Como a França de grandes humoristas do passado como Molière e Voltaire (o "Candide" é de você rolar de rir) pôde decair tanto em seu humor a ponto de perder toda a graça e critério e produzir um aborto como esse Charlie Hebdo!...
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
O Vale
"Por ocasião do término do meu quarto casamento, aos meus 37 anos de idade, expulso de casa, afastado de meus filhos e bastante deprimido, almoçando com minha mãe, por fraqueza me queixei dolorosamente. Minha mãe somente respondeu: "É.... meu filho... "A vida é um vale de lágrimas". Ela nada mais disse, enquanto me servia um belo prato em sua mesa. Quanto a mim, calei-me envergonhado, pois compreendi, num relance, todo o estoicismo de minha mãe, que, separada há muitos anos, nunca se queixara de nada... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
O perfume
"Quando eu era garoto, na minha Alameda Lorena, tão pacata, a rua já de asfalto (um carro a cada meia hora) era o nosso playground (expressão que nem havia). Ali, entre os jogos de rua dos meninos, patinação, hókei de bicicleta, queimada, jogo de taco, pique, acusado, carrinhos de rolemã na ladeira da Eugênio de Lima, as meninas de vestidinho e sapatos de fivela, brincando na calçada seus jogos graciosos de palmas e versinhos... de repente, surgiu uma menina, linda, a mais bela, modelada no primeiro jeans colante americano, coisa nunca vista. Apaixonei-me imediatamente e assim passei sofrendo todo o resto da minha infância. Muitos lances aconteceram, eu sempre escondendo por timidez a minha paixão. Um dia no primeiro bailinho de aniversário em sua casa, a maior do quarteirão e a única rica, nós ainda crianças, ou pré-adolescentes (expressão que não existia), ela, mais avançada, me tirou para dançar, e assim juntos, muito próximos, num bolero ou fox-trot, eu rocei com os lábios a sua testa muito branca e senti o perfume delicioso, natural, de sua pele. Esse perfume se entranhou em minhas narinas deslumbradas e no meu espírito para sempre. Ainda hoje o sinto quando penso nela. E volto àqueles momentos, como o fez o cheiro das "madelaines" para Proust, na Procura do Tempo Perdido. Mas devo dizer que é o único perfume que ainda sinto, com as minhas narinas estragadas como sequela de anos de tabagismo e depois anos de vasos-constritores, para poder dormir. Não tenho mais olfato, não sinto cheiro algum, somente, e repentinamente, quando menos espero, o perfume da pele do meu eterno amor infantil..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
AINDA MAIS DEZ MENTIRAS QUE PARECEM VERDADES (de Guilherme de Faria)
1. No futuro todo mundo será tão infeliz, que os padrões de felicidade terão que ser mudados.
2. Foi constatado por estatística que os ricos vivem tanto tempo quanto os pobres e que portanto não adianta se esforçar muito para ficar rico, por que tudo vai dar na mesma: a morte...
3. A psicologia moderna considera que se você ama muito uma pessoa, você é carente e neurótico e deve fazer análise, pois o ser humano normal é egoísta e naturalmente egocêntrico.
4. As mães normais são tão obcecadas por seus filhos, que hoje em dia são preferidas as mães relapsas para uma criação mais saudável da criança.
5. Ganhar dinheiro se tornou muito mais importante do que trabalhar. Se você ensinar o seu filho a trabalhar ele será fatalmente pobre a vida toda.
6. Ficou comprovado que os governos dos países têm interesse no maior número possível de mortes de seus cidadãos, porque as indústrias da morte são mais rentáveis financeiramente do que as do nascimento.
7. Existe um axioma da biologia evolutiva que diz: "A função (ou a necessidade) faz o órgão". Por isso, o homem daqui há alguns milênios terá asas de membranas, como os morcegos.
8. Está previsto pelos futurologistas que dentro de cinquenta anos o mundo será totalmente islâmico e tão chato que os muçulmanos começarão a frequentar aulas de cinismo e deboche ocidentais, mais ou menos como os russos, que após a queda do comunismo contrataram aulas de capitalismo por empresários americanos...
9. A Ciência descobriu que Deus existe mas não pensa como uma pessoa, nem para o bem, nem para o mal, que são conceitos puramente humanos. Por isso os cientistas ainda não descobriram para que Deus serve. Isso é ainda um mistério para a própria Ciência.
10. Está previsto que a infelicidade humana deixará de ser vergonhosa em poucos anos, porque será geral e igualitária.
MAIS DEZ MENTIRAS QUE PARECEM VERDADES (de Guilherme de Faria)
1. A Internet foi criada inicialmente para que as pessoas não saíssem mais às ruas, para aliviar o trânsito. Mas não deu certo.
2. O ser humano não aceita a morte, por ser muito feia e pálida. Por isso os americanos maquiam seus mortos.
3. Quando você conta uma piada o universo conspira contra você. Então só conte uma piada se você não tiver outro jeito...
4. "Comunicar" é um verbo intransitivo. Por isso o Chacrinha foi considerado um grande comunicador. E agora o Faustão.
5. O mundo foi considerado um lugar perigoso para as crianças. Por isso os sociólogos modernos aconselham a população a ter menos que um filho por casal.
6. Os cientistas da NASA comprovaram que a Terra acelerou em duzentos quilômetros por hora o seu movimento de rotação. Por isso os dias estão passando mais depressa. Numa projeção de 100 anos o planeta estará girando tão depressa que a força centrífuga resultante superará a gravidade e nos arremessará no espaço, junto com as águas dos mares rios e lagos. Também os bebês com a água da banheira.
7. Os homens que se casam com mulheres bonitas tendem a morrer mais cedo, por diversas razões já comprovadas: assassinato, stress, exaustão, ruína financeira, etc. Por isso a maioria dos homens se casa com mulheres feias.
8. A verdadeira Arte se nutre da angústia humana. Por isso ninguém aguenta mais e a arte está se tornando tão trêfega..
9. A pintura de cavalete só não morreu, porque os cavaletes se tornaram verdadeiras obras de arte de carpintaria.
10. Psicólogos descobriram que quando uma pessoa fica muito rica, sua psique muda e ela passa a desprezar a pobreza, por comparação, na própria pele. Ela fará tudo ao seu alcance, para punir a pobreza nas outras pessoas.
DEZ MENTIRAS QUE PARECEM VERDADES (de Guilherme de Faria)
1. Uma pesquisa revelou que nos Estados Unidos o aparelho doméstico mais usado nos últimos anos é a máquina de choques, dessas de bolsa...
2. Os brasileiros foram considerados o povo mais auto-crítico do mundo, às raias da baixa auto-estima.
3.Uma pesquisa revelou que a hipocrisia está em baixa, porque as pessoas se orgulham de seus malfeitos.
4. Uma pesquisa do IBGE revelou que o Brasil tem mais bandidos por metro quadrado, do que os habitantes do Canadá por milha quadrada.
