num átimo, que a revolução dos costumes não atingira todo mundo, isto é, a geração dos nossos pais... e como os fazíamos sofrer! Respondi à senhora que me agarrava as mãos implorando que "salvasse" sua filha "perdida": "Senhora, eu amo sua filha e casaria se pudesse, mas sou casado, isto é separado, não posso me casar mais (era verdade)..." A senhora ficou perplexa, desolada, tanto mais que para ela, vivermos juntos eu e sua filha, em pecado, não seria solução. Minha jovem "hospedeira" desceu do sotão pela escadinha de madeira, nesse momento, fuzilando com o olhos sua mãe "intrusa", que abaixando os olhos recolheu as mãos que agarravam as minhas. Não preciso nem contar como dali por diante, envergonhado, eu só pensava em cair fora, me desvencilhar daquela relação perigosa, ameaçadora da minha liberdade recém conquistada. Fiquei subitamente consciente de estar no fio de uma lâmina, na fronteira de dois mundos... e o mundo velho sofria por nós, pelos jovens afoitos que nós éramos, ávidos de vida e de prazeres, pisando nas velhas cabeças... almejando um paraíso duvidoso, que parecia agora ao nosso alcance...
( das Memórias de Guilherme de Faria)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Quando eu era jovem frequentava bares, festas e joguei muita conversa fora, embora só me sentasse com artistas e intelectuais. Mas beberrões que éramos, acabávamos nos perdendo em delírios e na névoa alcóolica que se seguia. Quanta vaidade, quanto desespero... Quanta dissipação, como diriam os antigos! Aos poucos, a mente encharcada pelo álcool começou a reclamar e vieram os problemas psíquicos, as depressões, mas sobretudo as angústias. Devo confessar que nesse processo, destruí quatro casamentos. No final de 1976 me internei espontaneamente, contra a vontade da minha terceira esposa, que não via razão para isso (!!), embora, sofredora sem o reconhecer, já tivesse derramado garrafas inteiras na pia. Era eu que não me aguentava mais... Depois de mais duas internações, finalmente aprendi a lição e em Abril de 1981 abandonei definitivamente a bebida e o cigarro, tabagista que também era... Começava uma nova vida, em que, com surpresa notei que não precisava de nenhum aditivo, e que meu desenho, meu traço já consolidado e até precocemente consagrado, nem sequer mudou de qualidade, expressão ou timbre. Como um último baluarte, minha arte não havia sido atingida, e eu não havia comprometido minha reputação, por incrível que pareça. Ao artista se perdoa muita coisa... Quando me confrontei mais tarde com minhas ex, ouvi de cada uma delas (acreditem se quiserem): " Ora, você não é alcoólatra... Você não bebia tanto assim!" Pobres mulheres maravilhosas! Não faziam e não fazem a menor ideia do que é a trajetória interior desastrosa do seu bêbado amado..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

O Elogio da Virtualidade

"Aprecio extremamente a sociabilidade virtual das redes sociais. A esta altura da vida considero-a a forma ideal de relacionamento, sem muita aproximação (se não quisermos) mas sobretudo sem grandes intimidades. Há até mesmo, se soubermos manter, uma certa cerimônia como havia nas sociabilidades do passado, antes de desembocarmos na promiscuidade da Era das Massas. Podemos escolher a nossa melhor face, o nosso melhor ângulo, e isso nos aprimora. Estou sendo cínico? Talvez. Depois de muito conviver na vida ao vivo e a cores, posso comparar e reconhecer na nossa Era Virtual uma evolução que veio para ficar. Mas garanto que não me alienei e que conheço bem o ser humano. Por isso pude me retirar aos poucos e escrever com empatia e amor sobre ele, mais ao menos como um monge laico, se isso houvesse. Enquanto a sociedade, lá fora, mergulha na banalidade dos supermercados, trânsito, comércios, firmas e produtos... eu reconstruo aos poucos, no meu pequeno ateliê, o mundo de encantamento e poesia de minha infância interior, nunca esquecida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AS INVASÕES BÁRBARAS
Vivemos numa era semelhante à das "invasões bárbaras" que marcaram o fim do Império Romano. Apenas as novas invasões vêm de dentro, de nossa própria barbárie latente, em erupção. Nossa decadência e degradação não advém de causas externas...
Com a profusão de escândalos financeiros envolvendo empresas e governos, estou começando a desconfiar que absolutamente toda atividade econômica de grande porte tem uma raiz podre. Isto é uma crítica ao capitalismo? Não! Estou mais propenso à teoria do camelo passando pelo buraco de uma agulha, inusitado comentário cínico vindo do Mestre... que não deixa de conter um certo grau de aceitação. É a condição humana que permeia a Economia, como tudo o mais . Não esqueçamos que a riqueza dos Estados Unidos foi fundada por magnatas que eram grandes bandidos. (Guilherme de Faria)

