(do livro O Navio sob os Telhados, escrito em 1975)
O telefone toca em meu ateliê . Apresso-me a atender, visto que a solidão e o isolamento me pesam nestes últimos meses após o término de meu casamento. Sinto-me, perdoem-me o lugar comum, “um cão sem dono .” Estou tremendamente necessitado de companhia feminina. As mulheres, espelho perfeito da alma, equilibram-me a personalidade, adoçando-me a voz e os gestos que, isolados, tendem a ficar estridentes e duros. Bem, vocês sabem...
Para minha imensa surpresa, é Helga ao telefone. Minha querida Helga, amor da minha adolescência , que eu não vejo há vinte e cinco anos. Não esperava jamais que me procurasse. Nada soube dela, de sua vida e amores, após a perda que me infligiu aos dezessete anos, quando abandonado por ela, minha namorada, entrei em profunda melancolia que durara exatos trezentos e sessen ta e cinco dias e quatro horas.
Combinamos encontro no Trevo. Passo um pente nos cabelos que percebo já grisalhos nas têmporas e em expectativa confiante, alegremente pego o elevador, que baixa juntamente com minha memória ao momento do nosso encontro na escola, jovens e inseguros que éramos, num reconhecimento imediato, seguido de crescente paixão de minha parte, pelo menos. A jovem extraordinariamente bela, muito branca, loura, de olhos verdes rasgados, voz sumida e macia, muito suave, pousara os olhos sobre mim e pondo a mão em meu braço, dissera algo que não me lembro mas que ressoa na memória como: “agora não vamos mais nos deixar...” É claro que não deveria ser isso, mas...
Ficávamos em suave idílio pelos corredores da escola, no pátio, na sala de aula, passando bilhetinhos um para o outro. Olhos se procurando a todo momento.
Um dia um professor fez-nos levantar e galantemente dispensou-nos do resto da aula, como um consentimento respeitoso diante de seu reconhecimento da evidência de um fenômeno amoroso raro, naquela escola: uma paixão de adolescentes, que se destacava por uma intensidade pura e romântica. Saímos de mãos dadas, acompanhados de risinhos dos colegas, que não nos pareceram desrespeitosos mas quase ternos. A paixão e a beleza contaminam, atenuadamente, já notaram?
Sento-me à mesa do restaurante e logo em seguida a vejo entrar Era ela! Imediatamente a reconheci em todo o esplendor original. Continuava lindíssima. Abracei-a, segurei-lhe a mão e não mais a desprendi. Olhos nos olhos, “sopramos a antiga chama”, perdoem-me o romantismo gasto. Imediatamente incendiamo-nos e a paixão estava presente novamente. Confessou-me o seu recíproco sentimento de perda ao nos separarmos na escola, sentimento que segundo ela, perdurara. Tudo isso surpreendeu-me muito, pois julgava que ela me deixara por súbito desamor, por alguma incongruência, por falta de verdadeira reciprocidade de sua parte. Enfim, eu sofrera como um cão, frustrado em minha paixão, que acreditei solitária. Que grande mal entendido!..
Levantamo-nos e deixamos o restaurante onde sou muito conhecido e pareceu-me ser seguido por olhares de aprovação dos garçons e do gerente. Já estávamos levitando.
Fomos direto para o meu studio, onde jogamo-nos na cama nus e possuímo-nos ardentemente pela primeira vez. Seu corpo me pareceu deslumbrante , muito branco. Seu sexo, ligeiramente avermelhado como uma boca, encimado por pentelhos dourados, visto que ela era loura verdadeira. Penetrei-a lentamente, pois ela dizia estar “muito fechadinha”, desacostumada (estava viúva há uns dois anos), segundo me contou. Pediu-me que fosse demorado, porque gostava de ficar num estado de “pasta ”, expressão que não me agradou, mas que logo incorporei.
Depois disso, novos encontros, telefonemas, paixão galopante, pacto, planos juras, reencontro total.
Combinamos viver juntos em sua cidade. Ela me apresentaria seus filhos adolescentes. Eles me “amariam”. Nós nos “casaríamos” pela aprovação de todos os seus amigos e parentes. Tinha uma mãe aristocrática segundo me pareceu pela descrição que me fez. Deveria usar chapéus de abas larguíssimas, com véu sobre os olhos e fumar de piteira, segundo imaginei, e essa nos daria a sua benção, estendendo-me a mão enluvada para que eu a beijasse.
Fiz as malas. Minha querida faxineira, preta velha que eu “herdara” da minha ex mulher, pois ganhara sua preferência na partilha, abanava a cabeça, desconsolada. Dizia que eu estava bobo, que era muito precipitado, que eu esperasse um pouco. Entendi mal e disse-lhe que não se preocupasse, que seu salário, estava garantido e que ela continuaria no meu apartamento-estudio, porque eu viveria cá e lá, pôr motivo de trabalho. Na verdade eu já imaginava uma nova vida, vibrante, idílica, num outro mundo, para mim desconhecido, mas que não me assustava. Estava confiante e decidido.
Chegando em sua cidade, tudo me pareceu belo e agradável. Recebeu-me esfuziante e logo me apresentou seus amigos. Todos pareciam encantados conosco e com a nossa história. Ela não se cansava de contar o nosso “reencontro”, com a voz e o olhar de uma menina deslumbrada. Os amigos e parentes dela recebiam-nos com aquele misto de admiração e complacência, que os apaixonados despertam nas pessoas.
Seus filhos: umas “gracinhas”, pareceu-me. Belos adolescentes, duas meninas que faziam doce num tacho, fios de ovos louros como seus cabelos e um rapaz de dezessete anos, alto como uma porta, também louro como um viking, que dava saltos e mergulhava de peito, deslizando no assoalho do apartamento, treinando ininterruptamente o vôlei. Aceitaram-me logo com simpatia. As meninas me cercaram fazendo perguntas doces, nada incisivas. Estavam felizes pela mãe. Tudo muito bom...
Helga então levou-me a conhecer sua mãe. Não precisou apresentar-nos: nos já sabíamos tudo. Pareceu-me exatamente como eu a imaginei, só que mais aristocrática ainda, de uma maneira positiva, “nobre”. Beijei-lhe a mão como eu ensaiara antes na imaginação. Tudo se encaixava...
