Começo a escrever aqui minhas memórias de infância e o farei aos poucos, em trechos e fragmentos encadeados, que espero que os amigos leitores tenham paciência de acompanhar. Assim, aos poucos, como um antigo romance-folhetim. Espero que os distraia e divirta. Se possível os encante.
THALITA
(conto de Guilherme de Faria)
Dei-me conta, afinal. De repente dei-me conta de que tinha que contar o que vou contar. Talvez a única estória verdadeira, autêntica, no que me diz respeito. A minha história. Uma estória... de amor.
DILIM DILIM DILIM DILIM!... A campainha parecia soar sempre nos momentos mais impróprios, nos momentos de disputa ou de briga entre garotos, coisas de honra, com que não se brinca. Lembro-me que tive interromper uma luta de socos e pontapés, e que obviamente eu estava perdendo... e sob vaias declarar que minha mãe estava me chamando para o almoço. Voltei correndo, humilhado, envergonhado, aliviado e furioso. Era difícil perdoá-la, pelo menos naquele momento. Tanto mais que, vendo minha fúria ela me olhou longamente, tudo compreendeu e... riu. Sim, riu... deu uma maravilhosa gargalhada que acabei acompanhando, porque se algo tínhamos em comum, minha mãe e eu, além do gosto pela literatura... era o senso de humor.
Ah! A campainha... Era uma sineta de prata. Menos que isso. Era um sininho todo em baixo relevo, com alguns trechos vazados e os nomes dos doze apóstolos gravados a toda volta, em latim, o que me causava uma estranheza deliciosa. Mas sobretudo o arremate superior em forma de um golfinho estilizado numa espécie de mergulho retorcido, para que o pegássemos pela sua cauda em leque, para balançar a campânula e agitar o badalo de prata pra fazer soar aquele tinir agudo, quase insuportável. O animal tinha escamas e boca grotesca de peixe, tal como se viam nos mapas antigos nalguns livros da biblioteca de meu pai, desenhos a partir das descrições dos navegantes que não sabiam descrever bem esses animais estranhos e que também confundiam as baleias com o Leviatã. Esse era o sininho, ou campainha, que minha mãe usava para chamar-nos para o almoço, e que devíamos obedecer como a maior das regras. Uma regra sagrada. Minha mãe a inventara para não se igualar às outra mães do nosso bairro, melhor dizendo, do nosso quarteirão de bairro paulistano pequeno burguês, e que se esgoelavam com suas vozes agudas para chamar seus moleques, à vezes distantes, no fim da quadra, brincando ou conversando besteira nas esquinas. Minha mãe, não! Era uma “lady”. Não gritaria na rua, onde jamais nem sequer levantava a voz como algumas das mães que, segundo ela, se comportavam como “lavadeiras”.
Mulher de médico culto, ela mesma bastante ilustrada, amante de literatura francesa, minha mãe realmente destoava das mães de meus colegas de rua que me ensinavam palavrões e malícias, que aprendi mas logo rejeitei intimamente por reconhecer-lhes a espantosa vulgaridade. Mas eu tinha que disfarçar! Na verdade era tímido e inseguro, e tinha que disfarçar o meu secreto desprezo por eles, para tentar me integrar para ser aceito, pois meu aspecto um tanto aristocrático, agora vejo, lhes infundiu suspeitas desde o início.
Vínhamos de um outro bairro, onde eu nascera e passara a minha primeira infância. Agora estávamos ali. A rua era um play-ground de asfalto, ou melhor, uma pequena praça de guerra dos meninos e suas brincadeiras brutas, competitivas e seus códigos de honra e de macheza. Quanto a mim, era um menino louro, delicado, embora não fosse propriamente franzino. Gostava de música clássica, que era a predileção de meu pai e tínhamos em casa em pesados discos de ebonite. A vitrola chiava, e trocávamos as agulhas de metal quando começava a repetir grotescamente uma frase melódica, de maneira irritante. Meu pai amava Beethoven. Eu também.
