Nesta minha Oscar Freire envelheço e por causa da Internet não posso dizer como Mario de Andrade da sua Lopes Chaves, que "nem sei quem foi"... Entretanto me acompanha igual perplexidade, não tanto pela lenta metamorfose das paredes, das vitrines e das calçadas, mas pelo visível envelhecimento dos seguranças dessas lojas, que me denunciam o meu próprio envelhecimento. Também o desaparecimento de certos personagens, como o meu vizinho de meia idade, homem baixinho e gordo, que por longo tempo empurrou a cadeira de rodas de um seu decrépito e visivelmente atrabiliário irmão, até que desapareceram, quase imperceptivelmente, a cadeira e o irmão. Então fui interceptado na calçada durante anos pelo baixinho (que também envelhecia lentamente) com seu andar lento e pesado, com uma indefectível bolsa estilo anos 60 a tiracolo, para me mostrar um caderninho sem pauta onde ele aplicadamente desenhava mal e escrevia coisas que, cheio de deferência, me chamando de "professor", submetia à minha constrangida apreciação. Também ele sumiu, afinal, um dia, e fiquei sabendo pelo meu envelhecido porteiro, que o baixinho se deteriorara de uma maneira terrível, se desfazendo aos poucos, literalmente, em pedaços... Assim também as notícias de falecimentos de artistas de minha geração, que se vão inexoravelmente, dois ou três por ano, e são lembrados com respeito nos dois ou três primeiros meses... Tudo passa, "o tempo voa" e nos agarramos na aba de sua velha casaca, ou simplesmente desenhamos nos nossos caderninhos sem pauta, para mostrar aos nossos vizinhos, os outros seres humanos, para que aprovem, talvez para que se lembrem um dia, de nós....
quarta-feira, 22 de março de 2017
sábado, 18 de março de 2017
Desventuras do artista quando jovem.
(das Memórias de Guilherme de Faria)
1
No final do ano de 1969 fui à Suíça para encontrar-me com uma namorada, linda garota de olhos cor de mel, filha de pai suíço (e mãe carioca), com quem eu tinha praticamente vivido em São Paulo por um ano, e que tendo seu pai se empenhado em afastá-la de mim, um artista pé-rapado paulistano, antecipara a ida dela (que falava alemão) à cidade natal dele, Basel, com um emprego que com seus contatos garantiu para ela num grande escritório de arquitetura. Entretanto combináramos, ela e eu, nos encontrarmos lá para vivermos juntos viajando pela Europa depois de cumprido por ela aquele estágio obrigatório nas condições que seu pai impusera. Demorei uns três meses para liquidar minhas parcas posses, minha parte num pequeno apartamento que eu tinha (em sociedade com minha segunda ex-mulher) além de meus móveis e meus quadros para poder ter dinheiro para a passagem e pelo menos para o primeiro ano com ela naquela cidade antes de sairmos pelo mundo, como era o seu sonho. Entretanto, como eu bebia demais, aquilo tudo era demais para mim, acima das minhas forças, principalmente porque eu já me encontrava no estágio alcoólico de uma certa depressão crônica, permanente. Nos três meses que me separaram da minha namorada "suiça", eu, carente, sem saber viver sozinho me envolvera com outra moça, de vinte anos, filha de pai armênio, que viria a ser a minha quarta mulher, a futura mãe de três de meus filhos. Foi esta que me levou no seu fusca, chorando, numa corrida patética ao aeroporto, para me entregar altruisticamente à minha namorada já "anterior" sem eu reconhecer. Resultado: eu tomaria aquele avião completamente dividido, me sentindo miseravelmente deprimido e já pensando em voltar. Lembro-me que antes do embarque as pessoas me olhavam muito pelo meu aspecto: cabelos e barba compridos, com uma espécie de sobretudo preto de lã que parecia uma casaca do século anterior, e que me dava, imagino, a aparência sombria de um jovem russo saído de um livro de Dostoiévsky, uma espécie de Raskolnicov do Crime e Castigo. Estávamos em plena ditadura militar, e com sequestros que haviam de aviões por "terroristas", as revistas eram severas. Sobre minhas roupas na mala havia minha caixa de tintas e pincéis com uma pequena faca sem ponta que eu usava às vezes como espátula, e que foi confiscada na revista, chamando mais a atenção para a minha constrangida pessoa. Dentro do avião, um português de meia idade, muito desenvolto, sentado ao meu lado puxou conversa. Perguntou: "Por que vais à Basiléia? Não tem nada lá, nem montanhas, e os suíços são uns "pizzas frias!" Aquilo me deixou mais deprimido ainda...