5. Foram mortas menos baleias nos últimos trezentos anos do que as pessoas assassinadas pela polícia nos últimos anos no Ocidente.
6. As pessoas bonitas sofrem menos rejeição que as feias apesar de raramente se oferecerem...
7. O talento é uma grande desvantagem num país corrupto.
8. Descobriu-se que o horror que as pessoas têm de ganhar dinheiro honesto, é devido à sua escassez.
9. O ser humano tem tudo para dar errado. Quando dá certo está violando uma lei natural que começa a ser pesquisada por cientistas da NASA.
10. Os esportes na verdade fazem muito mal à saúde, por serem muito antinaturais. A verdadeira vocação de nosso corpo é a preguiça, cujo animal de mesmo nome é, segundo as últimas pesquisas, nosso verdadeiro ancestral, e não os macacos como se pensava.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
QUESTÃO DE SINTONIA
"Quando meu segundo filho era garoto de uns doze anos me perguntou como se fazia para ganhar dinheiro, eu, que nunca soube, respondi brincando, que ia comprar e dar a ele um livro de título "Manual do Pequeno Usurário". Ele riu mas não se conformou... De tempos em tempos insistia para que eu ensinasse a ele como ganhar dinheiro. Mas como poderia eu ensinar algo muito além da minha competência? Entretanto descobri a razão dessa minha deficiência. Ganhar dinheiro é uma espécie de registro, de chave de sintonia em nossa cabeça. Para se ganhar dinheiro é preciso se estar em sintonia com o dinheiro, isto é, com a chave no registro do dinheiro, que não admite outro registro importante simultaneamente, para não causar estática nessa espécie de "dial". E o meu "dial" sempre esteve sintonizado em Arte, sem também admitir jamais outra frequência. Nesse campo não há injustiça no mundo..." (Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Viagem ao Ecuador
"Em maio de 1986, estando eu muito ativo nas litografias no ateliê Ymagos, em São Paulo, fui convidado pela Sônia Sanchez (atualmente Sônia Zanchetta) uma brasileira casada com um ecuatoriano, que residia em Quito e era presidente de La Associación de Damas Brasileñas em Ecuador, ligada à Embaixada Brasileira, para realizar uma exposição individual das minhas litografias que ela organizou no "Colegio de Arquitectos de Pechincha" (bairro próximo do vulcão desse nome, ao pé do qual se situa a cidade de Quito). Descendo de avião, perigosamente, quase esbarrando nos picos dos Andes me vi numa encantadora cidade colonial preservada, cujos museus, igrejas e monumentos me fascinaram pela sua riqueza em duas vertentes culturais: a colonial, espanhola barroca e religiosa da "escola quiteña" dos séculos XVI, XVII e XVIII , e por outro lado, a vertente Inca e de inúmeras culturas nativas muito mais antigas, pré-colombianas, prolíferas em cerâmicas deslumbrantes, que brotavam da terra como raízes e se espalhavam pelas casas de inúmeros colecionadores e eram, apesar de proibição estatal, contrabandeadas como tesouros por colecionadores da Europa e Estados Unidos, aos milhares. Fui recebido por Sonia e seu marido Fausto Sanchez, casal jovem, de uma simpatia e hospitalidade extraordinárias, ela muito ativa culturalmente na cidade, trazendo e hospedando artistas do Brasil, apresentando a arte brasileira, e ele, um engenheiro e montañero (alpinista andino) extremamente solícito e engenhoso, que, eu chegando, emoldurou pessoalmente, com as próprias mãos, todos os trabalhos que levei comigo para a exposição, uma centena de desenhos e litografias (!!). O ilustre casal me hospedou em sua encantadora casa numa pequena vila charmosa em que havia também, algumas casas adiante, uma pequena e linda Casa de Chá, o "Bangalô", montada em sociedade por Sonia e Tuca Guerra, outra brasileira, em que diariamente, na "happy hour" se reuniam jovens artistas de Quito, entre eles o jovem Jaime Zapata, pintor extraordinário, atualmente célebre no Ecuador, e a encantadora e jovem escultora Patricia Morales Parra, e o casal simpaticíssimo Gerardo Guerra (hoje excelente pintor) e Tuca para conversar, rir e cantar ao som do violão de um jovem músico e cantor excelente que me iniciou nas canções de Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, velho índio da província de Tucumán, que conquistara o mundo e consistia ele próprio num ícone folclórico e popular amado pela América Latina inteira através da voz poderosa de Mercedes Sosa. Ali eu ouviria pela primeira vez a inesquecível canção "Luna Tucumana", uma das fontes da minha inspiração gaúcha da futura Alma Welt minha suprema criação artística e poética... " (das Memórias de Guilherme de Faria)
segunda-feira, 23 de maio de 2016
O caso da mulher odiada e o do valente carregador
"Naqueles dias de 1974, já de volta a São Paulo com a família, eu trabalhava muito em minhas telas e desenhos e começara a fazer litografias no ateliê Ymagos-Glatt, realizando diversas exposições pelo Brasil afora, principalmente das minhas litos. Eu tinha que transportar grandes quantidades de gravuras e desenhos emoldurados de um lado para o outro e para isso contratava os serviços de um motorista de uma perua Volks de fretes e seu ajudante carregador, um pretinho pequeno e franzino mas que carregava pesos enormes para minha aflição, sem se queixar. O motorista e dono da perua, seu Odair, era fumante inveterado, homem esverdeado e vincado pelo vício e do qual fiquei amigo o suficiente para ele me contar o que sentia por sua esposa. Ele dizia: "Seu Guilherme, eu tenho um ódio pela minha mulher, seu Guilherme! Mas um ódio!... " E eu então perguntei: "É sua ex? Você tem que vê-la muito? "Não, seu Guilherme. Mora comigo há 35 anos e faz pelo menos uns 34 que eu odeio ela..." Eu fiquei perplexo e tornei a questionar: "Mas como você consegue... na mesma casa... vocês se falam?" - "Não, a gente não se fala uma palavra faz pelo menos uns trinta anos, mas ela deixa a casa limpa e arrumada, a minha roupa lavada e passada para o dia seguinte, a minha janta pronta e se recolhe ao seu quarto... ".