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Quando a minha filha mais nova tinha um ano, sua mãe mudou-se provisoriamente para um apartamento na rua Consolação, entre Oscar Freire e Estados Unidos, enquanto seu irmão, pagando o aluguel usava o jeitoso apartamento dela, na mesma quadra, ali perto, para instalar um pequena firma legendadora de filmes VHS. Entretanto nós é que haveríamos de viver uma pequena história de terror. Logo minha filhinha, bebê, começou a adoecer, misteriosamente, e eu as visitando diariamente no novo apartamento, sentia um clima pesado, mais que uma tristeza, aquilo que chamamos de "baixo-astral". Passado pouco mais de um mês, a coisa se tornando perigosa, o pediatra sem descobrir a causa da doença do bebê, eu comecei a insistir para que se mudassem logo dali, que o apartamento era insalubre de algum modo, embora não apresentasse nenhuma mancha de umidade em parte alguma. Minha ex-mulher, preocupada e sentindo também a atmosfera pesada daquele apartamento, afinal pediu de volta ao seu irmão seu antigo ap e começamos a mudança. Retiramos os móveis, e o apartamento já quase vazio, me ocorreu deslocar um sofá que não era nosso, e que já estava ali no lugar adequado para tal, desde a nossa visita de interessados no aluguel, e no qual nos sentávamos para ver televisão. Demos um grito de susto. Ao deslocarmos o sofá vimos na parede atrás dele, a palavra MORTE, nítida, não pintada, mas em relevo do reboco branco estufado, sem qualquer vestígio da causa, pois não havia mofo ou mancha de umidade. Algo de um sinistro extremo que nos apavorou. Chamamos imediatamente o zelador do prédio, e indignados, mostramos aquilo para ele. O zelador sem surpresa respondeu: "É... aqui morou um um senhor estrangeiro, velho, que mal falava nossa língua, com um sotaque alemão, silencioso, completamente solitário, não era visitado por ninguém. Saía só para comprar comida. Um dia os vizinhos notaram que ele não saía há uma semana, e me chamaram. Batemos, ninguém atendia e afinal arrombamos a porta. O senhor estava morto no sofá havia muitos dias ..." Revoltado, eu indaguei :" E o senhor, por quê não nos contou isso quando viemos ver o apartamento, com criança de colo? E o zelador então, respondeu: " No começo contávamos, depois fomos pagos pela proprietária para não revelar, porque os interessados desistiam imediatamente..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sonetinho de Alcaçuz (de Guilherme de Faria)

O mundo sempre deixa para trás
As hordas de bandidos de capuz,
Outrora residentes de Alcatraz
Agora residentes de Alcaçuz.

Na ilustre esteve preso o Al Capone
Por um contador que era alcaguete,
E deu com a língua ao telefone
Ou enquanto comia um espaguetti...

Cada povo tem a Alca que merece,
Substâncias alcalinas e alcaloides
Substituem do povo o pão e a prece.

E vemos uma enorme decadência,
Continuamos cada vez mais debiloides
Mas os mesmos infelizes em essência...

