domingo, 20 de fevereiro de 2022

Perguntas que não querem calar.

1 . Quem muito fala do tempo, perde tempo ou ganha tempo?
2. As mulheres bonitas são a regra ou a exceção
que confirma a regra?

3. A velhice é punição ou prêmio?

4. Se o dinheiro não traz felicidade, o quê o ricos comemoram tanto?

5. Quando Cristo mudou a água em vinho deixou um pote de água pras crianças?

6 Se os últimos serão os primeiros, os primeiros irão para o fim da fila?

7. É verdade que o umbigo de Adão foi um cutucão do dedo de Deus, orgulhoso de Sua criação, dizendo: "Tá bonito, hem? Safado"... ?

8. Se somos descendentes de Caim, isso explica tudo?

9. A Lua foi deixada em paz, ou está valorizando em ações secretas na Bolsa de Wall Street ?

10. Já descobriram quem matou Odette Roitmann ou o crime prescreveu?

11. O Diabo é também filho de Deus ou foi um caso raro de geração espontânea?

12. Se as crianças não se interessam mais por nada, senão por video-games, quem acusará que o rei está nu?

(Guilherme de Faria)
18/02/2022

sábado, 4 de julho de 2020

PROFESSOR PENDLETON'S EXPERIMENT (Humorous tale by Guilherme de Faria)


Dear Facebook friends, I will now tell you about a strange realistic dream, althoug out of time, that happened to me in my sleep tonight. I immediately classified it as a "typical English dream", you will soon see why. Here is the dream that came to me in the form of a report addressed by me to the honorable commission of admission to the Royal Academy of Sciences of the United Kingdom, in the year of Her Majesty of 1826:
"Dear and distinguished members of the Royal Academy of Sciences.
Today, 6 Tuesday, I, Dr William Clark, accompanying Professor James Pendleton, postulant to the title of Academic of the Royal Academy, at dawn, in a rented cabriolet pulled by a single horse (with the modest public money made available by Your Lordships) , we headed (my self as a witness chosen by professor Pendleton) to Hide Park where the doctor intended to carry out the unprecedented experiment that would confirm two of the main laws of our honorable founder, the great Sir Isaac Newton.
At six o'clock sharp, having dismounted us from the cabriolet, and placed us in front of the rising sun, adequately wrapped in our black cloaks and covered by our double-curled white wigs, in an appropriately symbolic attitude regarding the grandiose extension of our glorious Empire British in which the sun never sets, professor Pendleton picked up a stone the size of a fist and after making sure I was attentive, with eyes wide open, in a movement that I would say elegant, he threw it with his maximum strength towards the East. The projectile covered an approximate distance of thirty yards, making a descending parable towards the carpeted ground of weeds and some graceful flowers, damaging them. In this way, two of the laws of our great founder Sir Isaac Newton were simultaneously and empirically proven: the law of Inertia and the law of Gravity.
Back at the headquarters of our Honorable Society, with the Council gathered, after our Left Hand Oaths of Truth (we are English) on the King James Bible, with my trustworthy testimony, we report in detail our remarkable experiment. After a brief deliberation, the Honorable Council decided to honor the professor James Pendleton as a new Academic of the Royal Society A.R.S.
Long live the King! "
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07/04/2020

O EXPERIMENTO DO PROFESSOR PENDLETON (Conto humorístico de Guilherme de Faria)


Queridos amigos do facebook, vou agora contar-lhes um estranho sonho realista, embora extemporâneo, que me aconteceu no sono desta noite. Imediatamente o classifiquei como um "sonho tipicamente inglês", vocês logo verão porquê. Eis o sonho que me veio na forma de um relatório dirigido por mim à honorável comissão de admissão à Real Academia de Ciências do Reino Unido, no ano de Sua Majestade de 1826:

"Prezados e eminentes membros da Royal Academy of Sciences.
Hoje, 6 Tuesday , eu, Dr William Clark, acompanhando o Professor James Pendleton, postulante ao título de Acadêmico da Royal Academy, ao raiar da aurora, num cabriolé alugado puxado por um único cavalo (com a econômica verba pública disponibilizada por Vossas Senhorias), dirigimo-nos, eu na qualidade de testemunha escolhida pelo Professor Pendleton, ao Hide Park onde o doutor pretendia realizar o experimento inédito que confirmaria duas das principais leis do nosso honorável fundador, o grande Sir Isaac Newton.
Às seis horas em ponto, tendo nos apeado do cabriolé, e nos postado de frente para o Sol Levante, adequadamente envoltos em nossas capas pretas e cobertos por nossas perucas brancas de duplo cacho, numa atitude apropriadamente simbólica relativa à extensão grandiosa do nosso glorioso Império Britânico em que o Sol nunca se põe, o prof. Pendleton apanhou uma pedra do tamanho de um punho e depois de certificar-se de que eu estava bem atento, com olhos bem abertos, num movimento que eu diria elegante, atirou-a com sua máxima força na direção do Oriente. O projétil cobriu uma distância aproximada de trinta jardas realizando uma parábola descendente em direção ao solo alcatifado de ervinhas e algumas graciosas flores, danificando-as. Desta maneira, duas das leis do nosso grande fundador Sir Isaac Newton foram simultânea e empiricamente comprovadas: a lei da Inercia e a lei da Gravidade.
De volta à sede da nossa Honorável Sociedade, com o Conselho reunido, após nossos Juramentos de Verdade com a mão esquerda (somos ingleses) sobre a Bíblia do Rei James, com o meu fidedigno testemunho, relatamos com minúcias nosso notável experimento. Após breve deliberação, o Honorável Conselho houve por bem admitir com honras o professor James Pendleton como novo Acadêmico da Royal Society A.R.S.
Long live the King! "
........................
04/07/2020

domingo, 22 de setembro de 2019

Hoje, acordei e imaginei um velho mestre japonês dizendo: "A vida é feita de papel de arroz, muito fino. Aceita impressões de chapa, definitivas, mas não aceita rasuras nem emendas".
 (Guilherme de Faria)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pequena Fábula Mortal

Pequena Fábula Mortal
(criada e escrita por Guilherme de Faria)

Após a Guerra dos Cem Anos, dois amigos viajantes pelo leste Europeu, com um seu guia da região penetraram nos domínios de um antigo Condado sobre o qual pairava uma lenda obscura, controversa e sinistra. Os amigos depois de atravessarem uma densa floresta depararam com uma terra fértil mas deserta, vazia, sem camponeses e habitada somente por animais selvagens que fugiam à sua passagem.
Os amigos emudecidos, temerosos, logo estavam andando sobre as ruas e vielas de uma aldeia totalmente vazia, desabitada, onde o mato e as ervas más cresciam por toda parte. Estarrecidos, ao ver que não havia uma viva alma, perguntaram afinal ao seu guia o que significava aquilo, se aquilo era fruto da Guerra...E o guia respondeu:

-Não, rapazes... A coisa é mais estranha... Reza a lenda que aqui chegou finalmente ao poder um Conde inovador e cheio de ideias sobre legislação, relações humanas e até sobre liberdades. A primeira lei humana consagrada que resolveu abolir foi a proibição de matar. Estabeleceu que qualquer pessoa poderia matar seu semelhante desde que tivesse uma razão para isso. O bom conde confiava que um benévolo senso comum prevaleceria entre as criaturas herdeiras da Razão doada a nós pelo Verbo de Deus...