Após alguns dias em sua cama, com a aceitação dos meninos, ela manifestou o desejo de mudar-se comigo para outro apartamento, para ficarmos mais à vontade e deixar os filhos adolescentes reinarem naquele. O viking, por exemplo, mergulhava cada vez mais a toda hora, dando-nos sustos. E as meninas começavam a engordar a fios de ovos, digo, a olhos vistos.
Ela já encontrara um ap vazio, alguns andares acima. Espaçoso, branco como a virgindade, bem pintado, pronto para receber-nos. Assim ela poderia viver seu grande amor e vigiar os filhos ao mesmo tempo. Afinal, era uma mãe exemplar...
Procuramos a proprietária do ap vago, que morava no mesmo prédio. Uma velhinha simpática, que nos recebeu com carinho, no mesmo diapasão da simpatia geral, e quase adotou-nos como avó. Faria um grande desconto no aluguel, pois fazia questão de alugar para nós, um casal tão abençoado e iluminado. Saímos radiantes , elogiando a velhinha.
Passaram-se alguns dias. Foi marcado o dia e a hora de assinar contrato na Imobiliária. A proprietária já se entendera com o advogado ou corretor dessa firma, que estava nos esperando lá, no centro da cidade. Alguma coisa toldava o olhar de Helga. Estava nervosa. Parece que tivera uma ligeira discussão azeda com o advogado, ao telefone. Este não estava disposto baixar o aluguel achando que nós seduzíramos a sua cliente aproveitando-nos da sua idade avançada e de sua ingenuidade.
Helga entrou tensa na sala. Aquele homem ameaçava sua felicidade, pois o aluguel ficaria inacessível. A funcionária atendente correu a chamar o corretor que apareceu na sala do outro lado do balcão de atendimento. Imediatamente algo aconteceu.
Olhei seu rosto, o do advogado corretor, e vi nitidamente a cabeça rosnante de um lobo, os grandes caninos à mostra na bocarra arreganhada. Mas é preciso que eu diga: não era “como um lobo”, mas “o’’ lobo mesmo, real como uma alucinação. Voltei os olhos para Helga, e oh! horror! Abominação! Oh! mistérios desconcertantes da minha vida! Sua cabeça era a de um Javalí ! Enorme, com os grandes dentes de baixo saindo recurvos dos lados do focinho. Os olhinhos pequenos, vermelhos, faiscando sobre as bochechas enxundiosas, as cerdas eriçadas, rosnando em dueto temível, como uma gorda Walquíria wagneriana diante de um Wolfried.
Sentí-me transfigurar imediatamente numa parede de gelo entre eles dois. Só assim aquilo cessaria, pensei eu. Pelo meu silêncio glacial, pela minha inércia e neutralidade extremas, lançando uma muralha sobre a linha do balcão que separava os dois inimigos constrangedores.
Saímos logo dali. Não houve acordo. Eu estava confuso, consternado e mantinha a cabeça baixa no elevador. À saída, Helga virou-se para mim em pânico, quase gritando:
-“ O que aconteceu?! Você não me ama mais. Seus olhos mudaram! Eu vejo! Que sucedeu? Oh! Meu Deus, você não está mais apaixonado por mim. Eu te perdi! Eu te perdi !” - Ela quase gritava , chamando a atenção dos passantes.
Imediatamente olhei-a nos olhos e oh! seus cabelos louros tinham se tornado brancos. Seus verdes olhos pareciam aguados e pequenos, espremidos na gordura do rosto. Olhei-a inteira e diante dos meus olhos a celulite tomou-a dos pés à cabeça. Toda ela se derretia diante de mim. Gorda, gasta, infeliz, em sua bulemia revelada.
Eu estava consternado, envergonhado e confuso. Baixara os olhos, queria pedir desculpas. Balbuciei algo sobre um cheque afetivo sem fundos que eu sem querer lhe havia passado, mas a imagem infeliz só piorou as coisas. Tentei por outro lado, revelando meu alcoolismo longamente detido, que nos pregara uma peça. Eu devia estar numa bebedeira seca, eu não merecia confiança, era culpado. Não havia nada de errado com ela.
Tudo era inútil. O fenômeno realmente acontecera. Minha mente e meus sentidos me haviam ludibriado antes, mas caíra-me o véu dos olhos e agora o real se havia reinstalado em toda a sua crueldade. E isso eu não poderia dizer-lhe jamais.
Gaguejava desculpas e só queria safar-me dali, sair de sua presença para sempre e refugiar-me no meu pequenino ateliê de onde não sairia mais. Pagar-lhe-ía uma indenização por danos e perdas afetivas. Mandaria um cheque todo mês para pagar-lhe aquele aluguel para que ela pudesse ter seu studio, a salvo das pequenas doceiras dos cabelos de fios de ovos e do Viking mergulhador de assoalho.
Mas estava tudo perdido para nós. A Fênix consumira-se para sempre.
sábado, 27 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
O artista quando jovem, fantasiado de hippie.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
A Herdeira de Rivera (crônica de Guilherme de Faria)
(Crônica sobre fatos absolutamente verdadeiros escrita em 1965, e que faz parte do meu livro inédito entitulado "O Navio sob os Telhados")
Recebo em meu ateliê uma moça que foi notícia em todos os jornais e revistas alguns meses atrás.
Ela entra com um minúsculo chiuáua parecendo um mosquito, com grandes olhos assustados, debaixo do braço, como um apêndice saindo-lhe das costelas. Cumprimenta-me rapidamente e logo diz, como crítica, tentando ser sofisticada:
— Seu ateliê é muito arrumadinho, não tem aquela bagunça maravilhosa e a sujeira que vi nos dos outros artistas.
Considerei a frase antipática, mas logo percebi tratar-se de uma moça simplória que não estava à altura de suas próprias circunstâncias.
No entanto não podia ficar sem resposta e, fazendo um esforço para não parecer blasé, disse-lhe com candura:
— Leonardo da Vinci, que sempre me inspirou como figura, diante de um Michelangelo sujo de pó de mármore e vestido com um burel disse: “A pintura é uma arte limpa. Pinto sempre com as minhas melhores roupas”.
