(artigo de Guilherme de Faria)
Parece-me oportuno fazer algumas considerações sobre a faceta erótica na literatura desse fenômeno literário chamado Alma Welt. A escritora vem se destacando nitidamente em sites literários da Internet, o LL e o RL bem como nos blogs de sua obra admnistrados pela sua irmã Lucia com a minha colaboração como ilustrador e por vezes prefaciador.
Observando o número de leituras de cada texto seu, coisa a que ela me convidou para analisar, percebemos juntos que o número de leituras dos seus textos eróticos excedem em muito os dos outros textos. Na verdade deve ser assim com qualquer escritor aqui do Recanto. Os textos eróticos parecem ser os mais acessados e populares. Mas o que significa isso? Vou arriscar algumas opiniões.
Percebemos que muito raramente os textos eróticos recebem comentários. Suponho em primeiro lugar que isso se deva ao receio do leitor se comprometer, e seu desejo de se manter anônimo e secreto, isto é, furtivo e ”transgressor”. Por quê transgressor? Trata-se de uma questão cultural. Vivemos numa sociedade de cultura judaico-cristã, há dois mil anos. Durante todo esse tempo triunfou sobre a sociedade, moldando-a culturalmente, uma profunda “consciência infeliz” em relação ao sexo. O cristianismo, como já o fazia o judaísmo, considera o sexo como a primeira conseqüência do pecado original, antecedida apenas pelo descoberta súbita do conceito de bem e de mal. Infelizmente o sexo foi colocado do lado do “mal”, no inconsciente profundo da humanidade e isso explica o detalhe da nudez envergonhada no mito de Adão e Eva imediatamente após a sua expulsão do Paraíso, e aquelas supostas “folhas de parreiras”, na verdade caricaturais frutos de uma tradição anedótica.
Mas por quê, diabos, o sexo foi jogado na conta de um “pecado”, se é justamente ele que produz a vida? Bem, creio que muito já se escreveu, e se especulou sobre isso. À luz da antropologia, por questões meramente climáticas o homem teve crescente necessidade de cobrir sua nudez para proteger-se do frio ou mesmo do sol excessivo. Mas parece que nas regiões tropicais e subtropicais não havendo necessidade disso, os homens continuaram a viver nus. Nesse momento me lembro de um episódio curioso do conto “Chuva”, das “Histórias dos Mares do Sul” do grande escritor´inglês H. Somerset Maughan , que ninguém mais lê, em que ainda no começo do conto, um pastor luterano, numa ilha da Oceania, então colônia inglesa, dizia numa festa, para uma recém-chegada do “reino”, com evidente orgulho, se vangloriando, que a maior dificuldade que tinha tido, quando ali chegara, fora a de incutir nos nativos a “consciência de pecado” para então poder salvá-los pela catequese. Me lembro como isso causou uma revolta instintiva em mim, e uma repulsa pela estupidez humana. Assim, com todos os povos nativos e primitivos foi feita essa violentação cultural primária, como primeiro contato pelo opressor branco, europeu.
Mas porque faço esse extenso prólogo, se quero me referir aos textos “eróticos” da nossa escritora gaúcha Alma Welt? Porque, me parece que é visível pelos leitores sensíveis e argutos, que a “candura” e naturalidade de sua explicitude na descrição de cenas de sexo, em que ela se coloca, com até evidente volúpia, é devida justamente a uma fenomenal ausência de consciência de pecado ou de culpa. O lirismo de suas descrições de sexo explícito, produz no leitor esclarecido, uma sensação, ou melhor dizendo, uma experiência estética. Alma Welt nos faz ver a beleza do sexo, em suas mais diferentes “performances”: hetero, homo, vaginal, oral e anal, até mesmo,como ela diz, “gloriosos ménages-a-trois” e algumas subcategorias ou parafilías brandas como a urolagnía, e o sado-masoquismo-psico-sexual leve. Mas como, perguntaria alguém, ela pode conciliar “candura” e inocência primordiais com sado-masoquismo ou mesmo as chamadas “perversões”? Não seria isso uma contradição em termos? Justamente aí se encontra a característica única e original dessa escritora singular. Mas para entendê-la precisamos conhecer a natureza do “pathos weltiano”, a que já me referi em outros estudos sobre a musa gaúcha. Creio que a explicação de sua poderosa afirmação erótica associada à beleza, está na reação psíquica que a autora lançou mão para fazer sobreviver a sua sexualidade plena, apesar de estar sendo criada na infância e adolescência por seu pai, artista culto e libertário. Numa verdadeira experiência de paganisação (se assim podemos dizer) o pianista-cirurgião Werner Friedrich Welt, fazia de sua filha predileta, Alma, uma verdadeira “cobaia” de seu paganismo ideal, subtraindo-a à influência católica, moralista e repressiva, de sua mulher, Ana Morgado Welt, a “Açoriana”.