Depois do longo voo, torturante naquelas circunstâncias, sobrevoamos uma Paris noturna, que eu não haveria de conhecer, pois pousamos em Orly, onde sem sair do aeroporto fizemos baldeação e chegamos a Basel de noite, sem dar para perceber nada do aspecto da cidade. Tomei um táxi e pedi, em inglês, a um motorista mudo e insondável, para me levar a um hotel bem modesto e barato, onde me registrei sempre me sentindo observado com desconfiança, para passar a noite, esperando o amanhecer para telefonar para o escritório de Arquitetura Burkhardt para chamar minha namorada para ela me buscar. Bem cedinho telefonei do hotel e esperei-a no refeitório tomando o café da manhã. Nem dez minutos se passaram e ela entrou no pequeno saguão, andando em minha direção. Não era mais ela! Em três meses havia se passado uma vida sem eu perceber... ela ainda era linda, mas não a reconheci mais dentro de mim. Estava tudo perdido, eu me sentia trincado, numa situação falsa, já não reconhecia meus sentimentos, ela não merecia isto, era eu o culpado, eu só queria sumir, voltar ao meu ateliê, colar os cacos, me retomar...
Ela me levou até o pequeno prédio de três andares, de apartamentos minúsculos onde ela alugava uma espécie de kitchnette, e em que o zelador ou proprietário, mais um suíço calado e sinistro, também me olhava com olhar insondável, e em que, eu, já ligeiramente paranoico, via desconfiança e desprezo. Minha namorada me deixaria ali sozinho, saindo cedo todos os dias para ir ao trabalho, enquanto eu tentava desenhar em papéis sobre uma pequena mesa, ou tomava banho num banheira com uma ducha manual absurda com feitio de telefone, ou então saía para conhecer a cidade, demasiado limpa, às raias da assepsia, muito triste sob um céu baixo de chumbo sob o qual colegiais adolescentes, meninos e meninas louros, de bicicleta, pedalavam tranquilos, certamente dirigindo-se à escola, sem contudo alegrar as ruas em que predominava o crocitar lúgubre dos corvos que dominavam os ares e as árvores desgalhadas naquele fim de outono... crow, crow, crow...
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Entretanto eu visitava todos os dias, por muitas horas, o famoso Kunstmuseum de Basel, onde ficava horas observando grandes pinturas, e em particular a obras mestras de Hans Holbein, o grande pintor renascentista natural daquela cidade. Ali me detinha numa sala especial onde dominava a célebre pintura deste mestre, que representa o cadáver de Cristo no túmulo, uma pintura assombrosa pelo realismo terrificante, em que você pode ver as feridas abertas, já coaguladas, perceber o começo da decomposição... e chegar a sentir-lhe o odor. Foi essa pintura que Dostoiévsky, no século XIX, visitando o Museu, pronunciou e depois botou na boca do seu príncipe Michkin, de O Idiota, como sendo palavras de um conhecido seu, a seguinte exclamação: "Eis aqui porquê perder a fé!"....
