Eu respondi: “Prezado Richard, o que é isso?! Você é um editor de Literatura! A Alma é um heterônimo, sim, e como tal tem vida própria, personalidade, biografia, amigos, família, e.mail, e sobretudo Obra! Tem direito de morrer... E até de se matar!”
E o editor: “Senhor Guilherme de Faria, O senhor está sendo cínico! E não vou admitir isso, vou imediatamente desmentir!”
O tal Richard, editor, colocou lá na portada do site: Aviso aos Senhores recantistas. Asseguramos que a notícia da morte da poetisa Alma Welt é falsa e os responsáveis já foram advertidos!”
Diante da insistência dos colegas poetas, escandalizados, o editor revelou: “Sabemos que a notícia é falsa porque Alma Welt é um heterônimo.” (Por alguma razão o editor não revelou se o autor era homem ou mulher, pois desde o começo colocou no plural: “os responsáveis”.)
Foi um imenso escândalo! Imediatamente o editor apagou (com algum direito) a postagem da Lucia Welt com o necrológio, e congelaram a página da Alma na sua última postagem, o soneto A Carruagem, esperando meu próximo passo para dar o bote. Enquanto isso o escândalo rolou. Os ignorantes tratavam o acontecido como um caso de falsidade ideológica. Os invejosos tiraram as máscaras e começou o festival de baixarias em comentários odientos na página da Alma; mesquinharias e insultos vulgares à suposta “falsária” sociopata (eles não podiam sequer imaginar que se tratava de um homem!) Ah! É? (pensei eu...) Fiz a Lucia candidamente entrar novamente escrevendo: “Revendo os últimos sonetos de minha amada irmã, na sua postagem do dia 3 deste mês, encontrei este soneto, “Visão”, em que a Alma antevê as circunstâncias de sua morte e até de seu velório, o que nos faz pensar, a nós, sua família, que ela mesmo os premeditou, o que mais nos dói... “ ( e Lucia republicou o soneto Visão) Foi a gota d’água! Imediatamente o Editor apagou um ano de postagens da Alma, (mais de 550 textos), milhares de visualizações, comentários elogiosos e bajulações, e cancelou o seu cadastro e o meu, do cordelista sertanejo Guilherme de Faria. Um glorioso escândalo! Durante mais de um mês vários recantistas discutiam: "Alma Welt existia? Não existia? Era homem? Era mulher,a tal Lucia Welt? (um único chegou perto: "Acho que era aquele tal de Guilherme de Faria que ilustrava alguns textos dela. Não notaram que a página dele de cordelista sumiu na mesma época?"
A Alma começava sua carreira com um “succès d’escandale”, como dizem os franceses.
E os sucessos de escândalo costumam ser duradouros.
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como a Alma Welt surgiu na minha vida
A amiga...... aqui do face, acaba de me perguntar como a Alma Welt surgiu na minha vida. Aproveito para compartilhar com todos a minha resposta, a mais resumida que consegui, para aqueles que ainda não sabem:
A Alma Welt me surgiu como modelo no primeiro desenho que fiz a pincel em 1964, técnica zen, que aprendi de estalo ao assistir uma certa cena de filme japonês de samurai (a Vida de Myiamoto Musachi). Desde então ela foi o "modelo" ruivo constante em milhares de desenhos meus . Nos anos 70 , tomando conhecimento da teoria da Anima, de Carl Jung, fiquei ciente de que aquela figura tão recorrente se tratava de minha própria Anima, pois vinha de dentro, sem jamais precisar de modelo vivo (nunca uma mulher posou para mim na vida, não nescessito). Mas foi só em 2001, quando me sentei para escrever a sério (e começou a me aparecer cordéis), de repente entrou um conto narrado por uma moça, o primeiro conto da Alma, intitulado "Lembrança Preciosa para a Alma Fiel " (vide Contos da Alma, de Alma Welt, que publiquei em 2004 pela Editora Palavras & Gestos), foi que percebi que aquela narradora encantadora, jovem gaúcha auto-exilada em São Paulo, era o meu modelo desde 1964, que agora, aproveitando que eu estava escrevendo, se apresentou como a poetisa e prosadora gaúcha Alma Welt , minha anima e musa desde sempre, e que morreria tragicamente em 21/ 01/2007. Desde essa data, ela continua postumamente dentro de mim, enviando-me mais de suas obras literárias em prosa e verso, o que consiste em outro mistério... (Guilherme de Faria)
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O que mais me aflige é que o Brasil poderia ter dado certo devido ao grande número de talentos individuais, de artistas, de músicos, de pensadores, de cientistas talentosos e escritores geniais. Mas o poder caiu na mão da escória e agora está tudo perdido...
