Nos anos 60, meus desenhos já começando a ser bem recebidos pelos colecionadores de São Paulo, fui contatado pelo grande empresário e colecionador Max Feffer (agora há décadas falecido) que adquiriu um desenho meu que representava um monge franciscano de costas. Era um desenho dos melhores e ainda me lembro dele. Sinceramente, a tonsura da calva e a cordinha que amarrava a batina do monge eram um prodígio de gestualidade zen como duas pinceladas de caligrafia japonesa que davam movimento à figura estática. Creio que é um desenho que me orgulharia ainda hoje e eu pude vê-lo numa parede da mansão do Max no Jardim Europa, naquela oportunidade. E eu estava em magnífica companhia naquelas paredes que eram dominadas por grandes telas do genial Di Cavalcanti, em quantidade, em todas as salas. Admirado, eu perguntei como ele tinha tantas obras do melhor período do Mestre e assim, de grandes formatos. Max respondeu: "Eu podia ter adquirido muitas mais... " E eu, curioso por sabê-lo um homem rico, e que dinheiro não seria obstáculo, perguntei : "Como?" E ele respondeu: "O Di vinha sempre me oferecer seu quadros no meu escritório, e às vezes eu não comprava! "Por quê?" - admirado, eu insisti. E o Max respondeu: "Porque ele não sabia se comportar..."
Fiquei mudo diante de tal resposta, e daí por diante receoso de abrir a boca. Eu também precisava tanto que os ricos me comprassem, e percebi como é difícil entender o protocolo dos reis. Quis logo me retirar e quase me dirigi para a porta de serviço. Me despedi, saí, voltei para casa a pé, muito distante, e por uma razão ou por outra nunca mais vi o Max. Talvez devesse também ter me comportado mal... (das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
"Pode parecer estranho, mas olhando a esta altura a minha vida, o meu passado, hoje em dia posso perceber que 90% é, de algum modo, memória do que deixei de fazer, de agir e de falar, do que recalquei e calei. Isso é próprio dos verdadeiros tímidos, aqueles cuja timidez passa despercebida por serem agitados, enfáticos e falastrões. Contradição? Paradoxo? Sim, mas me parece agora minha verdade oculta. Mas não será assim com a maioria, na vida em sociedade? Somente o misantropo dá vazão imediata aos seus pensamentos diante do outro e se destampa em franqueza absoluta, fruto tanto de sua coragem quanto de sua intolerância. Eu, no fundo, não passava de um rapaz bem educado, que seria bem comportado se não tivesse descoberto a liberação alcoólica e tabágica. Um pequeno idiota, no fundo, cheio de brilho e fagulhas, perdoado na minha passagem, talvez, pelo talento..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
"Tendo deixado a casa materna como jovem artista tentando ser independente, pobre como Jó, eu saía do meu pequeno ateliê, um porão infecto, que eu chamava meu "Bateau Lavoir", e me dirigia na hora do jantar para a rua São Luiz, onde era convidado a sentar-me num certo restaurante na mesa de calçada de uns jornalistas do Estadão, que me pagavam o jantar em troca do meu papo e dos desenhos que eu lhes presenteava e que pareciam admirar muito. Logo me aconselhariam a vender ilustrações para o famoso Suplemento Literário (de saudosa memória) coisa que fiz por vezes durante uns poucos anos. Uma vez, estava também na mesa um jovem bonito, nitidamente de outra classe social, que não abria a boca, enquanto nós falávamos sem parar sobre Arte, Literatura e Cinema. Então eu, incomodado, perguntei-lhe: "E você, não gosta de Arte?" O rapaz, carrancudo, respondeu: "De arte eu gosto, eu não gosto é de artista". Fiquei sem graça. Foi a primeira vez que me senti agredido, embora tenha percebido claramente porquê. Eu era jovem como ele, era também bonito mas tinha outras coisas para vender... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
Dizem alguns que o facebook é meramente uma rede social. Mas sendo assim, serve pra muita coisa, até para se fazer pressão política. Quanto a mim, artista solitário e pouco sociável, desde o princípio vi uma oportunidade de ter nele minha galeria de arte, meu show-room, minha Editora e meu palco. E aparentemente venho obtendo nisso, há sete anos, relativo sucesso. A um artista não peçam senão arte. Entretanto, arte é vida... Devo reiterar que o que posto aqui sou mais eu do que eu mesmo. Se quiserem sociabilidade com um artista, conhecê-lo de verdade, mirem suas obras, leiam seus textos. Em Arte não há modos de se mentir...