A visitante piscou um pouco, ficou um segundo com o olhar parado e logo pudemos entabular uma conversação. Eis sua história somadas as notícias do jornal aos relatos de sua viva voz.
Era uma moça comum, da classe média, interiorana. Morava em Taubaté, onde crescera e fora criada mais pela sua avó do que por sua mãe. Sua mãe tinha traços nitidamente mestiços e sua avó era completamente índia. Ela própria herdara esses traços que a desagradavam na infância, por um certo preconceito seu e das outras crianças. Todavia tinha sido uma criança comum, normal mesmo. Sua mãe morreu-lhe cedo, ainda na infância. Mulher estranha, triste, era exótica em sua beleza morena mas nitidamente estrangeira. Sua avó então a criou naquele pequeno sobrado geminado, que continha um inesperado sótão.
Afinal, no leito de morte, a avó chamou a menina e disse: “Cristina, devo revelar-lhe um segredo, talvez um tesouro a que você tem direito. No quarto de costura, aqui em cima tem uma pequena escada levadiça que nós nunca baixamos. Agora você o fará. Suba por essa escadinha e encontrará uma pequena porta que dá para o sótão da casa, na verdade um pouco mais que um simples forro, empoeirado. Ali você encontrará uma grande arca, abra-a com alguma ferramenta, pois está trancada a chave, que se perdeu, mas com cuidado para não danificar nada. Nela está a sua herança, o tesouro que poderá mudar a sua vida”.
Pouco depois de ter dito isso, a velha índia entrou em agonia e morreu. A moça, minha visitante, refreou a curiosidade, chorou muito, velou o cadáver da avó, recebeu as poucas visitas no velório e, depois do enterro, foi àquele quarto, baixou a escadinha, na qual pouco reparara em sua infância medíocre, e subiu-a em grande expectativa. Entrou no sótão escuro e empoeirado, encontrou uma lâmpada pendurada com um interruptor no bocal e, acendendo-a, viu-se diante da misteriosa arca, de aspecto colonial. Estava fechada, teve de arrombá-la com um cano de ferro improvisado em pé de cabra, com um esforço que lhe consumiu vários dias. O mistério e sua curiosidade cresciam. Afinal, conseguiu e, perplexa, encontrou dentro uma pilha de papéis, de vários tamanhos. Eram aquarelas e desenhos que lhe pareceram toscos e muito exóticos, se bem que essa palavra não lhe ocorreu. Era uma moça demasiado simples e comum.
Havia também algumas pinturas sobre telas sem chassis, enroladas. Como não encontrou dinheiro, ouro ou qualquer coisa assim, decepcionada, desceu e ficou de olho parado dois dias. Depois contou a uma amiga mais esperta o acontecido e esta lhe aconselhou a procurar o velho pintor Clovis Graciano, que tinha ateliê na cidade. Ela o fez e, para sua surpresa, depois de algumas perguntas, o pintor ficou muito excitado e curioso. Foram juntos ao sótão. Clovis Graciano, folheando os desenhos e desenrolando as telas à luz mortiça da fraca lâmpada do sótão, estava estupefato, não podia crer no que via. Disse: “Menina, você não imagina o que tem aqui. Estas são obras originais e inéditas do grande Diego Rivera, pintor maravilhosos, afamadíssimo, que é uma espécie de Picasso do México. Como isto veio parar aqui?
Diante de seu silêncio, Graciano olhou bem a moça e logo deduziu algo. Perguntou por sua mãe e, após uma enquete verbal, disse-lhe: “Minha filha, sua mãe é mexicana. Deve ter sido muito próxima de Diego Rivera. Desculpe-me, você conhece seu pai? Sua mãe vivia sozinha aqui com você e sua avó? Bem, vamos revirar os guardados de sua avó. Talvez achemos pistas”.
Dito isso, Clovis e a moça passaram dias revirando as gavetas, arcas e armários que existiam pela casa. Após uma grande pesquisa, olhando fotos, álbuns de família, recortes de jornais e alguns livros em espanhol, Clovis chegou à seguinte conclusão: a mãe de Cristina tinha sido uma mulher belíssima na juventude e fora uma das inúmeras modelos e amantes de Diego Rivera (o grandalhão e gordo pintor, feio como um grande sapo, era irresistível às mulheres, por seu radioso talento e seu charme indescritível). Rivera, como era seu costume, ao longo de sua relação com a moça, que ele deve ter amado, presenteou-a com inúmeros desenhos, aquarelas e algumas telas, tendo notadamente, em muitas dessas obras, a própria amante como modelo. Mas havia muitas outras de interesse mais geral, como cenas mexicanas típicas, algumas épicas e até desenhos eróticos. A mãe de Cristina escondera isso tudo cuidadosamente, mesmo quando, caso terminado, se afastou do pintor e casou-se mais tarde com alguém que Cristina nunca conheceu, nem ouviu falar por alguma secreta razão. A mãe tinha vindo parar com a criança de colo no Brasil, por razões desconhecidas, junto com a avó materna da criança, estabeleceram-se em Taubaté, onde criaram a menina com simplicidade e esforço, mas com alguns recursos misteriosos, segundo pareceu ao pintor Graciano.
O pintor entrou em contato com jornalistas e deu a espantosa notícia que repercutiu em todas as revistas e jornais importantes do país. Contactou também a galeria da velha marchand sua amiga, em que eu coincidentemente fizera minha estréia. Assim eu conhecera Cristina durante a montagem da exposição de Rivera.
A notícia estourou como uma bomba no marasmo cultural daquela época, no que se referia a eventos internacionais entre nós. Resultado: o governo mexicano, através de sua embaixada, diante da notícia sensacional da história do tesouro de Rivera que ia ser vendido no Brasil, fez uma tentativa frustrada de embargar as obras e confiscá-las, alegando pertencerem ao patrimônio histórico e cultural do México. Não pegou. Juridicamente, legalmente, as obras eram da pequena herdeira, que os jornais tentaram glamourizar, mas sem grande sucesso, pois o fato transcendia em muito a personagem secundária e opaca.
