"Quando eu era um garoto de uns 12 anos, vendo uma porção de bicicletas de outros garotos (nenhum à vista, deviam estar na casa do vizinho) estacionadas sob um grande árvore quase em frente à minha casa, ocorreu-me que seria divertido colocá-las todas penduradas nos galhos da árvore, para causar surpresa e divertimento. Pareceu-me que todos ririam com a graça da cena (eu ainda não pensava em "surrealismo"). Aproveitei a rua estando deserta e com um grande esforço me esfalfei subindo na árvore, alcei e amarrei as pequenas bicicletas com pedaços de cordas, realizando aquela proeza sem que ninguém me visse. Depois entrei em casa e fiquei espreitando pela janela o efeito que aquilo causaria quando os meninos saíssem. Foi uma balburdia! Ninguém achou graça, as mães foram chamadas e a indignação foi geral, às raias do ódio. Eu, escondido, fiquei muito assustado. Uma árvore de bicicletas! Pensava que todos ririam e se divertiriam com a quebra da ordem natural das coisas. Como eu me enganara! Nunca vi um ódio tão grande, as mães e os garotos reagindo àquilo como diante de um crime grave, alguns até chorando. Se soubessem quem fora o autor daquilo, certamente o linchariam, eu senti... Naquele dia, chocado, renunciei ao meu surrealismo latente. O meu bairro, ou o Brasil mesmo, era cartesiano demais, depois eu descobri: herança de Auguste Conte, Ordem e Progresso, ódio à imaginação, mediocridade obrigatória e geral..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 20 de dezembro de 2015
sábado, 12 de dezembro de 2015
Sobre a apreciação da minha arte
"A minha arte foi desde muito cedo apreciada por muitas pessoas, às vezes às raias do entusiasmo. Não posso pois me queixar. Por falta de elogios não morrerei. Mas confesso que algumas vezes me senti confuso quanto a isso. Nunca me esqueço de que em 1972 durante a vernissage de uma exposição minha na Galeria Cosme Velho, aproximei-me de um jovem de óculos com cara de intelectual parado muito tempo diante de um desenho meu de um cavalo gestual a nanquim, e perguntei-lhe: "Você gosta?" E ele respondeu meio hesitante: "Humm, gosto, mas não sei se é bom..." Eu, surpreso, voltei a perguntar: "Por quê?" E ele respondeu: " Porque é bonito demais..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
A secreta razão dos meus nus
"Uma vez, numa entrevista, me perguntaram o porquê da recorrência obsessiva da figura feminina no meu desenho. Na ocasião respondi de maneira genérica, atribuindo à tradição clássica, etc... Mas devo, a esta altura da vida, revelar uma razão mais íntima: três meninas que havia no quarteirão da minha infância urbana, paulistana, que brincavam delicadamente de "amarelinha", na calçada oposta, frente à minha casa, e cuja beleza e feminilidade vi crescer até uma sofisticada adolescência dos anos 60. Que diferença da grosseria dos moleques meus companheiros, brutais no seu machismo instintivo ou incentivado, que me repugnava! Comparativamente, as meninas me pareciam seres superiores, divinos, e essa impressão permaneceu no meu espírito até hoje. Mas por quê o nu?(me perguntariam). Por quê não meninas mesmo, com seus vestidinhos até os joelhos e seus sapatinhos de fivela e verniz, como o faria, por exemplo, o Portinari? Ah! Talvez por causa da maldita libido, que tantos problemas haveria de me causar... Entretanto, reparem: as meninas puras estão lá, nos meus desenhos, veladas pela sua própria e casta nudez, que o meu olhar adulto não logrou profanar..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
terça-feira, 13 de outubro de 2015
CARTA ABERTA AOS AMIGOS (de Guilherme de Faria)
Quando centenas de milhões de pessoas têm exatamente o mesmo sentimento
e a mesma opinião sobre determinado assunto ou evento, me vem um irresistível
impulso de ir a contrapelo, na direção oposta, com opinião discordante do coro
dos contentes ou dos indignados. Desculpem-me se puderem (duvido) ... é que sou
definitivamente antissocial em minha essência, marginal por temperamento e
portanto uma pessoa perigosa, de poucos amigos. Por isso me dou bem neste facebook porque posso exercer minha
sociabilidade virtual, já que a verdadeira, a do mundo real, me fez fracassar
na vida apesar da admiração de muitos que me conhecem tão pouco. "Por
quê?" pode alguém perguntar... Suponho que minha natureza de artista me
pôs à parte do rebanho e explica minha admiração pelos lobos, minha
identificação com eles sobretudo quando nas noites do Norte gelado uivam
nostalgicamente para a Lua... Sim, sou abominavelmente solitário em minhas
neves, e sobrevivi a mim mesmo porque, por sorte mas não por acaso, descobri a
verdadeira natureza da minha Anima, e me tornei afortunadamente um duplo de
estranha harmonia, já que tal fenômeno (o duplo) em geral contém um elemento
grotesco, de conflito. Sim, a Alma Welt me proporcionou uma sobrevida e um
agradável alívio da solidão, já que minha musa e minha deusa nasceu de mim
mesmo. Sou um Pigmalião de mim, pagando somente o preço do impalpável, do
intangível físico. Mas, o que é o corpo físico na verdade? Uma miragem... Há
muito tempo abandonei toda a veleidade de comunhão e harmonia perfeita com a
mulher real, esse enigma de carne tão cobiçado. Minha mulher está em mim, sem
prejuízo do Animus que também me anima, gradativamente abrandado,
rarefazendo-se lentamente... Por isso posso conviver pela primeira vez, mas já
há vinte anos, com uma mulher de verdade, tolerando sua natureza tão diversa,
já que da minha musa Alma Welt eliminei tudo o que na personalidade real
feminina me aborrecia. Um monstro psicológico? Podem estar certos... mas como
vêm, capaz desta terna confissão, cheia de cinismo e auto-complacência. Na
verdade, não me perdoem... alertem, sim, seus filhos, se possível, para que não
sigam esse lusco-fusco, os obscuros e luminosos caminhos solitários da Arte, e
de sua terrível e bela alma nua... (Guilherme de Faria)
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
A visita a Lúcio Cardoso.
