Se alguém me perguntasse qual é o meu segredo (ninguém nunca me pergunta nada) eu diria: "Pinto e escrevo sempre para mim mesmo, coisas que eu gostaria de ver e ler."
Sei que isso não é uma novidade, todo artista faz exatamente isso. Mas quando aparece algo que eu realmente gosto, sinto que aconteceu um pequeno milagre. E mesmo depois de tantos anos fico invariavelmente deslumbrado... e grato.
(Guilherme de Faria)
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Quem como eu assiste TV a cabo pode perceber ao longo do ano e principalmente nesta época de Natal, nos inúmeros programas de "investigação histórica " do que eles chamam de "o Cristo real" , a verdadeira campanha insidiosa e sub-reptícia de desconstruir a figura divina de Cristo, descrevendo-o como um revolucionário progressista popular, buscando mudar suas fontes e demolindo "cientificamente" datas e mistérios. Isso faz parte da estratégia globalista de esvaziar o próprio sentido fundamental da religião Católica e mesmo de todas as outras vertentes do Cristianismo, inclusive as protestantes. O cristianismo todo se baseia no fato de que Jesus Cristo é Deus encarnado, isto é, Deus que se fez homem, e portanto a Segunda Pessoa da Trindade. Sem esse dogma fundante não existe a Igreja Católica e nem sequer o cristianismo. Os programas de "investigação arqueológica" do cristianismo são insinuantes e capciosas tentativas de destruir o conceito de divindade de Jesus, e consequentemente da existência do próprio Deus. Isso faz parte de uma corrente materialista de pensamento que invadiu o Vaticano e corrói por dentro o Catolicismo para reduzi-lo a uma expressão revolucionária, na verdade puro marxismo disfarçado. Essa corrente se chama Teologia da Libertação e é apoiada disfarçadamente pelos globalistas, corrente mundial empenhada em destruir o cristianismo, e implantar um governo mundial socialista ateu acima das soberanias das nações, que passarão praticamente a não existir num futuro próximo.
Não, Cristo não foi um revolucionário mas a realização de uma profecia da religião judaica, da vinda do Messias, da qual ele nunca se afastou, apenas corrigindo os seus desvios numa época de decadência, reafirmando acima de tudo o Primeiro Mandamento: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
Essa intenção programática de esvaziar todo sentido místico e sagrado das religiões, só interessa aos socialistas/comunistas, que para isso até mesmo se aliam contraditória e provisoriamente ao islã, sem perceberem que futuramente serão engolidos por ele em sua natureza teocrática indebelável.
Não, Cristo não foi um revolucionário mas a realização de uma profecia da religião judaica, da vinda do Messias, da qual ele nunca se afastou, apenas corrigindo os seus desvios numa época de decadência, reafirmando acima de tudo o Primeiro Mandamento: "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo".
Essa intenção programática de esvaziar todo sentido místico e sagrado das religiões, só interessa aos socialistas/comunistas, que para isso até mesmo se aliam contraditória e provisoriamente ao islã, sem perceberem que futuramente serão engolidos por ele em sua natureza teocrática indebelável.
Sim, é verdade: vivemos numa época de ascensão do Anti-Cristo, e isso não é mera "teoria da conspiração", folclore ou superstição. Só podemos nos consolar com a ideia de que a Fé do povo é indestrutível e faz parte de sua natureza, não por ignorância e ingenuidade mas pela busca humilde de um sentido de transcendência, e portanto baseada no que o povo tem de melhor.
(Guilherme de Faria)
(Guilherme de Faria)
"Não sou um tipo dado à depressão, mas mais à angústia existencial, o que não melhora muito, eu sei... Lutei a vida toda contra um certo pessimismo de fundo, não paralisante, essencialmente racional, advindo de uma onipresente consciência da morte. Presumo que isso seja uma característica comum aos artistas e, no fundo, a razão da obsessão em criar. Na verdade, esse é o preço que se paga pela criatividade profunda, pelo dom da poesia, e pela paixão imoderada pela beleza. Por outro lado, há uma satisfação imensa após o término bem sucedido de cada obra, um orgulho que não se assemelha nem um pouco à vaidade, menos ainda ao narcisismo, e uma certeza da transcendência da vida, do espírito... em uma palavra: de Deus."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
"Uma vez, reencontrei o pintor Aguillar, velho amigo dos anos 60 e sabendo que ele é também escritor, além de pintor, perguntei-lhe se continuava escrevendo. Ele respondeu: "Não. Estou pintando muito, são registros incompatíveis, pertencentes a lados diferentes do cérebro. Quando um lado está muito ativado, o outro desliga."