A esse respeito é significativo um determinado parágrafo da própria Alma, na sua novela Ariadne, da Trilogia Mítica que ela publicou a tempos no Recanto, em que o seu analista, o doutor Platus, (não sabemos se é uma figura real ou fictícia na história pessoal da Alma ) interpreta o episódio traumático, da estória de sua paciente, em que esta foi flagrada nua junto de seu irmãozinho também nu, o Rôdo, no pomar, deitados debaixo da macieira sagrada de Alma (onde ela havia gravado um coração com as iniciais A e R, com o canivete de seu irmão, que este havia ganho do pai, e que servira para cortar o cordão umbilical de Alma). Alma conta como foram agarrados pelos cabelos, subitamente, erguidos e arrastados sob os gritos furibundos de sua mãe, e obrigados a cobrir com as mãos “a suas vergonhas” enquanto, no caminho , chorando assustadíssimos, eram alvo das gargalhadas dos peões. Essa experiência, altamente traumática teria destruído a sexualidade de qualquer criança, castrando-a talvez irremediavelmente para o resto da vida. Mas não a Alma. Seu pai já havia inoculado de antemão o antídoto contra o veneno da consciência de pecado, na sua obra-prima: a menina artista Alma Welt, pequena “anima-mundi”. Alma sobreviveu ao trauma, pela sabedoria da intervenção carinhosa de seu pai naquele episódio, descrito no romance A Herança.
Mas qual foi o mecanismo psíquico que ajudou a guria a superar a tentativa de castração por sua mãe? Trata-se do seguinte: Alma parece ter associado imediatamente o sofrimento ao sexo, mas revoltando-se o acolheu, assimilou-o para não reprimir-se ou castrar se, isto é: assumiu o sexo pleno e livre, mas associando-o à dor física assumida e procurada para maior prazer, resultando numa derivação masoquista, que a faz desejar ser açoitada até o orgasmo (pelo rabo-de-tatu de seu avô, que ela descobriu, já moça, numa arca do sótão do casarão familiar de sua estância pampiana.)
Entretanto, essa vertente sado-masoquista em evolução ainda hoje, é tão assumida, que a própria Alma a descreve e analisa em sua obra, num permanente exorcismo dos demônios culturais, familiares e sociais que sitiam esta poetisa de estro incomum, super-dotada pela natureza, de talento e beleza excepcionais.
Venho acompanhando de muito perto, o desabrochar do talento literário desse fenômeno literário estonteante. E se alguém me pergunta como posso conhecer essa misteriosa mulher, tão arisca e arredia no plano pessoal quanto aberta e exposta no literário, e se tudo isso é verdade, a começar pela sua beleza física que começa já a tornar-se mítica, eu só posso responder como o velho morubixaba do Y-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias :
“Meninos, eu vi!”
05/08/2006
quarta-feira, 26 de março de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
SOBRE A PEÇA TEATRAL "O REI DOS URUBÚS", DE LEO CORTEZ
Saí siderado da peça "O Rei dos Urubus" do dramaturgo e ator Léo Cortez que está sendo representada no Centro Cultural São Paulo.