(retrato de Lúcio Cardoso)
Em 1965, estando no Rio de Janeiro em companhia do poeta catarinense Marcos Konder Reis que eu hospedava em São Paulo, fui levado por ele a conhecer o grande escritor mineiro Lúcio Cardoso, seu amigo, autor do genial romance epistolar Crônica da Casa Assassinada, que àquela altura eu ainda não tinha lido. Eu ouvia muito falar do Lúcio Cardoso pelo Marcos e outros amigos literatos. Estórias míticas de desregramento, bebedeiras homéricas e genialidade literária. Lúcio havia sofrido em 1962 um derrame e estava semi-paralisado e com a fala comprometida. Fomos recebidos efusivamente no modesto apartamento, pela sua irmã devotada, Lelena Cardoso, que morava com ele e o cuidava. Pessoas de uma simpatia mineira cativante... Lúcio, tentava falar e emitia sons, com os olhos brilhantes de entusiasmo, e me parecia ligeiramente débil, retardado, pela limitação dos movimentos e da fala, mas também por uma espécie de ingenuidade inesperada que emanava como uma aura, de sua pessoa. Disfarcei o tempo todo o meu constrangimento, imaginando o homem brilhante que ele fora, a julgar por sua lenda que incluía até mesmo um amor platônico por parte da Clarice Lispector. Ele arrastava uma perna pela pequena sala procurando coisas para mostrar, e o mais embaraçoso é que a mão perdida pendia na ponta do braço direito duro esticado, retorcida para dentro, colada na sua braguilha. Eu desviava os olhos, sorrindo o tempo todo, fingindo não prestar atenção aos detalhes constrangedores. Mas a simpatia e o acolhimento cordial ao visitante novato que eu era, apresentado como uma revelação de desenhista pelo Marcos, ajudavam a atenuar meu mal estar. Mostrei, a instâncias do poeta meu amigo, meus desenhos que eu carregava pra todo lado no Rio, numa pasta. A acolhida foi entusiástica, cheia de elogios, e eu ofereci ao Lúcio o desenho que mais o entusiasmou. Logo ele quis me mostrar suas pinturas festejadas, de paisagens indistintas e coloridas que fazia a óleo diretamente com os dedos da mão esquerda, sobre papel, e me ofereceu a menor, bem pequena, que modestamente escolhi. Depois do cafezinho mineiro fomos embora com calorosas despedidas, e eu fiquei com uma impressão vaga, decepcionada, de ter chegado muito tarde na casa de um gênio perdido, como quem visitasse Nietszche, louco de sua sífilis terminal, acolhido por sua irmã Elizabeth. A lembrança da irmã simpática e natural, acolhedora e bem mineira, se sobrepunha na minha memória, e eu olhando de vez em quando aquela pequena paisagem de montanha mineira, quase abstratizada, procurava um vago lampejo da mente brilhante que se perdera pelo seu próprio "desregramento" rimbaudiano "de todos os sentidos", no qual, na verdade eu mesmo estava mergulhando, talvez não com tanta ferocidade como atribuíam àquela sombra do homem que já era uma lenda da nossa literatura..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Quando a tristeza bate à porta.