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Lucy in the Sky with Diamonds
"Em 1965, estando eu morando num ateliê na rua Oscar Freire (não o meu atual) e já bastante conhecido no circuito jovem de artes plásticas de São Paulo, fui contactado por um estranho padre psicólogo que estava interessado em fazer experiências de acompanhamento do LSD em artistas, principalmente pintores. Consta que aquele padre foi o introdutor do LSD no Brasil com intenções de pesquisa científicas e espirituais. Vários artistas, como o Wesley Duke Lee e o Mario Gruber se submeteram como pioneiros (ou cobaias) a esses testes acompanhados e registrados cientificamente, enquanto pintavam e conversavam sob efeito da droga. Como prova de seriedade, o tal padre (não me lembro do seu nome) me recomendou que primeiro eu fizesse um "Teste de Roscharch", para saber se eu poderia, sem risco, me submeter à experiência tão cantada em prosa e verso pelo movimento Hippie internacional, cujas bíblias eram os livros "As Portas da Percepção", do inglês Aldous Huxley e "A Erva do Diabo", do peruano Carlos Castaneda. Procurei então um certo Instituto de Psiquiatria que fazia o tal teste de Roscharch, e o fiz com certo prazer, já que consistia simplesmente em interpretar uma sequência de manchas simétricas de tinta, catalogadas, conforme me pareciam à primeira vista. Esperei uns dias para receber o resultado do teste, que apresentou a conclusão de que eu possuía "traços esquizoides de personalidade" (na verdade comuns aos artistas) e que portanto era desaconselhado experiências com drogas alucinógenas. Em resumo, eu poderia entrar numa "bad trip" sem retorno. Eu suspirei aliviado, porque eu estava tanto morrendo de medo quanto de curiosidade. Agradeci mais uma vez ao meu imenso anjo da guarda, que haveria ainda de me salvar de outros tantos perigos e desgraças ao longo da minha vida..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 22 de maio de 2016
Memórias da primeira musa
"Quando menino, a partir dos meus onze anos, eu amava romanticamente uma menina da vizinhança, de uma beleza e graça dominantes, que faziam sombra a todas as outras meninas do meu quarteirão. Nunca pude beijá-la e sofria as agonias do amor recalcado, impossível de expressar naquela idade, como um pequeno Werther à beira do suicídio. Entretanto, num bailinho de seu aniversário em sua grande casa, dançando emocionado com ela, com meu rosto muito junto ao seu, senti o maravilhoso cheiro de sua pele. Ainda hoje, aos 73 anos, depois de tantos cigarros dos 14 aos 38 anos, e de problemas respiratórios resultantes, que às custas de muitos soros descongestionantes destruíram completamente meu olfato, sobrou miraculosamente em minha memória olfativa permanente e recorrente, aquele perfume, o de sua pele maravilhosa de pequena musa do reino eternizado de meu quarteirão infantil..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
A História da Morte da Alma
A amiga ...... acaba de me perguntar o que me fez "matar" a Alma Welt no dia 21/01/2007. Vou então rememorar para quem não conhece essa fantástica história trágica do meu heterônimo feminino: No final de 2006, após um ano de postagens da Alma no portal Recanto das Letras em que ela se tornou uma estrela badaladíssima, admirada pelos colegas poetas, começou a série Sonetos Pampianos da Alma, autobiográfica, que foi recebida com grande admiração. Mas seus sonetos começaram a revelar uma angústia crescente, que atravessou as festas de fim de ano e adentrou o ano de 2007 num crescendo, cheio de pressentimentos de morte. No dia 3 de /01/2007 ela escreveu e publiquei na página dela como sempre, no Recanto, um soneto intitulado "Visão" em que ela antevê por vidência o seu insólito velório nu. Quando chegou o dia 20/01 Alma me enviou o soneto "A Carruagem" que é uma nítida despedida da vida. Passei o dia seguinte deprimido; pensei: "Alma morreu!”... Não postei nada no dia seguinte, sábado, na página dela no Recanto. No Domingo fiz a Lucia Welt entrar na página de sua irmã (como se tivesse encontrado o computador da Alma ligado, com a sua senha do Recanto salva) para informar os colegas e admiradores da poetisa a sua trágica morte, afogada no poço da cascata, na estância, em circunstâncias ambíguas e misteriosas. Suicídio? Assassinato? Foi um imenso escândalo no Recanto das Letras! Eu ria de nervoso... A caixa de e.mails da Alma transbordava de gente desesperada: “Alma, você não pode morrer! Diga que você está viva! Isso é um boato? De mau gosto? Alma, responda, pelo amor de Deus!" E outros mandando pêsames à família da grande poetisa... Entre os primeiros e.mails, um, indignado e frio, do Editor do Recanto, Richard, que era o único que sabia que a Alma era um heterônimo meu. Dizia: “Senhor Guilherme de Faria, desta vez o senhor foi longe demais! O senhor desrespeitou uma cláusula do contrato conosco, que proíbe a publicação de notícia falsa! E nós não vamos admitir isso! Estamos recebendo uma enxurrada de mensagens de admiradores da Alma, que não se conformam com sua suposta morte. E eu não tenho certeza, mas acredito que se alguém se queixar de prejuízos morais ou emocionais por isso, o senhor seja passível de sanções legais! ’Vamos imediatamente desmentir tudo e revelar na vitrine do Recanto que Alma Welt é um heterônimo.”
Eu respondi: “Prezado Richard, o que é isso?! Você é um editor de Literatura! A Alma é um heterônimo, sim, e como tal tem vida própria, personalidade, biografia, amigos, família, e.mail, e sobretudo Obra! Tem direito de morrer... E até de se matar!”
E o editor: “Senhor Guilherme de Faria, O senhor está sendo cínico! E não vou admitir isso, vou imediatamente desmentir!”
O tal Richard, editor, colocou lá na portada do site: Aviso aos Senhores recantistas. Asseguramos que a notícia da morte da poetisa Alma Welt é falsa e os responsáveis já foram advertidos!”
Diante da insistência dos colegas poetas, escandalizados, o editor revelou: “Sabemos que a notícia é falsa porque Alma Welt é um heterônimo.” (Por alguma razão o editor não revelou se o autor era homem ou mulher, pois desde o começo colocou no plural: “os responsáveis”.)
Foi um imenso escândalo! Imediatamente o editor apagou (com algum direito) a postagem da Lucia Welt com o necrológio, e congelaram a página da Alma na sua última postagem, o soneto A Carruagem, esperando meu próximo passo para dar o bote. Enquanto isso o escândalo rolou. Os ignorantes tratavam o acontecido como um caso de falsidade ideológica. Os invejosos tiraram as máscaras e começou o festival de baixarias em comentários odientos na página da Alma; mesquinharias e insultos vulgares à suposta “falsária” sociopata (eles não podiam sequer imaginar que se tratava de um homem!) Ah! É? (pensei eu...) Fiz a Lucia candidamente entrar novamente escrevendo: “Revendo os últimos sonetos de minha amada irmã, na sua postagem do dia 3 deste mês, encontrei este soneto, “Visão”, em que a Alma antevê as circunstâncias de sua morte e até de seu velório, o que nos faz pensar, a nós, sua família, que ela mesmo os premeditou, o que mais nos dói... “ ( e Lucia republicou o soneto Visão) Foi a gota d’água! Imediatamente o Editor apagou um ano de postagens da Alma, (mais de 550 textos), milhares de visualizações, comentários elogiosos e bajulações, e cancelou o seu cadastro e o meu, do cordelista sertanejo Guilherme de Faria. Um glorioso escândalo! Durante mais de um mês vários recantistas discutiam: "Alma Welt existia? Não existia? Era homem? Era mulher,a tal Lucia Welt? (um único chegou perto: "Acho que era aquele tal de Guilherme de Faria que ilustrava alguns textos dela. Não notaram que a página dele de cordelista sumiu na mesma época?"