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Minha finada mãe, que morreu idosa, com 95 anos (há dez anos atrás), quando eu era adolescente não queria que eu me tornasse um artista profissional, pintor ou desenhista, coisa que ela pensava ou sabia que não existe no Brasil. Insistiu para que eu fizesse o curso Científico para entrar em Arquitetura, no Colégio Mackenzie, que eu abominava. Eu deveria ter feito o Clássico, por preferir as humanas: História, Línguas e Literatura. Foi um grande equívoco: no segundo ano do Científico, fugi da classe durante uma aula de Química que começou a me produzir angústia, correndo na frente do professor e dos alunos atônitos, e nunca mais voltei. Não me arrependi. Apenas guardei muito ódio e desprezo por aquela escola e seus professores por razões que algum dia contarei e que não foram de bullying não, coisa que nunca sofri. Nunca mais pisei numa sala de aula e também nunca quis ser professor de artes, apesar de ter dado alguns workshops de "desenho técnica zen" ao longo de minha carreira. Devo confessar que o que mais me atraiu na Arte, além da procura da beleza, foi sempre a sua marginalidade intrínseca... ( das Memórias de Guilherme de Faria)
Quando nossas preocupações e medos, apesar de subsistirem, já não causam dor, estamos entrando na maturidade da velhice. Isso é bom, e talvez a única vantagem de se envelhecer. Ao contrário do que os jovens pensam, nós velhos sofremos menos, pelo menos na mente, ou na alma. O corpo? Ah! Isso é uma outra história... (das Memórias de Guilherme de Faria)
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Estórias do Professor Souza
Meu pai, quando eu tinha uns oito anos, contava como se fosse verdade (era invenção anônima de sua época) que ele tivera um professor de português no ginásio, o Professor Souza, extremamente prolixo e pedante, que diante de um aluno bagunceiro, repreendeu-o dizendo: "Ó biltre, ó vândalo, ó baderneiro! Não tens nas faces a cor purpúrea da rosa em botão! Tu és aquele que chega em casa tira o sapato/ fica de pé no chão/ toma café na caneca/ come banana com pão! E depois, vai para a taberna! És um moleque! "
O mesmo professor Souza, de férias foi para a Bahia, sua terra, e na beira-mar dirigiu-se a um barqueiro negro, dizendo: "Ó bárbaro etíope, inimigo das Ciências, quê remuneração pecuniária exiges para transportar-me deste polo àquele hemisfério, Itaparica, minha terra natal?" E o barqueiro respondeu: "Ô moço, com essa gente toda o barco fundeia!" Indignado, o professor Souza invectivou: " Se é por ignorância, transijo! Mas se for para menosprezar a minha mais alta prosopopeia, eu, com esta soberana bengala, este facho de luz, reduzir-te-ei à essência do Nada! "
Eu ouvia estas estórias, deliciado, e nunca mais as esqueceria. O pedantismo era uma coisa estranha, de um passado remoto, arcaico, perdido no tempo... e ridículo, claro. Mas que, de algum modo, me fazia mais admirar a nossa língua portuguesa, hoje em dia, a meu ver, em processo de extinção entre os meninos de escola...