-E o que aconteceu? (perguntaram em uníssono os dois rapazes).

-Ah! (respondeu o guia) - Consta que em menos de uma década, toda a população do Condado estava morta. Os condados vizinhos espalharam a notícia de que uma peste dizimara essa população e isolaram a região proibindo os viajantes e curiosos por outras tantas décadas. Logo a floresta cercou a Aldeia maldita... Mas a verdadeira razão dessa extinção em massa só quem sabe é o único sobrevivente do Condado Maldito, que por acaso se mudou para a minha aldeia.

-E onde está ele? Podemos conhecê-lo? Leve-nos até ele!

-Ah!... (finalizou o guia). Infelizmente poucos dias após sua chegada ele foi encontrado morto no seu quarto da estalagem, enforcado na trave do teto. Matou-se... tirou sua própria vida. Jamais saberemos...

FIM

09/05/2018

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Se alguém me perguntasse qual é o meu segredo (ninguém nunca me pergunta nada) eu diria: "Pinto e escrevo sempre para mim mesmo, coisas que eu gostaria de ver e ler." 
Sei que isso não é uma novidade, todo artista faz exatamente isso. Mas quando surge de mim algo que eu realmente gosto, sinto que aconteceu um pequeno milagre. E mesmo depois de tantos anos fico invariavelmente deslumbrado... e grato.
(Guilherme de Faria)
Se me perguntassem (nunca me perguntam nada) o que eu procuro na pintura, eu diria: a Poesia. Para isso é preciso harmonizar muito bem as cores e saber desenhar. Ah! e também ter ouvido musical...
(Guilherme de Faria)

"Retrato do artista quando jovem cão." (Dylan Thomas)

Pode ser um lugar comum, mas quanto a isso de envelhecer, eu, Guilherme de Faria, só posso dizer que gostaria de voltar à juventude tão somente quanto ao corpo, isto é, mantendo a cabeça que tenho agora. Com isso quero dizer que reconheço que eu era um tanto idiota, sobretudo quanto à politica, por exemplo. Ah! Mas também porque fumava, bebia, e sofria feito um cão. Sim, eu era um talentoso idiota... 
(Guilherme de Faria)
É curioso... Hoje, dia 1° do ano, a minha Oscar Freire amanhece silenciosa, e não se ouvem nem bem-te-vis. Acordei cedo, porque não bebo álcool desde 1981. Nem um único gole. Quando eu era jovem, "um dedal era muito e um barril era pouco", como se diz... Não faz falta, não tenho saudades, nunca tive de lá para cá a chamada "memória eufórica". Sou atípico, nunca tive recaída. Aprendi a lição de estalo quando ouvi o primeiro depoimento. Não duvidei. Burro é quem só aprende com a própria experiência. Nunca mais brindei a nada, deixo pra quem pode. Bebam por mim neste novo ano, mas saibam que não tenho um pingo de inveja, mesmo reconhecendo ainda a beleza da cor de um copo de cerveja ou de vinho... mas só como pintor. Acreditem se quiserem. Fui bem mais feliz na sobriedade. Meu desenho, minha pintura? Não mudaram, não ficaram nem melhor nem pior, talvez porque a Arte num artista é o último baluarte a cair. Deus seja louvado. ELE parece apreciar os artistas porque lhes dá umas surras 
mas poupa a suas artes...
( Guilherme de Faria)

RETROSPECTIVA DO ANO QUE PASSOU

O ano de 2018 foi de guerra, de intenso e sangrento combate verbal na Internet, nas redes sociais, contra as forças malignas do esquerdismo/comunismo, isto é, contra aqueles que apoiam boçal e masoquisticamente os políticos saqueadores dos dinheiros públicos, os destruidores da economia, da cultura e dos valores morais da maioria do povo brasileiro. Vencemos. A maioria do povo, desde sempre conservadora e cristã, só estava esperando aparecer afinal um candidato honesto e conservador para mostrar nas urnas claramente a sua insatisfação, o seu repúdio aos canalhas antidemocráticos, por interesses espúrios apoiadores de ditaduras genocidas, e também aos idiotas úteis que os apoiam por equivocado sentimentalismo utópico ou por simples ignorância histórica.
Entretanto temos que tomar cuidado: os socialistas/marxistas tiveram tempo, por muitas décadas, de aparelhar os três poderes da República, e toda a cultura do país, quer dizer: a Educação, as mídias escritas, a televisão, o cinema, o teatro, e a literatura, com a deletéria doutrina marxista, amiga da hipocrisia e da mentira. A nova geração, analfabetisada pelo sócio-construtivismo do comunista Paulo Freire, criador de analfabetos funcionais que assim chega às Faculdades sem méritos e saem delas para ocupar com seus diplomas vazios as profissões e os futuros cargos públicos, tentarão retomar o poder da esquerda no nosso país. Fiquemos atentos. O estrago foi fundo, as forças destruidoras do Império do Mal planejavam perpetuar-se no poder e estão surpresas e raivosas. É sabido: têm vocação assassina e até genocida, comprovada 100% pela História. Fiquemos vigilantes e... nada ingênuos, se possível.
(Guilherme de Faria)


Nota
Não se iludam, os socialistas/comunistas NUNCA são bem intencionados, são hipócritas, isto sim. Marx era comprovadamente do Mal, satanista (há provas). O Lula, por exemplo, é bandido, ladrão, saqueador e enriqueceu com o nosso dinheiro justamente por ser socialista/comunista, ferrenho conspirador pelo comunismo internacional, fundador e líder do Foro de São Paulo, parceiro de ditaduras e até das FARC. Não acreditem que Lula era um simples ladrão. Triplex e sítio é brincadeira... o cara é um demônio que saqueou na escala de trilhões, porque é isso que os comunistas sempre fazem.