Naqueles dias, naquela cidade triste, naquele quarto estranho, ouvindo o crocitar dos corvos da minha depressão, eu só pensava em voltar ao Brasil. Eu saía de noite com minha namorada e íamos a cafés ou bistrôs, onde bebíamos vinho. Sem eu perceber, o álcool deteriorava mais ainda meu estado de espírito. Para piorar, chegavam quase diariamente de São Paulo cartas para mim, da nova rival da minha namorada, aumentando a minha divisão e meu mal estar. Minha namorada interceptou uma dessas cartas, lutamos por ela, e desisti. Era uma carta romanticamente estratégica, calculadamente sentimental e manipuladora, e ela, furiosa, leu-a em voz alta, ironizando, ridicularizando-a. Minha situação psicológica ficou insuportável pelo conflito interno e também pelo sentimento de culpa. Uma tarde fui ao banco retirar dinheiro e um funcionário, jovem suíço-brasileiro, talvez gerente, observando-me tão nitidamente deprimido parecendo um farrapo humano, se aproximou de mim e disse baixinho: "Rapaz, posso lhe apresentar um conterrâneo seu que reúne compatriotas em sua casa, para reuniões de apoio"... e deu-me um cartão com um nome e telefone. Percebi que ele deduziu (erroneamente) ser eu um militante de esquerda, certamente torturado, exilado. Agradeci a esta boa alma, me sentindo ainda mais confuso, envergonhado... Então decidi voltar a São Paulo. Não havia se passado mais que um mês e meio. Ela, a duras penas aceitou minha partida dizendo: "Então vá, "coizinho" (ela me chamava assim), pode ir embora, mas não volte para aquela ditadura, para aquele país horrível! Vá para Paris, que está a apenas duas horas de trem, daqui. Se não for, como artista vai se arrepender para o resto da vida!"
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Mas eu não tinha condições psicológicas... Precisava retornar, ou morreria, eu senti...
Então, fomos de trem para Zurique onde eu pegaria um avião para o Brasil. Lembro-me bem da viagem de trem, onde eu já me senti bastante aliviado por estar voltando. Entretanto, era ela que estava me levando ao encontro da outra, para me entregar para a outra, numa estranha simetria inversa, que me parecia bastante sugestiva. De quê? Da generosidade e altruísmo da mulheres quando amam de verdade. Estarei enganado? Eu, fragilizado, na qualidade de "homem-objeto" em que me encontrava, dependia dessa generosidade, eu estava em frangalhos...
Em Zurique, comprada a passagem, eu teria que esperar muitas horas para o voo, então fomos passear, conhecer um pouco a cidade, que esta sim me pareceu belíssima, imponente, com um magnífico lago onde nadavam cisnes brancos, vistos da ponte maravilhosa onde ondulavam em mastros flâmulas de aspecto medieval. Percebia-se a riqueza daquela cidade em tudo, nas vitrines das lojas em que, quando se via um quadro exposto, por exemplo um Modigliani, era um original mesmo, em magnífica moldura, e não uma cópia ou um poster. Outras apresentavam na decoração espadas, montantes, alabardas, elmos e armaduras medievais verdadeiras, nunca cópias. Eu me sentia pequeno, um jeca, um terceiro-mundista subdesenvolvido diante daquilo tudo. Fomos fazer hora num grande restaurante onde em compridas mesas coletivas, os convivas cantavam uma espécie de brinde, em coro, alegremente erguendo grandes canecos de cerveja, em que depois de uma frase curta levemente modificada a cada vez, o coro repetia algo como Saf Haus, Saf Haus, Saf Haus (Quem nasceu em Janeiro... chupa tudo, chupa tudo, chupa tudo... Quem nasceu em Dezembro...) Um dia eu iria cantar isso para meus filhos se divertirem... E foi ela, minha abandonada namorada, que a meu pedido traduziu o significado daquela canção, que me parecia uma amostra da distante alegria do mundo, da vida dos normais, dos leves e despreocupados, e talvez muito mais íntegros habitantes do mundo real...
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
À tardinha fomos a um bistrô para beber um bom vinho de despedida. Estávamos sentados a um mesa, conversando, quando entrou um casal jovem com um bebê num cesto que pousaram no chão ao lado da mesa deles. Olhei-os, perplexo, cheio de admiração. Eram todos os três os mais belos espécimes de seres humano que jamais vi. Verdadeiros deuses vivos. O rapaz era muito alto, loiro, de cabelos encaracolados, barba também loira e olhos azuis. Um verdadeiro viking redivivo. A moça, uma beldade também loira de olhos verdes, e o bebê, de uma beleza divina, dormindo tranquilo em sua confortável cestinha, branquinho, loiro e corado como uma maçã perfeita.