Entretanto aconteceu um fato romanesco, pois a estréia da exposição que atraiu os maiores compradores brasileiros e internacionais (vieram do México e dos Estados Unidos grandes colecionadores de Rivera), Cristina recebeu uma carta proveniente da cidade do México, que dizia espantosamente alguma coisa como isso (em espanhol, é claro):
Minha filha desconhecida. Sou fulano de tal, seu pai verdadeiro. Tinha perdido a pista de seu paradeiro, quando o destino nos separou e todos esses anos me perguntei onde estaria o pequeno bebê que vi poucas vezes nos braços de sua mãe. Quero abrir-lhe meus braços, minha pequena, minha filha agora reencontrada. Venha ao meu encontro aqui, nesta casa que será a sua, nesta Cidade do México. Eu já lhe quero bem, e lhe aguardo.
Seu pai,
Fulano de Tal
Ministro do Comércio do Governo do México
Rua tal, número tal, telefone etc.
Cristina ficou curiosa e esperançosa. Como toda moça, sempre sonhara com um pai. Lá foi ela para o México com uma pequena fortuna da venda das obras da Exposição que fora um sucesso.
Na Cidade do México, tendo avisado ao pai o dia e a hora de sua chegada ao aeroporto, foi recebida por um motorista uniformizado e com uma tabuleta na mão com o nome de Cristina, e uma multidão de fotógrafos e jornalistas, em meio ao espocar dos flashes. Com dificuldade, diante do empurra-empurra e dos microfones e gravadores, na tentativa de entrevistá-la, falou algumas bobagens, pois era na verdade bastante tola. Entrou num Rolls Royce maravilhoso, que partiu em correria para despistar os paparazzi mexicanos.
O carrão entrou por bairros cada vez mais caros e elitistas, até entrar numa zona de absoluto esplendor, onde não havia menos que palácios em grandes áreas arborizadas. Parou diante de um verdadeiro castelo ou palácio real. Cristina saltou do carro e foi recebida por um mordomo diante de uma porta portentosa no alto de uma breve mas larga escadaria. Entrou por um vestíbulo colossal, salões, salas etc., até um escritório biblioteca, onde a esperava, disfarçando-se de ocupadíssimo, um homem alto, aristocrático, num terno maravilhoso, bem conservado, de têmporas brancas e um bigode aparado, nada mexicano. Abriu-lhe os braços exclamando: “Bien venida a su casa, hija mia”, ou coisa que o valha.
Bem, não vou me estender mais nos detalhes dessa novela mexicana. O fato é que Cristina ficou ali e se passaram vários meses em que viu-se no meio de regras e horários muito rígidos, em meio a governantas soturnas, preceptoras, estudos e orações obrigatórias, uma multidão de empregados, muito poucos de origem índia verdadeira. Parecia estar na Inglaterra, não fosse a língua espanhola vigente.
Um dia, afinal, não agüentando mais essa regime, a pequena prisioneira, que tinha sido criada como uma típica moça de cidade de interior brasileiro, resolveu dar uma escapada. Conseguiu descer do carro em meio a uma rua movimentada no caminho da escola e fugiu do motorista, enveredando por uma colorida e fascinante feira popular. Os índios feirantes, em suas roupas coloridas, a atraíam. Diante de uma barraca, foi abordada por um jovem, uma espécie de hippie, brasileiro por coincidência, e, cativada por sua simpatia e afinidade, convidou-o a tomar chá com ela no palácio, com a intenção de diverti-lo e deslumbrá-lo. Voltou com ele para o carro, onde o motorista a esperava preocupado. Não o deixou manifestar-se ao ver-lhe a cara perplexa diante do hippie colorido e molambento, e com um gesto e palavras imperiosas de comando, ordenou-lhe tocar para o palácio.
Bem, vou encurtar a história. Não entrarei em detalhes quanto às reações do rapaz, muito natural e nada deslumbrado na verdade, como autêntico hippie contestador que era. Só preciso descrever a reação do pai de Cristina, o ministro que, voltando inesperadamente para casa, deparou-se com o casal sentado no chão em posição de lótus, tomando chá um em frente ao outro, rindo descontraidamente e palrando agradavelmente, na maior inocência.
O ministro, vermelho, indignado, espumando de cólera, despejou uma catilinária castelhana de fazer tremer as colunas senhoriais do pórtico de seu palácio. Coisas como: “Indigna! prostituta maldita! Como ousas profanar o meu lar trazendo um mendigo maltrapilho e colorido para dentro destas austeras paredes etc. etc.” Não preciso dizer mais nada, vocês podem imaginar a cena.
O que vocês não poderiam imaginar, foi a reação dos dois, que caíram na gargalhada e, dando de ombros, saíram galhardamente de mãos dadas, como uma intervenção pop no meio de um dramalhão mexicano. Quero somente ressaltar com uma pincelada o rosto quase apoplético em vias de um estouro, à beira de um enfarte, do pomposo ministro anacrônico e extemporâneo. Ufa!! Chega!
Cristina deu as costas a isso tudo e foi viver com o hippie, esbanjando e queimando rapidamente sua pequena fortuna. Os últimos mil dólares foram gastos na compra do cachorrinho chiuáua despelado e degenerado de tanto purismo racial, sintomaticamente simbólico do fechamento de uma etapa de sua vida que não a marcaria quase nada, por inconseqüente e fútil que era. Agora me visitava com o infeliz cachorro trêmulo que não saía do seu colo.
Percebi que a moça mergulhava lenta mas inexoravelmente na obscuridade e anonimato que a esperavam como condição natural de sua natureza medíocre (Deus me perdoe).
Essa bizarra aventura me fez meditar sobre os estranhos “cacos” (no sentido teatral da palavra) que se intrometem no destino singelo das pessoas comuns, que não atinam sequer com o surpreendente, o surreal, o extraordinário, o romanesco de um capítulo insólito nas suas vidas despretensiosas.
Estendeu-me a mão em despedida, dizendo:
— Gostei da sua pintura, mas é muito limpinha e você precisa bagunçar mais o seu ateliê, foi assim que eu vi na Cidade do México.
Sorri e apertei-lhe a mão carinhosamente, porque ela, de um jeito ou de outro, tinha me presenteado com uma fábula. Meu precioso tempo estava pago. Não estou muito certo, neste caso, quanto ao dos meus leitores.
Recebo em meu ateliê uma moça que foi notícia em todos os jornais e revistas alguns meses atrás.