O comunismo gera pobreza, desemprego e mortandade. O socialismo gera parasitas. O que gera riqueza, motivação e emprego é o capitalismo, esta é que é a verdade.
Apesar de eu ter votado no Bolsonaro, há uma pauta do capitão da qual não compartilho, isto é, o rearmamento da população por mais controlado que pretenda ser isso. Por uma razão muito simples: as pessoas de bem que pretendem se armar não estão levando em conta o fato de que tal lei democrática armará também as pessoas de esquerda. Ora, os esquerdistas, quer comunistas, quer socialistas, por mais normais que possam eventualmente parecer, possuem um elemento de alta periculosidade latente e por vezes invisível. Trata-se do que se denomina "mente revolucionária" do típico esquerdista/socialista ou comunista, fator que o professor Olavo de Carvalho tão bem analisou ao longo de dezenas de palestras e vídeos no youtube.(Se alguém duvida disto assista o vídeo da Manuela D' Ávila elogiando o Stálin, o maior genocida da História da Humanidade ocidental). Alguém duvida da polarização feroz da guerra cultural esquerda-direita, depois do que vimos nas redes sociais durante a campanha eleitoral, e que prossegue ainda? O povo armado no Brasil veria uma guerra civil sangrenta como as que se viram em vários países desde a Revolução Francesa, passando pela Guerra de Secessão Americana, e a Revolução Bolchevista de 1917. Nós logo teríamos saudades dos 60.000 assassinatos por ano por simples bandidos da fase atual.
(Guilherme de Faria)
Nota
Sou insuspeito para dizer isso porque tive, com tristeza, de entregar três revólveres que eu tinha, na época do desarmamento compulsório. Um deles era uma preciosidade. Mas logo me conformei, porque percebi que quem tem uma arma de fogo acaba mais cedo ou mais tarde fazendo uso dela, às vezes contra si mesmo (no meu caso mais provavelmente)...
Vocês querem conhecer uma maneira infalível de detectar uma pessoa inculta? Basta você reparar se ela fala ou escreve "esteje" ou "seje", em vez de esteja ou seja, ou se diz "capitões" em vez de capitães. Quanto ao "analfabeto funcional", os sintomas são mais visíveis ainda, porque os erros de português são mais numerosos, principalmente os de concordância verbal. Ah! E o fato de que não concatenam um raciocínio lógico, se expressam por chavões e nunca respondem com propriedade a um arrazoado ou ataque verbal, e sim com deslocamentos.
 (Guilherme de Faria)
O Purgatório é um lugar para pessoas pacientes. Ao menor sinal de impaciência ele vira um Inferno. É claro que estou pensando no Brasil quando escrevo isto...
(Guilherme de Faria)

TROIA e o senso de realidade. ou O moço de Rio Pomba.

Há uns anos atrás, eu estando com a Eliana em temporada numa pousada de uma pequena cidade de Minas, durante os longos e monótonos serões assistia no DVD-player da sala comunitária da pousada, filmes épicos que eu alugava de uma locadora local, os quais aprecio muito, como O Senhor dos Anéis, Troia, e 300, por exemplo. Um moço recém-chegado de Rio Pomba, uma outra cidade mineira, aproximou-se de mim, e com visível ironia me disse: "Como o senhor gosta de guerra, não?!". Fiquei ligeiramente desconcertado com a visível censura e até desprezo contidos na observação do rapaz. Entretanto respondi: "São filmes épicos, epopeias... não são simples filmes de guerra." 
Minha resposta calou o rapaz mas não desmontou o seu equivocado desprezo, eu percebi pela sua expressão fisionômica. Dei-me conta então da verdade sobre o tal analfabetismo funcional, ou pelo menos da incultura dos jovens-recém saídos das Universidades. O rapaz era um jovem promotor e não poderia fazer uma tal observação enquanto eu assistia uma bela versão da guerra de Troia, embora hollywoodiana. No meu entender o mínimo que um advogado ou promotor deveria ler, continua sendo a Ilíada de Homero. Talvez eu deva reconhecer que meu estilo de vida, voltado inteiramente para a minha arte e memórias literárias, pode ter me afastado da realidade atual. Mas não! Por que então continuariam fazendo blockbusters com tão belas estórias épicas? A ignorância por mais disseminada que esteja, é sempre uma questão individual.
Mas... quanto ao senso de realidade, devo dizer que precisei alguns anos para me dar conta de que embora não houvesse mais ninguém na sala e os outros hóspedes estivessem todos dormindo, o rapaz deveria estar querendo ver o Jornal Nacional e eu estava egoisticamente ocupando o televisor...
(Das memórias de Guilherme de Faria)

Alguns pensamentos que me ocorreram ...


1. Eu admiro os antigos piratas porque eles não pensavam em se aposentar nem quando perdiam uma perna ou a mão direita. rrrrss
2. O politico, assim como o próprio governo, é o exemplo máximo do mal necessário.
3.Todas as mulheres deveriam ser lindas para um tipo de gosto universal. Isso pouparia muito sofrimento para ambos os sexos.
4. A vida atual do homem comum nas grandes cidades é profundamente mesquinha e fútil. Uma forma diminuída de vida, mesmo com os confortos e facilidades modernos. Eu gostaria que tivéssemos a nossa tecnologia mas com a mentalidade cavalheiresca e romântica do século XVIII, desde que sem aqueles patíbulos, masmorras, torturas e guilhotinas...
5. Meditar sobre a vida com clareza e sem ilusões nos faz perceber como a vida moderna é absurda. Por isso é melhor não meditar muito, é melhor ser meramente contemplativo do que ainda é belo.
6. Eu só consigo concordar comigo mesmo quando escrevo poesia ou quando pinto. Aí observo alguma coerência e até lucidez. Fora da Arte vejo a vida com desgosto. Ou me sinto francamente fracassado.