Fiquei pensando sobre isso e vi que ele tinha razão. Quando estou numa fase intensa de pintura, a Alma Welt em mim se retrai e sou incapaz de dar à luz os seus sonetos, por exemplo. Neste ano de 2018, com a explosão da minha fase pictórica floral, a Alma Welt se retraiu bastante. Às vezes penso que ela, sendo Anima, luta comigo e gostaria de me possuir por inteiro. Ai do artista que se deixar dominar totalmente pela sua própria anima. Como "anima possuído" (no dizer de Jung) esse artista ficará belamente criativo, mas sofrerá forçosamente um rebaixamento do animus... e morrerá de fome, incapaz de vender o seu trabalho. "
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Fiquei pensando sobre isso e vi que ele tinha razão. Quando estou numa fase intensa de pintura, a Alma Welt em mim se retrai e sou incapaz de dar à luz os seus sonetos, por exemplo. Neste ano de 2018, com a explosão da minha fase pictórica floral, a Alma Welt se retraiu bastante. Às vezes penso que ela, sendo Anima, luta comigo e gostaria de me possuir por inteiro. Ai do artista que se deixar dominar totalmente pela sua própria anima. Como "anima possuído" (no dizer de Jung) esse artista ficará belamente criativo, mas sofrerá forçosamente um rebaixamento do animus... e morrerá de fome, incapaz de vender o seu trabalho. "
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
Os reencontros
Os reencontros em nossa vida nunca acontecem como imaginamos ou esperamos. Há sempre uma surpresa, uma ironia, ou uma decepção desconcertante (redundância), por vezes uma inusitada ternura. Por ora não me refiro aos meus raros reencontros com as mulheres amadas da minha juventude. Quando minha querida mãe que sempre apostou em mim como artista ficou doente na velhice e foi morar numa chácara no interior com meu irmão mais velho e sua esposa por motivo de infra-estrutura que eu não poderia dar morando num ateliê precário e superlotado de tralha, passei quase um ano sem vê-la e afinal, visitando-a encontrei-a apesar de super bem tratada, magérrima pela doença, deitada numa cama de onde não mais saía, me fitando com olhos arregalados. Sem ter certeza de que me reconhecera, disse-lhe: "Mãe, sou eu, o Guilherme". E passando a mão na minha barba branca, completei: "Estou velho, não?" E ela com os mesmos olhos arregalados e sem expressão respondeu seca e laconicamente: "ESTÁ!"
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
Sorri desconcertado, acariciei um pouco sua mão inerte, e me retirei do quarto. Nunca mais a veria viva. E aquela confirmação da impressão física que devo causar aos que me conheceram jovem, me acompanhará para sempre. Sei também que essa impressão deve durar somente até eu começar a falar, pois meu entusiasmo pela minha arte, pela beleza persistente da vida e da natureza, e pelos termos ideais da existência humana, me mantêm com o mesmo fogo da minha juventude, embora não mais boêmio e desregrado, e certamente sem aquele desespero oculto que a minha arte mal disfarçava...
Enfim... como é bom envelhecer!
(das Memórias de Guilherme de Faria)
O MENINO DO ÓBVIO
Quando eu estava no quinto ano primário do colégio Mackenzie, eu, que era o primeiro da classe sem fazer esforço, de repente me defrontei com um aluno novo, chegado do interior e em regime de Internato, que tinha o apelido de "Crânio", e que me roubou o primeiro lugar e me suplantava de longe em conhecimentos e provavelmente em QI. O garoto precoce, tipicamente de óculos (hoje em dia o chamaríamos de nerd) era quase um erudito, e eu conversando com ele no pátio durante os recreios, me sentia pela primeira vez um ignorante apesar das minhas leituras da boa literatura universal. Foi numa dessas conversas que eu, querendo impressioná-lo declarei alguma coisa, na verdade acima dos meus conhecimentos e recebi esta resposta inaudita:
- "Mas é óbvio, meu caro!"
Eu fiquei estupefato, sem resposta e até sem fala. Eu jamais tinha ouvido ou sequer lido tal palavra em qualquer dos grandes romances ou estórias de aventuras dos grandes escritores que eu lia. Simplesmente tal palavra esdrúxula não constava da Literatura. Entretanto eu penso que a entendi alguns segundos depois de passada a perplexidade. A palavra impunha-se por si mesma, solitária em seu próprio sentido auto-suficiente, e mais envergonhado fiquei de não conhecê-la, por pedante que me parecesse. Somente muitos anos mais tarde fui vê-la publicada nas tiradas do Nelson Rodrigues com seu "óbvio ululante."
Ainda assim jamais empregaria esta palavra nos meus textos, e muito menos nos da Alma Welt, meu heterônimo feminino que só surgiria na minha maturidade, a partir de 2001.
Na verdade o óbvio não interessa mesmo, e nem merece discussão, diante da enormidade do Desconhecido, da nossa estupefação latente e crônica diante do grande mistério da Vida.
Por que então aquela palavrinha, que nem sequer pode ser dita comendo farofa, me foi tão estupefaciente? Creio que ela, em si, encerra o Grande Segredo, e não o revela...
- "Mas é óbvio, meu caro!"
Eu fiquei estupefato, sem resposta e até sem fala. Eu jamais tinha ouvido ou sequer lido tal palavra em qualquer dos grandes romances ou estórias de aventuras dos grandes escritores que eu lia. Simplesmente tal palavra esdrúxula não constava da Literatura. Entretanto eu penso que a entendi alguns segundos depois de passada a perplexidade. A palavra impunha-se por si mesma, solitária em seu próprio sentido auto-suficiente, e mais envergonhado fiquei de não conhecê-la, por pedante que me parecesse. Somente muitos anos mais tarde fui vê-la publicada nas tiradas do Nelson Rodrigues com seu "óbvio ululante."