"Uma vez, no Rio de Janeiro, nos anos 60, saí ao mesmo tempo com o pintor baiano Raimundo de Oliveira do ap do Alair Gomes (depois revelação póstuma como fotógrafo) em Ipanema, onde eu tinha ido com o poeta catarinense Marcos Konder Reis. Na rua pegamos o mesmo táxi pois íamos na mesma direção, e sentados no banco de trás pude prestar mais atenção naquele homem, mais velho que eu, de enorme e desproporcional cabeça bexiguenta sobre um corpo pequeno e desajeitado, meio gordo. Notei-lhe a imensa tristeza mesmo sem ele abrir a boca, aliás não ouvi em nenhum momento a sua voz. Também mal sabia quem era ele. Éramos apenas dois desconhecidos que partilharam um táxi, e ele desceu antes. Quando voltei a São Paulo, visitando o meu moldureiro, Decorações Porão (na Alameda Barros), o Mário, um dos dois sócios, me mostrando um trabalho que estava emoldurando e me chamou atenção, disse: "Este é um trabalho do Raimundo de Oliveira. Você conhece?" E eu fascinado com a força primitiva daquela obra, que emanava uma fé ingênua e autêntica que me faltava, me lembrei: "Ah! Fiz uma corrida de táxi junto com ele, no Rio, mas ele não abriu a boca." E o Mario: "Ele vem sempre aqui, emoldura bastante conosco. A Giovanna Bonino lá do Rio compra sempre as obras dele que vendem muito bem. É um bom amigo, um cara muito triste, bebe muito. Uma vez ele bebeu tanto que tentando voltar para casa entrou num prédio errado e bateu na porta de um apartamento, chorando tanto e tão desamparado que o casal de moradores o deixou entrar e cuidou dele com carinho, deixando-o dormir no sofá!" Eu, impressionado com aquela história, fiquei recordando as feições tristes daquele grande artista, tão feio, coitado, com as faces marcadas de bexiga, e tão infeliz. Por um momento fiquei triste por ele, e pela primeira vez agradeci a Deus, intimamente, ser um jovem razoavelmente bonito, e me envergonhei de ser tantas vezes igualmente triste. Não! Eu não tinha direito de sentir-me infeliz. Era também artista, não consagrado como o Raimundo, mas não carregava o peso social da feiura física, nem da carga pesada e atávica do nordestino no Sul. Eu era um jovem paulista dos Jardins, empobrecido mas oriundo da classe média, um privilegiado, afinal..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota:
Raimundo Falcão de Oliveira (Feira de Santana BA 1930 suicidou-se em Salvador BA em 1966, com apenas 36 anos de uma vida triste mas fecunda, com sua arte profundamente religiosa que, no entanto não venceu o desalento íntimo de uma alma hipersensível, que sofria com a sua feiura, meramente física...
Raimundo Falcão de Oliveira (Feira de Santana BA 1930 suicidou-se em Salvador BA em 1966, com apenas 36 anos de uma vida triste mas fecunda, com sua arte profundamente religiosa que, no entanto não venceu o desalento íntimo de uma alma hipersensível, que sofria com a sua feiura, meramente física...
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
Sangue de Boi
Quando em 1964, um casal conhecido meu, de minha abandonada classe média, me visitou no meu ateliê-porão da rua Mato Grosso, tratei de recebê-los com naturalidade, mas falando só e com entusiasmo de minhas pinturas. Entretanto, vinte anos mais tarde, eles, me encontrando em melhor situação me disseram: "Guilherme há vinte anos atrás nós visitamos você no seu ateliê, você estava começando, você se lembra?" Eu não me lembrava. Então a esposa dele disse: "E nós ficamos muito impressionados, porque vimos que você não tinha fogão nem geladeira e só uma espiriteira à álcool numa pia imunda da minúscula cozinha onde você pintava uma tela imensa, porque só ali havia um pequeno vitral por onde entrava a luz. Então perguntamos: "Você não come? Está pálido e magro! Você precisa comer! E você respondeu: Ah! Não preciso não... Olha, tenho esse garrafão de Sangue-de-boi (um vinho terrível) e quando tenho fome bebo dele no gargalo, depois faço um novo furo no cinto com o canivete, e aperto, vejam!" (e você ficou mostrando o cinto com detalhes técnicos)" Eu ri, fazendo um esforço para me lembrar daquilo, sem consegui-lo. Então a moça completou: "Para dizer a verdade, achamos que você estava meio louco e saímos dali muito tristes..." Eu me lembrei então, muito vagamente, daquilo tudo, não como um simples pesadelo, mas como um conto antigo, literário, cínico ou amargo, de minha própria invenção... (das Memórias de Guilherme de Faria)
Vendendo o meu peixe.
"Quando em 1964 eu estava pintando o meu Apocalipse, sobre duratex, no meu atelier num porão de um cortiço paupérrimo, na rua Mato Grosso (atrás do Cemitério da Consolação), uma senhora caridosa, velha, vizinha de cubículo, vinha na minha meia-porta-e-janela me oferecer um prato montanhoso de refeição operária. Eu ficava muito grato, claro, agradecia, comia, e devolvia o prato vazio. Então ela me disse um dia: "Olha, moço, esse quadro é muito grande. Porque você não serra um pedaço dele, como aquele peixe ali... Seria mais fácil você vender." Eu respondi: "É verdade, a senhora tem razão, seria mais fácil eu vender o meu peixe..." Então, um dia, ouvi ela comentando com outra: "Pobre moço! É pobre como Jó! Não deve vender nada! Também... cada coisa feia!" Eu ri muito, sozinho, no meu desolado e sujo ateliê, talvez um pouco amargamente..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Apocalipse - óleo s/ duratex, 1964, 170x210cm
sábado, 26 de setembro de 2015
"Quando criança, passeando com meu pai, capitão médico reformado da cavalaria, num clube hípico, nos deparamos com um cavaleiro, que apeado lutava, exasperadamente, com a rédea de um cavalo arisco e assustado que queria empinar. Meu pai gritou para o cavaleiro: "Experimenta um pouco de amor!" O cavaleiro, então, fez um carinho no focinho e no pescoço do animal que imediatamente se acalmou. Depois fez um gesto rápido de mão, meio envergonhado, em agradecimento ao meu pai. Naquele dia passei a olhar o meu pai com outros olhos, já que até então o considerava distante e um pouco assustador." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Os haitianos, coitados, vêm para o Brasil crentes de que isto aqui é um país decente e viável, que tem empregos para todos. De onde eles tiraram essa idéia? Isto aqui é o fim da picada. Reparem: são todos homens altos e fortes, o que quer dizer que lá eles pelo menos comiam. Aqui, logo estarão passando fome e embora visivelmente boas pessoas não terão outra saída para sobreviver senão o crime. Querem apostar?