A Alma começava sua carreira com um “succès d’escandale”, como dizem os franceses.
E os sucessos de escândalo costumam ser duradouros.
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como a Alma Welt surgiu na minha vida
A amiga...... aqui do face, acaba de me perguntar como a Alma Welt surgiu na minha vida. Aproveito para compartilhar com todos a minha resposta, a mais resumida que consegui, para aqueles que ainda não sabem:
A Alma Welt me surgiu como modelo no primeiro desenho que fiz a pincel em 1964, técnica zen, que aprendi de estalo ao assistir uma certa cena de filme japonês de samurai (a Vida de Myiamoto Musachi). Desde então ela foi o "modelo" ruivo constante em milhares de desenhos meus . Nos anos 70 , tomando conhecimento da teoria da Anima, de Carl Jung, fiquei ciente de que aquela figura tão recorrente se tratava de minha própria Anima, pois vinha de dentro, sem jamais precisar de modelo vivo (nunca uma mulher posou para mim na vida, não nescessito). Mas foi só em 2001, quando me sentei para escrever a sério (e começou a me aparecer cordéis), de repente entrou um conto narrado por uma moça, o primeiro conto da Alma, intitulado "Lembrança Preciosa para a Alma Fiel " (vide Contos da Alma, de Alma Welt, que publiquei em 2004 pela Editora Palavras & Gestos), foi que percebi que aquela narradora encantadora, jovem gaúcha auto-exilada em São Paulo, era o meu modelo desde 1964, que agora, aproveitando que eu estava escrevendo, se apresentou como a poetisa e prosadora gaúcha Alma Welt , minha anima e musa desde sempre, e que morreria tragicamente em 21/ 01/2007. Desde essa data, ela continua postumamente dentro de mim, enviando-me mais de suas obras literárias em prosa e verso, o que consiste em outro mistério... (Guilherme de Faria)
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O que mais me aflige é que o Brasil poderia ter dado certo devido ao grande número de talentos individuais, de artistas, de músicos, de pensadores, de cientistas talentosos e escritores geniais. Mas o poder caiu na mão da escória e agora está tudo perdido...
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Minha finada mãe, que morreu idosa, com 95 anos (há dez anos atrás), quando eu era adolescente não queria que eu me tornasse um artista profissional, pintor ou desenhista, coisa que ela pensava ou sabia que não existe no Brasil. Insistiu para que eu fizesse o curso Científico para entrar em Arquitetura, no Colégio Mackenzie, que eu abominava. Eu deveria ter feito o Clássico, por preferir as humanas: História, Línguas e Literatura. Foi um grande equívoco: no segundo ano do Científico, fugi da classe durante uma aula de Química que começou a me produzir angústia, correndo na frente do professor e dos alunos atônitos, e nunca mais voltei. Não me arrependi. Apenas guardei muito ódio e desprezo por aquela escola e seus professores por razões que algum dia contarei e que não foram de bullying não, coisa que nunca sofri. Nunca mais pisei numa sala de aula e também nunca quis ser professor de artes, apesar de ter dado alguns workshops de "desenho técnica zen" ao longo de minha carreira. Devo confessar que o que mais me atraiu na Arte, além da procura da beleza, foi sempre a sua marginalidade intrínseca... ( das Memórias de Guilherme de Faria)
Quando nossas preocupações e medos, apesar de subsistirem, já não causam dor, estamos entrando na maturidade da velhice. Isso é bom, e talvez a única vantagem de se envelhecer. Ao contrário do que os jovens pensam, nós velhos sofremos menos, pelo menos na mente, ou na alma. O corpo? Ah! Isso é uma outra história... (das Memórias de Guilherme de Faria)
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Estórias do Professor Souza
Meu pai, quando eu tinha uns oito anos, contava como se fosse verdade (era invenção anônima de sua época) que ele tivera um professor de português no ginásio, o Professor Souza, extremamente prolixo e pedante, que diante de um aluno bagunceiro, repreendeu-o dizendo: "Ó biltre, ó vândalo, ó baderneiro! Não tens nas faces a cor purpúrea da rosa em botão! Tu és aquele que chega em casa tira o sapato/ fica de pé no chão/ toma café na caneca/ come banana com pão! E depois, vai para a taberna! És um moleque! "
O mesmo professor Souza, de férias foi para a Bahia, sua terra, e na beira-mar dirigiu-se a um barqueiro negro, dizendo: "Ó bárbaro etíope, inimigo das Ciências, quê remuneração pecuniária exiges para transportar-me deste polo àquele hemisfério, Itaparica, minha terra natal?" E o barqueiro respondeu: "Ô moço, com essa gente toda o barco fundeia!" Indignado, o professor Souza invectivou: " Se é por ignorância, transijo! Mas se for para menosprezar a minha mais alta prosopopeia, eu, com esta soberana bengala, este facho de luz, reduzir-te-ei à essência do Nada! "
Eu ouvia estas estórias, deliciado, e nunca mais as esqueceria. O pedantismo era uma coisa estranha, de um passado remoto, arcaico, perdido no tempo... e ridículo, claro. Mas que, de algum modo, me fazia mais admirar a nossa língua portuguesa, hoje em dia, a meu ver, em processo de extinção entre os meninos de escola...
(das Memórias do Guilherme de Faria)
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Um resumo sobre minhas fases e facetas
Tive várias fases bem diversas em minha arte, como venho divulgando tardiamente na Internet em blogs e no facebook há seis anos. Entretanto somente uma das minhas fases ficou realmente conhecida e quase "popular": a das litografias. Isso se deve ao fato de que permaneci nela por vinte anos (de Julho de 1974 a julho de 1995). Nos primeiros 15 anos dessa fase criou-se um farto mercado para ela, e me beneficiei disso. Os últimos cinco anos (de 1990 a 1995) com a hiper-inflação do Sarney e em seguida com o desastroso plano Collor, acabou completamente o mercado de gravuras e até mesmo por um certo tempo o mercado de arte em geral. De repente não se conseguia mais vender arte em papel (desenho e gravura) no Brasil. Foi a maldita fase dos posters off-set de quadros de museu. Eu estaria condenado à miséria se não fosse também pintor e não somente artista gráfico. Mas tudo isso pertence a outros tempos, coisas do século passado. Em 2001, aos 59 anos de idade, comecei a me dedicar também à Literatura, com o surgimento da minha faceta de "cordelista sertanejo" que me vinha sendo preparada com uma tentativa insólita de me tornar um pintor "primitivo", por estar convencido de que era a única arte verdadeiramente brasileira. Não posso dizer que fracassei na expressão dessa minha faceta, pelo menos na sua feição literária, já que meus cordéis entraram no acervo das Bibliotecas de Universidades americanas, inclusive a famosa Biblioteca do Congresso em Washington. Ao mesmo tempo em que surgiam meus cordéis, nasceu a literatura da minha Alma Welt, que logo me tomou inteiramente por revelar-de a natureza de poetisa da minha própria Anima (no sentido junguiano do termo) que já parecia como minha modelo ruiva recorrente em meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Curioso é que posso explicar a origem do fenômeno do nascimento insólito do cordelista sertanejo em mim, mas para o fato da Alma Welt apresentar-se como uma gaúcha pampiana de ascendência alemã por parte de pai, e açoriana por parte de mãe (gerada no vale do Itajaí e nascida no Rio Grande do Sul, na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde moraria até os oito anos de idade, para então mudar-se com seus pais para estância pampiana dos avós agricultores imigrantes alemães), não tenho até hoje uma explicação... Trata-se de um verdadeiro mistério, já que não tenho nenhum parentesco ou raiz gaúcha, sou um paulista paulistano de 460 anos, e nunca estive no Pampa....