Ainda assim jamais empregaria esta palavra nos meus textos, e muito menos nos da Alma Welt, meu heterônimo feminino que só surgiria na minha maturidade, a partir de 2001.
Na verdade o óbvio não interessa mesmo, e nem merece discussão, diante da enormidade do Desconhecido, da nossa estupefação latente e crônica diante do grande mistério da Vida.
Por que então aquela palavrinha, que nem sequer pode ser dita comendo farofa, me foi tão estupefaciente? Creio que ela, em si, encerra o Grande Segredo, e não o revela...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
Às vezes me pergunto que fim levou o menino do óbvio, o pequeno nerd avant-la-lettre, que uma vez me mostrando seu quarto no Internato, revelou que não tendo uma vitrola para ouvir música, lia de noite no leito partituras de grandes sinfonias de Beethoven e assim as ouvia, o que me pareceu miraculoso. Nunca mais o vi depois daquele ano, nossos rumos foram muito diferentes e eu gostaria de saber se ele, voltando à sua pequena cidade fundou ali uma "Lyra Musical", se tornou maestro da banda, fundou a Academia de Letras, escreveu sonetos tardiamente parnasianos, ganhou a grande comenda das Artes e das Ciências da cidade, morreu cedo de amores enforcando-se alta noite na grande árvore da pracinha. Só me resta imaginar, nunca mais ouvi falar dele (conheço o seu nome e penso um dia fazer uma pesquisa, já que estamos na era da Internet). Mas quantos pequenos gênios precoces não deram em nada, já que somos regidos por um destino tão arbitrário que às vezes privilegia com grandes prêmios o idiota da Vila, o retardado da família, o delinquente potencial que se tornará um chefe ou um presidente. Nada sabemos dos "desígnios" do nosso misterioso e nada óbvio Deus...
Às vezes me pergunto que fim levou o menino do óbvio, o pequeno nerd avant-la-lettre, que uma vez me mostrando seu quarto no Internato, revelou que não tendo uma vitrola para ouvir música, lia de noite no leito partituras de grandes sinfonias de Beethoven e assim as ouvia, o que me pareceu miraculoso. Nunca mais o vi depois daquele ano, nossos rumos foram muito diferentes e eu gostaria de saber se ele, voltando à sua pequena cidade fundou ali uma "Lyra Musical", se tornou maestro da banda, fundou a Academia de Letras, escreveu sonetos tardiamente parnasianos, ganhou a grande comenda das Artes e das Ciências da cidade, morreu cedo de amores enforcando-se alta noite na grande árvore da pracinha. Só me resta imaginar, nunca mais ouvi falar dele (conheço o seu nome e penso um dia fazer uma pesquisa, já que estamos na era da Internet). Mas quantos pequenos gênios precoces não deram em nada, já que somos regidos por um destino tão arbitrário que às vezes privilegia com grandes prêmios o idiota da Vila, o retardado da família, o delinquente potencial que se tornará um chefe ou um presidente. Nada sabemos dos "desígnios" do nosso misterioso e nada óbvio Deus...
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
O mecenas
Quando jovem artista, em 1965, lutando para vender meus desenhos e pinturas para sobreviver, já com a minha segunda companheira, a bela Jomara, vivi a estranha experiência de
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
conhecer um tipo social raríssimo, um "mecenas", de verdade. Tratava-se de um médico, grande colecionador judeu, riquíssimo. Foi assim: fui procurar uma senhora, judia muito culta, mãe de um amigo meu de infância, de quarteirão, que me disseram que estava lidando com arte. Procurei-a na esperança dela me ajudar a vender alguma coisa. Ela ficou com alguns desenhos em consignação para tentar vender para a sua colônia e me aconselhou a doar alguma obra para um leilão em benefício da construção do Hospital Einstein, o que fiz embora estivesse praticamente na miséria. O importante é que dois dias depois ela me procurou dizendo: "Guilherme, mostrei seus desenhos ao Dr. José Nemirovsky, que é um grande colecionador e membro da diretoria do MASP. Ele disse que já viu desenhos seus em leilões e admirou-se de saber que você é jovem. Ele pensava que você era um artista da geração do Volpi. Ele gosta do seu trabalho e disse para você procurá-lo. Eis aqui o telefone dele".
Cheio de expectativa telefonei para o Dr. Nemirovsky que me disse: "Guilherme venha aqui na minha casa hoje, às tantas horas para conversarmos." Ele morava num luxuoso apartamento em Higienópolis, e eu ao adentrar me deslumbrei de passagem com a sua fabulosa coleção brasileira, na qual percebi logo Portinaris, Volpis, Tarsilas, Bonadeis, Anitas e Di Cavalcantis.
Ele, um homem alto e distinto, me conduziu ao seu escritório, uma grande biblioteca, e sentando à sua mesa, eu convidado a sentar-me a sua frente, olhou-me profundamente, perscrutando-me, e perguntou:
"Rapaz, o que você quer da vida?"
Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:
-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..."
Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:
"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?"
- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.
Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha".
Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...
Sem surpresa pela sua pergunta, como se já a esperasse, respondi quase como se ensaiado:
-"Doutor.... eu quero criar uma grande obra, pintar grandes quadros.. é só o que me interessa na vida..."
Ele me olhou mais profundamente ainda, e não enxergando falsidade no que eu dissera, continuou:
"Quero visitar seu ateliê. Podemos ir agora mesmo? Onde você mora?"
- Claro, doutor, moro no centro, na praça Julio Mesquita, na esquina da rua Aurora.
Ele avisou sua mulher Paulina, uma bela mulher com porte de rainha hebreia, que me cumprimentou com um sorriso acolhedor.
Saímos, e o pai do doutor, um senhor idoso que estava ali talvez de visita, saiu junto e entrou conosco no elevador. Enquanto descíamos para a garagem, o velho olhando-me rapidamente de cima a baixo virou-se para o seu filho e perguntou apenas: "Goi"?
O doutor sorriu e olhando-me rapidamente disse: " Sim" . Quanto a mim, fingi não entender que o velho perguntava se eu não era judeu, se era "gentio", isto é, "gentalha".
Pegamos o carro do doutor na garagem, e ele dirigindo tocamos para o meu apartamento-ateliê.
Era na "boca do lixo", no Edifício Olido, em cima do cinema de mesmo nome, de repertório pornô, condigno lugar para um artista em começo de carreira, na zona barra pesada da prostituição do centro da Paulicéia, ao lado de um famoso treme-treme...
Chegando ao nosso destino e tendo deixado o carro num estacionamento ali perto notei que o doutor olhou admirado para a bela fachada e portaria Art-Déco de mármore negro do prédio, muito bem conservada e inesperada naquele contexto.
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
Entrando no nosso ap ele logo viu o belo retrato a óleo que eu fizera da Jomara e do qual já contei a história. Ele ficou muito impressionado e elogiou a pintura. Logo a Jomara veio recebê-lo e ele fez elogios à sua beleza ao vivo. Era um homem com muito savoir-faire...
Dentro de um dos quartos que era o ateliê, comecei a mostrar a ele inúmeros desenhos e pinturas, e uma delas o agradou especialmente. Refreei o impulso de dar a ele a tal pintura, o que poderia estragar tudo. Me lembro também de que eu, falastrão como sempre, não parava de falar.
De repente ele disse: "Vamos voltar ao meu apartamento. Você pode sair de novo, me acompanhar?" Eu estava cada vez mais curioso.
De volta ao suntuoso apartamento de Higienópolis, diante da sua mesa-secretária ele me disse:
-Bem, rapaz... não sei se faço bem ou se faço mal, mas diante do que vi, quero lhe perguntar: quanto você precisa por mês para não precisar vender a sua arte?
- O senhor se refere a uma mesada? - (eu perguntei)
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
.
Bem...(ele respondeu) - Uma bolsa, digamos. Por um ano.
Eu disse: Preciso calcular...
E ele: "Isso, pense bem, faço o seu orçamento e depois me telefone."
Fui para casa, eufórico, e disse para a minha mulher:
"Jomara, tiramos o pé da lama, sairemos da miséria!"
E contei a ela, perplexa com os olhos marejados, a proposta do doutor.
Durante um dia fiz mil contas e combinando com a Jomara estabeleci um valor altíssimo, que me permitiria realmente pintar com largueza e vivermos à grande. E voltei a telefonar ao meu inesperado mecenas que me pediu que fosse novamente ao apartamento dele. Diante daquela mesa pela terceira vez, agora eu transmitia o orçamento com firmeza. Ele sorriu e disse:
"Um pouco alto demais, não acha? Eu estava pensando em... digamos...(tanto)."
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
E ofereceu a metade, que ainda era uma pequena fortuna mensal.
Aceitei imediatamente... eu calculara bem alto prevendo isso, pois desconfio ter também um pezinho em Jerusalém, como a maioria dos brasileiros de origem portuguesa...
- Bem, rapaz, me dê o nome do seu banco, agência e número da conta, e todo dia primeiro de cada mês estará essa quantia depositada.E não conte isso para ninguém. Agora nós não devemos mais nos ver. Adeus.
Eu fui para casa e a partir do dia 1° que estava muito próximo, começou para nós a festa dos novos dias de pintura, "de vinho e de rosas", que plasmaria dai por diante nossas vidas com a marca do excesso, da boemia... e nem por isso, da felicidade. Mais ou menos como quando se faz um duvidoso pacto...