A orelha de Van Gogh
"Quando meu filho, garotinho ainda, me perguntou::" Pai, quem foi Van Gogh? Me conte sobre ele." Eu respondi: "Ah! filho, Van Gogh foi um grande artista, um pintor muito bem sucedido. O pintor de maior sucesso do mundo." Então, o garoto disse: "Mas, papai, minha professora disse que ele era pobre, cortou a orelha e deu um tiro no peito"... Fiquei uns segundos em silêncio e respondi: "Bem... como homem ele era muito infeliz, mas como artista ele deu muito certo, fez uma grande obra, pintou muitos quadros maravilhosos que estão nos maiores museus do mundo. Não é isso que interessa?" Então o garoto disse: "Mas, pai, mamãe sempre diz que o que interessa é ser feliz...." Eu disse: "Sim, para as pessoas comuns. Para o artista, não. Para o artista, o que interessa é realizar grandes obras, custe o que custar." O garoto insistiu: "Então, você, papai, não é feliz?" Fiquei um pouco embargado e disse: "Sou... sim. Sou muito feliz de ter um filho inteligente como você, que gosta de me pegar em contradição..." E o abracei. " - (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Quando meu filho, garotinho ainda, me perguntou::" Pai, quem foi Van Gogh? Me conte sobre ele." Eu respondi: "Ah! filho, Van Gogh foi um grande artista, um pintor muito bem sucedido. O pintor de maior sucesso do mundo." Então, o garoto disse: "Mas, papai, minha professora disse que ele era pobre, cortou a orelha e deu um tiro no peito"... Fiquei uns segundos em silêncio e respondi: "Bem... como homem ele era muito infeliz, mas como artista ele deu muito certo, fez uma grande obra, pintou muitos quadros maravilhosos que estão nos maiores museus do mundo. Não é isso que interessa?" Então o garoto disse: "Mas, pai, mamãe sempre diz que o que interessa é ser feliz...." Eu disse: "Sim, para as pessoas comuns. Para o artista, não. Para o artista, o que interessa é realizar grandes obras, custe o que custar." O garoto insistiu: "Então, você, papai, não é feliz?" Fiquei um pouco embargado e disse: "Sou... sim. Sou muito feliz de ter um filho inteligente como você, que gosta de me pegar em contradição..." E o abracei. " - (das Memórias de Guilherme de Faria)
Ouvi dizer que Dom João VI, no Rio de Janeiro, costumava a ir ao teatro, assistir peças de costumes de companhias nacionais e estrangeiras, dramalhões tremendos como óperas. O monarca gordo e comilão levava cestas de coxas de frango assado, que comia com a mão sem parar no camarote real durante as representações. Então, a boca, as mãos e a roupa engorduradas, cochilava por vários minutos e a intervalos acordava perguntando à sua mulher: "Já se casaram esses bêbados?"
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Nota
Quem me contou isso rindo muito foi meu pai, quando eu era criança. Nunca soube se é verdadeiro. Eu achei pitoresco... Mas o fato é que Dom João VI foi o melhor governante que o Brasil já teve. Todas as sua obras no Brasil foram grandes e duradouras: a Imprensa Régia (depois Imprensa Nacional), a Casa da Moeda, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Museu de Belas Artes, a Escola Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, a abertura dos portos às nações amigas, etc... A julgar por essas obras, foi o governante mais inteligente que tivemos..
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Nota
Quem me contou isso rindo muito foi meu pai, quando eu era criança. Nunca soube se é verdadeiro. Eu achei pitoresco... Mas o fato é que Dom João VI foi o melhor governante que o Brasil já teve. Todas as sua obras no Brasil foram grandes e duradouras: a Imprensa Régia (depois Imprensa Nacional), a Casa da Moeda, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Museu de Belas Artes, a Escola Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, a abertura dos portos às nações amigas, etc... A julgar por essas obras, foi o governante mais inteligente que tivemos..
O envelhecimento dos seguranças
Ultimamente, quando saio do meu ap para andar, reparo, no meu quarteirão tão comercial, o envelhecimento a olhos vistos dos mesmos seguranças na frente das lojas... Como estão envelhecidos! O que aconteceu com eles? Gostaria o que meu espelho me respondesse a essa questão, mas com mais sinceridade... Estarei eu também tão envelhecido? O que está acontecendo, assim tão de repente?