Mas o que marcou mesmo essa fase de minha infância foi a descoberta, ou o deslumbramento pela figura feminina na pessoa das meninas do nosso quarteirão. Que diferença dos meninos! Seres etéreos, distantes, delicados, que com seus vestidinhos quase sempre brancos, de manguinhas curtas bufantes, laço atrás, perninhas torneadas despontando de uma zona de mistério tão logo ali e tão inacessível, e terminadas por meínhas soquete e sapatinhos de fivela. Brincavam entre si e não se misturavam nunca com os meninos. Eu ficava horas vendo-as brincar seus encantadores e incompreensíveis jogos de palmas acompanhadas de versinhos rimados. Que gestos graciosos, que dança sutil e natural, meneios delicados, compassados, às vezes ligeiramente sinuosos! Sim, elas eram superiores e... eu queria ter nascido uma delas, essa era a verdade...
Então, ela apareceu. Era uma menina deslumbrante, diferente da outras que já me encantavam. E elas se apagaram, esmaeceram diante da luz dessa menina excepcional, de uma beleza exótica, sim, que parecia vir de um outro mundo, desconhecido de nós todos. E realmente era assim. Filha de um americano e de uma brasileira que tinha o aspecto de uma índia mexicana (simpática e doce senhora), Thalita, era nome da pequena deusa que chegou como uma estrela em nosso quarteirão, e tudo mudou.
Ela apareceu pela primeira vez na nossa rua, vinda uma transversal, umas dez casas abaixo de nossa esquina, uma mansão moderna, na verdade uma das poucas daquele nível em nosso bairro, daquelas que olhamos com curiosidade, senão inveja, como um lugar misterioso onde seres de outra categoria vivem suas vidas dificilmente imagináveis. Era bela, viva, esportiva e elegante. Vestia comumente a primeira calça "jeans" que vi na na vida. Aliás ainda não existiam no Brasil essas caças, e Thalita era uma pioneira também nesse sentido. Calças de cor “índigo blue”, como ela nos ensinou, e que por si só nos deslumbravam. Mas, ah! seu corpo, esguio para a idade, bem feito e com uma cintura fina, bundinha saliente, arrebitada (coisa que nas outras meninas não era muito notada) modelada pela calça justa, coisa que nunca tínhamos visto até então. Ela logo se impôs nos jogos de rua dos garotos, introduzindo a “queimada”, que não conhecíamos, e do qual as outras meninas não ousavam participar devido à violência das boladas, em que os meninos se esmeravam, em especial sobre ela, a femeazinha, como certa afirmação de nossa masculinidade. Mas ela agarrava as bolada com grande habilidade e reflexos nada comuns às garotas, pensávamos nós. Foi também a introdutora dos patins de rodas, em que se exibia quase como uma profissional, a nosso ver, pois girava e conseguia patinar de costas. Thalita era um portento, uma espécie superior vinda de algum outro planeta.
Não preciso dizer que me apaixonei imediatamente por essa menina fascinante e integralmente bela. Eu iria viver o maior e mais puro e solitário amor romântico que me seria dado experimentar na minha vida.
E então... ali naquela rua, naqueles dias, começaram meus precoces sofrimentos...
Ah! Quanto sofrimento cuja inutilidade eu iria constatar somente vinte anos mais tarde!.. Quantas lágrimas, planos não executados, hesitações, recalques, auto-repressões dolorosas!
E erros, também, lamentáveis erros infantis. Por exemplo: um dia, durante o jogo de queimada, cometi uma falta e ela se aproximou indignada, disse coisas de que não me lembro mais, virou-se para prosseguir. Eu, hipnotizado que ficara com seu olhar furibundo, ao vê-la de costas não resisti, ai de mim, e dei-lhe um tapa de mão cheia naquela bundinha atrevida e tão tentadora (essa era a verdade). Ah! Para quê... Ela virou-se como um raio e me deu um tapa violentíssimo, e com uma unha afiada, de lambuja, e que quase me derrubou, como um soco. Eu cambaleei, tentando me equilibrar, pateticamente. Chocado, pus a mão no rosto que já sangrava com um grande arranhão, como eu iria logo conferir dentro de casa, ao espelho, onde envergonhado me recolhi me auto-expulsando do jogo. Durante a semana inteira seguinte eu iria ostentar uma cicatriz no rosto, carregada com um estranho misto de perplexidade, vergonha e orgulho, como um troféu de guerra, e de amor... Eu tinha também conhecido a força da dignidade feminina, tão precoce em seu orgulho implacável. Eu não iria ser jamais um “cafajeste” (como eu ouvia os adultos dizerem de certos homens). E eu me prostraria aos pés dessas pequenas deusas. Eu haveria de fazer delas minhas musas, mesmo que precisasse vez por outra me defender de sua subjacente e antiga tirania...
