domingo, 4 de novembro de 2007


Projeto de capa do livro inédito de contos de Guilherme de Faria, escrito a partir de 1975. A diagramação é de autoria de Giovanni Meirelles de Faria sobre litografia do autor (a "lavis" em pedra da Bavária).

sábado, 27 de outubro de 2007

A Fênix consumida (conto de Guilherme de Faria)

(do livro O Navio sob os Telhados, escrito em 1975)


O telefone toca em meu ateliê . Apresso-me a atender, visto que a solidão e o isolamento me pesam nestes últimos meses após o término de meu casamento. Sinto-me, perdoem-me o lugar comum, “um cão sem dono .” Estou tremendamente necessitado de companhia feminina. As mulheres, espelho perfeito da alma, equilibram-me a personalidade, adoçando-me a voz e os gestos que, isolados, tendem a ficar estridentes e duros. Bem, vocês sabem...
Para minha imensa surpresa, é Helga ao telefone. Minha querida Helga, amor da minha adolescência , que eu não vejo há vinte e cinco anos. Não esperava jamais que me procurasse. Nada soube dela, de sua vida e amores, após a perda que me infligiu aos dezessete anos, quando abandonado por ela, minha namorada, entrei em profunda melancolia que durara exatos trezentos e sessen ta e cinco dias e quatro horas.
Combinamos encontro no Trevo. Passo um pente nos cabelos que percebo já grisalhos nas têmporas e em expectativa confiante, alegremente pego o elevador, que baixa juntamente com minha memória ao momento do nosso encontro na escola, jovens e inseguros que éramos, num reconhecimento imediato, seguido de crescente paixão de minha parte, pelo menos. A jovem extraordinariamente bela, muito branca, loura, de olhos verdes rasgados, voz sumida e macia, muito suave, pousara os olhos sobre mim e pondo a mão em meu braço, dissera algo que não me lembro mas que ressoa na memória como: “agora não vamos mais nos deixar...” É claro que não deveria ser isso, mas...
Ficávamos em suave idílio pelos corredores da escola, no pátio, na sala de aula, passando bilhetinhos um para o outro. Olhos se procurando a todo momento.
Um dia um professor fez-nos levantar e galantemente dispensou-nos do resto da aula, como um consentimento respeitoso diante de seu reconhecimento da evidência de um fenômeno amoroso raro, naquela escola: uma paixão de adolescentes, que se destacava por uma intensidade pura e romântica. Saímos de mãos dadas, acompanhados de risinhos dos colegas, que não nos pareceram desrespeitosos mas quase ternos. A paixão e a beleza contaminam, atenuadamente, já notaram?
Sento-me à mesa do restaurante e logo em seguida a vejo entrar Era ela! Imediatamente a reconheci em todo o esplendor original. Continuava lindíssima. Abracei-a, segurei-lhe a mão e não mais a desprendi. Olhos nos olhos, “sopramos a antiga chama”, perdoem-me o romantismo gasto. Imediatamente incendiamo-nos e a paixão estava presente novamente. Confessou-me o seu recíproco sentimento de perda ao nos separarmos na escola, sentimento que segundo ela, perdurara. Tudo isso surpreendeu-me muito, pois julgava que ela me deixara por súbito desamor, por alguma incongruência, por falta de verdadeira reciprocidade de sua parte. Enfim, eu sofrera como um cão, frustrado em minha paixão, que acreditei solitária. Que grande mal entendido!..
Levantamo-nos e deixamos o restaurante onde sou muito conhecido e pareceu-me ser seguido por olhares de aprovação dos garçons e do gerente. Já estávamos levitando.
Fomos direto para o meu studio, onde jogamo-nos na cama nus e possuímo-nos ardentemente pela primeira vez. Seu corpo me pareceu deslumbrante , muito branco. Seu sexo, ligeiramente avermelhado como uma boca, encimado por pentelhos dourados, visto que ela era loura verdadeira. Penetrei-a lentamente, pois ela dizia estar “muito fechadinha”, desacostumada (estava viúva há uns dois anos), segundo me contou. Pediu-me que fosse demorado, porque gostava de ficar num estado de “pasta ”, expressão que não me agradou, mas que logo incorporei.
Depois disso, novos encontros, telefonemas, paixão galopante, pacto, planos juras, reencontro total.
Combinamos viver juntos em sua cidade. Ela me apresentaria seus filhos adolescentes. Eles me “amariam”. Nós nos “casaríamos” pela aprovação de todos os seus amigos e parentes. Tinha uma mãe aristocrática segundo me pareceu pela descrição que me fez. Deveria usar chapéus de abas larguíssimas, com véu sobre os olhos e fumar de piteira, segundo imaginei, e essa nos daria a sua benção, estendendo-me a mão enluvada para que eu a beijasse.
Fiz as malas. Minha querida faxineira, preta velha que eu “herdara” da minha ex mulher, pois ganhara sua preferência na partilha, abanava a cabeça, desconsolada. Dizia que eu estava bobo, que era muito precipitado, que eu esperasse um pouco. Entendi mal e disse-lhe que não se preocupasse, que seu salário, estava garantido e que ela continuaria no meu apartamento-estudio, porque eu viveria cá e lá, pôr motivo de trabalho. Na verdade eu já imaginava uma nova vida, vibrante, idílica, num outro mundo, para mim desconhecido, mas que não me assustava. Estava confiante e decidido.
Chegando em sua cidade, tudo me pareceu belo e agradável. Recebeu-me esfuziante e logo me apresentou seus amigos. Todos pareciam encantados conosco e com a nossa história. Ela não se cansava de contar o nosso “reencontro”, com a voz e o olhar de uma menina deslumbrada. Os amigos e parentes dela recebiam-nos com aquele misto de admiração e complacência, que os apaixonados despertam nas pessoas.
Seus filhos: umas “gracinhas”, pareceu-me. Belos adolescentes, duas meninas que faziam doce num tacho, fios de ovos louros como seus cabelos e um rapaz de dezessete anos, alto como uma porta, também louro como um viking, que dava saltos e mergulhava de peito, deslizando no assoalho do apartamento, treinando ininterruptamente o vôlei. Aceitaram-me logo com simpatia. As meninas me cercaram fazendo perguntas doces, nada incisivas. Estavam felizes pela mãe. Tudo muito bom...
Helga então levou-me a conhecer sua mãe. Não precisou apresentar-nos: nos já sabíamos tudo. Pareceu-me exatamente como eu a imaginei, só que mais aristocrática ainda, de uma maneira positiva, “nobre”. Beijei-lhe a mão como eu ensaiara antes na imaginação. Tudo se encaixava...
Após alguns dias em sua cama, com a aceitação dos meninos, ela manifestou o desejo de mudar-se comigo para outro apartamento, para ficarmos mais à vontade e deixar os filhos adolescentes reinarem naquele. O viking, por exemplo, mergulhava cada vez mais a toda hora, dando-nos sustos. E as meninas começavam a engordar a fios de ovos, digo, a olhos vistos.
Ela já encontrara um ap vazio, alguns andares acima. Espaçoso, branco como a virgindade, bem pintado, pronto para receber-nos. Assim ela poderia viver seu grande amor e vigiar os filhos ao mesmo tempo. Afinal, era uma mãe exemplar...
Procuramos a proprietária do ap vago, que morava no mesmo prédio. Uma velhinha simpática, que nos recebeu com carinho, no mesmo diapasão da simpatia geral, e quase adotou-nos como avó. Faria um grande desconto no aluguel, pois fazia questão de alugar para nós, um casal tão abençoado e iluminado. Saímos radiantes , elogiando a velhinha.
Passaram-se alguns dias. Foi marcado o dia e a hora de assinar contrato na Imobiliária. A proprietária já se entendera com o advogado ou corretor dessa firma, que estava nos esperando lá, no centro da cidade. Alguma coisa toldava o olhar de Helga. Estava nervosa. Parece que tivera uma ligeira discussão azeda com o advogado, ao telefone. Este não estava disposto baixar o aluguel achando que nós seduzíramos a sua cliente aproveitando-nos da sua idade avançada e de sua ingenuidade.
Helga entrou tensa na sala. Aquele homem ameaçava sua felicidade, pois o aluguel ficaria inacessível. A funcionária atendente correu a chamar o corretor que apareceu na sala do outro lado do balcão de atendimento. Imediatamente algo aconteceu.
Olhei seu rosto, o do advogado corretor, e vi nitidamente a cabeça rosnante de um lobo, os grandes caninos à mostra na bocarra arreganhada. Mas é preciso que eu diga: não era “como um lobo”, mas “o’’ lobo mesmo, real como uma alucinação. Voltei os olhos para Helga, e oh! horror! Abominação! Oh! mistérios desconcertantes da minha vida! Sua cabeça era a de um Javalí ! Enorme, com os grandes dentes de baixo saindo recurvos dos lados do focinho. Os olhinhos pequenos, vermelhos, faiscando sobre as bochechas enxundiosas, as cerdas eriçadas, rosnando em dueto temível, como uma gorda Walquíria wagneriana diante de um Wolfried.
Sentí-me transfigurar imediatamente numa parede de gelo entre eles dois. Só assim aquilo cessaria, pensei eu. Pelo meu silêncio glacial, pela minha inércia e neutralidade extremas, lançando uma muralha sobre a linha do balcão que separava os dois inimigos constrangedores.
Saímos logo dali. Não houve acordo. Eu estava confuso, consternado e mantinha a cabeça baixa no elevador. À saída, Helga virou-se para mim em pânico, quase gritando:
-“ O que aconteceu?! Você não me ama mais. Seus olhos mudaram! Eu vejo! Que sucedeu? Oh! Meu Deus, você não está mais apaixonado por mim. Eu te perdi! Eu te perdi !” - Ela quase gritava , chamando a atenção dos passantes.
Imediatamente olhei-a nos olhos e oh! seus cabelos louros tinham se tornado brancos. Seus verdes olhos pareciam aguados e pequenos, espremidos na gordura do rosto. Olhei-a inteira e diante dos meus olhos a celulite tomou-a dos pés à cabeça. Toda ela se derretia diante de mim. Gorda, gasta, infeliz, em sua bulemia revelada.
Eu estava consternado, envergonhado e confuso. Baixara os olhos, queria pedir desculpas. Balbuciei algo sobre um cheque afetivo sem fundos que eu sem querer lhe havia passado, mas a imagem infeliz só piorou as coisas. Tentei por outro lado, revelando meu alcoolismo longamente detido, que nos pregara uma peça. Eu devia estar numa bebedeira seca, eu não merecia confiança, era culpado. Não havia nada de errado com ela.
Tudo era inútil. O fenômeno realmente acontecera. Minha mente e meus sentidos me haviam ludibriado antes, mas caíra-me o véu dos olhos e agora o real se havia reinstalado em toda a sua crueldade. E isso eu não poderia dizer-lhe jamais.
Gaguejava desculpas e só queria safar-me dali, sair de sua presença para sempre e refugiar-me no meu pequenino ateliê de onde não sairia mais. Pagar-lhe-ía uma indenização por danos e perdas afetivas. Mandaria um cheque todo mês para pagar-lhe aquele aluguel para que ela pudesse ter seu studio, a salvo das pequenas doceiras dos cabelos de fios de ovos e do Viking mergulhador de assoalho.
Mas estava tudo perdido para nós. A Fênix consumira-se para sempre.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O artista quando jovem, fantasiado de hippie.