(das Memórias do Guilherme de Faria)
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Um resumo sobre minhas fases e facetas
Tive várias fases bem diversas em minha arte, como venho divulgando tardiamente na Internet em blogs e no facebook há seis anos. Entretanto somente uma das minhas fases ficou realmente conhecida e quase "popular": a das litografias. Isso se deve ao fato de que permaneci nela por vinte anos (de Julho de 1974 a julho de 1995). Nos primeiros 15 anos dessa fase criou-se um farto mercado para ela, e me beneficiei disso. Os últimos cinco anos (de 1990 a 1995) com a hiper-inflação do Sarney e em seguida com o desastroso plano Collor, acabou completamente o mercado de gravuras e até mesmo por um certo tempo o mercado de arte em geral. De repente não se conseguia mais vender arte em papel (desenho e gravura) no Brasil. Foi a maldita fase dos posters off-set de quadros de museu. Eu estaria condenado à miséria se não fosse também pintor e não somente artista gráfico. Mas tudo isso pertence a outros tempos, coisas do século passado. Em 2001, aos 59 anos de idade, comecei a me dedicar também à Literatura, com o surgimento da minha faceta de "cordelista sertanejo" que me vinha sendo preparada com uma tentativa insólita de me tornar um pintor "primitivo", por estar convencido de que era a única arte verdadeiramente brasileira. Não posso dizer que fracassei na expressão dessa minha faceta, pelo menos na sua feição literária, já que meus cordéis entraram no acervo das Bibliotecas de Universidades americanas, inclusive a famosa Biblioteca do Congresso em Washington. Ao mesmo tempo em que surgiam meus cordéis, nasceu a literatura da minha Alma Welt, que logo me tomou inteiramente por revelar-de a natureza de poetisa da minha própria Anima (no sentido junguiano do termo) que já parecia como minha modelo ruiva recorrente em meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Curioso é que posso explicar a origem do fenômeno do nascimento insólito do cordelista sertanejo em mim, mas para o fato da Alma Welt apresentar-se como uma gaúcha pampiana de ascendência alemã por parte de pai, e açoriana por parte de mãe (gerada no vale do Itajaí e nascida no Rio Grande do Sul, na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde moraria até os oito anos de idade, para então mudar-se com seus pais para estância pampiana dos avós agricultores imigrantes alemães), não tenho até hoje uma explicação... Trata-se de um verdadeiro mistério, já que não tenho nenhum parentesco ou raiz gaúcha, sou um paulista paulistano de 460 anos, e nunca estive no Pampa....
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como muitos artistas, vivi a minha vida através da minha própria arte. Quero dizer com isso que minhas obras foram mais reais e importantes para mim do que os fatos, acontecimentos e ações de minha existência física e biográfica. Só minhas idéias, sonhos e obras me construíram, e no plano existencial concreto, se posso dizer assim, fui um verdadeiro fracasso. Nem meus filhos me visitam. Entretanto não me querem mal, acredito. Creio que perceberam a minha real natureza enquanto artista, que é de uma imensa solidão auto- suficiente. Eles, como artistas também, trataram, instintivamente, de se afastar o mais possível. Está tudo certo... Se eu me queixasse toda a minha escolha seria renegada. O único que um artista não pode é blasfemar contra a Arte, já que isso, sim, o tornará vergonhosamente infeliz....
( das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como muitos artistas, vivi a minha vida através da minha própria arte. Quero dizer com isso que minhas obras foram mais reais e importantes para mim do que os fatos, acontecimentos e ações de minha existência física e biográfica. Só minhas idéias, sonhos e obras me construíram, e no plano existencial concreto, se posso dizer assim, fui um verdadeiro fracasso. Nem meus filhos me visitam. Entretanto não me querem mal, acredito. Creio que perceberam a minha real natureza enquanto artista, que é de uma imensa solidão auto- suficiente. Eles, como artistas também, trataram, instintivamente, de se afastar o mais possível. Está tudo certo... Se eu me queixasse toda a minha escolha seria renegada. O único que um artista não pode é blasfemar contra a Arte, já que isso, sim, o tornará vergonhosamente infeliz....
( das Memórias de Guilherme de Faria)