Ela entra com um minúsculo chiuáua parecendo um mosquito, com grandes olhos assustados, debaixo do braço, como um apêndice saindo-lhe das costelas. Cumprimenta-me rapidamente e logo diz, como crítica, tentando ser sofisticada:
— Seu ateliê é muito arrumadinho, não tem aquela bagunça maravilhosa e a sujeira que vi nos dos outros artistas.
Considerei a frase antipática, mas logo percebi tratar-se de uma moça simplória que não estava à altura de suas próprias circunstâncias.
No entanto não podia ficar sem resposta e, fazendo um esforço para não parecer blasé, disse-lhe com candura:
— Leonardo da Vinci, que sempre me inspirou como figura, diante de um Michelangelo sujo de pó de mármore e vestido com um burel disse: “A pintura é uma arte limpa. Pinto sempre com as minhas melhores roupas”.
A visitante piscou um pouco, ficou um segundo com o olhar parado e logo pudemos entabular uma conversação. Eis sua história somadas as notícias do jornal aos relatos de sua viva voz.
Era uma moça comum, da classe média, interiorana. Morava em Taubaté, onde crescera e fora criada mais pela sua avó do que por sua mãe. Sua mãe tinha traços nitidamente mestiços e sua avó era completamente índia. Ela própria herdara esses traços que a desagradavam na infância, por um certo preconceito seu e das outras crianças. Todavia tinha sido uma criança comum, normal mesmo. Sua mãe morreu-lhe cedo, ainda na infância. Mulher estranha, triste, era exótica em sua beleza morena mas nitidamente estrangeira. Sua avó então a criou naquele pequeno sobrado geminado, que continha um inesperado sótão.
Afinal, no leito de morte, a avó chamou a menina e disse: “Cristina, devo revelar-lhe um segredo, talvez um tesouro a que você tem direito. No quarto de costura, aqui em cima tem uma pequena escada levadiça que nós nunca baixamos. Agora você o fará. Suba por essa escadinha e encontrará uma pequena porta que dá para o sótão da casa, na verdade um pouco mais que um simples forro, empoeirado. Ali você encontrará uma grande arca, abra-a com alguma ferramenta, pois está trancada a chave, que se perdeu, mas com cuidado para não danificar nada. Nela está a sua herança, o tesouro que poderá mudar a sua vida”.
Pouco depois de ter dito isso, a velha índia entrou em agonia e morreu. A moça, minha visitante, refreou a curiosidade, chorou muito, velou o cadáver da avó, recebeu as poucas visitas no velório e, depois do enterro, foi àquele quarto, baixou a escadinha, na qual pouco reparara em sua infância medíocre, e subiu-a em grande expectativa. Entrou no sótão escuro e empoeirado, encontrou uma lâmpada pendurada com um interruptor no bocal e, acendendo-a, viu-se diante da misteriosa arca, de aspecto colonial. Estava fechada, teve de arrombá-la com um cano de ferro improvisado em pé de cabra, com um esforço que lhe consumiu vários dias. O mistério e sua curiosidade cresciam. Afinal, conseguiu e, perplexa, encontrou dentro uma pilha de papéis, de vários tamanhos. Eram aquarelas e desenhos que lhe pareceram toscos e muito exóticos, se bem que essa palavra não lhe ocorreu. Era uma moça demasiado simples e comum.
Havia também algumas pinturas sobre telas sem chassis, enroladas. Como não encontrou dinheiro, ouro ou qualquer coisa assim, decepcionada, desceu e ficou de olho parado dois dias. Depois contou a uma amiga mais esperta o acontecido e esta lhe aconselhou a procurar o velho pintor Clovis Graciano, que tinha ateliê na cidade. Ela o fez e, para sua surpresa, depois de algumas perguntas, o pintor ficou muito excitado e curioso. Foram juntos ao sótão. Clovis Graciano, folheando os desenhos e desenrolando as telas à luz mortiça da fraca lâmpada do sótão, estava estupefato, não podia crer no que via. Disse: “Menina, você não imagina o que tem aqui. Estas são obras originais e inéditas do grande Diego Rivera, pintor maravilhosos, afamadíssimo, que é uma espécie de Picasso do México. Como isto veio parar aqui?
Diante de seu silêncio, Graciano olhou bem a moça e logo deduziu algo. Perguntou por sua mãe e, após uma enquete verbal, disse-lhe: “Minha filha, sua mãe é mexicana. Deve ter sido muito próxima de Diego Rivera. Desculpe-me, você conhece seu pai? Sua mãe vivia sozinha aqui com você e sua avó? Bem, vamos revirar os guardados de sua avó. Talvez achemos pistas”.
Dito isso, Clovis e a moça passaram dias revirando as gavetas, arcas e armários que existiam pela casa. Após uma grande pesquisa, olhando fotos, álbuns de família, recortes de jornais e alguns livros em espanhol, Clovis chegou à seguinte conclusão: a mãe de Cristina tinha sido uma mulher belíssima na juventude e fora uma das inúmeras modelos e amantes de Diego Rivera (o grandalhão e gordo pintor, feio como um grande sapo, era irresistível às mulheres, por seu radioso talento e seu charme indescritível). Rivera, como era seu costume, ao longo de sua relação com a moça, que ele deve ter amado, presenteou-a com inúmeros desenhos, aquarelas e algumas telas, tendo notadamente, em muitas dessas obras, a própria amante como modelo. Mas havia muitas outras de interesse mais geral, como cenas mexicanas típicas, algumas épicas e até desenhos eróticos. A mãe de Cristina escondera isso tudo cuidadosamente, mesmo quando, caso terminado, se afastou do pintor e casou-se mais tarde com alguém que Cristina nunca conheceu, nem ouviu falar por alguma secreta razão. A mãe tinha vindo parar com a criança de colo no Brasil, por razões desconhecidas, junto com a avó materna da criança, estabeleceram-se em Taubaté, onde criaram a menina com simplicidade e esforço, mas com alguns recursos misteriosos, segundo pareceu ao pintor Graciano.
O pintor entrou em contato com jornalistas e deu a espantosa notícia que repercutiu em todas as revistas e jornais importantes do país. Contactou também a galeria da velha marchand sua amiga, em que eu coincidentemente fizera minha estréia. Assim eu conhecera Cristina durante a montagem da exposição de Rivera.