Eu respondi: “Prezado Richard, o que é isso?! Você é um editor de Literatura! A Alma é um heterônimo, sim, e como tal tem vida própria, personalidade, biografia, amigos, família, e.mail, e sobretudo Obra! Tem direito de morrer... E até de se matar!”
E o editor: “Senhor Guilherme de Faria, O senhor está sendo cínico! E não vou admitir isso, vou imediatamente desmentir!”
O tal Richard, editor, colocou lá na portada do site: Aviso aos Senhores recantistas. Asseguramos que a notícia da morte da poetisa Alma Welt é falsa e os responsáveis já foram advertidos!”
Diante da insistência dos colegas poetas, escandalizados, o editor revelou: “Sabemos que a notícia é falsa porque Alma Welt é um heterônimo.” (Por alguma razão o editor não revelou se o autor era homem ou mulher, pois desde o começo colocou no plural: “os responsáveis”.)
Foi um imenso escândalo! Imediatamente o editor apagou (com algum direito) a postagem da Lucia Welt com o necrológio, e congelaram a página da Alma na sua última postagem, o soneto A Carruagem, esperando meu próximo passo para dar o bote. Enquanto isso o escândalo rolou. Os ignorantes tratavam o acontecido como um caso de falsidade ideológica. Os invejosos tiraram as máscaras e começou o festival de baixarias em comentários odientos na página da Alma; mesquinharias e insultos vulgares à suposta “falsária” sociopata (eles não podiam sequer imaginar que se tratava de um homem!) Ah! É? (pensei eu...) Fiz a Lucia candidamente entrar novamente escrevendo: “Revendo os últimos sonetos de minha amada irmã, na sua postagem do dia 3 deste mês, encontrei este soneto, “Visão”, em que a Alma antevê as circunstâncias de sua morte e até de seu velório, o que nos faz pensar, a nós, sua família, que ela mesmo os premeditou, o que mais nos dói... “ ( e Lucia republicou o soneto Visão) Foi a gota d’água! Imediatamente o Editor apagou um ano de postagens da Alma, (mais de 550 textos), milhares de visualizações, comentários elogiosos e bajulações, e cancelou o seu cadastro e o meu, do cordelista sertanejo Guilherme de Faria. Um glorioso escândalo! Durante mais de um mês vários recantistas discutiam: "Alma Welt existia? Não existia? Era homem? Era mulher,a tal Lucia Welt? (um único chegou perto: "Acho que era aquele tal de Guilherme de Faria que ilustrava alguns textos dela. Não notaram que a página dele de cordelista sumiu na mesma época?"
A Alma começava sua carreira com um “succès d’escandale”, como dizem os franceses.
E os sucessos de escândalo costumam ser duradouros.
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como a Alma Welt surgiu na minha vida
A amiga...... aqui do face, acaba de me perguntar como a Alma Welt surgiu na minha vida. Aproveito para compartilhar com todos a minha resposta, a mais resumida que consegui, para aqueles que ainda não sabem:
A Alma Welt me surgiu como modelo no primeiro desenho que fiz a pincel em 1964, técnica zen, que aprendi de estalo ao assistir uma certa cena de filme japonês de samurai (a Vida de Myiamoto Musachi). Desde então ela foi o "modelo" ruivo constante em milhares de desenhos meus . Nos anos 70 , tomando conhecimento da teoria da Anima, de Carl Jung, fiquei ciente de que aquela figura tão recorrente se tratava de minha própria Anima, pois vinha de dentro, sem jamais precisar de modelo vivo (nunca uma mulher posou para mim na vida, não nescessito). Mas foi só em 2001, quando me sentei para escrever a sério (e começou a me aparecer cordéis), de repente entrou um conto narrado por uma moça, o primeiro conto da Alma, intitulado "Lembrança Preciosa para a Alma Fiel " (vide Contos da Alma, de Alma Welt, que publiquei em 2004 pela Editora Palavras & Gestos), foi que percebi que aquela narradora encantadora, jovem gaúcha auto-exilada em São Paulo, era o meu modelo desde 1964, que agora, aproveitando que eu estava escrevendo, se apresentou como a poetisa e prosadora gaúcha Alma Welt , minha anima e musa desde sempre, e que morreria tragicamente em 21/ 01/2007. Desde essa data, ela continua postumamente dentro de mim, enviando-me mais de suas obras literárias em prosa e verso, o que consiste em outro mistério... (Guilherme de Faria)
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O que mais me aflige é que o Brasil poderia ter dado certo devido ao grande número de talentos individuais, de artistas, de músicos, de pensadores, de cientistas talentosos e escritores geniais. Mas o poder caiu na mão da escória e agora está tudo perdido...