Então começou a agonia. Eu a via quase todos os dias, e aqueles em que ela não aparecia eram vazios e nostálgicos. E sua presença era um misto de êxtase e dolorosa observação de seus mínimos gestos e olhares. Ela era tão natural!... Quanto a mim tinha perdido minha naturalidade e me sentia travado, em perpétuo suspense, esperando... Esperando o quê? Não sabia, e me sentia no escuro, no coração das trevas de um amor romântico mas sem definição, mais no mundo dos instintos, do inconsciente, do que de uma razão ainda incipiente, em formação.
Em compensação, todos os parâmetros de cavalheirismo, de velada corte, estavam presentes, talvez assimilados pelo meu contacto com os livros, com os clássicos e sua literatura cortesã. Sim eu era um romântico, mas não daquele romantismo dos anos 50 onde estávamos, mas de um tempo mais bem mais recuado, século ou XVIII ou XIX, no mínimo.
Estávamos nos nossos doze anos e começavam os bailinhos de pré-adolescentes. Thalita foi a primeira a organizar esses saraus em sua casa, em que o pai americano nunca estava, graças a Deus. Na verdade ele nunca foi visto por ninguém e era um mistério. Thalita nunca se referia a ele, e a presença de um pai americano em sua vida só era percebida pelo fato de que ela estudava no Graded School, e falava o nome das estrelas de Hollywood com aquele sotaque das meninas americanas mesmo, estranhamente enrolado, que a nós, garotos brasileiros, paulistanos, soava um pouco esnobe, e nos inibia pois jamais poderíamos falar assim, éramos subdesenvolvidos, eu assim me sentia, nitidamente, diante dela, a pequena deusa semi-americana do nosso quarteirão...
Mas, voltando aos bailinhos, devo confidenciar minha primeira memória erótica, se posso assim dizer, relativa à minha pequena Musa. Lembro-me de como, depois de muita hesitação fiz o convite segurei a sua mão (!!) e cingi a sua cintura pela primeira vez, para dançar um fox ou um bolero no baile de seu aniversário, em sua casa. Que emoção, que calor me subiu o corpo... eu tremia! E então, ao aproximar meu rosto do seu, eu aspirei o seu perfume... e ele permanece até hoje nas narinas da minha memória. Acreditem: eu sinto ainda hoje, 58 anos depois, esse perfume subitamente vindo a mim quando menos espero.
Lembro-me também de que, convidado para uma festa de São João em sua casa, minha mãe se esmerou em me fantasiar de caipira, com lenço vermelho no pescoço, camisa xadrez, chapéu de palha desfiado, bigodinho pintado a carvão com rolha, e tudo mais. Ao chegar assim na casa dela, não encontrei ninguém mais fantasiado, muito menos a minha deusa, e foi um vexame, uma vergonha incrível, uma humilhação para o garoto tímido e orgulhoso que eu era. Foi o que hoje em dia chamaríamos "pagar um mico". Bati em retirada e cheguei chorando de raiva, revoltado contra minha mãe, que mais uma vez caiu numa gargalhada, me abraçando, me acariciando o cabelo, e assim me desarmando. Mais uma vez tive que rir junto com ela. E acabamos às gargalhadas, eu rolando no chão de rir de mim mesmo. Graças a Deus, minha mãe tinha um maravilhoso distanciamento literário da vida ou a verdadeira perspectiva dela, que herdei... e isso me salvou.
Mas, ah! Entre tantas lembranças, a mais emocionante, e tátil, que impregnou meu corpo todo para sempre, foi quando convidado para brincar em sua casa, que tinha um imenso gramado nos fundos cercados de árvores e jardins, começamos um pega-pega disfarçadamente erótico em que fingíamos lutar, e eu a derrubei na grama e rolei com ela terminando por cima. Ela lutava como uma pequena leoa e eu a subjuguei, meu corpo sobre o dela em toda extensão, sentindo suas coxas roliças nas minhas, e sobretudo o seu púbis no meu, segurando seus pulsos para cima colados no solo enquanto ela forcejava, falsamente furiosa, eu percebi. Então fui descendo, olhos nos olhos, os dela fuzilando, aproximando meu rosto do dela, minha boca da sua, sentindo o seu hálito doce, perfumado e... a beijei, acreditem ou não. Ah! Aí ela pareceu ficar furiosa mesmo... e me empurrou de cima com tal força que fiquei caído ao lado dela por uns segundos, em êxtase e susto, ofegantes os dois, enquanto ela, soerguida, apoiada nas palmas me olhava fixamente nos olhos. Então ela se levantou e correu para dentro de casa. Eu também me levantei e saí, confuso, mas com o coração palpitante, pelo jardim de minha deusa, até o portão e voltei para casa sonhando sem imagens, só emoções, somente uma infinita ternura, um amor que doía fininho, como uma lâmina que entrava lentamente no meu coração de menino...