A notícia estourou como uma bomba no marasmo cultural daquela época, no que se referia a eventos internacionais entre nós. Resultado: o governo mexicano, através de sua embaixada, diante da notícia sensacional da história do tesouro de Rivera que ia ser vendido no Brasil, fez uma tentativa frustrada de embargar as obras e confiscá-las, alegando pertencerem ao patrimônio histórico e cultural do México. Não pegou. Juridicamente, legalmente, as obras eram da pequena herdeira, que os jornais tentaram glamourizar, mas sem grande sucesso, pois o fato transcendia em muito a personagem secundária e opaca.
Entretanto aconteceu um fato romanesco, pois a estréia da exposição que atraiu os maiores compradores brasileiros e internacionais (vieram do México e dos Estados Unidos grandes colecionadores de Rivera), Cristina recebeu uma carta proveniente da cidade do México, que dizia espantosamente alguma coisa como isso (em espanhol, é claro):
Minha filha desconhecida. Sou fulano de tal, seu pai verdadeiro. Tinha perdido a pista de seu paradeiro, quando o destino nos separou e todos esses anos me perguntei onde estaria o pequeno bebê que vi poucas vezes nos braços de sua mãe. Quero abrir-lhe meus braços, minha pequena, minha filha agora reencontrada. Venha ao meu encontro aqui, nesta casa que será a sua, nesta Cidade do México. Eu já lhe quero bem, e lhe aguardo.
Seu pai,
Fulano de Tal
Ministro do Comércio do Governo do México
Rua tal, número tal, telefone etc.
Cristina ficou curiosa e esperançosa. Como toda moça, sempre sonhara com um pai. Lá foi ela para o México com uma pequena fortuna da venda das obras da Exposição que fora um sucesso.
Na Cidade do México, tendo avisado ao pai o dia e a hora de sua chegada ao aeroporto, foi recebida por um motorista uniformizado e com uma tabuleta na mão com o nome de Cristina, e uma multidão de fotógrafos e jornalistas, em meio ao espocar dos flashes. Com dificuldade, diante do empurra-empurra e dos microfones e gravadores, na tentativa de entrevistá-la, falou algumas bobagens, pois era na verdade bastante tola. Entrou num Rolls Royce maravilhoso, que partiu em correria para despistar os paparazzi mexicanos.
O carrão entrou por bairros cada vez mais caros e elitistas, até entrar numa zona de absoluto esplendor, onde não havia menos que palácios em grandes áreas arborizadas. Parou diante de um verdadeiro castelo ou palácio real. Cristina saltou do carro e foi recebida por um mordomo diante de uma porta portentosa no alto de uma breve mas larga escadaria. Entrou por um vestíbulo colossal, salões, salas etc., até um escritório biblioteca, onde a esperava, disfarçando-se de ocupadíssimo, um homem alto, aristocrático, num terno maravilhoso, bem conservado, de têmporas brancas e um bigode aparado, nada mexicano. Abriu-lhe os braços exclamando: “Bien venida a su casa, hija mia”, ou coisa que o valha.
Bem, não vou me estender mais nos detalhes dessa novela mexicana. O fato é que Cristina ficou ali e se passaram vários meses em que viu-se no meio de regras e horários muito rígidos, em meio a governantas soturnas, preceptoras, estudos e orações obrigatórias, uma multidão de empregados, muito poucos de origem índia verdadeira. Parecia estar na Inglaterra, não fosse a língua espanhola vigente.
Um dia, afinal, não agüentando mais essa regime, a pequena prisioneira, que tinha sido criada como uma típica moça de cidade de interior brasileiro, resolveu dar uma escapada. Conseguiu descer do carro em meio a uma rua movimentada no caminho da escola e fugiu do motorista, enveredando por uma colorida e fascinante feira popular. Os índios feirantes, em suas roupas coloridas, a atraíam. Diante de uma barraca, foi abordada por um jovem, uma espécie de hippie, brasileiro por coincidência, e, cativada por sua simpatia e afinidade, convidou-o a tomar chá com ela no palácio, com a intenção de diverti-lo e deslumbrá-lo. Voltou com ele para o carro, onde o motorista a esperava preocupado. Não o deixou manifestar-se ao ver-lhe a cara perplexa diante do hippie colorido e molambento, e com um gesto e palavras imperiosas de comando, ordenou-lhe tocar para o palácio.
Bem, vou encurtar a história. Não entrarei em detalhes quanto às reações do rapaz, muito natural e nada deslumbrado na verdade, como autêntico hippie contestador que era. Só preciso descrever a reação do pai de Cristina, o ministro que, voltando inesperadamente para casa, deparou-se com o casal sentado no chão em posição de lótus, tomando chá um em frente ao outro, rindo descontraidamente e palrando agradavelmente, na maior inocência.
O ministro, vermelho, indignado, espumando de cólera, despejou uma catilinária castelhana de fazer tremer as colunas senhoriais do pórtico de seu palácio. Coisas como: “Indigna! prostituta maldita! Como ousas profanar o meu lar trazendo um mendigo maltrapilho e colorido para dentro destas austeras paredes etc. etc.” Não preciso dizer mais nada, vocês podem imaginar a cena.
O que vocês não poderiam imaginar, foi a reação dos dois, que caíram na gargalhada e, dando de ombros, saíram galhardamente de mãos dadas, como uma intervenção pop no meio de um dramalhão mexicano. Quero somente ressaltar com uma pincelada o rosto quase apoplético em vias de um estouro, à beira de um enfarte, do pomposo ministro anacrônico e extemporâneo. Ufa!! Chega!
Cristina deu as costas a isso tudo e foi viver com o hippie, esbanjando e queimando rapidamente sua pequena fortuna. Os últimos mil dólares foram gastos na compra do cachorrinho chiuáua despelado e degenerado de tanto purismo racial, sintomaticamente simbólico do fechamento de uma etapa de sua vida que não a marcaria quase nada, por inconseqüente e fútil que era. Agora me visitava com o infeliz cachorro trêmulo que não saía do seu colo.
Percebi que a moça mergulhava lenta mas inexoravelmente na obscuridade e anonimato que a esperavam como condição natural de sua natureza medíocre (Deus me perdoe).