(Guilherme de Faria)
A linguagem humana, escrita ou falada não passa de um código: exige interpretação de quem ouve ou lê. Em outras palavras, exige "decodificação", sempre. Por isso o ser humano vive ainda em Babilônia, por isso existem as guerras, as polêmicas e as "ideologias" em combate perpétuo. Não tenho a possibilidade de saber se estou sendo realmente entendido no que digo ou escrevo para outro ser humano. Falando, escrevendo e até pintando tenho apenas a vaga esperança, aquela mesma que fazia o babilônio empilhar pedras para atingir o Céu... 
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Quanto à minha fase litográfica, devo dizer que fiz exatamente 864 imagens diferentes, todas criadas e desenhadas diretamente por mim sobre pedras da Bavária, e uma vez provadas em preto branco e depois em cores pelo operário impressor, o Tião, eram aprovadas por mim e depois de assinado por mim o BPI (Bom Para Imprimir) começava o trabalho de impressão da tiragem estabelecida pelo meu Editor, o Elsio Motta, da Glatt-Ymagos, que era também o distribuidor e vendedor, nacional e internacional. Como a média de tiragem das minha litos ao longo de 20 anos (de 1974 a 1995) era de 150 exemplares por imagem, devo ter assinado ao longo dessa fase de sucesso que cobriu duas décadas, cerca de 129.600 exemplares de litos que se esgotaram, foram todas vendidas, estão aí pelo mundo.
(Guilherme de Faria)
Nota
Sei com precisão o número de imagens originais que fiz na pedra, porque a Gráfica Ymagos conserva a PBI assinada pelo artista e o REGISTRO numerado de cada imagem acompanhado de pequena foto, de todos os artistas por ela editada (!!!) Isso é uma norma internacional das grandes Editoras Litográficas no mundo todo.
A maioria das mulheres, mesmo quando idosas, parecem se ver como ninfetas lindas quando se olham no espelho. Vejo isso com ternura, pois percebe-se que elas refletem-se de dentro. Quanto a mim, como homem, quando me olho ao espelho vejo um ancião de cabelos e barba brancos ainda mais velho. Mas isso, suponho, se deve não ao homem mas ao artista em mim. Ser artista, ao contrário do que as pessoas pensam, é ter um exacerbado senso de realidade.
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Deus nos deu a Arte e a Poesia e até as belas mulheres como musas. Cabe a nós aproveitar essas dádivas divinas e fazer bom uso delas. Não as vulgarizemos jamais. Deus não gosta de vulgaridades nem deboches. O humor? Sim, Ele gosta, mas isso é outra coisa. Sem vulgaridade o humor é também arte. 
(Guilherme de Faria)
Quando criança, minha mãe, aristocrática por natureza, me aconselhou: "Evite acotovelamentos". Assim, com certo humor ela me avertia a não me misturar ao homem-massa. Como pude entender isso tão precocemente? Isso poderia fazer de mim um medroso, mas me fez um individualista, um solitário e um artista. 
(das Memórias de Guilherme de Faria)
A suposta existência de Aliens ou ETs sempre me fascinou. Gostaria que existissem mesmo, e que chegando com tecnologia superior fossem bem hostis para unir os homens e as nações contra um inimigo comum. Sim, porque não vejo outra alternativa, muito menos com o tal globalismo, que é baseado num ideia de esquerda, portanto destinada ao fracasso. Entretanto devo reconhecer que meu fascínio pelo tema dos alienígenas pode advir não de um certo idealismo mas de uma simples morbidez, a mesma que faz a gente gostar de filmes e contos de terror, de preferência góticos. Eu, por exemplo, adoro os contos do Edgar Allan Poe, bem como os H.G. Wells e Hoffmann. Ah! E "O Horla" de Guy de Maupassant. 
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Um amigo me disse: "Fiz tanta bobagem na juventude, que cada contemporâneo meu que morre é uma testemunha a menos e um alívio." Eu ri muito mas depois fiquei triste, pensando nas minhas próprias bobagens... 
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Quando eu era jovem, em 1969 fui até Basel (Suiça) para encontrar uma namorada (filha de pai suíço) com quem pretendia viver na Europa. Ela era linda, mas não deu certo por culpa de uma depressão que me assaltava naquele período e se agravou com o início do inverno, triste, cheio do crocitar de corvos daquela cidade sem horizontes nem montanhas. Voltei correndo e nem vi Paris que estava a duas horas de trem dali. Nunca fui um bom viajante. Lembro-me que de Basel só gostei do seu famoso Museu com as obras do grande Hans Holbein, filho daquela cidade. Mas ainda em Basel, olhando uma catedral gótica de perto achei as pedras muito limpas e "neutras". Não encontrei a pátina do tempo que eu imaginava. Na minha alma a Europa é cheia de episódios e aventuras das minhas memórias livrescas. Na minha mente os sinos da catedral de Notre Dame de Paris ainda são cavalgados pelo corcunda, e em baixo da praça, num subterrâneo, ainda existe o Pátio dos Milagres, onde os mendigos farreiam, os cegos veem, e os paralíticos correm entre as ciganas e prostitutas, sobre as mesas repletas de canecos de vinho, às gargalhadas...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Uma das maiores e mais persistentes mágoas da poetisa Alma Welt foi não ter tido filhos. Pior: ela teve um mas perdeu com poucos dias. Ao entrevistá-la toquei no assunto e o semblante daquela mulher linda se nublou, ela oscilou como numa vertigem e baixando a cabeça soluçou dolorosamente. Eu me apaixonei imediatamente por ela, eu a abracei e a apertei contra o meu peito e sonhei por um momento em dar-lhe um filho e devolver-lhe a felicidade... Mas ela então se desvaneceu e... eu abraçava o vazio. Ela vinha de dentro de mim, era meu maior heterônimo, eu podia dar-lhe vida em letras e palavras, até mesmo em pinturas, desenhos e gravuras, mas não podia corporificá-la em carne e osso como um Pigmalião à sua Galatea...
(das Memórias de Guilherme de Faria)


Comentários
  • nline agora

reencarnacionistas pretendem saber explicar. A maioria de nós tem de aprender a viver a duras penas, por tentativa e erro. Alguns precoces brilham para sempre, como Mozart, Rafael, Rimbaud... mas morrem cedo. Quanto a mim, fui precoce no desenho e até na poesia, mas perto do abismo redirecionei meu "karma" (por assim dizer) recusando a luminosa maldição dos trágicos e escolhendo uma vida mais longa e fecunda. Alguém poderia simplesmente me acusar de covardia... sim, aqueles cujos "heróis morreram de overdose". Entretanto vivi os melhores anos da minha vida quando afinal me rendi à sobriedade. Os mais produtivos, sem dúvida...(das Memórias de Guilherme de Faria)

