"Em maio de 1986, estando eu muito ativo nas litografias no ateliê Ymagos, em São Paulo, fui convidado pela Sônia Sanchez (atualmente Sônia Zanchetta) uma brasileira casada com um ecuatoriano, que residia em Quito e era presidente de La Associación de Damas Brasileñas em Ecuador, ligada à Embaixada Brasileira, para realizar uma exposição individual das minhas litografias que ela organizou no "Colegio de Arquitectos de Pechincha" (bairro próximo do vulcão desse nome, ao pé do qual se situa a cidade de Quito). Descendo de avião, perigosamente, quase esbarrando nos picos dos Andes me vi numa encantadora cidade colonial preservada, cujos museus, igrejas e monumentos me fascinaram pela sua riqueza em duas vertentes culturais: a colonial, espanhola barroca e religiosa da "escola quiteña" dos séculos XVI, XVII e XVIII , e por outro lado, a vertente Inca e de inúmeras culturas nativas muito mais antigas, pré-colombianas, prolíferas em cerâmicas deslumbrantes, que brotavam da terra como raízes e se espalhavam pelas casas de inúmeros colecionadores e eram, apesar de proibição estatal, contrabandeadas como tesouros por colecionadores da Europa e Estados Unidos, aos milhares. Fui recebido por Sonia e seu marido Fausto Sanchez, casal jovem, de uma simpatia e hospitalidade extraordinárias, ela muito ativa culturalmente na cidade, trazendo e hospedando artistas do Brasil, apresentando a arte brasileira, e ele, um engenheiro e montañero (alpinista andino) extremamente solícito e engenhoso, que, eu chegando, emoldurou pessoalmente, com as próprias mãos, todos os trabalhos que levei comigo para a exposição, uma centena de desenhos e litografias (!!). O ilustre casal me hospedou em sua encantadora casa numa pequena vila charmosa em que havia também, algumas casas adiante, uma pequena e linda Casa de Chá, o "Bangalô", montada em sociedade por Sonia e Tuca Guerra, outra brasileira, em que diariamente, na "happy hour" se reuniam jovens artistas de Quito, entre eles o jovem Jaime Zapata, pintor extraordinário, atualmente célebre no Ecuador, e a encantadora e jovem escultora Patricia Morales Parra, e o casal simpaticíssimo Gerardo Guerra (hoje excelente pintor) e Tuca para conversar, rir e cantar ao som do violão de um jovem músico e cantor excelente que me iniciou nas canções de Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, velho índio da província de Tucumán, que conquistara o mundo e consistia ele próprio num ícone folclórico e popular amado pela América Latina inteira através da voz poderosa de Mercedes Sosa. Ali eu ouviria pela primeira vez a inesquecível canção "Luna Tucumana", uma das fontes da minha inspiração gaúcha da futura Alma Welt minha suprema criação artística e poética... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 25 de maio de 2016
segunda-feira, 23 de maio de 2016
O caso da mulher odiada e o do valente carregador
"Naqueles dias de 1974, já de volta a São Paulo com a família, eu trabalhava muito em minhas telas e desenhos e começara a fazer litografias no ateliê Ymagos-Glatt, realizando diversas exposições pelo Brasil afora, principalmente das minhas litos. Eu tinha que transportar grandes quantidades de gravuras e desenhos emoldurados de um lado para o outro e para isso contratava os serviços de um motorista de uma perua Volks de fretes e seu ajudante carregador, um pretinho pequeno e franzino mas que carregava pesos enormes para minha aflição, sem se queixar. O motorista e dono da perua, seu Odair, era fumante inveterado, homem esverdeado e vincado pelo vício e do qual fiquei amigo o suficiente para ele me contar o que sentia por sua esposa. Ele dizia: "Seu Guilherme, eu tenho um ódio pela minha mulher, seu Guilherme! Mas um ódio!... " E eu então perguntei: "É sua ex? Você tem que vê-la muito? "Não, seu Guilherme. Mora comigo há 35 anos e faz pelo menos uns 34 que eu odeio ela..." Eu fiquei perplexo e tornei a questionar: "Mas como você consegue... na mesma casa... vocês se falam?" - "Não, a gente não se fala uma palavra faz pelo menos uns trinta anos, mas ela deixa a casa limpa e arrumada, a minha roupa lavada e passada para o dia seguinte, a minha janta pronta e se recolhe ao seu quarto... ".
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Lucy in the Sky with Diamonds
"Em 1965, estando eu morando num ateliê na rua Oscar Freire (não o meu atual) e já bastante conhecido no circuito jovem de artes plásticas de São Paulo, fui contactado por um estranho padre psicólogo que estava interessado em fazer experiências de acompanhamento do LSD em artistas, principalmente pintores. Consta que aquele padre foi o introdutor do LSD no Brasil com intenções de pesquisa científicas e espirituais. Vários artistas, como o Wesley Duke Lee e o Mario Gruber se submeteram como pioneiros (ou cobaias) a esses testes acompanhados e registrados cientificamente, enquanto pintavam e conversavam sob efeito da droga. Como prova de seriedade, o tal padre (não me lembro do seu nome) me recomendou que primeiro eu fizesse um "Teste de Roscharch", para saber se eu poderia, sem risco, me submeter à experiência tão cantada em prosa e verso pelo movimento Hippie internacional, cujas bíblias eram os livros "As Portas da Percepção", do inglês Aldous Huxley e "A Erva do Diabo", do peruano Carlos Castaneda. Procurei então um certo Instituto de Psiquiatria que fazia o tal teste de Roscharch, e o fiz com certo prazer, já que consistia simplesmente em interpretar uma sequência de manchas simétricas de tinta, catalogadas, conforme me pareciam à primeira vista. Esperei uns dias para receber o resultado do teste, que apresentou a conclusão de que eu possuía "traços esquizoides de personalidade" (na verdade comuns aos artistas) e que portanto era desaconselhado experiências com drogas alucinógenas. Em resumo, eu poderia entrar numa "bad trip" sem retorno. Eu suspirei aliviado, porque eu estava tanto morrendo de medo quanto de curiosidade. Agradeci mais uma vez ao meu imenso anjo da guarda, que haveria ainda de me salvar de outros tantos perigos e desgraças ao longo da minha vida..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 22 de maio de 2016
Memórias da primeira musa
"Quando menino, a partir dos meus onze anos, eu amava romanticamente uma menina da vizinhança, de uma beleza e graça dominantes, que faziam sombra a todas as outras meninas do meu quarteirão. Nunca pude beijá-la e sofria as agonias do amor recalcado, impossível de expressar naquela idade, como um pequeno Werther à beira do suicídio. Entretanto, num bailinho de seu aniversário em sua grande casa, dançando emocionado com ela, com meu rosto muito junto ao seu, senti o maravilhoso cheiro de sua pele. Ainda hoje, aos 73 anos, depois de tantos cigarros dos 14 aos 38 anos, e de problemas respiratórios resultantes, que às custas de muitos soros descongestionantes destruíram completamente meu olfato, sobrou miraculosamente em minha memória olfativa permanente e recorrente, aquele perfume, o de sua pele maravilhosa de pequena musa do reino eternizado de meu quarteirão infantil..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
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