segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Considerações sobre os 421 Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt

(por Guilherme de Faria)

Desde o, providencial para mim, mês de Julho do ano de 2001 quando conheci a poetisa Alma Welt e entrei em contato com a sua poesia, estou convencido da grandeza de seu estro e da profundidade cheia de encanto de sua abordagem literária da vida e do mundo. Mas foi a partir dos Sonetos Pampianos da Alma, que vieram à luz em 2006 me rendi completamente ao gênio da escritora. Considero esta obra como o mais importante conjunto de sonetos jamais escritos em língua portuguesa depois do de Camões. Um imenso ciclo de sonetos que se lidos em seqüência (ou não necessariamente) produz a saga da vida inteira da “guria” pampiana, de sua infância até a sua morte espantosa e romanesca naquela estância gaúcha, no extremo sul do país. Apesar do “pampianos” do título, os sonetos transcendem ao cenário, aliás evocado como pano de fundo, de maneira magistral, pois apenas sugerido, implícito, magicamente, sem descrições. A Autora atinge o universal, e freqüentemente o metafísico, pois as contingências pessoais, inclusive geográficas, por ela abordadas podem sempre ser transportadas para o plano simbólico e mesmo arquetípico, característica somente dos poetas maiores. Sua irmã Lucia Welt comentou nalgum lugar, muito apropriadamente, que Alma seria classificada, pelo critério do grande poeta do romantismo inglês, John Keats, como “egotista sublime”, isto é, o poeta que usa a si próprio, suas circunstâncias e experiências, até mesmo sua personalidade como apoio de um salto transcendente, para nitidamente abordar, isto sim, a condição humana, no que esta tem de mais elevado, não excluindo portanto o trágico e nem mesmo patético de nossa passagem efêmera num mundo por nós mesmos construído, para o bem e para o mal.
A portentosa série dos Sonetos Pampianos da Alma, constitui portanto um conjunto monumental construído por infinitos momentos intimistas (o que seria uma contradição em termos, se não fosse justamente a sua originalidade) delicados ou surpreendentes que narram a vida da autora, suas origens, sua infância privilegiada no ambiente rural da estância de sua família, cercado por um vinhedo arcaico, pois presidido, por assim dizer, por um lagar evocado amiúde com encanto erótico-simbólico, quando a autora declara, insolitamente, ter rolado nua, por pura volúpia, naquela papa rubra como o sangue:

A Alma do meu vinho (de Alma Welt)

(3)

Doces manhãs da minha juventude!
Embora ainda viva um seu momento
Já o sinto afastar-se em pensamento,
Já não as posso sentir como antes pude...

Outrora eu vi meu corpo se integrar
No lago e na campina sob as chuvas,
Mas foi ele consagrado em meu lagar,
Que rolei nua no mingau das minhas uvas

Que quando vazadas nos tonéis
Me tornariam vinho e sua canção
Para alguns cúmplices fiéis,

E me lembro que este tinto foi servido
Com malícia especial por meu irmão
Brindando a todos com o vinho proibido...

06/12/2006


Alma percorre todos os climas e tons da vida de sua personalidade exuberante , intensa e profunda, freqüentemente cismadora ou em devaneio, mas logo entusiasmada, apaixonada às raias do delírio pela experiência de estar viva e tudo amar: sua terra, sua paisagem plana extraordinária, apenas ondulada de coxilhas que ela não se peja (já que isso já fora feito, como imagem tradicional, por muitos poetas gaúchos) de comparar com as ondas de um mar paralisado no tempo, o tempo metafísico da Poesia:

Soneto da Alma Nadadora ou a Nereida dos Pampas
(2)

Meu Pampa, oceano dos amores
Que me viram infanta nua nestas plagas,
Singrando entre as ervas, entre as flores
No jardim ou nas coxilhas como vagas

Que minh'alma nadadora acompanhava
Com o olhar e o coração mergulhador,
Imersa que ao nascer já me encontrava
Nas ondas de um mar encantador...

Aqui nesta soleira estou sentada
Como atenta salva-vida numa praia
A olhar o horizonte que desmaia,

Ou sonhando qual nereida num rochedo,
Que é esta casa-grande naufragada
Num mar de fantasia e engano ledo.

28/11/2006

ou


O Fanal da pradaria (de Alma Welt)
(18)

Verde Pampa de minha terra natal
Onde a alma navega entre as coxilhas
Aos olhos do peão como um fanal
Sobre mar pleno de encantadas ilhas!

Galopes infinitos, plenitude,
Integração cavalo e cavaleiro
O antigo ideal de completude:
O centauro uno e derradeiro...

Como eu mesma, peona e poetisa
Dualidade também de que me orgulho
Fiel pagã e grã-sacerdotisa

Desta porção extrema do país
De cuja saga imersa num mergulho
Eu volto como santa e meretriz!

24//11/2006


Agora vejam um outro aspecto desse mergulho:


Quando volto ao casarão (de Alma Welt)
16

Quando volto ao casarão após a lida
É que passo a ter do mundo um panorama,
A olhar a vida aqui da minha cama
E sentir a minha alma agradecida.

A vista do jardim... além, o pampa,
Eis a minha verdade, ah! o pomar,
O bosque, a cascata, ali a rampa
Que leva até o vinhedo e o lagar!

O ser humano, eu vejo, se debate
Perplexo, na vida e no mundo
Procurando a superfície e não o fundo,

E percebo que o homem só suporta
O rumor e agitação, sem que se farte,
Pelas paredes, quatro, além da porta...

5/12/2006


Compreendi ao ler este soneto, a afirmação da poetisa em conversa íntima comigo, uma vez, de que, apesar de toda a sua energia e entusiasmo “tinha passado a vida na cama...” Isto quer dizer, que apesar sua exuberância e alegria de viver, às vezes parecida com as de uma criança, Alma considerava que a vida se condensava e cristalizava em significado, em sentido, na contemplação ou na reflexão posterior ao ato, ao gesto e ao impulso, coisa típica dos pensadores e filósofos, mas também dos poetas que passam a amar a Poesia, essa Tradução, tanto quanto a própria vida em si. Seria essa, talvez, a “doença dos poetas”, aquilo que tantas vezes os abismam na morte, como uma vertigem do olhar profundo, uma tentação do espírito que conduz o corpo ao aniquilamento, por libertação, por vôo, por amor das alturas e conseqüentemente das profundezas? Eu não teria a pretensão de responder. Diante dos poetas maiores, ou dos trágicos, me ponho perplexo...
Alma Welt, a sublime poetisa morreu afogada em circunstâncias misteriosas no “poço da cascata” de sua estância em 20/01/2007, no auge de seu talento e beleza, mas emergiu na brancura de sua nudez resplandecente para ficar brilhando para sempre no cenário claro e escuro da nossa literatura freqüentemente trevosa e rasa, mas onde ela cintila como pura estrela que ela mesma sabia ser:

Estrelas que mais brilham (de Alma Welt)

224

Me lembro do meu Vati me contar
Que as estrelas viviam e morriam
Depois de envelhecer e definhar
Mas que no final, pasme! explodiam!

Para de novo tudo tudo começar
Mas em "super-nova", em brilho incrível.
E eu então comecei a matutar
Se não ocorre o mesmo em nosso nível

Pois como estrelas que um dia pereceram
E já não estarão na Branca Via
No exato lugar onde nasceram

Tenho certeza que eu por certo voltaria
Mesmo que outro fosse o meu pomar,
Querendo (que vergonha!) mais brilhar...


20/12/2006