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10/02/2017

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Nos anos 60, meus desenhos já começando a ser bem recebidos pelos colecionadores de São Paulo, fui contatado pelo grande empresário e colecionador Max Feffer (agora há décadas falecido) que adquiriu um desenho meu que representava um monge franciscano de costas. Era um desenho dos melhores e ainda me lembro dele. Sinceramente, a tonsura da calva e a cordinha que amarrava a batina do monge eram um prodígio de gestualidade zen como duas pinceladas de caligrafia japonesa que davam movimento à figura estática. Creio que é um desenho que me orgulharia ainda hoje e eu pude vê-lo numa parede da mansão do Max no Jardim Europa, naquela oportunidade. E eu estava em magnífica companhia naquelas paredes que eram dominadas por grandes telas do genial Di Cavalcanti, em quantidade, em todas as salas. Admirado, eu perguntei como ele tinha tantas obras do melhor período do Mestre e assim, de grandes formatos. Max respondeu: "Eu podia ter adquirido muitas mais... " E eu, curioso por sabê-lo um homem rico, e que dinheiro não seria obstáculo, perguntei : "Como?" E ele respondeu: "O Di vinha sempre me oferecer seu quadros no meu escritório, e às vezes eu não comprava! "Por quê?" - admirado, eu insisti. E o Max respondeu: "Porque ele não sabia se comportar..."
Fiquei mudo diante de tal resposta, e daí por diante receoso de abrir a boca. Eu também precisava tanto que os ricos me comprassem, e percebi como é difícil entender o protocolo dos reis. Quis logo me retirar e quase me dirigi para a porta de serviço. Me despedi, saí, voltei para casa a pé, muito distante, e por uma razão ou por outra nunca mais vi o Max. Talvez devesse também ter me comportado mal... (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Pode parecer estranho, mas olhando a esta altura a minha vida, o meu passado, hoje em dia posso perceber que 90% é, de algum modo, memória do que deixei de fazer, de agir e de falar, do que recalquei e calei. Isso é próprio dos verdadeiros tímidos, aqueles cuja timidez passa despercebida por serem agitados, enfáticos e falastrões. Contradição? Paradoxo? Sim, mas me parece agora minha verdade oculta. Mas não será assim com a maioria, na vida em sociedade? Somente o misantropo dá vazão imediata aos seus pensamentos diante do outro e se destampa em franqueza absoluta, fruto tanto de sua coragem quanto de sua intolerância. Eu, no fundo, não passava de um rapaz bem educado, que seria bem comportado se não tivesse descoberto a liberação alcoólica e tabágica. Um pequeno idiota, no fundo, cheio de brilho e fagulhas, perdoado na minha passagem, talvez, pelo talento..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Tendo deixado a casa materna como jovem artista tentando ser independente, pobre como Jó, eu saía do meu pequeno ateliê, um porão infecto, que eu chamava meu "Bateau Lavoir", e me dirigia na hora do jantar para a rua São Luiz, onde era convidado a sentar-me num certo restaurante na mesa de calçada de uns jornalistas do Estadão, que me pagavam o jantar em troca do meu papo e dos desenhos que eu lhes presenteava e que pareciam admirar muito. Logo me aconselhariam a vender ilustrações para o famoso Suplemento Literário (de saudosa memória) coisa que fiz por vezes durante uns poucos anos. Uma vez, estava também na mesa um jovem bonito, nitidamente de outra classe social, que não abria a boca, enquanto nós falávamos sem parar sobre Arte, Literatura e Cinema. Então eu, incomodado, perguntei-lhe: "E você, não gosta de Arte?" O rapaz, carrancudo, respondeu: "De arte eu gosto, eu não gosto é de artista". Fiquei sem graça. Foi a primeira vez que me senti agredido, embora tenha percebido claramente porquê. Eu era jovem como ele, era também bonito mas tinha outras coisas para vender... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
Dizem alguns que o facebook é meramente uma rede social. Mas sendo assim, serve pra muita coisa, até para se fazer pressão política. Quanto a mim, artista solitário e pouco sociável, desde o princípio vi uma oportunidade de ter nele minha galeria de arte, meu show-room, minha Editora e meu palco. E aparentemente venho obtendo nisso, há sete anos, relativo sucesso. A um artista não peçam senão arte. Entretanto, arte é vida... Devo reiterar que o que posto aqui sou mais eu do que eu mesmo. Se quiserem sociabilidade com um artista, conhecê-lo de verdade, mirem suas obras, leiam seus textos. Em Arte não há modos de se mentir...
"A vida de cada pessoa no mundo é única e inimitável ou existe o "homem massa", também chamado "o homem-formiga", sem originalidade alguma, forjado pela propaganda, pelas modas ou pelos costumes? Uma vez, uma senhora distinta, de classe média, trabalhando por circunstância na loja de molduras de uma amiga, conversando comigo no balcão, disse: "Guilherme, não existe duas pessoas iguais no mundo. Nunca recebi um cliente igual a outro, nos gostos, ou nas opiniões. Nunca uma personalidade igual a outra, é impressionante o comércio... ". Eu fiquei perplexo pois acreditava que, justamente no comércio, no mundo do consumo, tudo era padronizado. Tendo crescido num bairro de classe média eu sempre me chocara, na infância, com o estereótipo vulgar da molecada com quem eu tinha que brincar, na rua e no colégio. Todos falavam e faziam as mesmas coisas banais. Entretanto aquela senhora, também comum, estava me fazendo ver um outro aspecto da questão, também verdadeira: a duplicidade humana. Somos únicos e comuns, iguais e diferenciados, nobres e plebeus... tudo ao mesmo tempo. Eis o mistério do humano."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Entrando no Mercado

Quando jovem, já artista "profissional" vendendo alguma coisa raramente, a duras penas, e vivendo praticamente na miséria, eu vivia angustiado, ansiando por reconhecimento, num constante sentimento de humilhação. Mas o que me faltava em sabedoria e paciência, me sobrava em obstinação. Eu tinha uma quase absurda certeza do meu talento, pelo menos para o desenho, certeza essa corroborada pela admiração imediata que meus desenhos causavam em absolutamente todos que os viam. Mas custei a descobrir como aquilo poderia se traduzir em vendas e dinheiro, já que admiração é gratuita, nada custa a quem a tem. Então, assistindo leilões de Arte e observando atentamente o que acontecia ali, descobri o segredo: Em matéria de arte, só vende aquilo que está na mão dos ricos. Eu era pobre, portanto nas minhas mãos meus desenhos não tinham valor monetário. Logo eu precisava passar os meus desenhos, num grande lote inicial, para as mãos de um deles, nem que fosse de graça, através de uma artimanha. Eu tinha vinte e hum anos e foi o que fiz, com astúcia inesperada, contra toda lógica imediatista. Em breve contarei aqui como fiz isso e entrei precocemente no Mercado de Arte paulistano... (das Memórias de Guilherme de Faria)