Guilherme de Faria, em 1968, como hippie numa festa à fantasia na casa do marchand Giuseppe Baccaro. Foto de autoria de Regastein Rocha.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A Herdeira de Rivera (crônica de Guilherme de Faria)

(Crônica sobre fatos absolutamente verdadeiros escrita em 1965, e que faz parte do meu livro inédito entitulado "O Navio sob os Telhados")



Recebo em meu ateliê uma moça que foi notícia em todos os jornais e revistas alguns meses atrás.
Ela entra com um minúsculo chiuáua parecendo um mosquito, com grandes olhos assustados, debaixo do braço, como um apêndice saindo-lhe das costelas. Cumprimenta-me rapidamente e logo diz, como crítica, tentando ser sofisticada:
— Seu ateliê é muito arrumadinho, não tem aquela bagunça maravilhosa e a sujeira que vi nos dos outros artistas.
Considerei a frase antipática, mas logo percebi tratar-se de uma moça simplória que não estava à altura de suas próprias circunstâncias.
No entanto não podia ficar sem resposta e, fazendo um esforço para não parecer blasé, disse-lhe com candura:
— Leonardo da Vinci, que sempre me inspirou como figura, diante de um Michelangelo sujo de pó de mármore e vestido com um burel disse: “A pintura é uma arte limpa. Pinto sempre com as minhas melhores roupas”.
A visitante piscou um pouco, ficou um segundo com o olhar parado e logo pudemos entabular uma conversação. Eis sua história somadas as notícias do jornal aos relatos de sua viva voz.
Era uma moça comum, da classe média, interiorana. Morava em Taubaté, onde crescera e fora criada mais pela sua avó do que por sua mãe. Sua mãe tinha traços nitidamente mestiços e sua avó era completamente índia. Ela própria herdara esses traços que a desagradavam na infância, por um certo preconceito seu e das outras crianças. Todavia tinha sido uma criança comum, normal mesmo. Sua mãe morreu-lhe cedo, ainda na infância. Mulher estranha, triste, era exótica em sua beleza morena mas nitidamente estrangeira. Sua avó então a criou naquele pequeno sobrado geminado, que continha um inesperado sótão.
Afinal, no leito de morte, a avó chamou a menina e disse: “Cristina, devo revelar-lhe um segredo, talvez um tesouro a que você tem direito. No quarto de costura, aqui em cima tem uma pequena escada levadiça que nós nunca baixamos. Agora você o fará. Suba por essa escadinha e encontrará uma pequena porta que dá para o sótão da casa, na verdade um pouco mais que um simples forro, empoeirado. Ali você encontrará uma grande arca, abra-a com alguma ferramenta, pois está trancada a chave, que se perdeu, mas com cuidado para não danificar nada. Nela está a sua herança, o tesouro que poderá mudar a sua vida”.
Pouco depois de ter dito isso, a velha índia entrou em agonia e morreu. A moça, minha visitante, refreou a curiosidade, chorou muito, velou o cadáver da avó, recebeu as poucas visitas no velório e, depois do enterro, foi àquele quarto, baixou a escadinha, na qual pouco reparara em sua infância medíocre, e subiu-a em grande expectativa. Entrou no sótão escuro e empoeirado, encontrou uma lâmpada pendurada com um interruptor no bocal e, acendendo-a, viu-se diante da misteriosa arca, de aspecto colonial. Estava fechada, teve de arrombá-la com um cano de ferro improvisado em pé de cabra, com um esforço que lhe consumiu vários dias. O mistério e sua curiosidade cresciam. Afinal, conseguiu e, perplexa, encontrou dentro uma pilha de papéis, de vários tamanhos. Eram aquarelas e desenhos que lhe pareceram toscos e muito exóticos, se bem que essa palavra não lhe ocorreu. Era uma moça demasiado simples e comum.
Havia também algumas pinturas sobre telas sem chassis, enroladas. Como não encontrou dinheiro, ouro ou qualquer coisa assim, decepcionada, desceu e ficou de olho parado dois dias. Depois contou a uma amiga mais esperta o acontecido e esta lhe aconselhou a procurar o velho pintor Clovis Graciano, que tinha ateliê na cidade. Ela o fez e, para sua surpresa, depois de algumas perguntas, o pintor ficou muito excitado e curioso. Foram juntos ao sótão. Clovis Graciano, folheando os desenhos e desenrolando as telas à luz mortiça da fraca lâmpada do sótão, estava estupefato, não podia crer no que via. Disse: “Menina, você não imagina o que tem aqui. Estas são obras originais e inéditas do grande Diego Rivera, pintor maravilhosos, afamadíssimo, que é uma espécie de Picasso do México. Como isto veio parar aqui?
Diante de seu silêncio, Graciano olhou bem a moça e logo deduziu algo. Perguntou por sua mãe e, após uma enquete verbal, disse-lhe: “Minha filha, sua mãe é mexicana. Deve ter sido muito próxima de Diego Rivera. Desculpe-me, você conhece seu pai? Sua mãe vivia sozinha aqui com você e sua avó? Bem, vamos revirar os guardados de sua avó. Talvez achemos pistas”.
Dito isso, Clovis e a moça passaram dias revirando as gavetas, arcas e armários que existiam pela casa. Após uma grande pesquisa, olhando fotos, álbuns de família, recortes de jornais e alguns livros em espanhol, Clovis chegou à seguinte conclusão: a mãe de Cristina tinha sido uma mulher belíssima na juventude e fora uma das inúmeras modelos e amantes de Diego Rivera (o grandalhão e gordo pintor, feio como um grande sapo, era irresistível às mulheres, por seu radioso talento e seu charme indescritível). Rivera, como era seu costume, ao longo de sua relação com a moça, que ele deve ter amado, presenteou-a com inúmeros desenhos, aquarelas e algumas telas, tendo notadamente, em muitas dessas obras, a própria amante como modelo. Mas havia muitas outras de interesse mais geral, como cenas mexicanas típicas, algumas épicas e até desenhos eróticos. A mãe de Cristina escondera isso tudo cuidadosamente, mesmo quando, caso terminado, se afastou do pintor e casou-se mais tarde com alguém que Cristina nunca conheceu, nem ouviu falar por alguma secreta razão. A mãe tinha vindo parar com a criança de colo no Brasil, por razões desconhecidas, junto com a avó materna da criança, estabeleceram-se em Taubaté, onde criaram a menina com simplicidade e esforço, mas com alguns recursos misteriosos, segundo pareceu ao pintor Graciano.
O pintor entrou em contato com jornalistas e deu a espantosa notícia que repercutiu em todas as revistas e jornais importantes do país. Contactou também a galeria da velha marchand sua amiga, em que eu coincidentemente fizera minha estréia. Assim eu conhecera Cristina durante a montagem da exposição de Rivera.
A notícia estourou como uma bomba no marasmo cultural daquela época, no que se referia a eventos internacionais entre nós. Resultado: o governo mexicano, através de sua embaixada, diante da notícia sensacional da história do tesouro de Rivera que ia ser vendido no Brasil, fez uma tentativa frustrada de embargar as obras e confiscá-las, alegando pertencerem ao patrimônio histórico e cultural do México. Não pegou. Juridicamente, legalmente, as obras eram da pequena herdeira, que os jornais tentaram glamourizar, mas sem grande sucesso, pois o fato transcendia em muito a personagem secundária e opaca.
Entretanto aconteceu um fato romanesco, pois a estréia da exposição que atraiu os maiores compradores brasileiros e internacionais (vieram do México e dos Estados Unidos grandes colecionadores de Rivera), Cristina recebeu uma carta proveniente da cidade do México, que dizia espantosamente alguma coisa como isso (em espanhol, é claro):
Minha filha desconhecida. Sou fulano de tal, seu pai verdadeiro. Tinha perdido a pista de seu paradeiro, quando o destino nos separou e todos esses anos me perguntei onde estaria o pequeno bebê que vi poucas vezes nos braços de sua mãe. Quero abrir-lhe meus braços, minha pequena, minha filha agora reencontrada. Venha ao meu encontro aqui, nesta casa que será a sua, nesta Cidade do México. Eu já lhe quero bem, e lhe aguardo.
Seu pai,
Fulano de Tal
Ministro do Comércio do Governo do México
Rua tal, número tal, telefone etc.