Daí em diante eu não teria mais um único pensamento que não fosse relacionado à minha pequena deusa, a menina amada de minha alma. E mergulhei morbidamente num estado de dor permanente, numa embriaguês de amor sem esperança (ah! se eu soubesse, então, que estava enganado, que havia, sim, esperança!...) Mas eu interpretara erroneamente a sua reação, a sua indignação, a sua súbita retirada, pois não nos vimos por uma semana inteira depois daquilo. Eu achei que me precipitara, que tinha sido atrevido, que tinha agido como um “cafajeste”, conforme os conceitos vigentes naquela época. Eu a beijara à força! Eu era culpado! Como fui fazer uma coisa assim? Eu era um ridículo! Como eu poderia esperar ser amado por uma garota assim tão superior?
Então, chegou o dia de seu aniversário. Eu tinha acabado de chegar dos jogos de rua, morávamos num sobradinho modesto, desses geminados, e no andar de cima, no quarto de meus pais, minha mãe notou que minha calça estava descosturada num certo ponto e pediu-me que a tirasse para ela costurar. Eu fiquei de cueca samba-canção, ali de pé diante dela esperando o concerto ficar pronto, ela sentada na cama com agulha e linha. Subitamente ouvimos a voz da Thalita, chamando minha mãe ao mesmo tempo que subia rapidamente a escada: “Dona Helena! Dona Helena!” Em pânico, mal tive tempo de esgueirar-me para trás da porta e ela entrou: “Dona Helena, eu vim trazer o convite da minha festa de aniversário para o Guilherme e as meninas.”- disse ela estendendo um envelope cor de rosa. Minha mãe olhou em volta e disse: Ué... ele estava aqui agora mesmo! Sumiu... que coisa! Você não cruzou com ele aí no corredor:” -Não, não o vi, dona Helena... (minha mãe, com os olhos postos na costura não percebera a minha manobra, e ali estava eu atrás da porta, de cueca, suando frio, sentindo que eu morreria se minha deusa me pegasse assim, sem calças,escondido atrás da porta, tremendo, ridículo para a eternidade.
Thalita logo se despediu depois daquelas indefectíveis palavras: -“E como vai a sua mãe? Que beleza! Você fará treze anos? Que linda idade! (cada palavra prolongava minha agonia).
Thalita saiu da zona de perigo, desceu a escada e ganhou a rua. Eu empurrei a porta e desabei a chorar, mas ali, de pé, diante de minha mãe surpresa, de olhos arregalados: “Ué você estava aí?” e logo entendendo tudo soltou aquela gargalhada redentora, a maior que vi, dela, em minha vida... e me abraçou: “Ah! Filho... vem cá! Eu entendo...” e ria, ria, enquanto eu chorava e ria ao mesmo tempo, profundamente aliviado: minha amada não me pegara sem calças, de cuecas... eu me salvara! Ainda haveria esperanças...