Anjos

"Ao longo da minha conturbada vida, cheia de conflitos íntimos apesar de tantos privilégios de formação, circunstâncias propícias de classe social, ambiente cultural, etc, eu me defrontei pelo menos três vezes com um anjo verdadeiro, transfigurado a cada vez, que me salvou de mim mesmo. Estou me referindo a um anjo, mesmo, desses de Deus, que me apareceu em momentos de intensa e perigosa crise existencial e espiritual. Naturalmente não se apresentou com asas nem envolto em luz. Entretanto, no meio de muita gente só eu o vi. Por isso, toda vez que tenho a tentação da dúvida e da descrença, eu me recordo desses três momentos perigosos e providenciais de minha vida. Se existem anjos, só pode haver Deus..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Antiga Musa

"Quando muito jovem, já casado pela segunda vez, eu tive um intenso período de boemia, festas, bebedeiras, ao mesmo tempo que muitas leituras e consumo de música, teatro, e cinema. Então, um casal sofisticado, viajado, visitando meu ateliê no centro da cidade, a moça (bela e distinta) me disse: "Guilherme, você perde muito tempo com outras coisas que não a sua arte. Com o seu talento você deveria pintar dia e noite sem parar. Foi o que fizeram os que se tornaram grandes. Pense nisso." Eu fiquei confuso, um pouco envergonhado e retruquei: "Eu preciso me abastecer, consumindo muita arte, livros e experiências... " Mas a moça reafirmou: "Não. A arte está dentro de você, não vem de fora." Fiquei perplexo, pensativo, e vi que ela tinha razão. Um sentimento de dever ou responsabilidade se acrescentou em mim, que me obrigou a trabalhar, contra o meu consumismo artístico, minha inércia, minha preguiça e meu hedonismo. Sou grato até hoje àquela figura, devia ser um anjo. Ou uma antiga Musa... "(das Memórias de Guilherme de Faria)
Amo filmes épicos de aventuras, quando bem feitos, bem produzidos e bem dirigidos. Meus favoritos das últimas décadas são: Ulisses (com Kirk Douglas), Os Sete Samurais e Ran (de Akira Kurozawa), 300 (perfeito), Tróia (com Brad Pitt), Gladiador, as maravilhosa trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit, a deliciosa trilogia Piratas do Caribe, Malévola (beleza surpreendente)...

Urbano

Eu sou muito urbano, quero dizer, muito dependente dos confortos e tecnologias modernos. Não poderia passar sem meu teto, privacidade, boa cama, banheiro com um bom chuveiro quente, fogão a gás, geladeira, máquina de lavar roupa, telefone, TV a cabo, computador, Internet, livros nas estantes, quadros nas paredes, tintas, telas, papéis, pincéis, ferramentas etc. Muito dependente de tudo isso. Ah! Minha linda mulher, excelente companheira, imprescindível... Enfim, sou um ser super dependente de muitas coisas, como todo homem moderno. Não me orgulho nem me envergonho disso, mas garanto que lutei muito para ter o que para a maioria é apenas o básico. Entretanto não consegui ter um pouco de natureza, supremo luxo, nem sequer um pequeno jardim. Eis porque pinto paisagens imaginárias e me cerco delas pelas paredes... (das Memórias de Guilherme de Faria)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O macaco já foi gente (de Guilherme de Faria)

Deus nos cria, solta e observa
Com o rabo dos seus olhos, displicente.
Assim também a árvore e a erva,
E o macaco, que um dia já foi gente.

Grande parte da chamada humanidade
Caminha para os grandes chimpanzés.
Rudolph Steiner falou uma verdade, *
As mãos gente trocando pelos pés...

Quanto ao Darwin, aquele inglês testudo,
Malgrado um belo olhar vitoriano
Tem, perdoem, um crânio pouco humano.

O macaco "é nóis" depois de tudo,
Depois de tanto funk e tanto "mano",
E é melhor que se cale e fique mudo...

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19/01/2017

Nota
*Rudolph Steiner falou uma verdade - Steiner, criador da Antroposofia, afirma no seu livro Crônica do Akasha, que os macacos são homens que "involuíram" (!!!) ( o contrário do que disse Darwin).