"Quando criança, vendo as ilustrações de Gustave Doré para os grandes clássicos, na biblioteca de meu pai, houve um momento, talvez apenas infantil, em que me pareceu que não existia coisa mais importante no mundo do que aquilo: desenhar o mundo, ou pintá-lo. Estranhamente, esse momento interior não passou até hoje. Sim, toda arte parte de um sonho infantil persistente, ingenuo, poderoso..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Uma vez, quando eu já estava nos quarenta, fui visitar a minha mãe que tinha mudado de apartamento no mesmo prédio nos Jardins, por motivo de reforma. Toquei a campainha e me vi diante do mais absoluto terror, que transpirava através da porta. "Quem é? Quem é?"(com sotaque)... e gemidos, quase gritos de pânico, seguidos de ruido de trancas e correntes. Percebendo ter me enganado de apartamento, pedi desculpas e afastei-me. Depois, já no ap provisório de minha mãe, contei pra ela o meu descuido e percalço. Ela disse: " É um casal de velhos judeus, sobreviventes do Holocausto. Não recebem visitas nunca. Na certa pensaram ser a Gestapo que lhes batia novamente à porta. Reze por eles, meu filho, porque jamais houve sofrimento maior... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
A falecida Emi Bomfim, que era "marchand de tableaux" e casada com um grande poeta consagrado, me disse um dia: "Guilherme, sei que os artistas são pessoas muito diferentes das outras, as normais. Não podemos cobrar deles o que cobramos das pessoas comuns. Sou insuspeita para dizer isso, você sabe..." Eu a admirei e me senti confortado, pois eu vivia lutando com meu sentimento de culpa e com minhas ex companheiras que me cobravam coisas, comportamentos e atitudes que não estavam em mim..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Convivi muito com o mestre no Romance de Leonardo da Vinci de Dimitri Merejkowski e com o grande arquiteto, escultor e pintor em A Vida de Michelangelo de Romain Rolland. Mas também com o rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda, bem como com o desastrado cavaleiro de La Mancha e seu fiel escudeiro. A vida real? Nunca a conheci bem. Ouvi dizer que há quem a aprecie muito... (Guilherme de Faria)
Sobre os políticos
"Sempre tive, desde menino, uma grande repulsa pelos políticos. Sempre me pareceram uns canalhas, e a política a mais desprezível das atividades. É claro que é um sinal da minha imaturidade emocional, ou talvez não passe de uma idiossincrasia. Sei bem que a política é uma atividade necessária, pois os países precisam ser governados e ter obras e serviços públicos. Mas o fato de necessitar a conquista do poder para exercê-la em plenitude faz do político um sujeito suspeito e perigoso. A prepotência e a tirania potencial é inerente a todo poder." ( das Memórias de Guilherme de Faria)
Sobre a atual situação da Grécia
Os gregos deveriam adotar novamente os deuses do Olimpo e o culto dos heróis e semideuses da sua antiguidade. A meu ver seria a única solução digna para este povo maravilhoso, que não merece o prosaísmo e a mesquinharia desta nossa era... (Guilherme de Faria)
Celebridade televisiva
Ontem vi no supermercado uma celebridade recente e instantânea da televisão. Ele olhava furtivamente à sua volta. Queria reconhecer ser reconhecido...
Alma Welt
"Como muitos já sabem, a poetisa Alma Welt existe e mora dentro da minha alma. Eu me orgulho dela tanto mais que é melhor como artista e como pessoa do que eu mesmo. Falo isso sem falsa modéstia." (das Memórias de Guilherme de Faria)
De Sintonias
"Quando meu filho mais velho era um garotinho, ele perguntou-me um dia: "Pai, como se faz para ganhar dinheiro, para ficar rico?" Eu pensei um pouco e respondi: " Filho, para ganhar muito dinheiro é preciso a gente estar sintonizado na frequência do dinheiro o tempo todo, sabe... estar na onda do dinheiro." Ele insistiu: "Como, pai? Não entendi... " E eu: "Bem, é como numa rádio. Eu estou sintonizado na frequência da Radio Cultura, ouvindo música clássica o tempo todo." - "E não tem rádio do dinheiro? - "Tem filho... Até tem, mas eu não gosto, prefiro música clássica. Você sabe, Beethoven, Mozart, Chopin...- "Ah, Pai. assim não dá, você não está me ensinando de verdade..." - E eu: "Olha, filho vou procurar um livro chamado "Manual do Pequeno Banqueiro". Mas não sei se existe esse livro. Eu mesmo não sei ensinar o que nunca aprendi. Meus pais, seus avós, também gostavam de música clássica. Você vai ter que descobrir sozinho, mas comece trabalhando..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Vergonhas
"Tenho vergonha de muitas coisas que fiz na juventude, algumas poucas ações e atitudes, mas principalmente de muitos desenhos e pinturas que considero ruins e que deixei ir embora para o mundo, que fizeram sucesso mas que eu destruiria, se pudesse..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Maktub