Entretanto o casal olhava muito para nós, intrigados, enquanto falávamos sem parar, não me lembro sobre o quê. Então o rapaz lá da mesa dele dirigiu a palavra em alemão para nós, algo que me pareceu uma pergunta. Minha namorada respondeu gentilmente em alemão e o rapaz sorrindo fez um gesto muito harmônîco e falou mais alguma coisa enquanto sua parceira também sorria para nós. Perguntei à minha namorada o que ele tinha perguntado, já que eu não falo alemão. Ela disse: "Eles queriam saber que língua nós estamos falando e eu respondi "português do Brasil." Então ele disse: "É a mais bela língua que jamais ouvi. Parece uma música ... " E nós dois então agradecemos ao belo casal com um aceno e um sorriso, gratos.
Aquilo afinal me fez bem, melhorando um pouquinho a minha auto-estima, já que sempre fui consciente de falar um português perfeito com dicção bem articulada a minha vida toda, fruto talvez das minhas leituras dos clássicos. Afinal eu não era tão... assim, um pé rapado, pelo menos não na minha terra...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
Afinal chegou a hora da partida. Ela se despediu de mim no saguão do aeroporto diante da sala de embarque, abraçando-me forte... minha linda namorada "suíça" que eu abandonava para sempre, grato por ela me liberar com relativa facilidade, porque eu não tinha mais condições de nada. Eu iria iniciar uma nova vida com a pequena "armênia", e ter filhos com ela.
Muitos anos depois, morando em Olinda com minha esposa grávida de meu terceiro filho com ela, eu estava em São Paulo no bem sucedido vernissage de uma exposição individual minha, de desenhos, na Galeria Cosme Velho, e para minha surpresa minha ex namorada "suiça", linda, loira, sedutora, apareceu com um boá de plumas negras e nos sentamos à mesa de um café nas proximidades da Galeria para conferirmos nossas vivências depois da nossa separação. Anos tinham se passado e ela me confidenciou que após minha partida ela teve uma crise e quebrou tudo no quarto, tiveram que intervir. Agora, ela, deslumbrante, tentava me seduzir já a partir daquele novo encontro e cheguei a ficar terrivelmente tentado... Entretanto a lembrança da minha pobre armeniazinha que já tinha perdido o nosso primeiro filho, e naquele momento novamente grávida lá em Olinda, me fez resistir (acreditem se quiserem), para sua nova decepção. Mas iriam se passar ainda mais quinze anos antes de me render a mim mesmo, e me tratar...
FIM
quarta-feira, 15 de março de 2017
Retrato de um artista quando jovem
Estive pensando em algumas figuras de minha juventude, que se esvaeceram, se distanciaram e desapareceram numa espécie de neblina da memória, mas que voltam às vezes como espectros, aqueles que morreram por seus excessos, tão próprios da nossa geração. Hoje sonhei pela primeira vez com o Marcio Mattar, breve amizade dos meus vinte anos, um jovem artista do Rio de Janeiro, natural da Zona Norte (Rio Comprido) que apareceu como um cometa em São Paulo, no começo dos anos 60, excepcionalmente belo e encantador, conquistando facilmente amigos no ambiente artístico da nossa "Paulicéia Desvairada ". Lembro de que uma vez, eu morando num ateliê- porão ( meu "Bateau-Lavoir" paulistano da rua Mato Grosso), praticamente na miséria, o levei um dia à casa de minha mãe para filarmos uma bóia, e ela, encantada com ele, praticamente o queria adotar. Entretanto, Marcio bebia com uma sede avassaladora. Dois anos mais tarde, eu já casado com Jomara, fomos visitá-lo, próspero, na sua casa enorme de Santa Tereza, onde ele fazia sucesso com móveis belíssimos, rústicos, de madeira pesada que ele construía com as próprias mãos, queimando a peroba com maçarico e depois esfregando com escovas de aço, num trabalho sujo e pesadíssimo, que ele, atlético e às custas da energia adicional do álcool, conseguia realizar entre ressacas homéricas e dolorosíssimas. Ficamos hospedados, Jomara e eu, na casa dele e vimos esse trabalho impossível, feito praticamente sozinho, que o sustentava no mundo dos seus ricos clientes, e talvez falsos amigos emergentes da Zona Sul do Rio, numa festa contínua de álcool e drogas, que ele entremeava com seu labor titânico. Mas certamente foi o álcool que o exauriu, e ele morreu por volta dos trinta anos, de cirrose e exaustão. Que posso dizer disso? Marcio viveu intensamente e se queimou como uma tocha, numa imensa voracidade de vida, arte, trabalho, prazeres e desespero. Quanta angústia devia sentir, sem nunca se queixar!... Era um instintivo, um primitivo de nova era, e por isso se consumiu mais rapidamente, enquanto nós, negociávamos com o álcool para durar mais, certamente por uma certa malícia intelectual, senão covardia mesmo...