"A vida de cada pessoa no mundo é única e inimitável ou existe o "homem massa", também chamado "o homem-formiga", sem originalidade alguma, forjado pela propaganda, pelas modas ou pelos costumes? Uma vez, uma senhora distinta, de classe média, trabalhando por circunstância na loja de molduras de uma amiga, conversando comigo no balcão, disse: "Guilherme, não existe duas pessoas iguais no mundo. Nunca recebi um cliente igual a outro, nos gostos, ou nas opiniões. Nunca uma personalidade igual a outra, é impressionante o comércio... ". Eu fiquei perplexo pois acreditava que, justamente no comércio, no mundo do consumo, tudo era padronizado. Tendo crescido num bairro de classe média eu sempre me chocara, na infância, com o estereótipo vulgar da molecada com quem eu tinha que brincar, na rua e no colégio. Todos falavam e faziam as mesmas coisas banais. Entretanto aquela senhora, também comum, estava me fazendo ver um outro aspecto da questão, também verdadeira: a duplicidade humana. Somos únicos e comuns, iguais e diferenciados, nobres e plebeus... tudo ao mesmo tempo. Eis o mistério do humano."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Entrando no Mercado
Quando jovem, já artista "profissional" vendendo alguma coisa raramente, a duras penas, e vivendo praticamente na miséria, eu vivia angustiado, ansiando por reconhecimento, num constante sentimento de humilhação. Mas o que me faltava em sabedoria e paciência, me sobrava em obstinação. Eu tinha uma quase absurda certeza do meu talento, pelo menos para o desenho, certeza essa corroborada pela admiração imediata que meus desenhos causavam em absolutamente todos que os viam. Mas custei a descobrir como aquilo poderia se traduzir em vendas e dinheiro, já que admiração é gratuita, nada custa a quem a tem. Então, assistindo leilões de Arte e observando atentamente o que acontecia ali, descobri o segredo: Em matéria de arte, só vende aquilo que está na mão dos ricos. Eu era pobre, portanto nas minhas mãos meus desenhos não tinham valor monetário. Logo eu precisava passar os meus desenhos, num grande lote inicial, para as mãos de um deles, nem que fosse de graça, através de uma artimanha. Eu tinha vinte e hum anos e foi o que fiz, com astúcia inesperada, contra toda lógica imediatista. Em breve contarei aqui como fiz isso e entrei precocemente no Mercado de Arte paulistano... (das Memórias de Guilherme de Faria)
Anjos
"Ao longo da minha conturbada vida, cheia de conflitos íntimos apesar de tantos privilégios de formação, circunstâncias propícias de classe social, ambiente cultural, etc, eu me defrontei pelo menos três vezes com um anjo verdadeiro, transfigurado a cada vez, que me salvou de mim mesmo. Estou me referindo a um anjo, mesmo, desses de Deus, que me apareceu em momentos de intensa e perigosa crise existencial e espiritual. Naturalmente não se apresentou com asas nem envolto em luz. Entretanto, no meio de muita gente só eu o vi. Por isso, toda vez que tenho a tentação da dúvida e da descrença, eu me recordo desses três momentos perigosos e providenciais de minha vida. Se existem anjos, só pode haver Deus..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Antiga Musa