A verdade é que meu romance infantil, de um jeito ou de outro se desenvolveu, embora naquele ambíguo tom de amizade que não satisfaz jamais um coração amante, e mais o exaspera, produzindo uma espécie de ferida que não cicatriza, sempre arranhada, sempre sangrando, com perigo permanente de degenerar numa infecção. Eu sofria quando estava diante dela e sofria quando distante. Tentei infantilmente um meio de comunicação, construindo um bondinho teleférico miniatura, muito engenhoso, feito com o brinquedo de construções Mecano, e estendendo um longo barbante grosso desde uma pequena torre perto da janela de meu quarto, atravessando por cima da rua à altura de um andar superior de sobrado e passando por cima de quintais (que tive de invadir pulando muros, para instalar) até a janela do quarto dela nos fundos da casa, dando para o jardim, e onde ela amarrou a ponta do “cabo”. Uma pequena manivela enrolava o cabo que passava por uma roldana lá na “torre” da minha amada. Eu colocava bilhetes com mensagens no bondinho e o conduzia até lá com o giro paciente da manivela. É claro que meu sistema provocou vaias e gozações dos outros garotos lá embaixo, na rua, que deram um jeito de sabotá-lo lançando pedras amarradas em longos barbantes de pipas que pescando meu fio o partiram, derrubando e destroçando meu pequeno teleférico. Um dos meus bilhete caiu-lhes nas mãos, foi disputado e rasgado, mas ainda assim lido fragmentariamente em tom caricatural e malicioso pelos garotos, produzindo mais vergonha a este pobre e desajeitado Romeu dos primórdios da comunicação tecnológica.
Devo reconhecer que minha paixão de infância repousava no fato de que Thalita era muito superior às outras meninas do quarteirão, e isso dava a ela esse caráter de jovem musa, de pequena diva. Entretanto sabemos que o amor é um processo subjetivo, e não exige tantas qualidades do objeto amado para existir, e comumente mesmo lhe empresta algumas inexistentes: “Quem ama o feio”... Mas a cada nova prova, mais meu coração a confirmava, e eu sofria com a inacessibilidade da minha eleita, de quem eu nem sabia, na verdade, o que esperar, o que desejar.
Um dia as meninas resolveram montar um teatrinho na garagem da casa de uma delas, que, com os portões abertos para a rua, produziu uma pequena platéia dos garotos na calçada, e de algumas meninas mais tímidas, que não participariam, isto é, não tiveram coragem de se exibir para os moleques. O show seria dirigido pela Thalita, que, naturalmente, seria a primeira bailarina, a estrela.
Quando soou a música americana de um disco na vitrola e se abriu a cortina improvisada, meus olhos caíram sobre minha amada e não desgrudaram mais. Eu permaneci hipnotizado o tempo todo, pela graça e elegância de seus gestos adoráveis. Ela tinha talento! (também não pensei nesta palavra).
Quando somos crianças, o tempo apresenta uma estranha ambiguidade. Parece parado, nada muda, seremos crianças eternamente, tornarmo-nos adultos parece improvável. Minha amada existiria como aquela menina linda, para sempre... Quanto a mim, não a alcançaria nunca apesar de ela estar ali, tão perto de um toque da minha mão. Mas eu não ousava tocá-la... não fóra dos bailinhos em que, então, eu a cingia pela cintura, sentindo sua mão quente na minha e... o perfume do seu rosto maravilhoso, tão próximo do meu.
Mas o tempo passou, imperceptível. Minha história era estória dos meus fugazes e eternos momentos com ela, ou somente diante dela. Cada movimento, cada palavra, cada olhar... encadeados numa história solitária, sem esperança, mais dor do que prazer. E ela se tornou de súbito uma mocinha. Lembro-me que foi um choque para mim, ve-la não mais naqueles jeans, mas num vestido tubinho da moda, com sapatos de salto alto, e batom. Tão diferente, de repente. Ou eu não percebera os sinais. A transição. Thalita não brincava mais, falava de um namorado que eu nunca vira e que era da idade do meu irmão mas velho. Eu continuava um menino. Como podia ser isso? Eu ficara para trás, eu que na verdade nunca a alcançara. E o que nunca fora meu estava perdido... Thalita casou com o tal rapaz que, visto uma única vez por mim, parecia destoar tanto dela, parecia nada ter em comum com ela. Mas era rico...
Não fui ao casamento, não mais a via, já havia tempos, ela já estava entrando no terreno das lembranças. E eu a preservaria como uma memória sagrada, por toda a vida.
Tornei-me um artista, ou já o era, não sei. Muita água correu, novos sofrimentos e algumas conquistas. Novos amores. Lentamente eu me esqueci do meu primeiro amor.
Então, quando eu já estava nos meus quarenta anos, um dia recebi um telefonema da Thalita, que casada já há muitos anos e com uma filha moça, vinha se dedicando à arte da joalheria moderna, de prata, e ia fazer uma exposição. Falamos longamente ao telefone, e ela foi estranhamente íntima, como não o fora comigo em nossa infância. Garanti a ela que iria ao coquetel de sua exposição na galeria.