Cristina ficou curiosa e esperançosa. Como toda moça, sempre sonhara com um pai. Lá foi ela para o México com uma pequena fortuna da venda das obras da Exposição que fora um sucesso.
Na Cidade do México, tendo avisado ao pai o dia e a hora de sua chegada ao aeroporto, foi recebida por um motorista uniformizado e com uma tabuleta na mão com o nome de Cristina, e uma multidão de fotógrafos e jornalistas, em meio ao espocar dos flashes. Com dificuldade, diante do empurra-empurra e dos microfones e gravadores, na tentativa de entrevistá-la, falou algumas bobagens, pois era na verdade bastante tola. Entrou num Rolls Royce maravilhoso, que partiu em correria para despistar os paparazzi mexicanos.
O carrão entrou por bairros cada vez mais caros e elitistas, até entrar numa zona de absoluto esplendor, onde não havia menos que palácios em grandes áreas arborizadas. Parou diante de um verdadeiro castelo ou palácio real. Cristina saltou do carro e foi recebida por um mordomo diante de uma porta portentosa no alto de uma breve mas larga escadaria. Entrou por um vestíbulo colossal, salões, salas etc., até um escritório biblioteca, onde a esperava, disfarçando-se de ocupadíssimo, um homem alto, aristocrático, num terno maravilhoso, bem conservado, de têmporas brancas e um bigode aparado, nada mexicano. Abriu-lhe os braços exclamando: “Bien venida a su casa, hija mia”, ou coisa que o valha.
Bem, não vou me estender mais nos detalhes dessa novela mexicana. O fato é que Cristina ficou ali e se passaram vários meses em que viu-se no meio de regras e horários muito rígidos, em meio a governantas soturnas, preceptoras, estudos e orações obrigatórias, uma multidão de empregados, muito poucos de origem índia verdadeira. Parecia estar na Inglaterra, não fosse a língua espanhola vigente.
Um dia, afinal, não agüentando mais essa regime, a pequena prisioneira, que tinha sido criada como uma típica moça de cidade de interior brasileiro, resolveu dar uma escapada. Conseguiu descer do carro em meio a uma rua movimentada no caminho da escola e fugiu do motorista, enveredando por uma colorida e fascinante feira popular. Os índios feirantes, em suas roupas coloridas, a atraíam. Diante de uma barraca, foi abordada por um jovem, uma espécie de hippie, brasileiro por coincidência, e, cativada por sua simpatia e afinidade, convidou-o a tomar chá com ela no palácio, com a intenção de diverti-lo e deslumbrá-lo. Voltou com ele para o carro, onde o motorista a esperava preocupado. Não o deixou manifestar-se ao ver-lhe a cara perplexa diante do hippie colorido e molambento, e com um gesto e palavras imperiosas de comando, ordenou-lhe tocar para o palácio.
Bem, vou encurtar a história. Não entrarei em detalhes quanto às reações do rapaz, muito natural e nada deslumbrado na verdade, como autêntico hippie contestador que era. Só preciso descrever a reação do pai de Cristina, o ministro que, voltando inesperadamente para casa, deparou-se com o casal sentado no chão em posição de lótus, tomando chá um em frente ao outro, rindo descontraidamente e palrando agradavelmente, na maior inocência.
O ministro, vermelho, indignado, espumando de cólera, despejou uma catilinária castelhana de fazer tremer as colunas senhoriais do pórtico de seu palácio. Coisas como: “Indigna! prostituta maldita! Como ousas profanar o meu lar trazendo um mendigo maltrapilho e colorido para dentro destas austeras paredes etc. etc.” Não preciso dizer mais nada, vocês podem imaginar a cena.
O que vocês não poderiam imaginar, foi a reação dos dois, que caíram na gargalhada e, dando de ombros, saíram galhardamente de mãos dadas, como uma intervenção pop no meio de um dramalhão mexicano. Quero somente ressaltar com uma pincelada o rosto quase apoplético em vias de um estouro, à beira de um enfarte, do pomposo ministro anacrônico e extemporâneo. Ufa!! Chega!
Cristina deu as costas a isso tudo e foi viver com o hippie, esbanjando e queimando rapidamente sua pequena fortuna. Os últimos mil dólares foram gastos na compra do cachorrinho chiuáua despelado e degenerado de tanto purismo racial, sintomaticamente simbólico do fechamento de uma etapa de sua vida que não a marcaria quase nada, por inconseqüente e fútil que era. Agora me visitava com o infeliz cachorro trêmulo que não saía do seu colo.
Percebi que a moça mergulhava lenta mas inexoravelmente na obscuridade e anonimato que a esperavam como condição natural de sua natureza medíocre (Deus me perdoe).
Essa bizarra aventura me fez meditar sobre os estranhos “cacos” (no sentido teatral da palavra) que se intrometem no destino singelo das pessoas comuns, que não atinam sequer com o surpreendente, o surreal, o extraordinário, o romanesco de um capítulo insólito nas suas vidas despretensiosas.
Estendeu-me a mão em despedida, dizendo:
— Gostei da sua pintura, mas é muito limpinha e você precisa bagunçar mais o seu ateliê, foi assim que eu vi na Cidade do México.
Sorri e apertei-lhe a mão carinhosamente, porque ela, de um jeito ou de outro, tinha me presenteado com uma fábula. Meu precioso tempo estava pago. Não estou muito certo, neste caso, quanto ao dos meus leitores.

sábado, 6 de outubro de 2007

Festa do Divino (de Guilherme de Faria)


O Vale - óleo s/ tela de 50x60cm de Guilherme de Faria, coleção Flávio Pacheco, São Paulo.

Festa do Divino

(Conto sobre fatos autobiográficos e pertencente ao meu livro de contos inédito entitulado "O Navio sob os telhados", escrito entre 1965 e 1975)

Estou andando há horas pela estrada. Deixei o ônibus numa encruzilhada, pois a aldeia para onde me encaminho é tão isolada que não há condução pública para ela. Temo que caia a noite e me pegue em meio à caminhada, perdido nesta região estranha para mim. À medida que avanço, pareço recuar no tempo. Pastos, árvores, um belo vale, tudo muito deserto, e uma neblina que já começa a descer ao entardecer. Muito ao longe ainda posso perceber uma colina encimada por uma aldeia com a igreja matriz, maior, bem no topo, mas sem a distinção de tons, parecendo que aldeia e igreja brotam do relevo da colina como um acidente natural dando-lhe o aspecto misterioso de uma ruína.

Acelero o passo para que a névoa da noite não me pegue na estrada. Algumas horas depois subo a encosta da colina em direção à aldeia. Estou tomado pela obsessão desse encontro há algum tempo.

Tudo começou há seis meses, quando em desespero, mandei Ana embora. Ou melhor, deixei-a ir com o poeta que a cortejava, embora nitidamente todo o seu ser pedisse que eu a reclamasse, que lutasse por ela, que a reivindicasse. Não pude. Eu estava esgotado. Meu navio fazia água. Naufragando eu tratava de pegar um pequeno bote salva-vidas sem ligar para mais ninguém. Era como se dissesse: “Vá com ele, salve-se. Um dia nos encontraremos”. Ele era o homem do resgate aéreo: seus pais aceitariam sustentá-los, a ele, poeta e sua escolhida, a mulher de outro, desde que ele abandonasse a Poesia e fosse trabalhar com eles ou como eles. Criariam meu bebê como se fosse dele, o filho pródigo que agora retornava. Eu era o jovem pintor, paupérrimo, em minha primeira falência existencial. Muitas outras se seguiriam. Algumas descidas ao Hades, haveria para mim ao longo de minha atribulada existência.

Naquele momento não podia sustentar ninguém. Pegava madeiras velhas nos terrenos baldios para suporte das minhas pinturas. Fazia com elas, também, móveis: bancos, mesas... a cama. Puxava os encanamentos por fora das paredes, no porão onde habitava, como vísceras à mostra. Eu era o Robinson Crusoe de mim mesmo. Refazia os passos da Humanidade Ancestral. Era preciso fazer tudo com as minhas próprias mãos. Não podia delegar nada. Mais um pouco e eu começaria a caçar ratos para comer. Era preciso. Não havia ainda chegado à era das trocas, muito menos à Era do Dinheiro.

