quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Os elogios perdidos


Tenho pequenos e grandes arrependimentos de minha juventude, que me incomodam até hoje. Entre os médios está esse relativo ao comediante cômico Walter Stuart, da Televisão Tupi dos anos 50. Em 1974 ou 75,não me lembro bem o ano, fui assistir num teatro a peça " Nossa vida em família", de Oduvaldo Vianna Filho, com um elenco fabuloso: Paulo Autran, Carmem Silva, Walter Stuart e minha irmã Isadora de Faria, coadjuvante, que foi quem me convidou.Terminada a peça, em que as estrelas sem dúvida foram o Paulo e o Walter Stuart que estava ótimo num papel cômico, sua especialidade (ele fazia um bombeiro aposentado, hilário, que contracenava com o velho feito por Autran, em momentos de comicidade terna e deliciosa, sem dúvida melhor que toda a sua carreira de palhaço televisivo). Terminada a peça com imensa ovação do público, fui como combinado ao camarim da Isadora e da Carmem Silva, grande velha dama do teatro brasileiro, cumprimentá-las com grandes elogios principalmente à Carmem, que os encaminhou também à Isadora sua jovem partner na peça, para grande satisfação minha de irmão orgulhoso. Isadora, então me disse: "Gui, você quer que eu lhe apresente ao Paulo Autran? Sim? Então vamos ao camarim deles". Batemos à porta e fomos recebidos pelo grande ator que estava retirando a maquiagem diante do espelho super iluminado. Minha irmã me apresentou e logo desdobrei-me em imensos elogios e comentários à sua magnífica performance tentando ser de algum modo um pouco original. Ele se mostrou modesto, amável e encantador. Entretanto com o rabo do olho avistei o Walter Stuart ao fundo (também retirando a maquiagem), cuja atuação tinha sido magnífica pelo lado humorístico que me impressionara mais que tudo e que merecia os maiores elogios. Pensei em dirigir-me a ele mas não sabia como fazê-lo, tanto mais que o velho cômico estava cabisbaixo e carrancudo, que me olhou de esguelha com ódio, e com nítida atmosfera de ciúme e ressentimento pela estrela fulgurante de seu parceiro, o que imediatamente me inibiu: não fui até ele, perdi uma grande oportunidade de agradecer-lhe por tantos momentos de riso e prazer...
Saí com a nítida sensação da injustiça de ter magoado um grande cômico, do tipo físico trapalhão, que tinha sido um pequeno astro querido nas tardes televisivas da Tupi, no preto e branco, agora cada vez mais evanescente da minha infância...
(Guilherme de Faria)

Graças a Mark


Sou muito grato ao facebook e portanto àquele jovem nerd americano ruivo de nome Zuckerberg. Ele me permitiu visibilidade como artista na maturidade, pra não dizer velhice. Eu, que mergulhava lentamente na obscuridade dado meu horror à vulgaridade e ao equívoco, adquiri pela Internet uma sobrevida inusitada, um palco para as minhas ilusões e um pequeno público fiel. Que mais preciso? Posso me exibir à vontade, embora sob os protestos privados da minha cara metade, uma linda lady mineira avessa a toda essa minha exposição íntima, ela, para quem, graciosamente, as paredes têm ouvidos... Mas... pode alguém perguntar-me, não estamos todos nos expondo nesta era de almoços e jantares fotografados e de selfies alucinados? Não somos todos atores e famosos, finalmente, e não mais por apenas quinze minutos? Sim, graças ao Mark todos temos direito de sapatear digitalmente como Fred Astaire, girando a bengalinha e tirando a cartola, de onde não saem coelhos mas gatinhos em profusão. Ninguém nos segura mais... e logo a rede Globo estará completamente obsoleta! (Guilherme de Faria)

Crônica de um sonho invisível


Sempre que vou ao Banco, na Augusta, passo por um morador de rua, o mais folgado do mundo, que embora muito sujo, instalou uma cama com rodas e colchão, cobertas e um enorme guarda-sol, desses de piscina, na cabeceira, cobrindo-a quase toda como um dossel. Ele ainda fez do parapeito alto da loja desativada na frente da qual está instalado, a sua mesa de cabeceira coberta com uma parafernália indefinível. Ele possui também uma poltrona velha giratória de escritório, confortável, ao lado da cama e até um servidor plástico de água mineral com torneira e o garrafão vazio emborcado em cima... Ele imita todos os confortos de um quarto imaginário, faltando apenas, a meu ver, um ventilador imóvel e um televisor sempre negro. Ele ocupa um espaço da calçada cada vez maior, realmente é o rei dos folgados, e me diverte passar por ele reparando nos detalhes, tanto mais que percebo que os outros passantes parecem não enxergá-lo, como se ele fosse completamente invisível para o nosso mundo. Hoje, entretanto, passando por ele, me ocorreu que seu sonho é tão real quanto o meu, sonhadores do absurdo que somos. E que meu caminho real, às custas de me expor tanto igualmente, acabará por tornar-me tão invisível quanto ele... (Guilherme de Faria)