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Minha finada mãe, que morreu idosa, com 95 anos (há dez anos atrás), quando eu era adolescente não queria que eu me tornasse um artista profissional, pintor ou desenhista, coisa que ela pensava ou sabia que não existe no Brasil. Insistiu para que eu fizesse o curso Científico para entrar em Arquitetura, no Colégio Mackenzie, que eu abominava. Eu deveria ter feito o Clássico, por preferir as humanas: História, Línguas e Literatura. Foi um grande equívoco: no segundo ano do Científico, fugi da classe durante uma aula de Química que começou a me produzir angústia, correndo na frente do professor e dos alunos atônitos, e nunca mais voltei. Não me arrependi. Apenas guardei muito ódio e desprezo por aquela escola e seus professores por razões que algum dia contarei e que não foram de bullying não, coisa que nunca sofri. Nunca mais pisei numa sala de aula e também nunca quis ser professor de artes, apesar de ter dado alguns workshops de "desenho técnica zen" ao longo de minha carreira. Devo confessar que o que mais me atraiu na Arte, além da procura da beleza, foi sempre a sua marginalidade intrínseca... ( das Memórias de Guilherme de Faria)
Quando nossas preocupações e medos, apesar de subsistirem, já não causam dor, estamos entrando na maturidade da velhice. Isso é bom, e talvez a única vantagem de se envelhecer. Ao contrário do que os jovens pensam, nós velhos sofremos menos, pelo menos na mente, ou na alma. O corpo? Ah! Isso é uma outra história... (das Memórias de Guilherme de Faria)
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Estórias do Professor Souza
Meu pai, quando eu tinha uns oito anos, contava como se fosse verdade (era invenção anônima de sua época) que ele tivera um professor de português no ginásio, o Professor Souza, extremamente prolixo e pedante, que diante de um aluno bagunceiro, repreendeu-o dizendo: "Ó biltre, ó vândalo, ó baderneiro! Não tens nas faces a cor purpúrea da rosa em botão! Tu és aquele que chega em casa tira o sapato/ fica de pé no chão/ toma café na caneca/ come banana com pão! E depois, vai para a taberna! És um moleque! "
O mesmo professor Souza, de férias foi para a Bahia, sua terra, e na beira-mar dirigiu-se a um barqueiro negro, dizendo: "Ó bárbaro etíope, inimigo das Ciências, quê remuneração pecuniária exiges para transportar-me deste polo àquele hemisfério, Itaparica, minha terra natal?" E o barqueiro respondeu: "Ô moço, com essa gente toda o barco fundeia!" Indignado, o professor Souza invectivou: " Se é por ignorância, transijo! Mas se for para menosprezar a minha mais alta prosopopeia, eu, com esta soberana bengala, este facho de luz, reduzir-te-ei à essência do Nada! "
Eu ouvia estas estórias, deliciado, e nunca mais as esqueceria. O pedantismo era uma coisa estranha, de um passado remoto, arcaico, perdido no tempo... e ridículo, claro. Mas que, de algum modo, me fazia mais admirar a nossa língua portuguesa, hoje em dia, a meu ver, em processo de extinção entre os meninos de escola...
(das Memórias do Guilherme de Faria)
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Um resumo sobre minhas fases e facetas
Tive várias fases bem diversas em minha arte, como venho divulgando tardiamente na Internet em blogs e no facebook há seis anos. Entretanto somente uma das minhas fases ficou realmente conhecida e quase "popular": a das litografias. Isso se deve ao fato de que permaneci nela por vinte anos (de Julho de 1974 a julho de 1995). Nos primeiros 15 anos dessa fase criou-se um farto mercado para ela, e me beneficiei disso. Os últimos cinco anos (de 1990 a 1995) com a hiper-inflação do Sarney e em seguida com o desastroso plano Collor, acabou completamente o mercado de gravuras e até mesmo por um certo tempo o mercado de arte em geral. De repente não se conseguia mais vender arte em papel (desenho e gravura) no Brasil. Foi a maldita fase dos posters off-set de quadros de museu. Eu estaria condenado à miséria se não fosse também pintor e não somente artista gráfico. Mas tudo isso pertence a outros tempos, coisas do século passado. Em 2001, aos 59 anos de idade, comecei a me dedicar também à Literatura, com o surgimento da minha faceta de "cordelista sertanejo" que me vinha sendo preparada com uma tentativa insólita de me tornar um pintor "primitivo", por estar convencido de que era a única arte verdadeiramente brasileira. Não posso dizer que fracassei na expressão dessa minha faceta, pelo menos na sua feição literária, já que meus cordéis entraram no acervo das Bibliotecas de Universidades americanas, inclusive a famosa Biblioteca do Congresso em Washington. Ao mesmo tempo em que surgiam meus cordéis, nasceu a literatura da minha Alma Welt, que logo me tomou inteiramente por revelar-de a natureza de poetisa da minha própria Anima (no sentido junguiano do termo) que já parecia como minha modelo ruiva recorrente em meus desenhos, gravuras e pinturas desde 1964. Curioso é que posso explicar a origem do fenômeno do nascimento insólito do cordelista sertanejo em mim, mas para o fato da Alma Welt apresentar-se como uma gaúcha pampiana de ascendência alemã por parte de pai, e açoriana por parte de mãe (gerada no vale do Itajaí e nascida no Rio Grande do Sul, na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde moraria até os oito anos de idade, para então mudar-se com seus pais para estância pampiana dos avós agricultores imigrantes alemães), não tenho até hoje uma explicação... Trata-se de um verdadeiro mistério, já que não tenho nenhum parentesco ou raiz gaúcha, sou um paulista paulistano de 460 anos, e nunca estive no Pampa....
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como muitos artistas, vivi a minha vida através da minha própria arte. Quero dizer com isso que minhas obras foram mais reais e importantes para mim do que os fatos, acontecimentos e ações de minha existência física e biográfica. Só minhas idéias, sonhos e obras me construíram, e no plano existencial concreto, se posso dizer assim, fui um verdadeiro fracasso. Nem meus filhos me visitam. Entretanto não me querem mal, acredito. Creio que perceberam a minha real natureza enquanto artista, que é de uma imensa solidão auto- suficiente. Eles, como artistas também, trataram, instintivamente, de se afastar o mais possível. Está tudo certo... Se eu me queixasse toda a minha escolha seria renegada. O único que um artista não pode é blasfemar contra a Arte, já que isso, sim, o tornará vergonhosamente infeliz....
( das Memórias de Guilherme de Faria)
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Como muitos artistas, vivi a minha vida através da minha própria arte. Quero dizer com isso que minhas obras foram mais reais e importantes para mim do que os fatos, acontecimentos e ações de minha existência física e biográfica. Só minhas idéias, sonhos e obras me construíram, e no plano existencial concreto, se posso dizer assim, fui um verdadeiro fracasso. Nem meus filhos me visitam. Entretanto não me querem mal, acredito. Creio que perceberam a minha real natureza enquanto artista, que é de uma imensa solidão auto- suficiente. Eles, como artistas também, trataram, instintivamente, de se afastar o mais possível. Está tudo certo... Se eu me queixasse toda a minha escolha seria renegada. O único que um artista não pode é blasfemar contra a Arte, já que isso, sim, o tornará vergonhosamente infeliz....