Agora eu caminhava pela ruela, em subida, ao cair da noite, de uma aldeia parada no tempo, com seus habitantes, caipiras parados nas portas e janelas para me ver passar, estranho para eles, com meus cabelos e barba compridos, imagino. Seus olhares inescrutáveis, não revelavam nada, muito menos qualquer simpatia. Eu caminhava como o forasteiro que chega, mas contrafeito, tentando manter o passo seguro, observado de janela em janela até chegar a uma casa com a tabuleta “Pensão”, no fim da rua por onde entrara e bem perto da matriz no alto do morro. Entrei numa casa escura, térrea, de teto muito alto, iluminada com lâmpadas fraquíssimas, de uma tristeza e vazio atrozes, parecia-me. Registrei-me. Entrei no quarto e preparei-me para enfrentar a noite, em busca do amanhecer, para então procurar a casa de Ana e o poeta.

A insônia se anunciava. Dispus-me a passar a noite em claro, no silêncio aterrador. Na verdade ouvia-se ao longe um tic-tac de um monstruoso relógio de pêndulo, cães ladravam mais longe ainda, sapos coaxavam, mas o silêncio misterioso persistia. Minha mente repassava os últimos tempos de minha convivência com Ana e a intrusão do poeta em nossas vidas. Seis meses depois de tê-los orgulhosamente expulsado de meu quase sórdido porão, eu estava rendido, derrotado pelo remorso e pela saudade. Ana me parecia uma preciosidade perdida, como a melhor parte de mim mesmo que eu deixara amputar. É claro que eu estava doente, de culpa, de solidão, de insuficiência. Mas o amor não é assim mesmo? Ou pelo menos a paixão, que é sempre mórbida e doentia no final...

Depois de horas de tumulto em minha mente, ouvi as doze badaladas. No relógio de pêndulo da Eternidade, talvez? Foi esse o pensamento que tive, acreditem. Um segundo após, um rojão subiu sibilante e estrondou lá fora. Em seguida, novo silêncio rompido subitamente por uma chicotada seguida do chocalhar de uma matraca que soou como o guiso sinistro de uma cascavel. Começara a lúgubre procissão. Vinda de muito longe, subia em caracol, com uma toada ou cantochão fúnebre, sem palavras: óóó, óóó, óóó...que subia e descia na escala musical, de maneira arcaica, monástica, ancestral, como um lamento de morte, de mil carpideiras, mas de vozes masculinas e graves, entremeado nas pausas pelo estalar de um chicote seguido por aquele chocalho da Cascavel do Mundo.

Eu estava arrepiado, diante da janela fechada. Imóvel, cheio de terríveis presságios. Ao mesmo tempo, curioso, entreabri a veneziana enquanto a procissão passava em frente à minha janela. Pude ver as tochas e os capuzes cônicos altíssimos, os rostos todos cobertos por máscaras trágicas. E o chicote comprido na mão de um deles, que comandava as pausas e o chocalhar das matracas. Os encapuzados, flagelavam-se constantemente e tinham as costas nuas cobertas de sangue. Aterrorizante. Era a noite que antecede a Festa do Divino, depois eu soube.

Durante toda a noite ouvi o cortejo circular pelas ruelas da cidade, subindo e descendo em espiral.

Ainda antes do amanhecer, o lamento distanciou-se abandonando a colina. Resolvi deixar o quarto e subir. Ao lado da Matriz escura, ainda em trevas com os primeiros albores muito longe no horizonte circular, encontrei um mirante natural, uma espécie de pequeno campo no topo da colina. Fiquei ali, de pé, olhando, olhando, fazendo a vista acostumar-se à escuridão para perceber as menores cintilações ou insinuações do branco das coisas deste mundo, fantasmagóricas e lívidas, antes de se colorirem com a chegada plena do sol.

A névoa enchia todo o vale, como um verdadeiro oceano de brumas. Os picos que circundavam o vale, começaram a aparecer, como ilhas no mar branco. Infinitas ilhas flutuantes. A bruma baixava lentamente, milimetricamente. Demorou uma hora para descer ao sopé das montanhas, afinal, cobrindo rasteiramente o vale, até deixar aparecer rios, várzeas, plantações, árvores, pastos e gado esparso. Um cão corria, muito ao longe, eufórico. O sol surgia por trás das montanhas e quando seu disco se destacou por inteiro, rojões partiram, sobressaltando-me. O ar se enchia de alegres estrondos, saudando o Divino Espírito Santo.

Dirigi-me para a casinha cujo número eu levava comigo no bolso. No caminho reparei na comprida mesa, de dezenas de metros, armada ao longo da rua, que serviria para um grande banquete popular, comunitário, do qual, certamente eu não participaria.

Com o coração ansioso e opresso, bati na porta rústica. A voz de Ana se fez ouvir através, perguntando quem era. Hesitei um pouco, antes de responder, emocionado.

Sua voz remeteu-me ao passado, ao momento em que fui buscar nossa filha na casa da avó materna, que assustada, tinha antes se recusado a entregar a criança à própria mãe. O poeta pedira-me que eu resgatasse minha filha para entregá-la à mãe e a ele, para que pudessem partir. Cheguei com o pequeno caminhão de mudanças e fui bem recebido pela mãe de Ana que como uma leoa avó, só entregaria o bebê a mim: o pai.

Disse-lhe que a casa estava pronta( o meu porão, se ela soubesse, nunca habitável ) e que viera buscar as coisas do bebê e as de Ana. Fiz a mudança da tralha toda, enchi o caminhão, encimando tudo com a banheirinha do bebê, e então ela me entregou a criança, com mil recomendações: - “ Vida nova, hem! Juizo! Felicidades pros três! Cuide bem delas!” – ai de mim!..

Parti. Na próxima esquina o poeta esperava por mim, como combinado. Desci do caminhão com meu bebê nos braços. Entreguei-o solenemente a ele. Apertamo-nos as mãos num shake-hands viril e cúmplice. Não dissemos uma palavra. Ele subiu no caminhão e partiu com ela nos braços.

Ana abre a porta, agora, seis meses depois, cheia de surpresa . Não me esperava jamais. – “Você?”

Passei direto por ela e instintivamente achei o quarto de Fedra. Olhei-a atentamente, acordada em seu berço. Como era linda essa criança!... Como isso me comovia agora, apesar de eu já ter tido essa impressão quando do seu nascimento. Seus olhos azuis claros, sua cabecinha perfeita, com o sedoso cabelinho louro... e seus lábios, cheios, marcantes, perfeitamente delineados. Tirei-a do berço e abracei-a ao colo. Minha filha assustou-se e começou a chorar. O choro inquietante dos bebês... dolorido e desconcertante. Não me reconhecera. Ana gentilmente retirou-me a bebê dos braços e a repôs no berço com palavras doces e um suave schhhh... A seguir convidou-me a conversar na cozinha onde prepararia a mamadeira da manhã. O poeta não estava em casa, felizmente.

Olhei-a de perfil diante do fogão. Seu lindo perfil, tão querido... Tudo em volta, tão singelo, a casinha funcional, cotidiana. As mamadeiras sobre a pia. Cada coisa em seu lugar. Doía-me o peito. De repente, percebi o mais terrível. Seu ventre me pareceu bastante proeminente. Ela estava grávida!

Eu chegara tarde demais. Ana estava irremediavelmente perdida para mim.

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( de “O Navio sob os Telhados”, livro de contos de 1965-1974)

Alma Welt


Capa do folheto Poemas da Alma, de Alma Welt (1972-2007), com desenho de Guilherme de Faria representando Eros e Psiqué, em que esta é um retrato da própria poetisa que posou para o desenho quando ela e o artista se conheceram em 2001. Este como o livro Contos da Alma, de Alma Welt, da Editora Palavras & Gestos se encontram à venda, bem como poemas e sonetos da grande poetisa gaúcha falecida este ano (em 20/01) e que foram publicados em forma de folhetos embalados em caixinhas de madeira (Kits), pelas "Edições do Pavão Misterioso" (edições artesanais do pintor e poeta) e se encontram nas seguintes lojas e livrarias:

CALLIGRAPHIA (famiglia Mancini)- rua Avanhandava 40-A- tel (55)11 3151-6477
LIVRARIA DA VILA- Al.Lorena, 1731. Jardins/ T 3814-5811
e Vila Madalena/ rua Fradique Coutinho, 915/ T 11 3073-0513
BOOKLOVERS- Rua Augusta, 2633-loja 23- Jd-América-SP/ T11 3061-2008
INSTITUTO MOREIRA SALLES- Rua Piauí, 844, 1° andar Higienópolis- São Paulo SP
UNIBANCO ART-PLEX- Frei Caneca Shopping, rua Frei Caneca, 569 3° piso -T 11 3255-8816

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ressonâncias (litografia de Guilherme de Faria com Siron Franco)


"Ressonâncias"- Litografia a quatro mãos, de 1986,100X74cm, de Guilherme de Faria com Siron Franco.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007


Vaquinha do sertão, óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de 50x50cm

domingo, 26 de agosto de 2007

Crônicas da Alma, de Alma Welt (prefácio por Guilherme de Faria)


"A Invocação Mágica de Alma Welt", óleo s/tela de Guilherme de Faria, medindo 150x150cm, que ilustra um epísódio do romance "A Herança", de Alma Welt. (Coleção particular, São Paulo.)
05/06/2006

Eis-nos aqui a divulgar as Crônicas que Alma Welt considerava até a pouco impublicáveis (pelo menos em jornal ). Aliás, nunca passou pela cabeça da nossa autora, o papel de jornalista. Suas crônicas têm o caráter íntimo e confessional de quase toda a sua produção( excetuadas as “Lendas da Alma”, e os ciclos de poemas “O Circo” e “A Ciranda dos Animais”, editados pelas minhas artesanais “Edições do Pavão Misterioso”.