Então... ah! Antes não fosse! Encontrei Thalita bebendo muito, sem parar, em seu vernissage. Excitada, deslumbrada e rapidamente bêbada, tropeçando pelos degraus da galeria ao levar amigos visitantes para olhar esta ou aquela peça deixando cair o copo estrepitosamente, pegando outro drink rapidamente, das bandejas. Ela ainda conservava alguma beleza mas já se percebia umas sombras no seu rosto, e um tom macilento, doentio, de quem já bebia há muito tempo. Senti clara e nitidamente que ela era alcoólatra, e não querendo presenciar um vexame maior que poderia arruinar a imagem sagrada que eu trazia de nossa infância no meu coração, bati em retirada sem me despedir dela.
Passaram-se alguns dias e ela me telefonou, me convidando para conhecer a sua casa, que novamente era perto da minha e eu nem sabia. Recebeu-me sozinha (marido e filha estavam viajando) e com um copo de wisky na mão mas ainda não embriagada, começou falando de sua vida, e de uma psicoterapia ou análise que fazia com um famoso psicanalista. De repente, subitamente comovida, ela disse que me amava desde a infância... que sempre me amara. Ai de mim, ela também me amava e eu nunca soubera!... Mas a essa altura eu já via os sinais de sua embriaguez e resolvi bater em retirada, não sem antes beijá-la na boca que ela me ofereceu pela primeira vez na vida, infelizmente um beijo arruinado pelo gosto e o cheiro do wisky. Saí dali muito perturbado. Meu amor se tornara uma bêbada, não era a mesma pessoa, não era a mais a pequena deusa de minha alma, a pequena Psiqué do meu quarteirão, de minha sofredora e bela infância.
Passou-se mais alguns meses, subitamente recebi o telefonema de sua filha, uma moça que nada tinha em comum com a mãe, parecendo estranhamente racional e fria e que, depois constatei, não tinha herdado a sua beleza nem de longe. A moça contou-me ao telefone, sem uma lágrima sequer, que a sua mãe se suicidara na sua frente com um tiro na cabeça, e que o velório seria naquela noite. Mas incrivelmente acrescentou detalhes chocantes: Thalita estava fazendo um monólogo provocativo, muito violento, diante dela, despejando todo o seu ressentimento por tão grande falta de afinidades, tanta incompreensão mútuas, tantas mágoas entre mãe e filha. E subitamente sacara a pistola de uma gaveta. A bala entrara na têmpora e saíra por um olho (!!!), ela contou (e essa imagem chocante permanece na minha imaginação desde então, como se a tivesse presenciado). Thalita foi levada de maca, ainda viva, morrendo a caminho do hospital, delirando poética e infantilmente, menina novamente, lembrando de sua escola, a Graded School, onde fora feliz...
Quando entrei no recinto do velório, o seu marido, que eu conhecera há anos atrás formalmente e nunca mais vira, chorava copiosamente e abrindo os braços dramaticamente clamou bem alto no meio de todos presentes, familiares e amigos do casal: “ELA GOSTAVA TANTO DE VOCÊ!” E me abraçou soluçando de maneira patética, me segurando, colado a mim, sua face áspera colada na minha, sua cabeça em meu ombro, enquanto eu, constrangido, acariciava as suas costas. Nada daquilo me parecia real. Eu não sentia ressonância daquilo tudo em meu coração.
Não derramei uma lágrima sequer...
Fiquei para o enterro, segurei na alça do caixão. As lagrimas não vinham. Mas finalmente, ali, ao pé da cova, com as últimas pás de terra eu comecei a me lembrar da menina de ouro, a menina que iluminou a minha infância, apesar de tanto equívoco, tantas barreiras que erguêramos em nós mesmos. E me lembrei de sua confissão tardia, de que ela me amava, de que me amara sempre e... afinal acreditei. Ela me fizera uma grande dádiva, não importa se a revelação foi feita em estado de embriaguez: "In vino veritas"...
Eu poderia voltar para casa, minha infância voltara, estava tudo certo. Um artista é sempre criança, e eu poderia sempre rir de mim mesmo como minha mãe me ensinara. E um artista que ri está salvo, nada mais poderá doer tanto...
FIM
quinta-feira, 8 de abril de 2010
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