Com a "bolsa" do meu mecenas entrando todo mês, nossa vida mudou. Havia fartura, podíamos fazer planos, e logo nos mudaríamos da "boca do lixo" para a rua Estados Unidos, nos Jardins, num jeitoso apartamento alugado, em cima e atrás de uma padaria. Foram dias de muita produção mas também, como eu disse, "de vinho e de rosas", isto é, de festas e bebedeiras homéricas, a ponto de um amigo nosso, gay e sofisticado, nos apelidar, a mim e Jomara, de "Fitzgerald e Zelda", tal a nossa dissipação eufórica e "artística". Ali aconteceram também coisas estranhas e perigosas, que narrarei noutra ocasião, mas após um ano, se aproximando o último dia do contrato, eu telefonei para o mecenas e convidei-o a vir ver o fruto do meu trabalho daquele ano. O Dr. Nemirovski veio e ficou primeiramente surpreso com a minha mudança de endereço às suas custas, eu percebi: ele olhava muito em torno. Entretanto, eu tinha o que mostrar, embora, sinceramente, eu pudesse ter feito mais. Mas ele disse:
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
- Muito bem, rapaz, você trabalhou bem.
Eu então perguntei, na bucha:
-Então Doutor, vai parar ou vai continuar ?
Ele deu uma risadinha e disse:
-Como eu lhe disse, era só por um ano. Agora outros vão precisar desta bolsa...
E acrescentou:
- Mas não se preocupe: vou lhes dar mais dois meses juntos para vocês enfrentarem o novo regime.
Eu então presenteei-o com o quadrinho a óleo que ele apreciara no nosso primeiro contato no ateliê da "boca", de um ano atrás. Ele não queria aceitar mas eu insisti, como um presente de agradecimento e estima. Ele afinal aceitou. Ele se foi e eu não o veria mais senão dali a dez anos.
Os dois meses que ele nos dera juntos era tanto dinheiro que eu dei de entrada no nosso primeiro apartamento próprio, na rua Augusta.
Dez anos depois, quando numa roda de wisky de happy- hour, na galeria Cosme Velho, na Alameda Lorena, onde eu fazia uma exposição individual de desenhos, ele subitamente disse:
- "Rapaz, aquele seu quadro está resistindo bem, na minha coleção. "
Eu fiquei imensamente satisfeito ouvindo aquilo...
Entretanto devo dizer que outros dez anos depois , fui convidado para uma festa de despedida da "vida pública" do meu mecenas, na sua nova casa da rua Guadalupe no Jardim Europa. Ele iria, como ele disse num discurso para o qual parou a festa, dedicar-se à sua própria pintura. Casa suntuosa, de concreto aparente toda em curvas e com uma piscina com um mosaico de pastilhas de gosto duvidoso no fundo, em torno da qual a nata dos artistas e dos críticos de São Paulo entornava coquetéis num desfile de pavões, enquanto ao mesmo tempo olhavam aquela mansão, se não com inveja, com perplexidade e ironia. Não pude deixar de notar, que a despeito dos maravilhosos quadros selecionados (o meu não estava ali) que a povoavam, a casa, térrea e enorme, era estranha como se contivesse um segredo suspeito, e que eu intuí ser um nível subterrâneo de igual ou maior tamanho, já que visíveis não haviam ali expostos tantos quadros quanto os de sua famosa coleção de milhares. E eu imaginei também, Deus me perdoe, um túnel paranoico de evasão, com saída numa rua de trás...
Não devo ter estado muito longe da verdade, pois em 2005, após a morte de Paulina, aquela mansão moderna, obra de um arquiteto famoso, não abrigaria a fabulosa coleção do casal, que foi para o antigo prédio do DOPS na Estação da Luz. A casa da rua Gadalupe foi totalmente demolida, inusitadamente, quando seria de se esperar que fosse o lugar natural para o museu da Fundação Paulina e José Nemirovski. Ninguém entendeu.
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(das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 2 de dezembro de 2018
Gostar é de graça
Eu morreria se não pudesse fazer arte e não consigo me ver em nenhuma outra profissão embora mal seja capaz de vender pessoalmente as minhas telas e desenhos.Sou ruim de vendas porque tenho um secreto desprezo pelo comércio, fruto talvez de um preconceito arraigado, de formação na infância, filho que sou de uma professora católica e pai médico ateu, muito cultos e também avessos ao comércio, incapazes de vender algo material. Em criança, e já no começo da juventude eu tinha a tendência a presentear meus desenhos a quem muito os elogiasse. Em 1963, participando da I Exposição do Jovem Desenho Nacional na FAAP, o Flávio de Carvalho me abordou (ele pareceu ter ficado impressionado com meu trabalho) e disse, com aquela voz grave e embolada: "Olha, rapaz, um conselho: nunca dê seu trabalho de presente para ninguém. Nunca!" Eu o olhei como se olha um velho avarento, mas respeitosamente agradeci o conselho. Não demoraria a perceber que arte é a última coisa que as pessoas pensam em pagar. Afinal, gostar é de graça, e mercado de arte nada tem a ver com isso. A pessoa que adquire um quadro tem muito desenvolvido o sentimento de posse. Eu, por exemplo, jamais pensaria em ter um Van Gogh, e se o tivesse, doaria imediatamente a um museu, porque naturalmente eu seria muito rico e não precisaria vendê-lo. Entretanto comecei cedo a viver de arte por absoluta necessidade mas graças a ter descoberto em mim um certo cinismo anestésico, como imagino haver nas prostitutas de bom caráter...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sábado, 1 de dezembro de 2018