( das Memórias de Guilherme de Faria)
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Os elogios perdidos
Tenho pequenos e grandes arrependimentos de minha juventude, que me incomodam até hoje. Entre os médios está esse relativo ao comediante cômico Walter Stuart, da Televisão Tupi dos anos 50. Em 1974 ou 75,não me lembro bem o ano, fui assistir num teatro a peça " Nossa vida em família", de Oduvaldo Vianna Filho, com um elenco fabuloso: Paulo Autran, Carmem Silva, Walter Stuart e minha irmã Isadora de Faria, coadjuvante, que foi quem me convidou.Terminada a peça, em que as estrelas sem dúvida foram o Paulo e o Walter Stuart que estava ótimo num papel cômico, sua especialidade (ele fazia um bombeiro aposentado, hilário, que contracenava com o velho feito por Autran, em momentos de comicidade terna e deliciosa, sem dúvida melhor que toda a sua carreira de palhaço televisivo). Terminada a peça com imensa ovação do público, fui como combinado ao camarim da Isadora e da Carmem Silva, grande velha dama do teatro brasileiro, cumprimentá-las com grandes elogios principalmente à Carmem, que os encaminhou também à Isadora sua jovem partner na peça, para grande satisfação minha de irmão orgulhoso. Isadora, então me disse: "Gui, você quer que eu lhe apresente ao Paulo Autran? Sim? Então vamos ao camarim deles". Batemos à porta e fomos recebidos pelo grande ator que estava retirando a maquiagem diante do espelho super iluminado. Minha irmã me apresentou e logo desdobrei-me em imensos elogios e comentários à sua magnífica performance tentando ser de algum modo um pouco original. Ele se mostrou modesto, amável e encantador. Entretanto com o rabo do olho avistei o Walter Stuart ao fundo (também retirando a maquiagem), cuja atuação tinha sido magnífica pelo lado humorístico que me impressionara mais que tudo e que merecia os maiores elogios. Pensei em dirigir-me a ele mas não sabia como fazê-lo, tanto mais que o velho cômico estava cabisbaixo e carrancudo, que me olhou de esguelha com ódio, e com nítida atmosfera de ciúme e ressentimento pela estrela fulgurante de seu parceiro, o que imediatamente me inibiu: não fui até ele, perdi uma grande oportunidade de agradecer-lhe por tantos momentos de riso e prazer...
Saí com a nítida sensação da injustiça de ter magoado um grande cômico, do tipo físico trapalhão, que tinha sido um pequeno astro querido nas tardes televisivas da Tupi, no preto e branco, agora cada vez mais evanescente da minha infância...
Saí com a nítida sensação da injustiça de ter magoado um grande cômico, do tipo físico trapalhão, que tinha sido um pequeno astro querido nas tardes televisivas da Tupi, no preto e branco, agora cada vez mais evanescente da minha infância...
(Guilherme de Faria)
Graças a Mark
Sou muito grato ao facebook e portanto àquele jovem nerd americano ruivo de nome Zuckerberg. Ele me permitiu visibilidade como artista na maturidade, pra não dizer velhice. Eu, que mergulhava lentamente na obscuridade dado meu horror à vulgaridade e ao equívoco, adquiri pela Internet uma sobrevida inusitada, um palco para as minhas ilusões e um pequeno público fiel. Que mais preciso? Posso me exibir à vontade, embora sob os protestos privados da minha cara metade, uma linda lady mineira avessa a toda essa minha exposição íntima, ela, para quem, graciosamente, as paredes têm ouvidos... Mas... pode alguém perguntar-me, não estamos todos nos expondo nesta era de almoços e jantares fotografados e de selfies alucinados? Não somos todos atores e famosos, finalmente, e não mais por apenas quinze minutos? Sim, graças ao Mark todos temos direito de sapatear digitalmente como Fred Astaire, girando a bengalinha e tirando a cartola, de onde não saem coelhos mas gatinhos em profusão. Ninguém nos segura mais... e logo a rede Globo estará completamente obsoleta! (Guilherme de Faria)
Crônica de um sonho invisível
Sempre que vou ao Banco, na Augusta, passo por um morador de rua, o mais folgado do mundo, que embora muito sujo, instalou uma cama com rodas e colchão, cobertas e um enorme guarda-sol, desses de piscina, na cabeceira, cobrindo-a quase toda como um dossel. Ele ainda fez do parapeito alto da loja desativada na frente da qual está instalado, a sua mesa de cabeceira coberta com uma parafernália indefinível. Ele possui também uma poltrona velha giratória de escritório, confortável, ao lado da cama e até um servidor plástico de água mineral com torneira e o garrafão vazio emborcado em cima... Ele imita todos os confortos de um quarto imaginário, faltando apenas, a meu ver, um ventilador imóvel e um televisor sempre negro. Ele ocupa um espaço da calçada cada vez maior, realmente é o rei dos folgados, e me diverte passar por ele reparando nos detalhes, tanto mais que percebo que os outros passantes parecem não enxergá-lo, como se ele fosse completamente invisível para o nosso mundo. Hoje, entretanto, passando por ele, me ocorreu que seu sonho é tão real quanto o meu, sonhadores do absurdo que somos. E que meu caminho real, às custas de me expor tanto igualmente, acabará por tornar-me tão invisível quanto ele... (Guilherme de Faria)
A libido
"Não, a libido não é pecado. Mas é a maldição fisiológica do homem, e talvez também da mulher... Como seria bom chegar a uma idade em que passemos na rua pelas belas jovens, ou ninfetas de pernas longas, admirando-as displicentemente, sem mais desejo, sem mais sofrimento... ou indiferente como um pesado elefante pelas girafas! " (das Memórias de Guilherme de Faria)
A mente ociosa
A mente é muitas vezes arbitrária, ou ociosa... Madruguei assombrado por uma palavra obsessiva e tive que conferi-la no google, pois me parecia que devia ser outra. Quanta futilidade da mente! Sinápses enferrujadas? Uma vez conferida a palavra, minha mente se aquietou. Senti que se não o fizesse seria como um disco antigo de vinil, riscado, rateando sob a agulha, repetindo, repetindo...No entanto não revelarei aqui a palavra para não valorizá-la, descabida, desprovida de valor simbólico, que me parece... Ah! houve época em que os poetas acordavam com a procura obstinada de uma rima que os tirava do leito... e isso fazia mais sentido. Agora, para mim é tarde até para a psicanálise, pois futuro não há. Entretanto ainda alguns me lêm, quando me percebem sincero, creio eu. Ah! Quanto as pessoas necessitam da verdade, da sinceridade, da confissão particular de nossas fraquezas universais! Como ainda secretamente buscamos, uns nos outros, o sentido da vida! Ou uma palavra mágica, divina, que pronunciada ou escrita refaça o universo... (Guilherme de Faria)
Tempus fugit
Sábado. Sábado de novo. Os dias se sucedem com uma rapidez incrível. Ainda ontem era sábado! O que aconteceu com a semana? Tempus fugit... Vejo o Tempo fugir como já o viam os antigos romanos, e ele já era um velho alado. E eu... cada vez mais lento, me pergunto: O que aconteceu? Ainda ontem era sábado!
(Guilherme de Faria)
Sobre charge do Charlie Hebdo
(sobre essa última charge do Charlie Hebdo)
Nunca fui Charlie. Esse Hebdo nunca me enganou. Detectei sua cafajestice e boçalidade desde o primeiro incidente...
Mas o pior mesmo é que essa última capa do Hebdo é um desrespeito à memória de uma criança inocente. Charlie é sórdido...
Mas o pior mesmo é que essa última capa do Hebdo é um desrespeito à memória de uma criança inocente. Charlie é sórdido...