A libido

"Não, a libido não é pecado. Mas é a maldição fisiológica do homem, e talvez também da mulher... Como seria bom chegar a uma idade em que passemos na rua pelas belas jovens, ou ninfetas de pernas longas, admirando-as displicentemente, sem mais desejo, sem mais sofrimento... ou indiferente como um pesado elefante pelas girafas! " (das Memórias de Guilherme de Faria)

A mente ociosa

A mente é muitas vezes arbitrária, ou ociosa... Madruguei assombrado por uma palavra obsessiva e tive que conferi-la no google, pois me parecia que devia ser outra. Quanta futilidade da mente! Sinápses enferrujadas? Uma vez conferida a palavra, minha mente se aquietou. Senti que se não o fizesse seria como um disco antigo de vinil, riscado, rateando sob a agulha, repetindo, repetindo...No entanto não revelarei aqui a palavra para não valorizá-la, descabida, desprovida de valor simbólico, que me parece... Ah! houve época em que os poetas acordavam com a procura obstinada de uma rima que os tirava do leito... e isso fazia mais sentido. Agora, para mim é tarde até para a psicanálise, pois futuro não há. Entretanto ainda alguns me lêm, quando me percebem sincero, creio eu. Ah! Quanto as pessoas necessitam da verdade, da sinceridade, da confissão particular de nossas fraquezas universais! Como ainda secretamente buscamos, uns nos outros, o sentido da vida! Ou uma palavra mágica, divina, que pronunciada ou escrita refaça o universo... (Guilherme de Faria)

Tempus fugit


Sábado. Sábado de novo. Os dias se sucedem com uma rapidez incrível. Ainda ontem era sábado! O que aconteceu com a semana? Tempus fugit... Vejo o Tempo fugir como já o viam os antigos romanos, e ele já era um velho alado. E eu... cada vez mais lento, me pergunto: O que aconteceu? Ainda ontem era sábado!
 (Guilherme de Faria)

Charlie Hebdo

Como a França de grandes humoristas do passado como Molière e Voltaire (o "Candide" é de você rolar de rir) pôde decair tanto em seu humor a ponto de perder toda a graça e critério e produzir um aborto como esse Charlie Hebdo!...
Vejam a capa do Hebdo. Essa gente do Charlie é baixa, vil, sórdida e ignorante. O ponto mais baixo que alguns franceses chegaram desde o colaboracionismo da República de Vichi... Estão novamente envergonhando a grande França.

Sobre charge do Charlie Hebdo

(sobre essa última charge do Charlie Hebdo)
Nunca fui Charlie. Esse Hebdo nunca me enganou. Detectei sua cafajestice e boçalidade desde o primeiro incidente...
Mas o pior mesmo é que essa última capa do Hebdo é um desrespeito à memória de uma criança inocente. Charlie é sórdido...

Desajustado

"A vida toda fui um desajustado social. Suponho que se não fosse artista seria um criminoso de algum tipo, mas nunca um político, espécie criminal que sempre me causou a maior repulsa por sua sordidez e hipocrisia..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Síndrome de Van Gogh


Na infância e adolescência meu mal estar existencial e psicológico era imenso. Não ser ainda algo pronto, definido, era insuportável, me fazia sentir-me afogando, um peixe fora d'água, um permanente estranho no ninho de mim mesmo, duplamente inadequado e tosco por ser também um artista em formação. Custo a crer que sobrevivi à minha própria infância e adolescência, limbos de solidão, insegurança e um permanente sentimento de humilhação devido talvez a um defeito de nascença: um orgulho despropositado e desmedido. Não, amigos, não queiram que seus filhos sejam artistas! No meu tempo, na classe média, tal coisa era até uma espécie de maldição, no mínimo um aleijão de nascença, temor secreto dos pais que viam o fenômeno de um artista pintor na família como a desgraça de uma "Síndrome de Van Gogh", um destino de miséria e suicídio. Exagero? Não, amigos, nada menos que isso. Bem... havia a glória de um Portinari e de um Brecheret, mas, ah! eram casos à parte, exceções à regra, não poderiam se repetir... ( das Memórias de Guilherme de Faria)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Reencontros