O mais difícil na tarefa gigantesca de reformar o Brasil depois de sua destruição quase completa pelos comunistas/petistas vai ser o redirecionamento do sistema de educação, banindo o miserável método sócio-construtivista de alfabetização do comunista Paulo Freire, que criou no mínimo duas gerações de analfabetos funcionais idiotizados para sempre. A propósito, fiquei horripilado quando, zapeando a TV a cabo, passei por um show do travesti Pablo Vittar que, grotesco como uma Drag Queen, esganiçado e desafinado gritava palavras desconexas, correndo de um lado pro outro sobre o palco juntamente com dançarinos tatuados mais grotescos ainda, liderando uma massa de dezenas de milhares de jovens de todas as classes sociais que gritavam e "cantavam" fanatizados, estendendo os braços e as mãos em idolatria como para tocar o "ídolo", fruto exponencial da "ideologia de gênero".
Percebi, então, que vai ser muito difícil reformar o país, porque o seu futuro está totalmente comprometido por uma geração intelectualmente destruída pela imbecilização deliberada e planejada pela esquerda criminosa.
(Guilherme de Faria)
(Mais um trecho das minhas "Memórias")
Uma coisa é certa: cabe a cada um descobrir o sentido da vida, quer dizer... de sua própria vida. Para muitos isso é uma procura de uma vida inteira, para poucos um estalo quase ao nascer. Nesse sentido fui um privilegiado: descobri ainda criança que queria ser um artista, desenhista e pintor também escritor, ao ler, da biblioteca caseira de meus pais cultos, precocemente, a biografia romanceada dos grandes artistas da Renascença Italiana. Eu me identifiquei imediatamente com eles, me parecia conhecê-los profundamente em mim mesmo... Absurdo? Assim era. A primeira biografia que me apaixonou foi a Vida de Michelangelo, de Romain Rolland, que começava assim: "Era um burguês florentino...". Em seguida, O Romance de Leonardo Da Vinci, de Dimitri Merejkowsky, histórias de vidas com as quais misteriosamente tive uma identificação profunda, me perdoem a talvez ridícula pretensão do meu inconsciente, se posso dizer assim... Depois, claro, fui ler a vida dos "modernos" , isto é, dos impressionistas e pós-impressionistas da Ècole de Paris.
Portanto cresci com essa obsessão, e nunca me ocorreu outra "profissão" e muito menos procurar um emprego. Resultado, no inicio da minha carreira, tendo saído de casa brigado com minha mãe, que queria me proteger da vida e do mundo (ela me ameaçava com o exemplo trágico de Van Gogh, que ela generalizava), fui morar num porão infecto num cortiço atrás do Cemitério da Consolação, meu primeiro ateliê onde vivi uma espécie de "vie de bohème" num Bateau Lavoir ou num Quartier Latin tupiniquim. Resumo: os meus primeiros quinze anos de carreira artística foram divididos assim: cinco anos de miséria negra e dez anos de pobreza extrema, regados a álcool, sexo, angústias e música clássica (!!) Depois, gradativamente uma subida para uma relativa prosperidade "bourgeoise" que durou outros quinze anos apenas, para depois mergulhar lentamente numa digna e prestigiosa pobreza, cercado de centenas de meus quadros, na minha gaiola dourada da rua Oscar Freire onde envelheço neste quase quitinete "que é a parte que me coube neste latifúndio"...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
É fácil entender porque os comunistas/petistas defendem não só os grandes mas também os pequenos ladrões, aqueles que matam por um celular. É porque todo ladrão é um comunista em essência, sem o saber, porque não trabalha e quer tomar o que é dos outros. Por isso os marxistas, num primeiro momento tentaram aliciar o "lumpemproletariat" como ponta de lança na sua maldita revolução...
(Guilherme de Faria)
O que é um pintor (coisa que hoje em dia chamam ridiculamente de "artista plástico")? A meu ver é um sujeito que, não se conformando com a vida como ela é, resolve não mudá-la por saber tarefa impossível, mas construir seu próprio mundo visual e mental. Quando consegue seu intento, passando ou não por muitas fases, que são mudanças de ideia, correções de rumo, 
se vê cercado por seus poderosos espelhos mentais que lhe dão a secreta satisfação de um Deus em pausa de descanso. Garanto-lhes: não pode haver satisfação maior que ver-se projetado e aprovar-se, sem mais arrependimentos, com orgulho, quando isso é possível... 
(Guilherme de Faria)
(Mais um trecho das minhas Memórias...)
Quando criança eu assistia nas matinês seriados americanos de Flash Gordon, ou westerns em preto e branco; mais tarde um pouco, musicais de fantásticos sapateados de Ginger Rogers e Fred Astaire, e Gene Kelly. Eu via também, claro, nos domingos, filmes de Mazzaropi e as comédias da Atlântida, de Oscarito, Grande Otelo, Eliana e Cyl Farney, que devo confessar que me divertiam igualmente. Entretanto a inevitável comparação da sociedade americana vislumbrada naqueles filmes, com a nossa, me produzia uma espécie de secreta vergonha e humilhação pelo nosso evidente provincianismo e "jequice". Na verdade essas palavras não me vinham ao subconsciente, muito menos a palavra subdesenvolvimento. Era tão somente uma vergonha difusa, um vago desgosto estranhamente misturado com a ternura e nostalgia de algo mais primitivo, ingênuo e longínquo que me tocava e comovia quando eu ouvia coisas como a canção "Casinha Pequenina" (Tu não te lembras... ) cantada pela nossa soprano Bidu Sayão, ou a Cantilena da bachiana n°5 de Villa-Lobos.
Entretanto predominou o desgosto, já que em casa eu me entupia dos clássicos da literatura européia da biblioteca dos meus pais. Minha infância, pois, sendo um ratinho de biblioteca, foi atípica e me tornou um solitário, pois para o próprio desenho e pintura de minha vocação inata eu só tinha modelos europeus, claro. Sobretudo os divinos renascentistas italianos, e como ilustradores, os oitocentistas Gustave Doré e Wilhelm Busch.
Resumindo: sempre me senti deslocado, um exilado em minha própria terra, uma mente européia num coração brasileiro, portanto num peculiar desconforto que só cessa quando estou diante do cavalete, terra de ninguém...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Sei que toda generalização é injusta, mas tenho uma enorme tendência a considerar o Brasil um país profundamente infeliz por nossos próprios defeitos de caráter...
Guilherme de Faria