"Quando muito jovem, já casado pela segunda vez, eu tive um intenso período de boemia, festas, bebedeiras, ao mesmo tempo que muitas leituras e consumo de música, teatro, e cinema. Então, um casal sofisticado, viajado, visitando meu ateliê no centro da cidade, a moça (bela e distinta) me disse: "Guilherme, você perde muito tempo com outras coisas que não a sua arte. Com o seu talento você deveria pintar dia e noite sem parar. Foi o que fizeram os que se tornaram grandes. Pense nisso." Eu fiquei confuso, um pouco envergonhado e retruquei: "Eu preciso me abastecer, consumindo muita arte, livros e experiências... " Mas a moça reafirmou: "Não. A arte está dentro de você, não vem de fora." Fiquei perplexo, pensativo, e vi que ela tinha razão. Um sentimento de dever ou responsabilidade se acrescentou em mim, que me obrigou a trabalhar, contra o meu consumismo artístico, minha inércia, minha preguiça e meu hedonismo. Sou grato até hoje àquela figura, devia ser um anjo. Ou uma antiga Musa... "(das Memórias de Guilherme de Faria)
Amo filmes épicos de aventuras, quando bem feitos, bem produzidos e bem dirigidos. Meus favoritos das últimas décadas são: Ulisses (com Kirk Douglas), Os Sete Samurais e Ran (de Akira Kurozawa), 300 (perfeito), Tróia (com Brad Pitt), Gladiador, as maravilhosa trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit, a deliciosa trilogia Piratas do Caribe, Malévola (beleza surpreendente)...
Urbano
Eu sou muito urbano, quero dizer, muito dependente dos confortos e tecnologias modernos. Não poderia passar sem meu teto, privacidade, boa cama, banheiro com um bom chuveiro quente, fogão a gás, geladeira, máquina de lavar roupa, telefone, TV a cabo, computador, Internet, livros nas estantes, quadros nas paredes, tintas, telas, papéis, pincéis, ferramentas etc. Muito dependente de tudo isso. Ah! Minha linda mulher, excelente companheira, imprescindível... Enfim, sou um ser super dependente de muitas coisas, como todo homem moderno. Não me orgulho nem me envergonho disso, mas garanto que lutei muito para ter o que para a maioria é apenas o básico. Entretanto não consegui ter um pouco de natureza, supremo luxo, nem sequer um pequeno jardim. Eis porque pinto paisagens imaginárias e me cerco delas pelas paredes... (das Memórias de Guilherme de Faria)
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
O macaco já foi gente (de Guilherme de Faria)
Deus nos cria, solta e observa
Com o rabo dos seus olhos, displicente.
Assim também a árvore e a erva,
E o macaco, que um dia já foi gente.
Grande parte da chamada humanidade
Caminha para os grandes chimpanzés.
Rudolph Steiner falou uma verdade, *
As mãos gente trocando pelos pés...
Quanto ao Darwin, aquele inglês testudo,
Malgrado um belo olhar vitoriano
Tem, perdoem, um crânio pouco humano.
O macaco "é nóis" depois de tudo,
Depois de tanto funk e tanto "mano",
E é melhor que se cale e fique mudo...
.
19/01/2017
Nota
*Rudolph Steiner falou uma verdade - Steiner, criador da Antroposofia, afirma no seu livro Crônica do Akasha, que os macacos são homens que "involuíram" (!!!) ( o contrário do que disse Darwin).
Com o rabo dos seus olhos, displicente.
Assim também a árvore e a erva,
E o macaco, que um dia já foi gente.
Grande parte da chamada humanidade
Caminha para os grandes chimpanzés.
Rudolph Steiner falou uma verdade, *
As mãos gente trocando pelos pés...
Quanto ao Darwin, aquele inglês testudo,
Malgrado um belo olhar vitoriano
Tem, perdoem, um crânio pouco humano.
O macaco "é nóis" depois de tudo,
Depois de tanto funk e tanto "mano",
E é melhor que se cale e fique mudo...
.
19/01/2017
Nota
*Rudolph Steiner falou uma verdade - Steiner, criador da Antroposofia, afirma no seu livro Crônica do Akasha, que os macacos são homens que "involuíram" (!!!) ( o contrário do que disse Darwin).
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