(das Memórias de Guilherme de Faria)
quinta-feira, 9 de março de 2017
Como já sabiam os gregos e romanos (e os antigos em geral), a alma de uma pessoa, homem ou mulher, é sempre uma mulher. É por isso que a Alma Welt, sendo minha anima viva, é profundamente feminina (coisa que eu mesmo, no todo, não o sou) a despeito de faltar nela futilidade e vaidade, coisas tipicamente femininas que no entanto ninguém até hoje cobrou ou sentiu falta nela. É curioso ver como as leitoras se identificam com ela, mesmo sem estas duas características. Talvez seja porque tais atributos negativos não sejam puramente femininos e os homens também os possuam. De qualquer modo, no terreno sublimado da poesia essas duas coisas não entrem em linha de conta senão como humor ou autocrítica... (das Memórias de Guilherme de Faria)
terça-feira, 7 de março de 2017
Da grandeza de Servir
No último domingo, terminado o concerto das Bachianas de Villa-Lobos, no Municipal, caía uma intensa chuva que prendeu toda a platéia, de pé no saguão do teatro, por pelo menos meia hora esperando a chuva passar. Quando amainou a enfrentamos, minha irmã e eu até aquela galeria em frente, onde era a antiga Light (sou também antigo), que já estava fechando, mas que nos informaram que havia ali dentro uma padaria que ainda estava servindo. Havia uma única mesa desocupada e cheia dos restos de refeição anterior. Para garanti-la sentei-me meio constrangido enquanto minha irmã ficava numa pequena mas demorada fila para fazer o pedido e pagar. Como ela demorava, virei-me para uma rapaz que estava atrás de mim, de pé meio curvado sobre a a mesa de uns rapazes do lado, e julgando-o um garçom pela sua camisa branca, estranha, sem gola, de tipo russo, pedi-lhe delicadamente que aproveitasse para tirar a minha mesa. O rapaz disse: "Senhor, não trabalho aqui, também sou cliente, eu sou da orquestra. Eu ri de mim mesmo e desculpei-me muito, pelo engano. Depois de um minuto, voltei-me para ele e perguntei: "Você é de que orquestra?" E ele: "do Municipal... " Então eu disse: "Ah! Parabéns! Acabamos de sair de lá! Que maravilha de orquestra! Você está de parabéns! Qual é o seu Instrumento? "Viola", ele respondeu. E eu (para mostrar conhecimento): " Ah aquele violino grande, mais grave, entre o violino e o cello...Gosto muito! Parabéns mesmo! " E a conversa acabou por aí...
Entretanto, como minha irmã demorava, mais uns cinco minutos e um dos rapazes da mesa ao lado, levantou-se e disse: "Não sou garçom, senhor, mas vou retirar a sua mesa." E o fez rapidamente, enquanto eu agradecia, surpreso com tanta gentileza, que expressei e agradeci. Depois de um momento dei-me conta de que naquela mesa eram todos músicos da Orquestra Sinfônica, que eu não havia atinado por serem tão jovens. Aquele rapaz, tão prestativo... quereria ele também um elogio? Quando pensei isso, eles já tinham levantado e saído.
Entretanto ficou-me a impressão de modéstia e prestatividade que deve ser a tônica de todo músico de orquestra, humildes na servidão e grandeza de seu ofício virtuose, no anonimato tão conformado mas tão pleno de recompensa íntima pela própria Música... e pelo aplauso sincero do público. Honra aos músicos anônimos, servidores do Mundo...
( das Memórias de Guilherme de Faria)
Entretanto, como minha irmã demorava, mais uns cinco minutos e um dos rapazes da mesa ao lado, levantou-se e disse: "Não sou garçom, senhor, mas vou retirar a sua mesa." E o fez rapidamente, enquanto eu agradecia, surpreso com tanta gentileza, que expressei e agradeci. Depois de um momento dei-me conta de que naquela mesa eram todos músicos da Orquestra Sinfônica, que eu não havia atinado por serem tão jovens. Aquele rapaz, tão prestativo... quereria ele também um elogio? Quando pensei isso, eles já tinham levantado e saído.