Mais um fragmento das minhas Memórias
"Ao contrário da Alma Welt, meu heterônimo feminino, não tenho saudades da minha infância. Tive bons momentos, é verdade, como todo mundo, mas em geral me sentia numa espécie de limbo provisório, sempre numa espera ansiosa de crescer. Ser criança me parecia, em si, uma condição humilhante e até vergonhosa. Na verdade isto acontece com muitas crianças precoces, e seu sofrimento intensamente subjetivo em geral passa despercebido ou não levado a sério. Por volta dos doze anos me apaixonei profundamente por uma menina do bairro, sofrendo os tormentos interiores e clandestinos de um pequeno Werther. Só faltou o suicídio. A paixão desproporcional e prematura por aquela pequena deusa da minha devoção me marcaria para sempre. A partir da juventude, para poder viver precisaria da companhia intensa do "espelho da anima" me cercando por todos os lados, que é o que a mulher representa... Até aí nada de original, na medida em que isso ocorre com os homens em geral, daí os casamentos e até a perpetuação da espécie. Mas, no meu caso, eu precisava projetar a minha própria anima no papel e nas telas e cercar-me, além de uma companheira real, de suas infinitas imagens pelas paredes para sentir-me íntegro. Sim, sem isso me sentia desintegrar, perder minha própria individualidade e personalidade. Triste dependência, reconheço... Muitos artistas são assim, por isso se casam tantas vezes e foi o que ocorreu também comigo. Como Picasso, minha vida pode ser dividida por fases regidas pelas mulheres com quem compartilhei o teto do meu ateliê, mas sempre numa espécie de dolorosa peregrinação (me perdoem as lindas mulheres que me acompanharam por longas ou breves temporadas e em especial a paciente Eliana, maravilhosa companheira dos últimos 25 anos). Sim porque devo dizer que, na verdade, essa peregrinação anímica cessou, afinal, quando em 2001 descobri a identidade psíquica e existencial da minha musa interior, sim, de modo inusitado vinda de dentro de mim mesmo, sendo já a minha modelo tão projetada, a desconhecida ruiva insistente dos meus desenhos há décadas, e que no momento em que, financeiramente falido, nada mais tendo a perder, me sentando afinal para escrever a sério, então se insinuou como escritora e poetisa com o sugestivo primeiro conto que me enviou das profundezas de mim mesmo: "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" *, alegoria indireta, oculta e sutil do próprio primeiro amor da minha infância..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
* "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" - este é o primeiro conto enviado pela Alma e que abre o primeiro livro dela; os Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo. Recomendo aos meus leitores esse conto como uma chave para o entendimento de toda a literatura da Alma Welt, assim como os críticos de Dostoievski recomendam o conto "O Mujique Marei" como "chave" para o entendimento da obra daquele grande mestre. Entretanto, devo também recomendar para o enriquecimento desse entendimento, no estudo da teoria dos Arquétipos de Carl Jung tudo o que concerne à "anima," o mais importante e decisivo dos arquétipos que regem a alma do homem.
* "Lembrança Preciosa Para a Alma Fiel" - este é o primeiro conto enviado pela Alma e que abre o primeiro livro dela; os Contos da Alma, de Alma Welt, publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo. Recomendo aos meus leitores esse conto como uma chave para o entendimento de toda a literatura da Alma Welt, assim como os críticos de Dostoievski recomendam o conto "O Mujique Marei" como "chave" para o entendimento da obra daquele grande mestre. Entretanto, devo também recomendar para o enriquecimento desse entendimento, no estudo da teoria dos Arquétipos de Carl Jung tudo o que concerne à "anima," o mais importante e decisivo dos arquétipos que regem a alma do homem.
Um pequeno depoimento meu
Um certo teor poético contido nos meus quadros e nos meus desenhos e gravuras, e que foi notado pelos que os apreciam, deriva de uma permanente nostalgia de uma beleza sonhada, filtrada através da cultura, isto é, da Literatura, da própria Poesia, e das obras dos Museus. Entretanto minha obra não resultou num catálogo de citações e referências graças ao meu autodidatismo, que me permitiu uma certa personalidade resultante de um amálgama pessoal de influências da cultura ocidental e mesmo da cultura japonesa. Estou sendo muito pedante? Quisera ser mais simples, quisera mesmo ser um "primitivo de uma nova era" , como o Gauguin se julgava ser. Entretanto, a apreciação que minhas obras desfrutaram desde quando eu era muito jovem, me confirmaram o acerto do meu caminho apesar da desconfiança de uma certa crítica seduzida pelo hermetismo e inimiga do sucesso. Agora, depois de uma longa trajetória através de várias fases e de alguns erros, eu me reconcilio com minha obra com uma simples constatação: EU FIZ O QUE PUDE. E isto é a única fórmula da autenticidade, e portanto de qualquer arte verdadeira...