"Uma vez um vizinho muçulmano me disse: "Tens medo de avião, não viajas nunca. Mas se o destino te reservou seres devorado por tubarões no meio do Oceano Pacífico, eu te garanto: lá estarás bracejando naquelas águas, de terno e gravata, no dia e hora aprazados. Maktub!". (das Memórias de Guilherme de Faria)
Postei no face
O mundo começou numa segunda-feira e nesse dia está tudo por fazer. Ai! Que preguiça!.. (Guilherme de Faria)
Eu e o Wesley
"Uma vez em 1962, já um jovem artista profissional, pobre como Jó, eu vinha subindo a Augusta a pé do lado da cidade em direção à Paulista, para depois descer para os Jardins, e passou o Wesley Duke Lee no seu espantoso e belo MG e disse: "Oi Guilherme, sobe aí !" e me deu uma carona. Ligou imediatamente o rádio do carrinho e tava tocando uma música estranhíssima e fascinante, que gritava: "I wanna hold your hannnnd!! " E o Wesley exclamou: "Esses caras são "du caralho!" Eu nunca tinha ouvido um som assim, mais estranho que o do Elvis Presley na época do seu surgimento nos anos 50. O Wesley, quase dez anos mais velho do que eu, tinha o dom de estar na vanguarda, afinado com o seu tempo, o que nele consistia numa grande sofisticação. Quanto a mim, eu sempre fui mais antigo, amava demais o século XIX e tateava desconfiado no meu século, com um certo retardo. Por exemplo, não me deixei seduzir pela Pop Art no seu surgimento e influência avassaladora no mundo e portanto também na São Paulo dos anos 60 e 70. Eu mal tinha chegado numa espécie de expressionismo vienense do começo do século, a que os críticos de São Paulo chamaram bondosamente de "nova figuração" na qual me inseriam. E lá íamos nós, descendo a Augusta naquele carrinho esporte conversível, que parecia ser o único de sua espécie, em direção ao ateliê do Wesley, que ficava em cima da loja de discos Hi Fi, em plena Augusta, enquanto soava aquele grito em coro (a que nos juntamos) que mudaria o mundo: "I wanna hold your HAAANNNNND!!!! ..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Sobre aulas de arte para criançase
Para crianças a gente não dá aula de arte, não... Elas fazem o que querem, e são artistas natas, sempre. Depois, crescendo, a maioria abandona a arte. Só os que permanecem crianças, não no sentido de imaturidade, se tornam artistas. (Guilherme de Faria)
"No pubic hair!"
"Quando, nos anos 60 passei a desenhar gestualmente nus femininos sem modelo (nunca os tive) a pincel e nanquim, as figuras quando frontais ostentavam os pelos púbicos, mais por uma questão de equilíbrio gráfico no espaço do papel. É verdade que as moças não se raspavam ali naquela época e eram naturalmente peludas. Mas é claro que eu poderia seguir a convenção clássica, como se via nos grandes nus dos museus... Entretanto aquele grafismo feito com uma rápida pincelada de nanquim equilibrava lindamente o conjunto e por isso era tolerada pela "freguesia". Mal tolerada, na verdade, porque os nus de costas vendiam muito mais. De qualquer modo meus desenhos nunca eram pendurados nas salas mas sempre nos quartos. Nas "alcovas" como eu gostava de imaginar... Já nos anos 90, reencontrei uma amiga, a grande e bela dramaturga Consuelo de Castro, com quem eu flertara durante uma noite daqueles tumultuados anos 60 numa festa em seu apartamento. Passamos 30 anos sem nos ver, e, maduros (ela ainda bela) nos reencontramos por acaso numa leitura dramática e ela me disse: "Guilherme, eu tenho até hoje um belo desenho seu, de nu, que você me presenteou naquele dia, mas aconteceu uma coisa estranhíssima com ele: estava emoldurado com vidro numa parede que dá para uma janela do meu ap, e um dia voltando de noite, reparei que havia um buraco de bala no púbis negro da figura, que atravessou o vidro, o papel e atingiu a parede. Suponho que um vizinho moralista lhe deu um tiro de calibre 22 ou de chumbinho. Vê, que coisa, não?" Eu fiquei pasmo, chocado, e até mesmo triste. Depois me lembrei que nos anos 70 meus desenhos exportados pela Glatt-Ymagos, faziam sucesso nos States, mas meus marchands e editores de litografias, receberam um pedido assim: "Send us more Guilherme, please, but no pubic hair! " Tudo muda... agora as moças andam raspadinhas, e os pêlos, que na arte clássica não eram aceitos, na minha ficaram atemporais, espero, como a gloriosa celulite das modelos de Rubens e Rembrandt..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
O príncipe e o mendigo