Desajustado
"A vida toda fui um desajustado social. Suponho que se não fosse artista seria um criminoso de algum tipo, mas nunca um político, espécie criminal que sempre me causou a maior repulsa por sua sordidez e hipocrisia..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Síndrome de Van Gogh
Na infância e adolescência meu mal estar existencial e psicológico era imenso. Não ser ainda algo pronto, definido, era insuportável, me fazia sentir-me afogando, um peixe fora d'água, um permanente estranho no ninho de mim mesmo, duplamente inadequado e tosco por ser também um artista em formação. Custo a crer que sobrevivi à minha própria infância e adolescência, limbos de solidão, insegurança e um permanente sentimento de humilhação devido talvez a um defeito de nascença: um orgulho despropositado e desmedido. Não, amigos, não queiram que seus filhos sejam artistas! No meu tempo, na classe média, tal coisa era até uma espécie de maldição, no mínimo um aleijão de nascença, temor secreto dos pais que viam o fenômeno de um artista pintor na família como a desgraça de uma "Síndrome de Van Gogh", um destino de miséria e suicídio. Exagero? Não, amigos, nada menos que isso. Bem... havia a glória de um Portinari e de um Brecheret, mas, ah! eram casos à parte, exceções à regra, não poderiam se repetir... ( das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 10 de janeiro de 2016
Reencontros
"Hoje reencontrei meu filho Tamayo depois de uma ruptura de quatro anos e meio. Ele recordou algo de sua infância, que eu quase não me lembrava mais. Quando Tamayo (hoje com 44 anos, ator de teatro) tinha uns cinco ou seis anos, levei-o para assistir comigo o "Jesus de Nazaré", de Franco Zefirelli, belíssimo filme com um dos mais belos Cristos do cinema de todos os tempos. Não sei o que ele entendeu do filme, mas à saída ele virou-se para mim e perguntou, com aquela candura irresistível das crianças: "Pai, Jesus era mágico?" Eu fiquei surpreso, hesitei um pouco, pensei e respondi: "Não Tamayo, Jesus era poderoso..." Mas", - ele insistiu - "ele não era mágico?" "Não, Tamayo - tornei a responder- ele era poderoso." "Mas, pai, Jesus não era capaz de tirar um coelho da cartola?" Até aí eu me lembrava, mas então Tamayo me perguntou, agora: "E você se lembra, pai, o que você então me respondeu?" " Não - eu disse fazendo um esforço - Não me lembro, Tamayo." Ele então disse: "Pai eu nunca mais esqueci... você disse:
"Filho, todos os coelhos que existem saíram da cartola de Jesus Cristo."
Ficamos emocionados, os dois, depois de tantos anos, de tantos desencontros. E eu pensei: "Afinal não devo ter sido um mau pai, apesar de tudo... se fui capaz de responder algo, assim, que uma criança nunca mais esqueceu... (das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Descobrindo Rimbaud
"Quando eu estava nos 17, me sentia solitário e isolado em meio à mediocridade e estupidez que reinava naquela horrível escola chamada Mackenzie, mormente no ginásio, celeiro de pequenos cafajestes imbecilizados. Eu desenhava o tempo todo nos cadernos, como um refúgio onde eu podia espairecer do tédio e das tensões embora nunca tivesse sido alvo de bullying, já comum naquela época em que nem havia tal palavra e conceito. Um dia durante o recreio, desenhando no caderno, sentado numa cadeira de braço num canto remoto do pátio, ouvi uma bela voz macia, vinda de trás, máscula, de maravilhosa dicção e inflexão, que me disse: "Belíssimo desenho! Rapaz, você é um artista!". Surpreso, voltei-me e dei de cara com um jovem bem mais velho que eu, belo, muito branco, de cabelo negro e liso e de olhos castanhos agudos como de uma águia, que continuou: "Você conhece Rimbaud?". Fomos andando nos afastando do pátio, e logo em torno ao campo de futebol enquanto ele me contava, de maneira mágica, com incrível precisão e beleza nas palavras, toda a vida do poeta menino prodígio, aventureiro, que revolucionou a Poesia, e que eu ainda não conhecia.... O jovem mensageiro? Era o grande poeta Roberto Piva, sedutor de várias gerações durante sua vida, transgressor permanente no mundo das palavras, eterno subversor, herói e mártir de uma sociedade obtusa, mas de onde nasciam ocasionais talentos desde sempre. Quanto a mim, eu fora descoberto. Estava salvo. Logo me juntaria ao grupo dos Novíssimos liderado por Piva e outros grandes poetas como Claudio Willer, Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, e Décio Bar. Mas, é preciso que eu diga, não ainda como poeta, mas como artista plástico, e absorvendo tudo o que aqueles jovens poetas de extraordinária cultura literária (pareciam ter lido absolutamente tudo) podiam me transmitir. Estávamos em 1960, mas eu só iria começar a escrever pra valer no século seguinte, em 2001, quando então estava apto a criar a poetisa Alma Welt, orgulho maior de minha vida..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Meus amigos favoritos
O que me consola de viver aqui nesta Oscar Freire tão comercial e comezinha, não são somente as suas velhas árvores, mas a minha possibilidade íntima de viver todas as locações e todas as épocas em minha mente, de subir ao Olimpo ou baixar ao Hades em busca de Eurídice, se assim eu o desejar. Sim, todas as eras e os deuses e heróis convivem comigo. Mas sobretudo todos os velhos artistas, e meus dois amigos favoritos que nem sequer se toleram: Michelângelo e Leonardo, que não consigo que façam as pazes... (Guilherme de Faria)
A roda do amadurecimento
"Vou lhes contar uma estória. Em 1980 eu estava no auge do sucesso em minha carreira iniciada em 1962, e ganhando muito dinheiro. Mas,sendo um bebedor e fumante inveterado desde os 14, tinha, subjetiva e emocionalmente, chegado ao "fundo do poço". Entretanto, sentindo a loucura se aproximar, recusei uma gloriosa pecha de "maldito" que já se delineava num breve futuro e renunciei à vertiginosa autodestruição que provavelmente me celebraria como mais um jovem herói ou mártir da arte da minha geração. Tendo visto de perto "a goela do lobo", apavorado, parei subitamente de beber e fumar, e numa súbita espécie de iluminação abandonei toda a boemia que tanto me seduzia desde adolescência. Passei a viver desde Abril de 1981 uma vidinha pacata, sem festas, libações nem delírios, e descobri que não precisava de nada, nenhuma gota, nada de paraísos artificiais para continuar criando. A vida ficou muito melhor, todos os conflitos íntimos da minha louca juventude cessaram ou foram me deixando... e a roda do amadurecimento, estacionada desde os 14, recomeçou com atraso a girar lentamente. Agora, emocionalmente devo estar com uns 30... e minha imaturidade passa quase despercebida." (das memórias de Guilherme de Faria)
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