(Guilherme de Faria)
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
A vida em arte
"Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei... Elas mereciam muito mais, jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Vida interior e realidade
"Minha vida interior pouco deve a um Brasil real. Por dentro vivi sempre num mundo literário clássico, profundamente europeu em sua essência de séculos, mas sem descartar as fabulosas estórias do Gênesis bíblico e dos Evangelhos. Me emocionei e me identifiquei totalmente com as biografias, romanceadas ou não, dos grandes mestres da pintura europeia, da Renascença para cá, dos trágicos sofredores aos aparentemente triunfantes, descontado o final sempre patético, comum a quase todos nós. O mundo da Arte sempre me pareceu senão o mais real, o mais legítimo. Entretanto, garanto que tenho bastante senso da realidade circundante, no caso triste e até sórdida, do meu país. Tenho "os pés na terra" o suficiente para sofrer pelo nosso Brasil e sua horrível degradação política, econômica e educacional. Pinto, escrevo e falo como se estivesse num país de cultos e letrados e como se todo mundo pudesse me entender. Mas, uma curiosidade: todas as vezes que conversei, sem concessões de linguagem ou postura, com populares, isto é, pessoas simples do povo, percebi que me entenderam perfeitamente e mais: me agradeceram com tocante sinceridade. Também há quem diga que captei a essência poética do nosso povo do sertão ao compor os meus cordéis de inusitado cunho sertanejo, já que nada levaria a crer que tal coisa pudesse brotar de um pintor e poeta urbano como eu, criado e vivendo à beira de uma prosaica rua Augusta, como se às margens de um rio inglório e banal, e não "do Urucuia onde tanto boi berra" *. Se tenho algo a dizer de mim como artista, de maneira resumida e sintética, agora que me aproximo da fase final, eu direi: dediquei minha vida à beleza da Verdade Poética universal do ser humano e da natureza tal como intuí sem um respaldo palpável do meu entorno, senão da própria Arte que os grandes mestres me apresentaram pelos livros e pelos Museus. E afirmo: um único grande quadro observado com infinita admiração por horas ao vivo, ensina a pintar a quem deseja isso acima de tudo. Assim também um único grande livro lido, relido e amado, ensina a escrever uma alma apaixonada pela vida... e temerosa da Morte."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
O Pacto
"Quando jovem, já artista profissional mas muito pobre, eu me lembro, vivia em absoluto estado de desespero disfarçado. Já era conversador e brilhante, mas por dentro minha miséria emocional seria indescritível. Só bebendo... Foi o que fiz por muitos anos, com certa tolerância que me permitiu começar a deslanchar na carreira, entrar precocemente no Mercado de Arte, sempre produzindo muito. Eu deveria ser grato à bebida com "quem" de certo modo fiz um pacto? Como todos os pactos chegou o tempo da cobrança, mas tal como o Fausto (de Goethe ) Deus escamoteou a minha alma ao diabo no último instante, mas ao contrário daquele, ainda em vida. Como não ser grato a Deus desde então? ELE até me enviou um anjo, verdadeiro, também, e que só eu vi. Mas isto é uma história que não devo contar..".
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Sobre os momentos difíceis
"Tive momentos muito difíceis ao longo da minha vida, por vezes desesperadores. Entretanto, sempre tive um motivo para afastar o desalento e a dor insuportável do momento: a Arte. A minha arte. Ao pensar nos dons com que fui aquinhoado tinha imediata vergonha da dor, e ela se desvanecia. Assim nasceram as minha fases na pintura, no desenho, na gravura, e também na literatura. Se eu não tivesse chegado à terceira idade (coisa que chegou a não me parecer possível) não me teria surgido a obra literária, poética, profunda, prolífica e encantadora da ALMA WELT, a quem o mundo um dia reverenciará, estou certo..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Sobre a minha fase das litos
Como muita gente sabe, tive uma longa fase de litografias que caíram no gosto das pessoas e vendiam feito água. Calculo que foram vendidos cerca de duzentos mil exemplares de litos minhas ao longo de quinze anos, todos assinados, datados e numerados a lápis, à mão, por mim.