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Se alguém me perguntasse qual é o meu segredo (ninguém nunca me pergunta nada) eu diria: "Pinto e escrevo sempre para mim mesmo, coisas que eu gostaria de ver e ler." 
Sei que isso não é uma novidade, todo artista faz exatamente isso. Mas quando aparece algo que eu realmente gosto, sinto que aconteceu um pequeno milagre. E mesmo depois de tantos anos fico invariavelmente deslumbrado... e grato.
(Guilherme de Faria)
Quem como eu assiste TV a cabo pode perceber ao longo do ano e principalmente nesta época de Natal, nos inúmeros programas de "investigação histórica " do que eles chamam de "o Cristo real" , a verdadeira campanha insidiosa e sub-reptícia de desconstruir a figura divina de Cristo, descrevendo-o como um revolucionário progressista popular, buscando mudar suas fontes e demolindo "cientificamente" datas e mistérios. Isso faz parte da estratégia globalista de esvaziar o próprio sentido fundamental da religião Católica e mesmo de todas as outras vertentes do Cristianismo, inclusive as protestantes. O cristianismo todo se baseia no fato de que Jesus Cristo é Deus encarnado, isto é, Deus que se fez homem, e portanto a Segunda Pessoa da Trindade. Sem esse dogma fundante não existe a Igreja Católica e nem sequer o cristianismo. Os programas de "investigação arqueológica" do cristianismo são insinuantes e capciosas tentativas de destruir o conceito de divindade de Jesus, e consequentemente da existência do próprio Deus. Isso faz parte de uma corrente materialista de pensamento que invadiu o Vaticano e corrói por dentro o Catolicismo para reduzi-lo a uma expressão revolucionária, na verdade puro marxismo disfarçado. Essa corrente se chama Teologia da Libertação e é apoiada disfarçadamente pelos globalistas, corrente mundial empenhada em destruir o cristianismo, e implantar um governo mundial socialista ateu acima das soberanias das nações, que passarão praticamente a não existir num futuro próximo.
Não, Cristo não foi um revolucionário mas a realização de uma profecia da religião judaica, da vinda do Messias, da qual ele nunca se afastou, apenas corrigindo os seus desvios numa época de decadência, reafirmando acima de tudo o Primeiro Mandamento: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
Essa intenção programática de esvaziar todo sentido místico e sagrado das religiões, só interessa aos socialistas/comunistas, que para isso até mesmo se aliam contraditória e provisoriamente ao islã, sem perceberem que futuramente serão engolidos por ele em sua natureza teocrática indebelável.
Sim, é verdade: vivemos numa época de ascensão do Anti-Cristo, e isso não é mera "teoria da conspiração", folclore ou superstição. Só podemos nos consolar com a ideia de que a Fé do povo é indestrutível e faz parte de sua natureza, não por ignorância e ingenuidade mas pela busca humilde de um sentido de transcendência, e portanto baseada no que o povo tem de melhor.
(Guilherme de Faria)
"Não sou um tipo dado à depressão, mas mais à angústia existencial, o que não melhora muito, eu sei... Lutei a vida toda contra um certo pessimismo de fundo, não paralisante, essencialmente racional, advindo de uma onipresente consciência da morte. Presumo que isso seja uma característica comum aos artistas e, no fundo, a razão da obsessão em criar. Na verdade, esse é o preço que se paga pela criatividade profunda, pelo dom da poesia, e pela paixão imoderada pela beleza. Por outro lado, há uma satisfação imensa após o término bem sucedido de cada obra, um orgulho que não se assemelha nem um pouco à vaidade, menos ainda ao narcisismo, e uma certeza da transcendência da vida, do espírito... em uma palavra: de Deus."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
"Uma vez, reencontrei o pintor Aguillar, velho amigo dos anos 60 e sabendo que ele é também escritor, além de pintor, perguntei-lhe se continuava escrevendo. Ele respondeu: "Não. Estou pintando muito, são registros incompatíveis, pertencentes a lados diferentes do cérebro. Quando um lado está muito ativado, o outro desliga."
Fiquei pensando sobre isso e vi que ele tinha razão. Quando estou numa fase intensa de pintura, a Alma Welt em mim se retrai e sou incapaz de dar à luz os seus sonetos, por exemplo. Neste ano de 2018, com a explosão da minha fase pictórica floral, a Alma Welt se retraiu bastante. Às vezes penso que ela, sendo Anima, luta comigo e gostaria de me possuir por inteiro. Ai do artista que se deixar dominar totalmente pela sua própria anima. Como "anima possuído" (no dizer de Jung) esse artista ficará belamente criativo, mas sofrerá forçosamente um rebaixamento do animus... e morrerá de fome, incapaz de vender o seu trabalho. "
(das Memórias de Guilherme de Faria)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Os reencontros

Os reencontros em nossa vida nunca acontecem como imaginamos ou esperamos. Há sempre uma surpresa, uma ironia, ou uma decepção desconcertante (redundância), por vezes uma inusitada ternura. Por ora não me refiro aos meus raros reencontros com as mulheres amadas da minha juventude. Quando minha querida mãe que sempre apostou em mim como artista ficou doente na velhice e foi morar numa chácara no interior com meu irmão mais velho e sua esposa por motivo de infra-estrutura que eu não poderia dar morando num ateliê precário e superlotado de tralha, passei quase um ano sem vê-la e afinal, visitando-a encontrei-a apesar de super bem tratada, magérrima pela doença, deitada numa cama de onde não mais saía, me fitando com olhos arregalados. Sem ter certeza de que me reconhecera, disse-lhe: "Mãe, sou eu, o Guilherme". E passando a mão na minha barba branca, completei: "Estou velho, não?" E ela com os mesmos olhos arregalados e sem expressão respondeu seca e laconicamente: "ESTÁ!"
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
(das Memórias de Guilherme de Faria)

O MENINO DO ÓBVIO


Quando eu estava no quinto ano primário do colégio Mackenzie, eu, que era o primeiro da classe sem fazer esforço, de repente me defrontei com um aluno novo, chegado do interior e em regime de Internato, que tinha o apelido de "Crânio", e que me roubou o primeiro lugar e me suplantava de longe em conhecimentos e provavelmente em QI. O garoto precoce, tipicamente de óculos (hoje em dia o chamaríamos de nerd) era quase um erudito, e eu conversando com ele no pátio durante os recreios, me sentia pela primeira vez um ignorante apesar das minhas leituras da boa literatura universal. Foi numa dessas conversas que eu, querendo impressioná-lo declarei alguma coisa, na verdade acima dos meus conhecimentos e recebi esta resposta inaudita:
- "Mas é óbvio, meu caro!"
Eu fiquei estupefato, sem resposta e até sem fala. Eu jamais tinha ouvido ou sequer lido tal palavra em qualquer dos grandes romances ou estórias de aventuras dos grandes escritores que eu lia. Simplesmente tal palavra esdrúxula não constava da Literatura. Entretanto eu penso que a entendi alguns segundos depois de passada a perplexidade. A palavra impunha-se por si mesma, solitária em seu próprio sentido auto-suficiente, e mais envergonhado fiquei de não conhecê-la, por pedante que me parecesse. Somente muitos anos mais tarde fui vê-la publicada nas tiradas do Nelson Rodrigues com seu "óbvio ululante."
Ainda assim jamais empregaria esta palavra nos meus textos, e muito menos nos da Alma Welt, meu heterônimo feminino que só surgiria na minha maturidade, a partir de 2001.
Na verdade o óbvio não interessa mesmo, e nem merece discussão, diante da enormidade do Desconhecido, da nossa estupefação latente e crônica diante do grande mistério da Vida.
Por que então aquela palavrinha, que nem sequer pode ser dita comendo farofa, me foi tão estupefaciente? Creio que ela, em si, encerra o Grande Segredo, e não o revela...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
Às vezes me pergunto que fim levou o menino do óbvio, o pequeno nerd avant-la-lettre, que uma vez me mostrando seu quarto no Internato, revelou que não tendo uma vitrola para ouvir música, lia de noite no leito partituras de grandes sinfonias de Beethoven e assim as ouvia, o que me pareceu miraculoso. Nunca mais o vi depois daquele ano, nossos rumos foram muito diferentes e eu gostaria de saber se ele, voltando à sua pequena cidade fundou ali uma "Lyra Musical", se tornou maestro da banda, fundou a Academia de Letras, escreveu sonetos tardiamente parnasianos, ganhou a grande comenda das Artes e das Ciências da cidade, morreu cedo de amores enforcando-se alta noite na grande árvore da pracinha. Só me resta imaginar, nunca mais ouvi falar dele (conheço o seu nome e penso um dia fazer uma pesquisa, já que estamos na era da Internet). Mas quantos pequenos gênios precoces não deram em nada, já que somos regidos por um destino tão arbitrário que às vezes privilegia com grandes prêmios o idiota da Vila, o retardado da família, o delinquente potencial que se tornará um chefe ou um presidente. Nada sabemos dos "desígnios" do nosso misterioso e nada óbvio Deus...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O mecenas

Quando jovem artista, em 1965, lutando para vender meus desenhos e pinturas para sobreviver, já com a minha segunda companheira, a bela Jomara, vivi a estranha experiência de
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
"Rapaz, o que você quer da vida?"

Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:

-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..." 

Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:

"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?" 


- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.


Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha". 


Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...



Chegando ao nosso destino e tendo deixado o carro num estacionamento ali perto notei que o doutor olhou admirado para a bela fachada e portaria Art-Déco de mármore negro do prédio, muito bem conservada e inesperada naquele contexto.
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
- O senhor se refere a uma mesada? - (eu perguntei)
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
Eu disse: Preciso calcular...
E ele: "Isso, pense bem, faço o seu orçamento e depois me telefone."
Fui para casa, eufórico, e disse para a minha mulher:
"Jomara, tiramos o pé da lama, sairemos da miséria!"
E contei a ela, perplexa com os olhos marejados, a proposta do doutor.
Durante um dia fiz mil contas e combinando com a Jomara estabeleci um valor altíssimo, que me permitiria realmente pintar com largueza e vivermos à grande. E voltei a telefonar ao meu inesperado mecenas que me pediu que fosse novamente ao apartamento dele. Diante daquela mesa pela terceira vez, agora eu transmitia o orçamento com firmeza. Ele sorriu e disse:
"Um pouco alto demais, não acha? Eu estava pensando em... digamos...(tanto)."
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
Aceitei imediatamente... eu calculara bem alto prevendo isso, pois desconfio ter também um pezinho em Jerusalém, como a maioria dos brasileiros de origem portuguesa...
- Bem, rapaz, me dê o nome do seu banco, agência e número da conta, e todo dia primeiro de cada mês estará essa quantia depositada.E não conte isso para ninguém. Agora nós não devemos mais nos ver. Adeus.

Eu fui para casa e a partir do dia 1° que estava muito próximo, começou para nós a festa dos novos dias de pintura, "de vinho e de rosas", que plasmaria dai por diante nossas vidas com a marca do excesso, da boemia... e nem por isso, da felicidade. Mais ou menos como quando se faz um duvidoso pacto...

Com a "bolsa" do meu mecenas entrando todo mês, nossa vida mudou. Havia fartura, podíamos fazer planos, e logo nos mudaríamos da "boca do lixo" para a rua Estados Unidos, nos Jardins, num jeitoso apartamento alugado, em cima e atrás de uma padaria. Foram dias de muita produção mas também, como eu disse, "de vinho e de rosas", isto é, de festas e bebedeiras homéricas, a ponto de um amigo nosso, gay e sofisticado, nos apelidar, a mim e Jomara, de "Fitzgerald e Zelda", tal a nossa dissipação eufórica e "artística". Ali aconteceram também coisas estranhas e perigosas, que narrarei noutra ocasião, mas após um ano, se aproximando o último dia do contrato, eu telefonei para o mecenas e convidei-o a vir ver o fruto do meu trabalho daquele ano. O Dr. Nemirovski veio e ficou primeiramente surpreso com a minha mudança de endereço às suas custas, eu percebi: ele olhava muito em torno. Entretanto, eu tinha o que mostrar, embora, sinceramente, eu pudesse ter feito mais. Mas ele disse:
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
Entretanto devo dizer que outros dez anos depois , fui convidado para uma festa de despedida da "vida pública" do meu mecenas, na sua nova casa da rua Guadalupe no Jardim Europa. Ele iria, como ele disse num discurso para o qual parou a festa, dedicar-se à sua própria pintura. Casa suntuosa, de concreto aparente toda em curvas e com uma piscina com um mosaico de pastilhas de gosto duvidoso no fundo, em torno da qual a nata dos artistas e dos críticos de São Paulo entornava coquetéis num desfile de pavões, enquanto ao mesmo tempo olhavam aquela mansão, se não com inveja, com perplexidade e ironia. Não pude deixar de notar, que a despeito dos maravilhosos quadros selecionados (o meu não estava ali) que a povoavam, a casa, térrea e enorme, era estranha como se contivesse um segredo suspeito, e que eu intuí ser um nível subterrâneo de igual ou maior tamanho, já que visíveis não haviam ali expostos tantos quadros quanto os de sua famosa coleção de milhares. E eu imaginei também, Deus me perdoe, um túnel paranoico de evasão, com saída numa rua de trás...
Não devo ter estado muito longe da verdade, pois em 2005, após a morte de Paulina, aquela mansão moderna, obra de um arquiteto famoso, não abrigaria a fabulosa coleção do casal, que foi para o antigo prédio do DOPS na Estação da Luz. A casa da rua Gadalupe foi totalmente demolida, inusitadamente, quando seria de se esperar que fosse o lugar natural para o museu da Fundação Paulina e José Nemirovski. Ninguém entendeu.
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(das Memórias de Guilherme de Faria)




domingo, 2 de dezembro de 2018

Gostar é de graça

Eu morreria se não pudesse fazer arte e não consigo me ver em nenhuma outra profissão embora mal seja capaz de vender pessoalmente as minhas telas e desenhos.Sou ruim de vendas porque tenho um secreto desprezo pelo comércio, fruto talvez de um preconceito arraigado, de formação na infância, filho que sou de uma professora católica e pai médico ateu, muito cultos e também avessos ao comércio, incapazes de vender algo material. Em criança, e já no começo da juventude eu tinha a tendência a presentear meus desenhos a quem muito os elogiasse. Em 1963, participando da I Exposição do Jovem Desenho Nacional na FAAP, o Flávio de Carvalho me abordou (ele pareceu ter ficado impressionado com meu trabalho) e disse, com aquela voz grave e embolada: "Olha, rapaz, um conselho: nunca dê seu trabalho de presente para ninguém. Nunca!" Eu o olhei como se olha um velho avarento, mas respeitosamente agradeci o conselho. Não demoraria a perceber que arte é a última coisa que as pessoas pensam em pagar. Afinal, gostar é de graça, e mercado de arte nada tem a ver com isso. A pessoa que adquire um quadro tem muito desenvolvido o sentimento de posse. Eu, por exemplo, jamais pensaria em ter um Van Gogh, e se o tivesse, doaria imediatamente a um museu, porque naturalmente eu seria muito rico e não precisaria vendê-lo. Entretanto comecei cedo a viver de arte por absoluta necessidade mas graças a ter descoberto em mim um certo cinismo anestésico, como imagino haver nas prostitutas de bom caráter...
(das Memórias de Guilherme de Faria)