A força dramática e a eficiência dramatúrgica do texto inusitado que descreve os bastidores, às vezes o próprio set televisivo em pleno ar ao vivo de um canal jornalístico de televisão em que os os protagonistas e os coadjuvantes ( se é que os há) são os próprios jornalistas imersos em sua paixão doentia comum: a do sucesso de audiência, os altos índices que perseguem numa verdadeira "briga de foice de elevador" (para reciclar uma expressão antiga). A verdadeira carnificina psicológica e verbal que eles empreendem no dia a dia de sua atividade em torno de um programa de cunho jornalístico sensacionalista sobre personagens reais de dramas do momento, sempre histórias patéticas de paixões clandestinas testemunhadas por personagens humildes, logo acuados, ameaçados pelos protagonistas do escândalo por um lado e pela verdadeira chantagem dos jornalistas por outro. Paralelamente os jornalistas duelam entre si nos bastidores do programa e às vezes no próprio programa em pleno ar, numa verdadeira meta-linguagem teatral, pela liderança do programa e o "prestígio" decorrente dessa posição na hierarquia jornalística, sempre abaixo, na verdade, de um poderoso chefão da empresa, a palavra final e o verdadeiro cérebro demoníaco por trás de tudo isso, e que no entanto não aparece senão por referência e citações, pois representa, no fundo, a propria idéia das força diabólica invisível e inacessível que manipula os cordéis da nossa sociedade. O personagem representado pelo ator e dramaturgo autor da peça, Léo Cortez, se sobressai pela pujança de sua atuação, na expressividade neurótica vociferante e gesticulante (na medida certa numa grande atuação). Ele nos faz recordar o ator Jack Nicholson em seus melhores momentos de personagens neuróticos. Faz lembrar também certos personagens de Nelson Rodrigues a quem aliás o dramaturgo Leo deve alguma coisa, no mínimo pela admiração que sua geração tem pelo genial Shakeaspeare tupiniquim, grande mestre da chamada carpintaria teatral, que aliás Léo Cortez maneja com surpreendente maturidade, embora seja autor jovem.
Como eu dizia, Léo Cortez como ator é hipnótico, não deixa nosso olhar desviar-se de sua atuação sarcástica e corrosiva, cheia de nuances que vão da vociferação paroxística aos trejeitos sutis da exaustão de si próprio. Também o ator Daniel Dottori que faz o sobrinho do chefão que aliás se revela ao final o verdadeiro "rei dos urubus", pois o personagem Robério encarnado pelo autor passa surpreendentemente ao papel de vítima, morrendo no palco em plena apoplexia ( boa palavra antiga para o nossos atuais enfarte ou derrame).
Também devo ressaltar a atuação da única atriz na peça, Glaucia Libertini, que faz a jornalista apresentadora do nefasto programa, e que vestida com o característico mau gosto dessas peruas televisivas, está perfeita na sua desfaçatez e no seu "à vontade frente às cameras", mas que trai sua fragilidade ou vulnerabilidade nos bastidores dominados pelas feras masculinas, mais cínicas que ela, a diva do programa.
Quero pois parabenizar o diretor Marcelo Lazzaratto, os excelentes atores, e saudar Léo Cortez, esse excelente autor jovem do nosso teatro paulistano, que à frente de sua "Companhia dos Gansos" veio para ficar com seus textos de crítica social ácida, embora humorística, que como na sua fantástica peça anterior reduz a "escombros" a edificação das construções burguesas sobre a areia de suas mentiras, preconceitos e veleidades.
GUILHERME DE FARIA
Nota de edição
(Guilherme de Faria é artista plástico, escritor e poeta cordelista. Como editor lançou pelas suas artesanais Edições do Pavão Misterioso" seus próprios cordéis bem como a obra em versos que prefaciou e ilustrou da grande poetisa gaúcha Alma Welt, verdadeira musa da nova geração da poesia brasileira (vide Contos da Alma (editora Palavra&Gestos), na Livraria da Vila (da Alameda Lorena ), na Livraria Cultura e no IMS (Instituto Moreira Salles).
