sábado, 24 de março de 2012

O Colecionador (crônica de Guilherme de Faria)

Tive um primo colecionador de arte que tinha a mania de, quando me encontrava, me convidar para ver a coleção dele que aumentava sem parar. Cada vez que eu aceitava visitá-lo por curiosidade, ele estava morando num novo condomínio cada vez mais rico, em apartamentos imensos de um por andar. Ele tinha passado de uma bela coleção de acadêmicos do brasileiros do século XIX (que era o que ele realmente entendia como pintura) para os modernos. Começou com um Cícero Dias. Logo estava com um Portinari comprado na Sotheby's, segundo ele por dois milhões de dólares. Era realmente belíssimo. Depois passou a comprar Pancetti cada vez mais caros, aquelas praias da Bahia. Só que quando eu o visitava ele ligava aquele spots em focos, de mau gosto com a casa às escuras e que deixavam os quadros fosforescentes e espectrais, um horror, denunciando o seu verdadeiro gosto! Mas o pior é que ele ficava dizendo: "Veja este Pancetti, eu comprei por $700.000 dolares. Está valorizando 15% ao ano. Veja este Portinari, este eu comprei num leilão por $1.000.0000 está valorizando 30% ao ano. Só se referia a eles assim. E eu dizia: "Belíssimo, realmente... Que belo quadro, uma obra-prima" (era verdade, os quadros eram mesmo maravilhosos, como também eram os acadêmicos). Mas ele só falava em quanto valiam! Pois bem, esse rapaz que ficou bilionário muito cedo com corretagem de ferro e aço, e tinha três fazendas,inúmeras empresas, até jato particular,e que era meu primo,fora colega de brincadeiras de rua, da molecada, na nossa infância e nunca comprou um único quadro meu. Só queria que eu fosse lá admirar a coleção dele de quadros do modernismo brasileiro, quadros milionários que ele comprava tendo em vista o investimento e a valorização. Comecei a pensar que ele queria me humilhar. Então um dia ele ligou para mim e disse: "Guilherme eu ganhei uma surpreendente caixinha de cordéis seus e estou apaixonado por eles, eu leio e releio, não consigo parar. Eu fui para a minha fazenda e não levei a caixinha, só levei outros livros e não os consegui ler. Ficava pensando nos cordéis e como eu queria lê-los de novo. Você escreveu mais cordéis? Tem mais dessas caixas?" - E eu disse: "Sim ... eu escrevi mais de cem". Ele então disse:- "Quero comprar meia dúzia de caixinhas iguais aquela para presentear uns amigos empresários, e uma caixa dos novos para mim".- Eu disse: "OK, vou montá-las e quando estiverem prontas eu te ligo". E ele: "Ótimo, assim você vem ver os novos quadros que comprei..."
Dali a uma semana eu liguei e combinamos de eu ir lá para ver mais uns belos quadros e entregar as caixinhas que ficariam todas juntas em apenas uns R$ 300,00 (trezentos reais). Foi tudo o que ele me comprou a vida inteira. Logo ele morreria e eu estou hesitante em contar como foi essa última visita que lhe fiz, e que foi espantosa. Eu iria descobrir porquê, ele, assim como era, gostou tanto e quis comprar os meus cordéis.
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Dirigi-me ao novo endereço fornecido por meu primo milionário, um condomínio mais luxuoso ainda. Anunciado na guarita da portaria que parecia uma casamata ou um bunker, quando afinal tive permissão para entrar e o portão se abriu, me vi atravessando um verdadeiro parque, então entrei no belo prédio de concreto aparente e tomei um luxuoso elevador que parou dento do próprio apartamento num imenso saguão ou hall. Diante de mim estava um cãozinho mudo que me olhava estranhamente, com curiosidade, sem latir e sem abanar a cauda. O apartamento estava na penumbra, às escuras, não dava nem para enxergar os quadros. Eu chamei meu primo, duas vezes e esperei um minuto...
Subitamente sai de uma porta lateral... vocês não imaginam... Não, vocês não podem imaginar! Uma CAVEIRA!
Sim, um esqueleto ambulante, andando inclusive com aquele andar meio sincopado dos esqueletos de desenho animado. Terrível, os olhos encovados, enormes, imenso nariz, faces macilentas a pele sobre o osso modelando a cavidade dos seios da face. Os dentes descobertos pela boca sem lábios, em ríctus, espécie de riso triste, congelado, sinistro...
Diante do meu susto (eu não reconheci aquela visão, aquela abantesma trágica) e a figura fugiu rapidamente sumindo por aquela mesma porta e voltando uns dois minutos depois. Creio que diante do meu susto, ele também chocado, resolvera dar-me tempo para eu me recuperar. Quando ele voltou, eu exclamei lentamente: “José!...”
Então ele me convidou a sentarmos no escritório enquanto eu, pasmado, chocado perguntava: “O que aconteceu... Zé...?” Meu primo fora um rapaz bonito, mais para alto, atlético, com cara de gangster mafioso de filme americano, de cabelo negro muito esticado, de imenso sucesso com as mulheres desde a adolescência. Agora... uma caveira!
Ele me contou que no ano anterior ficara oito meses internado num hospital, que os médicos diagnosticaram uma “neuropatia” (?) e passara por inúmeras cirurgias. Já estivera meses em cadeiras de rodas. Mas eu, ali, olhando-o, me parecia ver escrito em sua testa o nome daquela doença maldita, a pior de todas... Estava claro, indisfarçável...
Então retirei as caixas da sacola e pus-me a declamar um cordel para o meu pobre primo milionário, enquanto ele permanecia estranhamente imóvel meio inclinado para trás no sofá com a mão na testa, tão parado que por um momento pensei que ele tinha morrido, que eu recitava para um esqueleto afinal congelado no tempo...
Então terminado o meu cordel, eu me vi narrando para ele o conto “A Morte de Ivan Ilitch” de Leon Tolstoi, como a única mensagem que realmente cabia dar a ele, também um moribundo como o Juiz Ilitch, às voltas com o significado da espera... do retardamento tão longo, incompreensível...
Pra mim, naquele momento estava bem claro: meu primo materialista ao extremo fora traído pela Matéria. Ela se apresentara afinal a ele dizendo: - “Ah! Me amas ? Eis-me aqui! Vê o que sou eu!”- E o transformara numa caveira viva, dos pés à cabeça...

EPÍLOGO
Meu primo morreu umas semanas depois. E eu pus-me a pensar num motivo para ele, que jamais pensara em comprar um quadro meu, mesmo acompanhando à distância minha carreira, sim, o motivo e a razão dele se ligar tanto nos meus cordéis que pareceram tocá-lo tão fundo a ponto de me revelar que fora “a coisa que mais gostara de ler na vida” (sic). Ele, um homem tão materialista... Cheguei à conclusão de que diante da tragédia de sua doença, que vinha certamente interromper seu novos planos de poder e mais riquezas, ele, que em tão radical doença devia ter questionado o sentido de tudo, ou o seu absurdo, descobrira estórias que apostavam no sentido da vida, na poesia dos seres e das coisas, na imensa poesia da vida do homem comum. Sim, um humanismo inteligível, convincente, afinal, uma aposta no sentido da vida, mesmo na pobreza e no despojamento do homem do Sertão... na imensa beleza de existir....

Ele podia afinal morrer, a vida fazia sentido...

FIM
24/03/2012