Essa bizarra aventura me fez meditar sobre os estranhos “cacos” (no sentido teatral da palavra) que se intrometem no destino singelo das pessoas comuns, que não atinam sequer com o surpreendente, o surreal, o extraordinário, o romanesco de um capítulo insólito nas suas vidas despretensiosas.
Estendeu-me a mão em despedida, dizendo:
— Gostei da sua pintura, mas é muito limpinha e você precisa bagunçar mais o seu ateliê, foi assim que eu vi na Cidade do México.
Sorri e apertei-lhe a mão carinhosamente, porque ela, de um jeito ou de outro, tinha me presenteado com uma fábula. Meu precioso tempo estava pago. Não estou muito certo, neste caso, quanto ao dos meus leitores.
sábado, 6 de outubro de 2007
Festa do Divino (de Guilherme de Faria)
O Vale - óleo s/ tela de 50x60cm de Guilherme de Faria, coleção Flávio Pacheco, São Paulo.
Festa do Divino
(Conto sobre fatos autobiográficos e pertencente ao meu livro de contos inédito entitulado "O Navio sob os telhados", escrito entre 1965 e 1975)
Estou andando há horas pela estrada. Deixei o ônibus numa encruzilhada, pois a aldeia para onde me encaminho é tão isolada que não há condução pública para ela. Temo que caia a noite e me pegue em meio à caminhada, perdido nesta região estranha para mim. À medida que avanço, pareço recuar no tempo. Pastos, árvores, um belo vale, tudo muito deserto, e uma neblina que já começa a descer ao entardecer. Muito ao longe ainda posso perceber uma colina encimada por uma aldeia com a igreja matriz, maior, bem no topo, mas sem a distinção de tons, parecendo que aldeia e igreja brotam do relevo da colina como um acidente natural dando-lhe o aspecto misterioso de uma ruína.
Acelero o passo para que a névoa da noite não me pegue na estrada. Algumas horas depois subo a encosta da colina em direção à aldeia. Estou tomado pela obsessão desse encontro há algum tempo.
Tudo começou há seis meses, quando em desespero, mandei Ana embora. Ou melhor, deixei-a ir com o poeta que a cortejava, embora nitidamente todo o seu ser pedisse que eu a reclamasse, que lutasse por ela, que a reivindicasse. Não pude. Eu estava esgotado. Meu navio fazia água. Naufragando eu tratava de pegar um pequeno bote salva-vidas sem ligar para mais ninguém. Era como se dissesse: “Vá com ele, salve-se. Um dia nos encontraremos”. Ele era o homem do resgate aéreo: seus pais aceitariam sustentá-los, a ele, poeta e sua escolhida, a mulher de outro, desde que ele abandonasse a Poesia e fosse trabalhar com eles ou como eles. Criariam meu bebê como se fosse dele, o filho pródigo que agora retornava. Eu era o jovem pintor, paupérrimo, em minha primeira falência existencial. Muitas outras se seguiriam. Algumas descidas ao Hades, haveria para mim ao longo de minha atribulada existência.
Naquele momento não podia sustentar ninguém. Pegava madeiras velhas nos terrenos baldios para suporte das minhas pinturas. Fazia com elas, também, móveis: bancos, mesas... a cama. Puxava os encanamentos por fora das paredes, no porão onde habitava, como vísceras à mostra. Eu era o Robinson Crusoe de mim mesmo. Refazia os passos da Humanidade Ancestral. Era preciso fazer tudo com as minhas próprias mãos. Não podia delegar nada. Mais um pouco e eu começaria a caçar ratos para comer. Era preciso. Não havia ainda chegado à era das trocas, muito menos à Era do Dinheiro.
Agora eu caminhava pela ruela, em subida, ao cair da noite, de uma aldeia parada no tempo, com seus habitantes, caipiras parados nas portas e janelas para me ver passar, estranho para eles, com meus cabelos e barba compridos, imagino. Seus olhares inescrutáveis, não revelavam nada, muito menos qualquer simpatia. Eu caminhava como o forasteiro que chega, mas contrafeito, tentando manter o passo seguro, observado de janela em janela até chegar a uma casa com a tabuleta “Pensão”, no fim da rua por onde entrara e bem perto da matriz no alto do morro. Entrei numa casa escura, térrea, de teto muito alto, iluminada com lâmpadas fraquíssimas, de uma tristeza e vazio atrozes, parecia-me. Registrei-me. Entrei no quarto e preparei-me para enfrentar a noite, em busca do amanhecer, para então procurar a casa de Ana e o poeta.
A insônia se anunciava. Dispus-me a passar a noite em claro, no silêncio aterrador. Na verdade ouvia-se ao longe um tic-tac de um monstruoso relógio de pêndulo, cães ladravam mais longe ainda, sapos coaxavam, mas o silêncio misterioso persistia. Minha mente repassava os últimos tempos de minha convivência com Ana e a intrusão do poeta em nossas vidas. Seis meses depois de tê-los orgulhosamente expulsado de meu quase sórdido porão, eu estava rendido, derrotado pelo remorso e pela saudade. Ana me parecia uma preciosidade perdida, como a melhor parte de mim mesmo que eu deixara amputar. É claro que eu estava doente, de culpa, de solidão, de insuficiência. Mas o amor não é assim mesmo? Ou pelo menos a paixão, que é sempre mórbida e doentia no final...
Depois de horas de tumulto em minha mente, ouvi as doze badaladas. No relógio de pêndulo da Eternidade, talvez? Foi esse o pensamento que tive, acreditem. Um segundo após, um rojão subiu sibilante e estrondou lá fora. Em seguida, novo silêncio rompido subitamente por uma chicotada seguida do chocalhar de uma matraca que soou como o guiso sinistro de uma cascavel. Começara a lúgubre procissão. Vinda de muito longe, subia em caracol, com uma toada ou cantochão fúnebre, sem palavras: óóó, óóó, óóó...que subia e descia na escala musical, de maneira arcaica, monástica, ancestral, como um lamento de morte, de mil carpideiras, mas de vozes masculinas e graves, entremeado nas pausas pelo estalar de um chicote seguido por aquele chocalho da Cascavel do Mundo.