"Hoje reencontrei meu filho Tamayo depois de uma ruptura de quatro anos e meio. Ele recordou algo de sua infância, que eu quase não me lembrava mais. Quando Tamayo (hoje com 44 anos, ator de teatro) tinha uns cinco ou seis anos, levei-o para assistir comigo o "Jesus de Nazaré", de Franco Zefirelli, belíssimo filme com um dos mais belos Cristos do cinema de todos os tempos. Não sei o que ele entendeu do filme, mas à saída ele virou-se para mim e perguntou, com aquela candura irresistível das crianças: "Pai, Jesus era mágico?" Eu fiquei surpreso, hesitei um pouco, pensei e respondi: "Não Tamayo, Jesus era poderoso..." Mas", - ele insistiu - "ele não era mágico?" "Não, Tamayo - tornei a responder- ele era poderoso." "Mas, pai, Jesus não era capaz de tirar um coelho da cartola?" Até aí eu me lembrava, mas então Tamayo me perguntou, agora: "E você se lembra, pai, o que você então me respondeu?" " Não - eu disse fazendo um esforço - Não me lembro, Tamayo." Ele então disse: "Pai eu nunca mais esqueci... você disse:
"Filho, todos os coelhos que existem saíram da cartola de Jesus Cristo."
Ficamos emocionados, os dois, depois de tantos anos, de tantos desencontros. E eu pensei: "Afinal não devo ter sido um mau pai, apesar de tudo... se fui capaz de responder algo, assim, que uma criança nunca mais esqueceu... (das Memórias de Guilherme de Faria)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Descobrindo Rimbaud


"Quando eu estava nos 17, me sentia solitário e isolado em meio à mediocridade e estupidez que reinava naquela horrível escola chamada Mackenzie, mormente no ginásio, celeiro de pequenos cafajestes imbecilizados. Eu desenhava o tempo todo nos cadernos, como um refúgio onde eu podia espairecer do tédio e das tensões embora nunca tivesse sido alvo de bullying, já comum naquela época em que nem havia tal palavra e conceito. Um dia durante o recreio, desenhando no caderno, sentado numa cadeira de braço num canto remoto do pátio, ouvi uma bela voz macia, vinda de trás, máscula, de maravilhosa dicção e inflexão, que me disse: "Belíssimo desenho! Rapaz, você é um artista!". Surpreso, voltei-me e dei de cara com um jovem bem mais velho que eu, belo, muito branco, de cabelo negro e liso e de olhos castanhos agudos como de uma águia, que continuou: "Você conhece Rimbaud?". Fomos andando nos afastando do pátio, e logo em torno ao campo de futebol enquanto ele me contava, de maneira mágica, com incrível precisão e beleza nas palavras, toda a vida do poeta menino prodígio, aventureiro, que revolucionou a Poesia, e que eu ainda não conhecia.... O jovem mensageiro? Era o grande poeta Roberto Piva, sedutor de várias gerações durante sua vida, transgressor permanente no mundo das palavras, eterno subversor, herói e mártir de uma sociedade obtusa, mas de onde nasciam ocasionais talentos desde sempre. Quanto a mim, eu fora descoberto. Estava salvo. Logo me juntaria ao grupo dos Novíssimos liderado por Piva e outros grandes poetas como Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, e Décio Bar. Mas, é preciso que eu diga, não ainda como poeta, mas como artista plástico, e absorvendo tudo o que aqueles jovens poetas de extraordinária cultura literária (pareciam ter lido absolutamente tudo) podiam me transmitir. Estávamos em 1960, mas eu só iria começar a escrever pra valer no século seguinte, em 2001, quando então estava apto a criar a poetisa Alma Welt, orgulho maior de minha vida..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Meus amigos favoritos

O que me consola de viver aqui nesta Oscar Freire tão comercial e comezinha, não são somente as suas velhas árvores, mas a minha possibilidade íntima de viver todas as locações e todas as épocas em minha mente, de subir ao Olimpo ou baixar ao Hades em busca de Eurídice, se assim eu o desejar. Sim, todas as eras e os deuses e heróis convivem comigo. Mas sobretudo todos os velhos artistas, e meus dois amigos favoritos que nem sequer se toleram: Michelângelo e Leonardo, que não consigo que façam as pazes... (Guilherme de Faria)

A roda do amadurecimento

"Vou lhes contar uma estória. Em 1980 eu estava no auge do sucesso em minha carreira iniciada em 1962, e ganhando muito dinheiro. Mas,sendo um bebedor e fumante inveterado desde os 14, tinha, subjetiva e emocionalmente, chegado ao "fundo do poço". Entretanto, sentindo a loucura se aproximar, recusei uma gloriosa pecha de "maldito" que já se delineava num breve futuro e renunciei à vertiginosa autodestruição que provavelmente me celebraria como mais um jovem herói ou mártir da arte da minha geração. Tendo visto de perto "a goela do lobo", apavorado, parei subitamente de beber e fumar, e numa súbita espécie de iluminação abandonei toda a boemia que tanto me seduzia desde adolescência. Passei a viver desde Abril de 1981 uma vidinha pacata, sem festas, libações nem delírios, e descobri que não precisava de nada, nenhuma gota, nada de paraísos artificiais para continuar criando. A vida ficou muito melhor, todos os conflitos íntimos da minha louca juventude cessaram ou foram me deixando... e a roda do amadurecimento, estacionada desde os 14, recomeçou com atraso a girar lentamente. Agora, emocionalmente devo estar com uns 30... e minha imaturidade passa quase despercebida." (das memórias de Guilherme de Faria)