(das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
A vida em arte
"Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei... Elas mereciam muito mais, jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Vida interior e realidade
"Minha vida interior pouco deve a um Brasil real. Por dentro vivi sempre num mundo literário clássico, profundamente europeu em sua essência de séculos, mas sem descartar as fabulosas estórias do Gênesis bíblico e dos Evangelhos. Me emocionei e me identifiquei totalmente com as biografias, romanceadas ou não, dos grandes mestres da pintura europeia, da Renascença para cá, dos trágicos sofredores aos aparentemente triunfantes, descontado o final sempre patético, comum a quase todos nós. O mundo da Arte sempre me pareceu senão o mais real, o mais legítimo. Entretanto, garanto que tenho bastante senso da realidade circundante, no caso triste e até sórdida, do meu país. Tenho "os pés na terra" o suficiente para sofrer pelo nosso Brasil e sua horrível degradação política, econômica e educacional. Pinto, escrevo e falo como se estivesse num país de cultos e letrados e como se todo mundo pudesse me entender. Mas, uma curiosidade: todas as vezes que conversei, sem concessões de linguagem ou postura, com populares, isto é, pessoas simples do povo, percebi que me entenderam perfeitamente e mais: me agradeceram com tocante sinceridade. Também há quem diga que captei a essência poética do nosso povo do sertão ao compor os meus cordéis de inusitado cunho sertanejo, já que nada levaria a crer que tal coisa pudesse brotar de um pintor e poeta urbano como eu, criado e vivendo à beira de uma prosaica rua Augusta, como se às margens de um rio inglório e banal, e não "do Urucuia onde tanto boi berra" *. Se tenho algo a dizer de mim como artista, de maneira resumida e sintética, agora que me aproximo da fase final, eu direi: dediquei minha vida à beleza da Verdade Poética universal do ser humano e da natureza tal como intuí sem um respaldo palpável do meu entorno, senão da própria Arte que os grandes mestres me apresentaram pelos livros e pelos Museus. E afirmo: um único grande quadro observado com infinita admiração por horas ao vivo, ensina a pintar a quem deseja isso acima de tudo. Assim também um único grande livro lido, relido e amado, ensina a escrever uma alma apaixonada pela vida... e temerosa da Morte."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
O Pacto
"Quando jovem, já artista profissional mas muito pobre, eu me lembro, vivia em absoluto estado de desespero disfarçado. Já era conversador e brilhante, mas por dentro minha miséria emocional seria indescritível. Só bebendo... Foi o que fiz por muitos anos, com certa tolerância que me permitiu começar a deslanchar na carreira, entrar precocemente no Mercado de Arte, sempre produzindo muito. Eu deveria ser grato à bebida com "quem" de certo modo fiz um pacto? Como todos os pactos chegou o tempo da cobrança, mas tal como o Fausto (de Goethe ) Deus escamoteou a minha alma ao diabo no último instante, mas ao contrário daquele, ainda em vida. Como não ser grato a Deus desde então? ELE até me enviou um anjo, verdadeiro, também, e que só eu vi. Mas isto é uma história que não devo contar..".
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Sobre os momentos difíceis
"Tive momentos muito difíceis ao longo da minha vida, por vezes desesperadores. Entretanto, sempre tive um motivo para afastar o desalento e a dor insuportável do momento: a Arte. A minha arte. Ao pensar nos dons com que fui aquinhoado tinha imediata vergonha da dor, e ela se desvanecia. Assim nasceram as minha fases na pintura, no desenho, na gravura, e também na literatura. Se eu não tivesse chegado à terceira idade (coisa que chegou a não me parecer possível) não me teria surgido a obra literária, poética, profunda, prolífica e encantadora da ALMA WELT, a quem o mundo um dia reverenciará, estou certo..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Sobre a minha fase das litos
Como muita gente sabe, tive uma longa fase de litografias que caíram no gosto das pessoas e vendiam feito água. Calculo que foram vendidos cerca de duzentos mil exemplares de litos minhas ao longo de quinze anos, todos assinados, datados e numerados a lápis, à mão, por mim.
Mas devo confessar, tardiamente, uma coisa: não me orgulho dessa fase pois me pareceu uma espécie de concessão ao mercado, embora algumas fossem bastante belas. Quando acabou esse mercado, quase reneguei (inutilmente) essa fase. Entretanto reencontrei antigos revendedores, pessoas francas que me disseram: "Guilherme, quero que você saiba, ganhei muito dinheiro e sustentei a família com suas litos, por muito tempo." Fiquei feliz ouvindo isso. (das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas devo confessar, tardiamente, uma coisa: não me orgulho dessa fase pois me pareceu uma espécie de concessão ao mercado, embora algumas fossem bastante belas. Quando acabou esse mercado, quase reneguei (inutilmente) essa fase. Entretanto reencontrei antigos revendedores, pessoas francas que me disseram: "Guilherme, quero que você saiba, ganhei muito dinheiro e sustentei a família com suas litos, por muito tempo." Fiquei feliz ouvindo isso. (das Memórias de Guilherme de Faria)
Os paradoxos de minha vida
"A vida sempre me pareceu uma série de paradoxos. Por exemplo: Apesar de viver quase sempre duro, nunca pintei, desenhei, gravei ou escrevi para vender, e gostaria de ficar com as minhas obras para curti-las. Entretanto, toda vez que vendia alguma obra, me espantava: "Hoje dei sorte!" Sim, porque admirar uma obra não obriga ninguém a comprá-la. Nesse sentido, devo agradecer a Deus a existência de pessoas com necessidade de posse, coisa de que nasci desprovido."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
De sorrisos e gargalhadas
"Nos piores momentos da minha vida eu parei para olhar meus melhores quadros, e acabei sorrindo. Por vezes, dando uma gargalhada..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sábado, 10 de novembro de 2018
Sobre o sentido de vida
"Sou um privilegiado: desde a infância dei-me um sentido de vida, que é fazer arte, ser um artista, criando obras para enaltecer o ser humano em seus termos ideais segundo uma concepção clássica que desde sempre me deslumbrou: o vitalista grego antigo ou o artista da Renascença Italiana. Absurdo em nossa época? Não, mas um projeto solitário de que não me arrependo: o sentido da vida é sempre pessoal e intransferível, cada um busque o seu... Mas ai de quem não o encontre, pois esse sim se verá num mundo desesperadamente absurdo, como um peça de mau gosto, um mesquinho e prolongado pesadelo..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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