É perturbador, no entanto, o fato de que quanto mais a nossa autora se expõe, com a sensualidade e explicitude que lhe é característica, em sua obra, mais ela se esconde pessoalmente, mais se reserva, numa condição de verdadeiro exílio social, o que consideramos, sinceramente, no mínimo um desperdício, dada a excepcional beleza física da “guria” ( como ela diz) que descobrimos, vinda do sul, e como que degredada nestes Jardins, de São Paulo, amiúde derramando lágrimas pelo Pampa e sua estância praticamente abandonada. “O casarão batido pelo minuano, recusa-se a afundar...”, ela diz lindamente num poema seu.

Não pensem os leitores que não tenho insistido para a nossa musa sair da toca. Estou começando a ser acusado de ciumento da minha descoberta, e “enrustidor”. Alma tem recusado amáveis convites de casais que se tornaram seus fãs, pela sua literatura, para almoços e jantares em sua homenagem, e que o fazem por meu intermédio. Em vão. Estou quase desistindo: trata-se já de uma fobia.

No entanto ( e isso é surpreendente), nossa autora está longe de ser uma pessoa triste, ou uma poetisa melancólica. Como nos seus textos, que são ela mesma, direta e coloquial, Alma celebra a “Alegria mais profunda do que a dor”, apreendida do Zaratustra de Nietzsche, que seu pai cultuava e que lhe passou tão cedo, dando-lhe essa diretriz filosófica inspiradora, bem como a linguagem simples e direta com que se expressa em prosa e poesia, com tanto lirismo, herdeira que é, legítima, do romantismo alemão, ainda que o faça tardiamente, nesse final caótico de século XX, e início do XXI, em nossa chamada Era Digital. A propósito, estou inclinado a rotular sua literatura de “neo-romântica”, uma vez que Alma Welt vem me provando a validade e a beleza desse verdadeiro movimento de uma autora só, que é ela mesma.

“NEO-ROMANTISMO”, é isso! Está lançado o movimento, se podemos assim dizê-lo. Conte comigo Alma, você já me cooptou, com a profundidade de sua redescoberta da beleza possível, no cotidiano, pelo seu enfoque generoso, desprovido de quaisquer ressentimentos, pela sua escolha da alegria, da liberdade sexual plena, pela capacidade de entrega a suas elevadas paixões por homens e mulheres, com igual intensidade. Pelo seu renovado culto da Arte pela arte, por sua corajosa afirmação da escolha do prazer e da felicidade.

Não esqueço, no entanto, o fato de que, sendo ela uma pintora e poeta, hipersensível, contém, também um componente melancólico, que, aliás, lhe doa seus momentos mais líricos, nos seus ciclos de sonetos que têm aquela característica única no mundo da literatura, de contar estórias, em suas seqüencias corretas. Confesso, pois, que a dor que detecto, sob a bela capa da alegria da nossa musa, me comove mais que tudo.

Alma não esquece, profunda que é, a fugacidade de tudo, a presença constante do fantasma próximo ou longínquo da Morte, a simples dor de existir, coexistente com a alegria e o prazer. Dessa dubiedade nasce o mistério que perpassa as suas narrativas. Uma espécie de suspense difuso, Hoffmanniano, que nos surpreende, uma vez que ela evita o “triller’, e quaisquer mirabolâncias folhetinescas, mantendo-se sempre no terreno da psicologia sutil, de um rico monólogo interior cheio de paradoxos.

A aparente simplicidade de sua linguagem, não esconde, no entanto, os vestígios de uma cultura superior, e mesmo fragmentos de uma erudição, surpreendente, que ela procura disfarçar por discrição, ou para melhor fazer-se entender. É sintomático o fato, contado por ela, da impressão que lhe causou a frase de Nietzsche, citada por seu pai, quando ela era ainda criança: “Há poetas que turvam suas águas para parecerem profundas’’. Essa máxima iria funcionar para ela como uma sábia diretriz, evitando turvar, tanto em sua poesia quanto em sua prosa.

Quanto ao universo em que cresceu, pode-se dizer privilegiado em sua dupla natureza cosmopolita e rural, ao mesmo tempo, naquela estância gaúcha de sua infância e primeira juventude, com o piano de cauda tocado belamente pelo seu pai, filho de alemães, cirurgião e literato, com sua imensa biblioteca clássica, que ele ensinou sua filha predileta a amar. O mundo que ela iria abordar em sua literatura, seria no entanto, o de um cotidiano urbano, paulistano, do seu ateliê nos Jardins, mas dessa perspectiva sutil de quem apreendeu cedo a captar o sentido profundo do dia-a-dia quando desvelado pela visão da esteta, hedonista e humanitária ao mesmo tempo, enfim, humanista.

Comove-nos o seu cândido epicurismo, que procura disfarçar a tendência às lágrimas de amor e dor, de comoção pelo ser humano tão amado por ela, a ponto de privilegiar somente a sua beleza e possibilidade de pureza ideais. Poderíamos dizer que Alma seria ,assim, a última herdeira do Idealismo alemão.

Estou, naturalmente, pensando no conjunto de toda a sua já considerável obra, com quarenta livros de poemas e pelo menos cinco de contos e novelas, e outros cinco romances.

Mas voltando a estas Crônicas, percebo que nelas a fronteira do conto é tênue, e embora tratem de acontecimentos e pessoas reais que cruzaram a vida e o universo interior desta Alma, é possível que existam nelas a contribuição da fantasia de caráter insólito e ao mesmo tempo realista desta sonhadora do verossímil, que sempre apostou na poeticidade inerente aos seres e às coisas deste mundo.

E é isso o que mais me comove nesta Alma, sua candura invencível, a coerência de sua visão humanista, pois que segue acreditando sobretudo na beleza e até mesmo na grandeza do ser humano, pelo menos em seus termos ideais, como ela mesma diz.

Mas então, o que é que a afasta da definição precipitada de “naïve”? Sua argúcia (eu responderia), e uma velada ironia que aparece vez por outra, e da qual ela não abusa. E a legitimidade de uma visão profunda, que captura o belo, onde quer que ele se encontre, inclusive em situações eventualmente grotescas, a verdadeira definição de humor. Mas sobretudo pela capacidade suprema, de poeta, de captar a alegoria, o sentido maior, simbólico, dos acontecimentos aparentemente banais do seu cotidiano, que é o de todos nós.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Para quem ainda tinha dúvidas (por Guilherme de Faria)


17/12/2006

Para quem ainda tinha dúvidas... ( artigo sobre os últimos sonetos de Alma Welt )

A série de sonetos que a poetisa Alma Welt vem publicando nos últimos dias na sua página aqui no Recanto, deve ser suficiente para confirmá-la aos olhos de qualquer leitor informado, criterioso e sensível à poesia e à beleza, como realmente a última grande lírica do século XX, e agora do começo do XXI, tal como a apresentei ao público no prefácio e orelha de seu livro Contos da Alma, lançado em 2005.

A gaúcha Alma parece estar vivendo uma verdadeira erupção, ou surto de criatividade e inspiração. Ela está dedicando os sonetos aos seus leitores mais entusiastas entre os colegas poetas aqui do Recanto (ela compõe e publica às vezes cerca de uma dezena de sonetos por dia!). E a cada novo poema ela se excede em beleza e excelência. Trata-se de um fenômeno. A guria já está beirando o milésimo soneto de sua carreira, pelos meus cálculos, já que eu mesmo publiquei 50 dos seus ciclos de sonetos, na forma de folhetos pelas minhas Edições do Pavão Misterioso.

Os sonetos de Alma Welt, que já apresentavam, na forma de ciclos (conjuntos ou séries) a curiosidade de (se lidos na seqüência correta) narrarem estórias reais de suas vivências amorosas ou de seu cotidiano de pintora, amorosa e poetisa lírica, agora assim avulsos podem ser melhor apreciados, na sua gloriosa síntese de autonomia. E damo-nos conta de que são, quase sempre alexandrinos ou dodecassílabos perfeitos, com primorosas chaves de ouro!

Agora, um tanto raro como gênero na sua produção, vejam este, que contém uma inquietação metafísica "eivada" (como ela diz) de paradoxos e antíteses:

Doces manhãs da minha juventude (de Alma Welt)

Doces manhãs da minha juventude,
Que são pra mim agora e já lembradas!
Como poeta carrego a infinitude
Do finito e das horas não passadas...

Tenho uma constante nostalgia
Que acompanha o meu senso de beleza,
A alegria do minuto que partia
E a saudade da próxima surpresa.

Tenho uma dor eivada de prazer
E a sensação de me esvair
Nos espinhos e nas farpas do viver

Um martírio prazeroso em carne viva
Como a alma nua a dividir
O corpo dúbio e enganoso de uma diva...