"Em 1968, se não me engano, eu, jovem artista despontando mas vivendo com muita precariedade num apartamento térreo de um pequeno prédio da rua Augusta (do lado da cidade), fui contatado pelo cônsul americano Niles Bond que tendo visto meus desenhos em galerias, quis que eu ilustrasse seu livro de poemas Arcanum, que já contava com o prefácio de outro Guilherme, esse ilustre, o de Almeida. Tendo eu realizado os desenhos e o livro publicado pela Melhoramentos, recebi dele o suficiente para comprar um modesto banco giratório de desenhista na casa Michelangelo. Como não tinha dinheiro para o frete, carreguei-o sem embalagem, nas mãos e nas costas durante todo o percurso (era de metal cromado) desde a loja na Ipiranga, subindo a Augusta com seu peso crescente numa verdadeira Via Crucis . Pois não é que encontro o Niles Bond, o americano maduro de dois metros de altura, na rua Martins Fontes, que me olhando com curiosidade, disse apenas, com aquele forte sotaque: "Rapaz, que esforço, hem!!" E eu, me sentindo um pateta, respondi: "Pois é, sr. Niles, tenho trabalhado tanto que resolvi sentar um pouco..." Ele ficou mais perplexo ainda com a minha resposta e eu aproveitei para seguir em frente, enquanto ele me seguia com o olhar, eu senti, como se segue um idiota (deve ter abanado a cabeça). Pensei comigo, juro que pensei, que aquele gringo estava tendo a medida do nosso subdesenvolvimento justamente comigo, quase um mendigo, seu jovem, pobre e excêntrico ilustrador brasileiro. Sim, porque com o seu prefaciador, o outro Guilherme, ele certamente sabia que estava diante de um velho "príncipe"... (das Memórias de Guilherme de Faria)
Sonho de criança
"Meu sonho quando criança era tornar-me um pintor, um artista. E me parecia um sonho monumental, ambicioso demais, quase impossível. Não pensava um só minuto em ficar rico. Famoso? Talvez, acho que sim... Mas como não pensei em ficar rico, nunca me sintonizei em dinheiro. Hoje acho que apesar de inteligente fui sempre muito ingênuo. Talvez até um pouco bobo." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Ainda sobre a Alma Welt
Uma amiga recente me perguntou: "Guilherme, será que você, através da sua Alma Welt, não estará saindo do armário?" Eu ri muito. Foi a primeira vez que me fizeram tal pergunta em 15 anos, desde a minha criação da Musa.-"Não, amiga- respondi- A alma de um artista é sempre uma mulher: sua Anima, de quem mana a sua criatividade, sua arte mesma. O Animus, de quem deriva o pai, o provedor e o comerciante, pode ficar um pouco rebaixado quanto mais sintonizado em sua anima se torna o artista. É o meu caso. Mas, repare, minha munheca é firme..." rrrrsssssss
Sobre a Era do Celular
Vivemos na Era das Comunicações, e de um jeito ou de outro estamos nos comunicando. Os críticos dos novos tempos zombam ou lamentam os jovens agarrados aos celulares. Que queriam? Preferiam os adolescentes falando besteira ao vivo e palrando como papagaios nos lanchonetes?. Um novo silêncio paira nos lugares públicos... Saudemos a nova era! (Guilherme de Faria)
Sobre o facebook
O facebook é perfeito: cada um dá o que tem. Se escolhes pensamentos, coisas e vídeos interessantes, teu critério te revela. Ninguém é pior ou melhor que aquilo que posta. Falar mal do facebook, isso sim, é tolice. O mundo virtual é um espelho perfeito do real, existem boas e más pessoas, heróis e bandidos. inteligentes e idiotas, tal como no mundo lá fora. Mas, aqui no mundo virtual existe liberdade e fantasia para todos. E sobretudo, podemos ser melhores do que somos... o que por si só é louvável. rrrrrrssss. (Guilherme de Faria)
De Sábados e Domingos
"Os sábados se sobrepõem muito rapidamente. Eu os noto por um violininho chato, monótono e melancólico aqui na minha Oscar Freire... E vou envelhecendo, agora mais rapidamente do que gostaria... Sim, o Tempo foge, e eu o noto pelos sábados e domingos se empilhando, tão iguais e tão próximos..." (Guilherme de Faria)
Alma Welt
Alguns amigos, recentes e antigos, que há décadas não me viam ou não acompanharam mais de perto o meu trabalho, me perguntam: "Quem é Alma Welt?". Como Gustave Flaubert disse no tribunal a respeito de sua Madame Bovary, eu parafraseio: " Alma Welt c'est moi! " (Guilherme de Faria)
DE VIOLINOS,GATOS E CIMENTO
Neste sábado acordei tarde com um gato miando desesperadamente lá em baixo, na rua. Logo dei-me conta de que era um violinista e seu acompanhante, um baixo elétrico funéreo, e pensei em como a vida é triste e difícil de ganhar. Então lembrei-me de que quando criança de uns seis anos pedi aos meus pais um violino, que eu queria aprender a tocar, achava lindo e triste o Jacha Heifetz tocando as Árias Ciganas de Sarazate, que alternavam tristeza e euforia, num disco de ebonite que eu botava pra tocar tão repetidamente na vitrola, que chiava. Lembro-me então que meu pai, rindo, disse: "Melhor não, filho. Criança tocando violino é igual a gato miando. Ninguém aguenta. Você não disse também que quer ser pintor? Ah! Você sabe a estória do pintor português que numa exposição temática sobre os "Sentimentos" pintou um burrinho ao lado de uns sacos de cimento na porta de uma venda? Um crítico, surpreso, perguntou-lhe qual o título do quadro e o pintor respondeu: "BURRECIMENTO"... Então eu ri muito e nunca mais pensei em ser violinista. Preferi causar outros "burrecimentos"... (Guilherme de Faria)