Entretanto ficou-me a impressão de modéstia e prestatividade que deve ser a tônica de todo músico de orquestra, humildes na servidão e grandeza de seu ofício virtuose, no anonimato tão conformado mas tão pleno de recompensa íntima pela própria Música... e pelo aplauso sincero do público. Honra aos músicos anônimos, servidores do Mundo...
( das Memórias de Guilherme de Faria)
domingo, 5 de março de 2017
CASA COM ELA!
Estávamos em 1968, e havia no ar uma revolução social dos costumes e do comportamento jovem. Eu como artista em lenta ascensão, livre do meu primeiro "casamento" fracassado por imaturidade, confesso aproveitava ao máximo as oportunidades amorosas e sexuais que se me apresentavam. Num certo momento, conheci na casa do meu marchand italiano Baccaro, uma garota linda que me pareceu deslumbrante por suas pernas compridas, fora do padrão brasileiro de então. Era do Sul, de Santa Catarina, e seu sotaque também me encantava. Imediatamente passamos a noite juntos e no dia seguinte ela me levou para a sua casa em Florianópolis (fomos de ônibus, claro). Chegamos de noite. Era uma casinha de madeira com um sótão encantador, e depois dela me apresentar apressada e impacientemente sua mãe, uma mulher simples com cara de camponesa alemã, subimos para aquele sótão e lá ficamos numa farra inebriante para mim, sem descer até o dia seguinte, quando acordei nos seus braços com o som de uma verdadeira música vocal que vinha lá de baixo, da cozinha. Era um uma espécie de monólogo ou relato, na mais bela voz e sotaque que eu jamais ouvira. Fiquei tão curioso que me desvencilhei dos braços de minha jovem amante e vestindo-me apressadamente desci daquele sótão e me deparei com uma empregadinha muito branca, jovem, que falava com a sua patroa. Elogiei tanto o seu modo de falar, seu sotaque, verdadeira música para os meus ouvidos, que, surpresa, ela me informou ser descendente de portugueses açorianos. Muitas décadas depois, eu iria emprestar esse sotaque à minha suprema criação, a poetisa Alma Welt, por conta de sua ascendência açoriana materna, conjugada com as compridas pernas alemãs de seu lado paterno...
Mas, como acabou a minha aventura catarinense? Pateticamente... Convidado a sentar na mesa da cozinha para o café da manhã antes que minha namorada descesse, a senhora, em lágrimas, começou a me implorar pela sua filha: "Casa com ela, meu filho, casa com ela! Tu pareces ser um bom rapaz, educado! Pelo amor de Deus, casa com ela!" Eu, constrangidíssimo, me vi numa situação inusitada, isto é, verdadeira, diante do sonho falso em que estava vivendo. Percebi, num átimo, que a revolução dos costumes não atingira todo mundo, isto é, a geração dos nossos pais... e como os fazíamos sofrer! Respondi à senhora que me agarrava as mãos implorando que "salvasse" sua filha "perdida": "Senhora, eu amo sua filha e casaria se pudesse, mas sou casado, isto é separado, não posso me casar mais (era verdade)..." A senhora ficou perplexa, desolada, tanto mais que para ela, vivermos juntos eu e sua filha, em pecado, não seria solução. Minha jovem "hospedeira" desceu do sotão pela escadinha de madeira, nesse momento, fuzilando com o olhos sua mãe "intrusa", que abaixando os olhos recolheu as mãos que agarravam as minhas. Não preciso nem contar como dali por diante, envergonhado, eu só pensava em cair fora, me desvencilhar daquela relação perigosa, ameaçadora da minha liberdade recém conquistada. Fiquei subitamente consciente de estar no fio de uma lâmina, na fronteira de dois mundos... e o mundo velho sofria por nós, pelos jovens afoitos que nós éramos, ávidos de vida e de prazeres, pisando nas velhas cabeças... almejando um paraíso duvidoso, que parecia agora ao nosso alcance...
( das Memórias de Guilherme de Faria)
( das Memórias de Guilherme de Faria)
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