Onde esta jovem vai buscar tanta inspiração? E tanta facilidade! Uma senhora poetisa, veterana, surpresa ao saber que Alma tem apenas trinta e quatro anos, durante um lançamento de livro numa pizzaria me disse que Alma tinha uma “alma velha’, isto é, antiga, ou muito vivida, talvez de muitas encarnações, que lhe conferem essa profundidade de pensamento e esse ar clássico de poetisa lusa que maneja um português castiço, embora isso seja, até certo ponto, comum entre os nossos conterrâneos do sul. Por divertimento experimentei ler em voz alta seus sonetos com um “sotaque luso”, como ela sugeriu numa dedicatória a um seu colega lá de Portugal e daqui do Recanto. E ficou estupendo! Agora acho que deveriam ser lidos sempre assim. Revelaram o seu tom ou parentesco camoniano, ou de uma Florbela nossa, mais contemporânea, embora com a ligeira dose de exotismo ou de regionalismo peculiares ao seus sonetos “pampianos”, como ela os designa. A propósito uma das coisas mais comoventes nesses sonetos é a fidelidade da autora à beleza de sua terra, o Pampa, e a evocação de suas paisagens, por si só encantadoras, nesses versos.(Cante sua província, seu bairro ou sua casa, mas com paixão e acuidade, e serás universal...)

Sugiro pois aos poucos e seletos leitores aqui deste cordelista, que vão em excursão, procurar essa jovem diva das letras brasileiras que surgiu a tão pouco tempo, lá nas suas páginas, conferir o que já está correndo no mundo literário dos escritores e leitores da Internet. Eu cá fico cada vez mais cheio de orgulho de ter sido o descobridor do furacão “La Welt”, quando a encontrei como jovem pintora contemporânea, um tanto isolada aqui nos Jardins de São Paulo e fiquei ofuscado pela sua beleza física, que confesso, muito a princípio quase desvirtuou meus critérios e intenções. Mas Deus já me perdoou...

Os "Contos Secretos" de Alma Welt (por Guilherme de Faria)


"Alma Welt, a morte no Pampa" - óleo s/tela de 2007, de Guilherme de Faria, coleção do autor.


Prefácio aos Contos Secretos, de Alma Welt (por Guilherme de Faria)

Estamos diante de uma coletânea inusitada de contos, que constituem, surpreendentemente, as memórias de uma verdadeira “Casanova de saias”, como alguém de referiu à autora num conto dela mesma. Mas, o quê significa isso? Uma autora, jovem e bela mulher que tem a coragem inaudita de confessar com detalhes sua vida amorosa e sexual de artista, intensa, erótica e romântica a um só tempo, de uma maneira sensível e encantadora conquanto explícita, sem peias, sem falsos pudores. Nunca se viu isso antes na estória da literatura. Tanta liberdade erótica nas narrativas de uma mulher a respeito de si mesma. Devemos nesse ponto lembrar Anaïs Nim que embora grande escritora não chegou tão longe no âmbito confessional pois suas narrativas propriamente eróticas se referem mais a personagens ficcionais de sua criação, exceção feita à belíssima insinuação, no seu diário, à uma cena de Anaïs na cama com June, que afinal frustra o leitor, pois é interrompida por um conflito insurgente e insolúvel. Parece, também, que aquela diva (June) nunca se conformou com o tom usado por Henry Miller para descrever suas relações na cama ou fora dela, pois romântica, queria ser uma musa celebrada em termos delicados e “ideais’, coisa alheia ao espírito cru e existencial de Henry.

Mas nossa autora, Alma Welt, bela gaúcha de destino privilegiado pois criada numa “estância” e filha de um “livre pensador” muito culto, libertário e ao mesmo tempo cultor do romantismo alemão, Werner Friedrich Welt, que ela chama carinhosamente de Vati (pronuncia-se Fáti, papai ) constitui um caso único, ao meu ver, de autora jovem, com essa coragem confessional que não exclui detalhes, nada esconde e ainda assim consegue escapar da classificação de “pornografia”, palavra ainda hoje carregada de uma pecha “maldita”, senão pejorativa e desmerecedora. Como consegue ela tal proeza? É simples, no entanto, a explicação: por causa de uma insólita “pureza” ou candura inesperada numa mulher tão inteligente e culta. Essa mesma pureza que ela atribui, com certa originalidade, ao nosso conhecido Casanova, na dedicatória deste seu livro, em forma de trovas dirigidas a alguns famosos eróticos do passado. A propósito, a chave para o desvendamento desse verdadeiro enigma, a própria autora fornece esparsamente nalguns textos: sua relação incestuosa com seu irmão, descoberta de forma traumática por sua mãe, Ana Morgado, já falecida. No conto intitulado “O que falta dizer”, Alma revela um episódio que nunca uma moça, na estória da literatura, ou (se isso houvesse) na “história dos divãs de psicanalista”, jamais narrou. Um pequeno fato que seria escabroso, não fosse a já citada candura lúcida da autora. Mas é preciso lembrar que Alma é uma poeta, ou “poetisa” como ela prefere ser designada, e isso explica alguma coisa. Os poetas têm, queiram ou não, uma tensão de beleza na sua abordagem do mundo. A própria Alma cita num destes contos, o famoso verso de John Keats, da “Ode a uma Urna Grega”: “A verdade é a beleza; a beleza, a verdade. Isso é tudo o que há para saber”. Como herdeira legítima do romantismo europeu, Alma não poderia deixar de citar esse verso exemplar.

Está se vendo que detectei uma grande pureza nesta autora erótica, e que estou encantado por isso mesmo. Por outro lado suspeito que isso constitui seu próprio “pathos” e o problema para uma aceitação da autora nas classes chamadas burguesas. Pois me parece que a burguesia hoje em dia constitui-se precisamente disso: uma mente conservadora e hipócrita que é capaz de assimilar a própria pornografia, pois essa não exclui a chamada má consciência em relação ao sexo, que é sua mais renitente característica. Uma moça que confesse com tal pureza, e, portanto, com extrema liberdade, tudo sobre sua intensíssima vida sexual que não exclui pequenas perversões, tem ainda o poder de escandalizar! E não me refiro aqui à sua evidente bi-sexualidade, que não deve assim ser simplesmente classificada, mas jogada na conta de sua celebrada liberdade. Refiro-me, sim, a uma dose de sado-masoquismo, que a autora mesma se atribui, e cuja raiz encontra-se no trauma causado por sua mãe ao descobrir o incesto de sua filha. Alma consegue superar o trauma por catarse, ou seja, não se reprimindo ou cerceando a sua sexualidade mas exercendo-a de forma intensíssima e desabrida, tornando-se até mesmo uma sedutora e colecionadora de casos amorosos ardentes, embora sua grande paixão se concentre em dois personagens reais de sua memória: seu irmão Rôdo e a jovem modelo paulistana Aline, por quem sua paixão atinge um timbre por vezes comovente (vide o conto “Tudo o que faremos quando voltares”, verdadeiro poema em prosa, de grande exaltação amorosa.)

A nota masoquista, visível por vezes em seu texto, é perturbadora, concordo, e levou a autora ao que parece a situações de uma exposição, ou vulnerabilidade, que acabou precipitando o estupro, pelo menos três vezes ao longo de sua jovem existência, a julgar, pelas narrativas no seu romance autobiográfico, e evocadas dolorosamente, aqui e ali nos seus vários livros de contos. Alma parece acreditar que os leitores não têm rosto, que nunca terão, e que por isso ela pode confessar tudo, como num divã de psicanalista, coisa improvável, senão perigosa. Entretanto, Alma aparece lidar com esses fatos em sua vida, desafiando-os e às suas conseqüências, por meio da confissão impudica e naturalista. O resultado dessas violências na vida da autora, pode, por isso mesmo, ser detectado por essa sua forma de tratar o sexo, que, sob uma capa de naturalismo, incluiria um certo “desafio” denunciador do próprio trauma. Nisto consiste o “pathos” weltiano, a que já me referi.

Alma Welt me comove, pois, para além da dor implícita e subjacente a isso tudo, está seu amor à beleza e ao próprio amor. Mas o importante, numa escritora como ela, é que esse amor se revela na beleza estética de sua escrita e na profundidade sutil de sua visão de mundo, que inclui um toque, digamos, filosófico, de cunho panteísta, que corrobora a tese de sua candura. Alma parece se considerar, de boa fé, uma espécie de feiticeira ou druidisa, a julgar por certas passagens, principalmente de seu romance “A Herança”, de grande beleza, uma saga de família, passada em sua estância no Sul, em pleno Pampa evocado com grandeza telúrica.

Mas voltemos a este livro de contos. Por quê “secretos”? Talvez porque a autora também considere que essas coisas normalmente não se contam, são mais que confidenciais, e por isso mesmo, haja certa originalidade em publicá-las, embora, para além do caráter confessional, também uma qualidade literária evidente e aliciadora.

Mas, alguém perguntaria ao final da leitura deste volume, essas coisas realmente aconteceram, são pessoas e fatos reais da vida da autora? Suspeito que sim. Através da pouca convivência com a poetisa, que ela me permite na qualidade de seu descobridor, prefaciador e em certa medida seu ilustrador, embora seja ela mesma artista plástica, tenho a impressão de que é tudo verdade. Fatos reais, acontecidos, fruídos e assimilados por uma sensibilidade comovedora.

Por outro lado, não podemos descartar o poderoso subjetivismo do Artista. Onde termina o sonho, onde começa a realidade? Existe essa fronteira? A própria Alma nos adverte que não, ao citar outro grande romântico, Novalis:

“A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro.”