O PINTOR IMAGINÁRIO DE MINHA MÃE
"Domingo, sempre silencioso aqui na minha Oscar Freire onde envelheço lentamente, pintando ainda e começando a ter memórias de que não me dava conta. Sim, e as mais singelas começam a ter proeminência, como sempre acontece com os velhos... Ah! Eu nem sequer sabia que apreciava tanto o humor de meu pai, já que a sua neurose comprometeu, para nós, da família, sua imagem por tanto tempo. Mas devo dizer que o humor na minha infância vinha pelos dois lados, minha mãe também o tinha, e bem peculiar. Lembro-me, por exemplo, que quando ao final do meu quarto casamento, queixei-me a ela pela incompreensão das mulheres e ela simplesmente disse: "Meu filho, homens e mulheres são tão diferentes entre si, que se não fosse a atração sexual, passariam um pelo outro com total indiferença, como o elefante pela girafa..." Isso dito por um mulher de sua geração!! Lembrei-me também, agora mesmo, que quando eu era menino ela me disse que me imaginava "já velho, sereno, com grande barba branca e um chapéu de aba larga com um cavalete armado no campo, pintando a paisagem, acompanhado por um cachorro". Não aconteceu... Não tornei-me um pintor de ar livre como aquela espécie de Monet que ela imaginava. Tornei-me um pintor de apartamento, mas com tal nostalgia de paisagens, que as pinto "imaginárias" e nelas coloco a minha Alma, vagando, ela sim, com o cachorro que nunca tive... Tornei-me, de qualquer modo, um imaginário, como o pintor dos sonhos ingênuos de minha mãe. E "demodé", nada contemporâneo, ligeiramente patético. Mas, pensando bem, neste mundo, quê artista não o é? ..." (Memórias de Guilherme de Faria)
Há quatro horas atrás me marcaram num anúncio de encontro num clube de degustação de whisky, charutos e cigarrilhas. Como só entrei agora aqui no face, aquilo ficou quatro horas na minha página, para estranheza, talvez, dos amigos que sabem que sou abstêmio. Sou ex-fumante e bebedor, e me livrei dessas drogas em 1981. Sou um sobrevivente. Considero que comecei a viver a verdadeira vida de 81 para cá. ( Guilherme de Faria)
"O mundo nunca foi um lugar feliz ou propício por si mesmo. Não é o Éden, todos sabemos disso. Por isso temos que lutar para nos sentirmos razoavelmente bem, ou para sobrevivermos o mais tempo possível. Ou então pela conquista da felicidade como reza a improvável mas inspiradora cartilha dos americanos. Sem a esperança de felicidade o mundo afundaria no seu próprio caos infernal. "Pro céu eu vou nem que seja à paulada", dizia o Augusto Matraga, (na sua " A Hora e vez de..." de Guimarães Rosa). Quanto a mim, eu nunca desisti de ser feliz, mesmo sendo um artista. Mas, a esta altura, já acho mais importante a procura do que o encontro." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"O público das Artes Plásticas no Brasil me parece que vai muito bem, porque perdeu os preconceitos. Ninguém parece estranhar que eu venha pintando há duas décadas paisagens românticas com ou sem figuras, num estilo aproximado do século XIX europeu. Ninguém ainda, com desdém me chamou de "acadêmico". Mas porquê o venho fazendo? Certamente por coerência com meu temperamento, embora eu goste e respeite muitos abstratos e até contemporâneos. Chego a admirar alguns grafiteiros, pelo seu enorme talento plástico e criatividade figurativa. Quanto a mim,vou fazendo o que posso, o que sai de mim. Tudo pode acontecer..." (Memórias de Guilherme de Faria)
Versinhos Urbanos de Melancolia (de Guilherme de Faria)
Vôa o Tempo, vão-se os dias,
vão-se os meses e os sonhos
vão-se as mães e as tias,
chegam dias mais tristonhos...
vão-se os meses e os sonhos
vão-se as mães e as tias,
chegam dias mais tristonhos...
A vida é perda constante
não adianta nem chorar.
Já se esgarça o barbante,
e o pião nem quer rodar...
não adianta nem chorar.
Já se esgarça o barbante,
e o pião nem quer rodar...
Vou-me embora pro ranchinho
Ah! lembrei que nunca o tive,
Só me resta o meu vizinho,
se é que ele ainda vive...
Ah! lembrei que nunca o tive,
Só me resta o meu vizinho,
se é que ele ainda vive...
Vou tocar-lhe a campainha
mas ele pode estranhar...
Direi que pensei que era a minha
pra ele me desculpar...
mas ele pode estranhar...
Direi que pensei que era a minha
pra ele me desculpar...
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