Eu estava arrepiado, diante da janela fechada. Imóvel, cheio de terríveis presságios. Ao mesmo tempo, curioso, entreabri a veneziana enquanto a procissão passava em frente à minha janela. Pude ver as tochas e os capuzes cônicos altíssimos, os rostos todos cobertos por máscaras trágicas. E o chicote comprido na mão de um deles, que comandava as pausas e o chocalhar das matracas. Os encapuzados, flagelavam-se constantemente e tinham as costas nuas cobertas de sangue. Aterrorizante. Era a noite que antecede a Festa do Divino, depois eu soube.
Durante toda a noite ouvi o cortejo circular pelas ruelas da cidade, subindo e descendo em espiral.
Ainda antes do amanhecer, o lamento distanciou-se abandonando a colina. Resolvi deixar o quarto e subir. Ao lado da Matriz escura, ainda em trevas com os primeiros albores muito longe no horizonte circular, encontrei um mirante natural, uma espécie de pequeno campo no topo da colina. Fiquei ali, de pé, olhando, olhando, fazendo a vista acostumar-se à escuridão para perceber as menores cintilações ou insinuações do branco das coisas deste mundo, fantasmagóricas e lívidas, antes de se colorirem com a chegada plena do sol.
A névoa enchia todo o vale, como um verdadeiro oceano de brumas. Os picos que circundavam o vale, começaram a aparecer, como ilhas no mar branco. Infinitas ilhas flutuantes. A bruma baixava lentamente, milimetricamente. Demorou uma hora para descer ao sopé das montanhas, afinal, cobrindo rasteiramente o vale, até deixar aparecer rios, várzeas, plantações, árvores, pastos e gado esparso. Um cão corria, muito ao longe, eufórico. O sol surgia por trás das montanhas e quando seu disco se destacou por inteiro, rojões partiram, sobressaltando-me. O ar se enchia de alegres estrondos, saudando o Divino Espírito Santo.
Dirigi-me para a casinha cujo número eu levava comigo no bolso. No caminho reparei na comprida mesa, de dezenas de metros, armada ao longo da rua, que serviria para um grande banquete popular, comunitário, do qual, certamente eu não participaria.
Com o coração ansioso e opresso, bati na porta rústica. A voz de Ana se fez ouvir através, perguntando quem era. Hesitei um pouco, antes de responder, emocionado.
Sua voz remeteu-me ao passado, ao momento em que fui buscar nossa filha na casa da avó materna, que assustada, tinha antes se recusado a entregar a criança à própria mãe. O poeta pedira-me que eu resgatasse minha filha para entregá-la à mãe e a ele, para que pudessem partir. Cheguei com o pequeno caminhão de mudanças e fui bem recebido pela mãe de Ana que como uma leoa avó, só entregaria o bebê a mim: o pai.
Disse-lhe que a casa estava pronta( o meu porão, se ela soubesse, nunca habitável ) e que viera buscar as coisas do bebê e as de Ana. Fiz a mudança da tralha toda, enchi o caminhão, encimando tudo com a banheirinha do bebê, e então ela me entregou a criança, com mil recomendações: - “ Vida nova, hem! Juizo! Felicidades pros três! Cuide bem delas!” – ai de mim!..
Parti. Na próxima esquina o poeta esperava por mim, como combinado. Desci do caminhão com meu bebê nos braços. Entreguei-o solenemente a ele. Apertamo-nos as mãos num shake-hands viril e cúmplice. Não dissemos uma palavra. Ele subiu no caminhão e partiu com ela nos braços.
Ana abre a porta, agora, seis meses depois, cheia de surpresa . Não me esperava jamais. – “Você?”
Passei direto por ela e instintivamente achei o quarto de Fedra. Olhei-a atentamente, acordada em seu berço. Como era linda essa criança!... Como isso me comovia agora, apesar de eu já ter tido essa impressão quando do seu nascimento. Seus olhos azuis claros, sua cabecinha perfeita, com o sedoso cabelinho louro... e seus lábios, cheios, marcantes, perfeitamente delineados. Tirei-a do berço e abracei-a ao colo. Minha filha assustou-se e começou a chorar. O choro inquietante dos bebês... dolorido e desconcertante. Não me reconhecera. Ana gentilmente retirou-me a bebê dos braços e a repôs no berço com palavras doces e um suave schhhh... A seguir convidou-me a conversar na cozinha onde prepararia a mamadeira da manhã. O poeta não estava em casa, felizmente.
Olhei-a de perfil diante do fogão. Seu lindo perfil, tão querido... Tudo em volta, tão singelo, a casinha funcional, cotidiana. As mamadeiras sobre a pia. Cada coisa em seu lugar. Doía-me o peito. De repente, percebi o mais terrível. Seu ventre me pareceu bastante proeminente. Ela estava grávida!
Eu chegara tarde demais. Ana estava irremediavelmente perdida para mim.
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( de “O Navio sob os Telhados”, livro de contos de 1965-1974)
Alma Welt

Capa do folheto Poemas da Alma, de Alma Welt (1972-2007), com desenho de Guilherme de Faria representando Eros e Psiqué, em que esta é um retrato da própria poetisa que posou para o desenho quando ela e o artista se conheceram em 2001. Este como o livro Contos da Alma, de Alma Welt, da Editora Palavras & Gestos se encontram à venda, bem como poemas e sonetos da grande poetisa gaúcha falecida este ano (em 20/01) e que foram publicados em forma de folhetos embalados em caixinhas de madeira (Kits), pelas "Edições do Pavão Misterioso" (edições artesanais do pintor e poeta) e se encontram nas seguintes lojas e livrarias:
CALLIGRAPHIA (famiglia Mancini)- rua Avanhandava 40-A- tel (55)11 3151-6477
LIVRARIA DA VILA- Al.Lorena, 1731. Jardins/ T 3814-5811
e Vila Madalena/ rua Fradique Coutinho, 915/ T 11 3073-0513
BOOKLOVERS- Rua Augusta, 2633-loja 23- Jd-América-SP/ T11 3061-2008
INSTITUTO MOREIRA SALLES- Rua Piauí, 844, 1° andar Higienópolis- São Paulo SP
UNIBANCO ART-PLEX- Frei Caneca Shopping, rua Frei Caneca, 569 3° piso -T 11 3255-8816
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