A força dramática e a eficiência dramatúrgica do texto inusitado que descreve os bastidores, às vezes o próprio set televisivo em pleno ar ao vivo de um canal jornalístico de televisão em que os os protagonistas e os coadjuvantes ( se é que os há) são os próprios jornalistas imersos em sua paixão doentia comum: a do sucesso de audiência, os altos índices que perseguem numa verdadeira "briga de foice de elevador" (para reciclar uma expressão antiga). A verdadeira carnificina psicológica e verbal que eles empreendem no dia a dia de sua atividade em torno de um programa de cunho jornalístico sensacionalista sobre personagens reais de dramas do momento, sempre histórias patéticas de paixões clandestinas testemunhadas por personagens humildes, logo acuados, ameaçados pelos protagonistas do escândalo por um lado e pela verdadeira chantagem dos jornalistas por outro. Paralelamente os jornalistas duelam entre si nos bastidores do programa e às vezes no próprio programa em pleno ar, numa verdadeira meta-linguagem teatral, pela liderança do programa e o "prestígio" decorrente dessa posição na hierarquia jornalística, sempre abaixo, na verdade, de um poderoso chefão da empresa, a palavra final e o verdadeiro cérebro demoníaco por trás de tudo isso, e que no entanto não aparece senão por referência e citações, pois representa, no fundo, a propria idéia das força diabólica invisível e inacessível que manipula os cordéis da nossa sociedade. O personagem representado pelo ator e dramaturgo autor da peça, Léo Cortez, se sobressai pela pujança de sua atuação, na expressividade neurótica vociferante e gesticulante (na medida certa numa grande atuação). Ele nos faz recordar o ator Jack Nicholson em seus melhores momentos de personagens neuróticos. Faz lembrar também certos personagens de Nelson Rodrigues a quem aliás o dramaturgo Leo deve alguma coisa, no mínimo pela admiração que sua geração tem pelo genial Shakeaspeare tupiniquim, grande mestre da chamada carpintaria teatral, que aliás Léo Cortez maneja com surpreendente maturidade, embora seja autor jovem.
Como eu dizia, Léo Cortez como ator é hipnótico, não deixa nosso olhar desviar-se de sua atuação sarcástica e corrosiva, cheia de nuances que vão da vociferação paroxística aos trejeitos sutis da exaustão de si próprio. Também o ator Daniel Dottori que faz o sobrinho do chefão que aliás se revela ao final o verdadeiro "rei dos urubus", pois o personagem Robério encarnado pelo autor passa surpreendentemente ao papel de vítima, morrendo no palco em plena apoplexia ( boa palavra antiga para o nossos atuais enfarte ou derrame).
Também devo ressaltar a atuação da única atriz na peça, Glaucia Libertini, que faz a jornalista apresentadora do nefasto programa, e que vestida com o característico mau gosto dessas peruas televisivas, está perfeita na sua desfaçatez e no seu "à vontade frente às cameras", mas que trai sua fragilidade ou vulnerabilidade nos bastidores dominados pelas feras masculinas, mais cínicas que ela, a diva do programa.
Quero pois parabenizar o diretor Marcelo Lazzaratto, os excelentes atores, e saudar Léo Cortez, esse excelente autor jovem do nosso teatro paulistano, que à frente de sua "Companhia dos Gansos" veio para ficar com seus textos de crítica social ácida, embora humorística, que como na sua fantástica peça anterior reduz a "escombros" a edificação das construções burguesas sobre a areia de suas mentiras, preconceitos e veleidades.
GUILHERME DE FARIA
Nota de edição
(Guilherme de Faria é artista plástico, escritor e poeta cordelista. Como editor lançou pelas suas artesanais Edições do Pavão Misterioso" seus próprios cordéis bem como a obra em versos que prefaciou e ilustrou da grande poetisa gaúcha Alma Welt, verdadeira musa da nova geração da poesia brasileira (vide Contos da Alma (editora Palavra&Gestos), na Livraria da Vila (da Alameda Lorena ), na Livraria Cultura e no IMS (Instituto Moreira Salles).
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