sábado, 1 de dezembro de 2018

Mais um fragmento das minhas Memórias

"Ao contrário da Alma Welt, meu heterônimo feminino, não tenho saudades da minha infância. Tive bons momentos, é verdade, como todo mundo, mas em geral me sentia numa espécie de limbo provisório, sempre numa espera ansiosa de crescer. Ser criança me parecia, em si, uma condição humilhante e até vergonhosa. Na verdade isto acontece com muitas crianças precoces, e seu sofrimento intensamente subjetivo em geral passa despercebido ou não levado a sério. Por volta dos doze anos me apaixonei profundamente por uma menina do bairro, sofrendo os tormentos interiores e clandestinos de um pequeno Werther. Só faltou o suicídio. A paixão desproporcional e prematura por aquela pequena deusa da minha devoção me marcaria para sempre. A partir da juventude, para poder viver precisaria da companhia intensa do "espelho da anima" me cercando por todos os lados, que é o que a mulher representa... Até aí nada de original, na medida em que isso ocorre com os homens em geral, daí os casamentos e até a perpetuação da espécie. Mas, no meu caso, eu precisava projetar a minha própria anima no papel e nas telas e cercar-me, além de uma companheira real, de suas infinitas imagens pelas paredes para sentir-me íntegro. Sim, sem isso me sentia desintegrar, perder minha própria individualidade e personalidade. Triste dependência, reconheço... Muitos artistas são assim, por isso se casam tantas vezes e foi o que ocorreu também comigo. Como Picasso, minha vida pode ser dividida por fases regidas pelas mulheres com quem compartilhei o teto do meu ateliê, mas sempre numa espécie de dolorosa peregrinação (me perdoem as lindas mulheres que me acompanharam por longas ou breves temporadas e em especial a paciente Eliana, maravilhosa companheira dos últimos 25 anos). Sim porque devo dizer que, na verdade, essa peregrinação anímica cessou, afinal, quando em 2001 descobri a identidade psíquica e existencial da minha musa interior, sim, de modo inusitado vinda de dentro de mim mesmo, sendo já a minha modelo tão projetada, a desconhecida ruiva insistente dos meus desenhos há décadas, e que no momento em que, financeiramente falido, nada mais tendo a perder, me sentando afinal para escrever a sério, então se insinuou como escritora e poetisa com o sugestivo primeiro conto que me enviou das profundezas de mim mesmo: "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" *, alegoria indireta, oculta e sutil do próprio primeiro amor da minha infância..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
* "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" - este é o primeiro conto enviado pela Alma e que abre o primeiro livro dela; os Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo. Recomendo aos meus leitores esse conto como uma chave para o entendimento de toda a literatura da Alma Welt, assim como os críticos de Dostoievski recomendam o conto "O Mujique Marei" como "chave" para o entendimento da obra daquele grande mestre. Entretanto, devo também recomendar para o enriquecimento desse entendimento, no estudo da teoria dos Arquétipos de Carl Jung tudo o que concerne à "anima," o mais importante e decisivo dos arquétipos que regem a alma do homem.

Um pequeno depoimento meu

Um certo teor poético contido nos meus quadros e nos meus desenhos e gravuras, e que foi notado pelos que os apreciam, deriva de uma permanente nostalgia de uma beleza sonhada, filtrada através da cultura, isto é, da Literatura, da própria Poesia, e das obras dos Museus. Entretanto minha obra não resultou num catálogo de citações e referências graças ao meu autodidatismo, que me permitiu uma certa personalidade resultante de um amálgama pessoal de influências da cultura ocidental e mesmo da cultura japonesa. Estou sendo muito pedante? Quisera ser mais simples, quisera mesmo ser um "primitivo de uma nova era" , como o Gauguin se julgava ser. Entretanto, a apreciação que minhas obras desfrutaram desde quando eu era muito jovem, me confirmaram o acerto do meu caminho apesar da desconfiança de uma certa crítica seduzida pelo hermetismo e inimiga do sucesso. Agora, depois de uma longa trajetória através de várias fases e de alguns erros, eu me reconcilio com minha obra com uma simples constatação: EU FIZ O QUE PUDE. E isto é a única fórmula da autenticidade, e portanto de qualquer arte verdadeira...
(Guilherme de Faria)

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A vida em arte

"Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei... Elas mereciam muito mais, jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Vida interior e realidade

"Minha vida interior pouco deve a um Brasil real. Por dentro vivi sempre num mundo literário clássico, profundamente europeu em sua essência de séculos, mas sem descartar as fabulosas estórias do Gênesis bíblico e dos Evangelhos. Me emocionei e me identifiquei totalmente com as biografias, romanceadas ou não, dos grandes mestres da pintura europeia, da Renascença para cá, dos trágicos sofredores aos aparentemente triunfantes, descontado o final sempre patético, comum a quase todos nós. O mundo da Arte sempre me pareceu senão o mais real, o mais legítimo. Entretanto, garanto que tenho bastante senso da realidade circundante, no caso triste e até sórdida, do meu país. Tenho "os pés na terra" o suficiente para sofrer pelo nosso Brasil e sua horrível degradação política, econômica e educacional. Pinto, escrevo e falo como se estivesse num país de cultos e letrados e como se todo mundo pudesse me entender. Mas, uma curiosidade: todas as vezes que conversei, sem concessões de linguagem ou postura, com populares, isto é, pessoas simples do povo, percebi que me entenderam perfeitamente e mais: me agradeceram com tocante sinceridade. Também há quem diga que captei a essência poética do nosso povo do sertão ao compor os meus cordéis de inusitado cunho sertanejo, já que nada levaria a crer que tal coisa pudesse brotar de um pintor e poeta urbano como eu, criado e vivendo à beira de uma prosaica rua Augusta, como se às margens de um rio inglório e banal, e não "do Urucuia onde tanto boi berra" *. Se tenho algo a dizer de mim como artista, de maneira resumida e sintética, agora que me aproximo da fase final, eu direi: dediquei minha vida à beleza da Verdade Poética universal do ser humano e da natureza tal como intuí sem um respaldo palpável do meu entorno, senão da própria Arte que os grandes mestres me apresentaram pelos livros e pelos Museus. E afirmo: um único grande quadro observado com infinita admiração por horas ao vivo, ensina a pintar a quem deseja isso acima de tudo. Assim também um único grande livro lido, relido e amado, ensina a escrever uma alma apaixonada pela vida... e temerosa da Morte."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.