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Alma Welt, cântico para uma princesa morta (por Guilherme de Faria)



(Embora eu tenha reservado este Blog para a minha prosa, pretendo colocar aqui também meus poemas que não pertençam à vertente dos cordéis, para os quais abri um espaço especifico, em outro blog).


05/02/2007

“Esta pavana é para uma defunta
infanta bem amada ungida e santa” (Jorge de Lima)


Alma está morta, o sol não brilha, a poesia adormeceu ou agoniza...
Ela era o o Sul e o Norte, e não mais vê-la
é como ter acompanhado o seu féretro na noite
até a urna de cristal em que agora hiberna a sua alma
esperando o prometido retorno.

Alma está morta e as flores do seu jardim fenecem e caem ao solo onde pássaros jazem inertes sem mais vôo e voz.

Eu a vi primeiro na grande noite da cidade, ela a princesa do sul, rainha de um pampa para mim desconhecido, egressa do vinhedo dos avós, inusitado nas amplas pradarias fronteiriças, eu, estrangeiro em meu bairro, paulistano empedernido e solitário viajante da vida, que credenciais, que méritos teria para encontrar esse tesouro de pura poesia, beldade entre as mais belas, poema de terrível feminilidade
arquetípica e voraz?
Alma vive, Alma não morre, ela domina meu ser com sua memória, com sua poesia doce e a um tempo corrosiva, pela sedução e verdade de sua nudez incontestável e pura,
pela sua voz de mavioso cometa pampiano, que atravessando o meu espaço... me terá cativo e encantado para sempre.

Alma Welt está morta. Viva a Alma!

22/01/07

O caso Alma Welt (por Guilherme de Faria)


22/05/2007

Considerações sobre a posteridade da poetisa e musa gaúcha

Passados cinco meses do seu falecimento, arrisco-me a fazer algumas considerações e prognósticos sobre a posteridade e permanência do fenômeno Alma Welt, a grande poetisa gaúcha, inspirada intérprete da alma e cenário de sua terra natal, o Pampa, e sobretudo de sua própria vida de poeta amorosa, confessional, lírica e apaixonada. Ninguém mais do que eu pode testemunhar sobre ela, pois me orgulho de ter sido o primeiro a descobri-la, quando estava aqui em São Paulo, auto-exilada (como ela dizia) pela morte de seu querido pai, que ela chamava o “Vati”, e que tanto ela celebrou nos seus textos e poesia, com aquela nostalgia que nos comovia por sua dor e beleza incontestáveis e universais.

Sim, eu descobri, incentivei, prefaciei, ilustrei a lancei a gloriosa poetisa, consciente de ter nas minhas mãos um fenômeno raro: uma alma lírica que conseguia ser ao mesmo tempo que uma grande amorosa e uma pensadora de rara lucidez (vide seus pensamentos no Leia Livro), características em geral contraditórias ou antagônicas. Mas eu que privei de sua intimidade por algum tempo, seduzido, é verdade, inebriado e prosternado, por assim dizer, aos pés da beldade, pude contudo observá-la e analisá-la (aceditem!) malgrado a paixão que não pude e nem quis evitar, pois como sabem, mesmo sob o prisma puramente físico Alma era a mais bela mulher que meus olhos puderam contemplar nesta vida. Sua beleza resplandecia, pois a par de uma anatomia privilegiada, vinha também de dentro, tinha respaldo numa alma límpida e pura, elevada e bafejada pelas Musas, ela que se tornou por si mesma uma musa do Pampa, de sua terra e contexto excepcionais, já que filha de um estancieiro e vinhateiro, que era ao mesmo tempo um médico e um pianista, um homem culto, às raias da erudição, detentor de imensa biblioteca clássica dentro da qual ele criou sua filha predileta em contato com os deuses, os da Arte, da Literatura, da Música, da Poesia e... os outros, aqueles do Olimpo e também os do Walhalla, de sua origem germânica. Mas foi sobretudo no caldo de cultura do grande romantismo alemão, de Goethe, Schiller, Hoffmann, Holderlin, até chegar em Nietzsche e Rainer Maria Rilke, que ele alimentou a sua obra-de-arte viva: sua filha que ele considerava um presente dos deuses e que a eles deveria ser devolvida. O cirurgião-estancieiro-pianista Werner Fiedrich Welt educou sua filha como uma pequena pagã, longe o quanto possível da influência de sua esposa católica, Ana Morgado, numa experiência perigosa de criar um ser sem o senso do pecado original, livre e sem preconceitos, feita para o amor e a entrega, sem medo do sexo, e mesmo celebrando-o a cada nova “aventura”, como um dádiva dos deuses. Confesso que isto me deslumbrou e viver a minha descoberta artística, ao mesmo tempo como paixão e fruição por pelo menos um ano da carne deslumbrante de um ser de feminilidade gloriosa e poética, de beleza divina, marcou–me para o resto dos meus dias, a mim, que já não era um garoto, mas sim um homem maduro, no começo do envelhecimento que todavia foi estancado por essa experiência maravilhosa. Já narrei nosso encontro em crônicas que publiquei no Recanto das Letras, e que foram apagadas, quando fomos, eu e ela expulsos daquele site, por intriga de invejosos, que tomaram como notícia falsa o anúncio do suicídio da nossa Poetisa.
Pessoas quiseram acreditar, talvez por defesa, que Alma era apenas ( ! ) um heterônimo meu, já que percebiam a nossa estreita ligação, e a paixão com que eu a celebrava e celebro nos meus textos a seu respeito. Entretanto devo dizer que não poderia haver maior honra do que me atribuírem a autoria de seus textos e até da criação dessa Musa pampiana (eu que sou um paulistano empedernido e enraizado!). Quem me dera possuir o talento transcendente de minha adorada Musa, que iluminou quase tardiamente minha vida de artista plástico e cordelista, no ocaso do meu percurso! Mas que injeção de ânimo (ou deveria dizer de Anima), de entusiasmo, de rejuvenescimento mesmo, esse encontro providencial me causou! Por um ano inteiro privei de sua companhia, de seu carinho, de seu amor e paixão, e porquê não dizer: do seu corpo deslumbrante e miraculosamente branco que era uma festa de prazeres e de fruição estética, como quem se deita com uma deusa, a própria Vênus (perdoem-me talvez o acesso de parnasianismo... ) Sim, quem amou e foi amado um dia por essa diva, quase não tem mais o direito de continuar a viver, senão em memória, em nostalgia, saudade e dor. Todavia, devo reconhecer que ela se deu a mim por generosidade e até por gratidão, e eu deveria, pois, me envergonhar de não ter podido abrir mão de tão imensa dádiva, pois percebo que o amor maior de sua experiência paulistana foi a modelo Aline, que ela celebrou em versos imortais. Também a jovem Andréa, com quem manteve um uma correspondência amorosa-virtual alucinante, do qual ela publicou algumas cartas belíssimas, que constituem um verdadeiro romance epistolar erótico–digital, por e.mail, que espero ver um dia publicado completo em livro, para deleite de seus leitores e admiradores. E finalmente o último grande amor de Alma, por uma sua aluna, que mereceu dela um maravilhoso “Drama lírico em 42 sonetos(cenas) e três Atos”, que ela titulou “Sonetos a Mayra” ( não sabemos se é o nome verdadeiro da pequena musa de nossa Musa), que eu ilustrei fartamente e espero conseguir editor. Alma nessa obra, como já era característica sua conta uma estória de amor através de um ciclo de sonetos curiosamente narrativos, de extraordinária pungência e inspiração lírica, cheios de paixão e erotismo. Confesso que a principio quase me causou despeito, por não ter merecido na nossa relação algo assim, uma obra equivalente que evocasse ou celebrasse de tal maneira encantadora o nosso relacionamento, e então pus-me eu mesmo a narrá-lo em algumas crônicas que publiquei naquele Recanto e aqui no nosso LL e que reconheço não lhe fazem justiça, pois estão longe do seu estro magistral, de poetisa predestinada à glória imortal.
Agora paira um silêncio misterioso, eu sinto, sobre a querida Musa Pampiana. Não temos senão raros comentários aos seus textos aqui no Leia livro, embora possamos perceber pelo registro de acessos diários nos tópicos de seus textos no Google, que ela continua imensamente procurada e lida. Mas, por quê, eu pergunto, não a comentam, ela que foi tão louvada no RL ? Um silêncio recente pesa talvez sobre os mortos. Eu mesmo quase não ousava mais escrever sobre ela, mas como a uma criatura sagrada que não se pode nominar em vão...
Perdoe-me, Alma, o meu longo silêncio de cinco meses, desde que nos deixou perplexos, chocados e inconformados. A sua morte deliberada, desesperada talvez, soou como uma bofetada em nossa face. Não se importava, perguntamos então naquele momento, com o nosso amor, com o nosso misto de carinho e reverência, com a nossa admiração? Como pôde partir sem um adeus, sem um bilhete aos seus leitores, aos seus admiradores e amigos? Bem... alguns de seus últimos sonetos, agora vemos, já indicavam o seu propósito, como o celebrado "A Carruagem". Ficamos perplexos e logo... revoltados. Você foi, como punição, expulsa póstuma e imediatamente, com imenso escândalo, de um site que a consagrou (e eu contigo). Logo percebi que acompanhá-la no seu relativo exílio literário era também honra e destino: não deixaria jamais a minha deusa, a pequena grande Alma, a poetisa maior que me fez cativo para a eternidade. Estarei aos seus pés, como diria a outra, Ana Cristina César, para sempre esperando, esperando um retorno, um aceno, até o fim do meu próprio exílio nesta terra, nem que seja como o que Lúcia, sua devotada irmã, testemunhou e me contou, lá no seu verde Pampa, em torno ao casarão: seu lindo e translúcido espectro vagando, vagando e nos chamando a acompanhá-la...
Aonde, Alma? Aonde?