Mas devo confessar, tardiamente, uma coisa: não me orgulho dessa fase pois me pareceu uma espécie de concessão ao mercado, embora algumas fossem bastante belas. Quando acabou esse mercado, quase reneguei (inutilmente) essa fase. Entretanto reencontrei antigos revendedores, pessoas francas que me disseram: "Guilherme, quero que você saiba, ganhei muito dinheiro e sustentei a família com suas litos, por muito tempo." Fiquei feliz ouvindo isso. (das Memórias de Guilherme de Faria)
Mas devo confessar, tardiamente, uma coisa: não me orgulho dessa fase pois me pareceu uma espécie de concessão ao mercado, embora algumas fossem bastante belas. Quando acabou esse mercado, quase reneguei (inutilmente) essa fase. Entretanto reencontrei antigos revendedores, pessoas francas que me disseram: "Guilherme, quero que você saiba, ganhei muito dinheiro e sustentei a família com suas litos, por muito tempo." Fiquei feliz ouvindo isso. (das Memórias de Guilherme de Faria)
Os paradoxos de minha vida
"A vida sempre me pareceu uma série de paradoxos. Por exemplo: Apesar de viver quase sempre duro, nunca pintei, desenhei, gravei ou escrevi para vender, e gostaria de ficar com as minhas obras para curti-las. Entretanto, toda vez que vendia alguma obra, me espantava: "Hoje dei sorte!" Sim, porque admirar uma obra não obriga ninguém a comprá-la. Nesse sentido, devo agradecer a Deus a existência de pessoas com necessidade de posse, coisa de que nasci desprovido."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
De sorrisos e gargalhadas
"Nos piores momentos da minha vida eu parei para olhar meus melhores quadros, e acabei sorrindo. Por vezes, dando uma gargalhada..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sábado, 10 de novembro de 2018
Sobre o sentido de vida
"Sou um privilegiado: desde a infância dei-me um sentido de vida, que é fazer arte, ser um artista, criando obras para enaltecer o ser humano em seus termos ideais segundo uma concepção clássica que desde sempre me deslumbrou: o vitalista grego antigo ou o artista da Renascença Italiana. Absurdo em nossa época? Não, mas um projeto solitário de que não me arrependo: o sentido da vida é sempre pessoal e intransferível, cada um busque o seu... Mas ai de quem não o encontre, pois esse sim se verá num mundo desesperadamente absurdo, como um peça de mau gosto, um mesquinho e prolongado pesadelo..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
LEMBRANÇAS DE JUVENTUDE
Em Julho de 1974, eu recém-retornado de Olinda PE onde vivera por três anos com minha quarta mulher Elisa (e onde nasceram dois dos meus cinco filhos), o cantor e compositor Raimundo Fagner apareceu junto com a Amelinha, cantora e sua companheira na época, na minha Exposição individual de pinturas da minha fase baconiana, na Galeria Arte Global (da Rede Globo). Fagner estava no início de seu sucesso tendo uma composição sua sido gravada pela Elis Regina. Ele gostou tanto da minha arte que me declarou isso e em seguida anunciou alto que queria me homenagear cantando duas músicas suas, e o fez ao violão no meio da Galeria em pleno vernissage. Me lembro bem que ele cantou maravilhosamente "Baton Moderno" (impressionante) e "As Velas do Mucuripe"( linda, recém-gravada pela Elis). Foi muito aplaudido por todos, e entusiasticamente por mim, claro. Uma hora depois me chamou de lado e disse: "Guilherme, aqui está cheio de burguês, você não quer sair conosco, que queremos cantar mais para você?" Topei imediatamente, claro, lisonjeado, e saí da Galeria com eles, abandonando os últimos visitantes, pegamos um táxi e tocamos para o centro, onde, num prédio decadente, ele abriu a porta de um ap decrépito, sem móveis e sem luz, pegou na caixa de fusíveis um toco de vela e sentou-se com o violão numa poltrona esfarrapada ( a Amelinha sentou-se no braço da poltrona) e eu, na frente deles num banquinho de três pernas, e cantaram para mim, na penumbra, o repertório maravilhoso deles. Lembro-me bem do deslumbramento que fiquei com a Amelinha cantando "Mulher nova, bonita e carinhosa" (... faz o homem gemer sem sentir dor") . No dia seguinte os dois apareceram no meu ateliê na rua Alves Guimarães, em Pinheiros, e mostrei a eles meus desenhos (se bem me lembro presenteei a eles dois desenhos meus). Depois foram embora e nunca mais os vi. Mas acompanhei a gloriosa carreira deles à distância. Saudades...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 4 de fevereiro de 2018
O direito de ser pobre
"Vou lhes confidenciar, meus amigos, algo que pode causar estranheza, ou mesmo incredulidade: Apesar de quando jovem pintor razoavelmente reconhecido, ter sido considerado bonito, eu prefiro muito mais a minha atual condição de velho cheio de mazelas físicas e até mesmo um certo e preocupante declínio da visão. Absurdo? Por que? Porque quando jovem eu sentia um desconforto existencial permanente, como se não coubesse bem na minha pele. Sempre sonhei com ser um velho pintor consagrado e afinal livre das obrigações de lutar desesperadamente e vencer... e devido a um desesperado e renitente sentimento de solidão, ter me levado a arcar com responsabilidades de marido e pai, muito maiores que as minhas forças ou capacidade. Na verdade tudo o que eu queria era ser um artista, um pintor, e secretamente também um escritor. Resultado: fracassei em tudo mais: como pai, marido (não conseguia ser fiel) e provedor (fui à falência financeira ainda na pré-adolescência dos meus filhos). Entretanto, agora, já há duas décadas me sinto livre, mais leve por dentro, embora muito mais pesado por fora, respiração deficiente, uma catarata operada e uma próstata ameaçadora. Adquiri finalmente o sagrado direito de ser pobre. Sinto como se não pudessem me cobrar mais nada, embora alguns filhos ainda o façam de longe, presos, uns, num ressentimento triste, talvez legítimo. Apesar de tudo, garanto: é tão bom poder somente pintar, e purgar na escrita os erros da juventude, redescobrindo seu sentido e até mesmo sua poesia, então passada despercebida ou negligenciada em sua beleza e plenitude. Compreendo agora a afirmação do Riobaldo, narrador, já velho, cheio de espantosas memórias, no Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa: "....mas, juventude, é tarefa pra mais tarde se desmentir..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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