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A Carruagem

(útimo soneto escrito por Alma Welt e publicado no seu site, ora estranhamente cancelado. )

Um piano toca no salão!
Ah! E não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim na carruagem!

19/01/2007

O Caso Alma Welt (por Guilherme de Faria )


28/01/2007

Há uma semana, estabeleceu-se dentro de um conhecido site literário da Internet uma curiosa polêmica. Tudo começou quando foi publicado, na página da poetisa Alma Welt, um anúncio fúnebre supostamente colocado por sua irmã Lucia Welt Valber, que descrevia a morte, por suicídio, com detalhes de um caráter romanesco e ao mesmo tempo surrealista, com lances bunuelescos, da querida poetisa gaúcha, lá na sua estância no extremo sul do país, por volta de meio-dia do sábado dia 20 de janeiro. Houve uma imediata avalanche de perplexidades, condolências, e também sofrimento real por parte dos verdadeiros fãs. Mais de 200 mensagens, muitas delas insistindo num desmentido tal a surpresa e inconformidade de seus adimiradoras de primeira hora. Mas logo começaram as suspeitas, as insinuações, os venenos e as calúnias. Uma parte crescente de manifestantes protestava contra a notícia “falsa”, pois "se teria descoberto" que Alma Welt era o pseudônimo de alguém e que portanto o seu suicídio seria uma falsificação, ou uma “farsa”(assim consideraram essas pessoas) tanto mais que sob pressão, os editores do site, publicaram no cquadro de avisos a nota de “notícia falsa”. Logo criou-se uma animosidade fantástica, num verdadeiro fenômeno de “joga pedra e outras coisas na Geni”. Esqueceu-se depressa da obra genial da “guria” dos pampas que encantou e instruiu milhares de pessoas durante sete meses e mais de 12.000 leituras computadas através das páginas daquele site, bem como outras tantas deste nosso Leia Livro. É preciso dizer , que eu, que acompanhei o caso de perto, por ser o amigo de Alma que a descobriu no seu exílio paulistano, reparei que as pessoas que manifestavam indignação, por vezes furibunda, não eram os seus leitores habituais, muito menos os seus comentaristas, com exceção de alguns que deixaram cair as suas máscaras, revelando o seu veneno e sua inveja. Tratava-se da habitual revoada de abutres.

Para começar, é preciso que se esclareça o seguinte: as pessoas parecem fazer uma confusão entre os conceitos de pseudônimo e heterônimo. Pseudônimo é um falso nome (como a palavra indica ) atrás do qual o autor se esconde para preservar o seu anonimato pessoal, ao passo que heterônimo, fenômeno bem mais raro, é uma verdadeira entidade espiritual, pois trata-se de um “autor “, com nome, personalidade, biografia e estilo próprios, que se manifesta através do escritor de cuja mão se serve. É quase como uma psicografia, embora não seja o mesmo fenômeno. E é certamente bem mais rara a incidência de casos respeitáveis de heterônimos na História. Ouso dizer que o caso Alma Welt seria um dos mais belos exemplos desse fenômeno, se fosse constatado de maneira cabal tratar-se mesmo de um heterônimo. Porquê digo isso? Porque o nome Alma Welt está respaldado por uma imensa obra literária na sua maioria inédita, mas que pode ser acessada em grande parte, atualmente neste próprio Leia Livro, já que a “guria” foi absurdamente expulsa do outro site a que me refiro. Nunca se viu na História da literatura um caso como esse: um heterônimo ser expulso por, supostamente, pela boca ou palavra de um outro heterônimo, sua própria irmã, ter-se comunicado aos leitores o seu suicídio, descrito com detalhes, aliás de incrível beleza romântica e romanesca, como era sua vida mesma, naquele pampa, no seu casarão, naquela estância gaúcha cercada por um raro vinhedo. É preciso que ressaltemos que a poetisa, acabara de produzir nos últimos trinta dias, 166 sonetos de altíssima qualidade, da sua série pampiana que estavam encantando e entusiasmando seus leitores. Tratava-se uma verdadeira erupção de inspiração, de grande estro reconhecido, pois todos os sonetos tinham encanto, originalidade e imensa beleza, que formavam um conjunto grandioso que esperamos ver e degustar em livro. A “guria” chegava a ser camoniana em alguns momentos, não fosse a intensa verdade de sua própria personalidade feminina e encantadora e seu acento gauchesco em muitos casos. Não é preciso dizer que eu, que já a vinha prefaciando e ilustrando, já me apressei em ilustrar com desenhos coloridos essa série magnífica de sonetos para apresentá-la, com a anuência da família da poetisa, a uma boa Editora. E ademais é preciso considerar que um pseudônimo, se fosse o caso, assim como nasceu, cresceu, tem u ma família, memórias, amores sofrimentos, uma casa , uma estância, cavalos e cachorros ,se correspondeu com amigos e fãs, angustiou-se... teria o direito de se suicidar.

No passado houve casos interessantes de pseudônimos que ficaram célebres, e não me refiro somente ao caso até batido do grande Fernando Pessoa, com seu Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, e Ricardo Reis, entre outros menos citados. Notem que o poeta escrevia prefácios descrevendo como teria, por exemplo, conhecido o engenheiro e poeta Álvaro de Campos na casa do amigo comum e pintor Almada Negreiros, e que teria dito isso e isso, e que aquele teria respondido tal e tal , etc.

Há, também , por exemplo, o caso do escocês James Macpherson(1761-1769), com seus "Cantos de Ossian", que foi lançado como uma grande descoberta “arqueológica”, de um livro de sagas e poemas de um bardo celta da antiguidade, escrito em gaélico, e que traduzidas para o inglês encantaram o mundo romântico daquele final de século XVIII, se tornando o livro preferido de Goethe que o cita e até transcreve longas passagens no seu célebre “Os sofrimentos do jovem Werther”, quando o jovem poeta os lê junto com a sua adorada Carlota. É preciso também mencionar que essa obra apócrifa, se tornou o livro de cabeceira do imperador Napoleão Bonaparte, que até encomendou a Ingres uma grande tela alegórica denominada “O sonho de Ossian”, que representa o bardo adormecido sobre sua harpa celta, com as Valquírias assomando no fundo nebuloso. Mas diga-se de passagem que não se trata de uma boa tela do mestre Ingres ( e isso é um outro problema crítico).

Queria finalmente lembrar também o caso “Les Chansons de Bilitis” livro de poemas de caráter sáfico, primoroso, uma verdadeira obra-prima da poesia amorosa, que o poeta francês Pierre Louÿs,do final do séculoXIX, fez passar por uma descoberta arqueológica, que ele teria traduzido do grego antigo, uma série de poemas líricos, escritos por uma cortesã de nome Bilitis, da cidade de Mitilene, a mesma da grande Safo, na ilha de Lesbos, e dirigidos a uma sua amada. O livro foi saudado como uma grande obra da poesia lírica grega, até que finalmente se descobriu que tinha sido escrita pelo próprio Pierre Louÿs. Mas aí a obra já estava consagrada e só acrescentou glória póstuma ao poeta francês. É preciso lembrar, também, que o chamado “succès d’escandale” , como dizem os franceses, sempre consagrou obras de glória duradoura, pois causaram justamente esse escândalo por sua natureza revolucionária ou de vanguarda. Haja visto um outro exemplo disso: a estréia do ballet "Le Sacre du Printemps" (A sagração da Primavera) de Igor Stravinsky , em 1913 em Paris, com coreografia também revolucionária do grande bailarino Vaslav Nijinsky , e que dividiu a platéia numa batalha tão violenta, em que eram arrancadas e atiradas até as poltronas do teatro, e que precisou a intervenção da polícia e o fechamento do mesmo.

Agora nos vemos diante dessa espécie de escândalo com dois partidos se formando, na discussão: ALMA WELT EXISTE?... ALMA WELT NÃO EXISTE? Chega a ser divertido e absurdo. Então não existe, por si só, uma obra verdadeira, imensa, prolífera, que conta inclusive com um belíssimo livro de contos já publicado, por uma editora de São Paulo e que foi saudado como uma grande obra literária pelo consagrado e grande poeta paulista Paulo Bomfim, que inclusive escreveu um belo prefácio poético para a próxima obra da gaúcha a ser publicada em livro? Também o grande bibliófilo e escritor Dr. José Mindlin, batalhador pela cultura, telefonou-me há dois anos atrás para procurar e saudar a escritora que eu tinha descoberto e que ele tinha lido e admirado.

Diante disso tudo me parece quase supérflua a discussão sobre a existência "em carne e osso", da nossa querida escritora. Sua obra existe e começa a alçar um belo vôo, que os invejosos e mesquinhos não conseguirão tolher. Alma Welt existe? Alma Welt está morta?

Longa vida para Alma Welt!