"Quando eu era jovem frequentava bares, festas e joguei muita conversa fora, embora só me sentasse com artistas e intelectuais. Mas beberrões que éramos, acabávamos nos perdendo em delírios e na névoa alcóolica que se seguia. Quanta vaidade, quanto desespero... Quanta dissipação, como diriam os antigos! Aos poucos, a mente encharcada pelo álcool começou a reclamar e vieram os problemas psíquicos, as depressões, mas sobretudo as angústias. Devo confessar que nesse processo, destruí quatro casamentos. No final de 1976 me internei espontaneamente, contra a vontade da minha terceira esposa, que não via razão para isso (!!), embora, sofredora sem o reconhecer, já tivesse derramado garrafas inteiras na pia. Era eu que não me aguentava mais... Depois de mais duas internações, finalmente aprendi a lição e em Abril de 1981 abandonei definitivamente a bebida e o cigarro, tabagista que também era... Começava uma nova vida, em que, com surpresa notei que não precisava de nenhum aditivo, e que meu desenho, meu traço já consolidado e até precocemente consagrado, nem sequer mudou de qualidade, expressão ou timbre. Como um último baluarte, minha arte não havia sido atingida, e eu não havia comprometido minha reputação, por incrível que pareça. Ao artista se perdoa muita coisa... Quando me confrontei mais tarde com minhas ex, ouvi de cada uma delas (acreditem se quiserem): " Ora, você não é alcoólatra... Você não bebia tanto assim!" Pobres mulheres maravilhosas! Não faziam e não fazem a menor ideia do que é a trajetória interior desastrosa do seu bêbado amado..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sábado, 25 de fevereiro de 2017
O Elogio da Virtualidade
"Aprecio extremamente a sociabilidade virtual das redes sociais. A esta altura da vida considero-a a forma ideal de relacionamento, sem muita aproximação (se não quisermos) mas sobretudo sem grandes intimidades. Há até mesmo, se soubermos manter, uma certa cerimônia como havia nas sociabilidades do passado, antes de desembocarmos na promiscuidade da Era das Massas. Podemos escolher a nossa melhor face, o nosso melhor ângulo, e isso nos aprimora. Estou sendo cínico? Talvez. Depois de muito conviver na vida ao vivo e a cores, posso comparar e reconhecer na nossa Era Virtual uma evolução que veio para ficar. Mas garanto que não me alienei e que conheço bem o ser humano. Por isso pude me retirar aos poucos e escrever com empatia e amor sobre ele, mais ao menos como um monge laico, se isso houvesse. Enquanto a sociedade, lá fora, mergulha na banalidade dos supermercados, trânsito, comércios, firmas e produtos... eu reconstruo aos poucos, no meu pequeno ateliê, o mundo de encantamento e poesia de minha infância interior, nunca esquecida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Com a profusão de escândalos financeiros envolvendo empresas e governos, estou começando a desconfiar que absolutamente toda atividade econômica de grande porte tem uma raiz podre. Isto é uma crítica ao capitalismo? Não! Estou mais propenso à teoria do camelo passando pelo buraco de uma agulha, inusitado comentário cínico vindo do Mestre... que não deixa de conter um certo grau de aceitação. É a condição humana que permeia a Economia, como tudo o mais . Não esqueçamos que a riqueza dos Estados Unidos foi fundada por magnatas que eram grandes bandidos. (Guilherme de Faria)
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Quando a minha filha mais nova tinha um ano, sua mãe mudou-se provisoriamente para um apartamento na rua Consolação, entre Oscar Freire e Estados Unidos, enquanto seu irmão, pagando o aluguel usava o jeitoso apartamento dela, na mesma quadra, ali perto, para instalar um pequena firma legendadora de filmes VHS. Entretanto nós é que haveríamos de viver uma pequena história de terror. Logo minha filhinha, bebê, começou a adoecer, misteriosamente, e eu as visitando diariamente no novo apartamento, sentia um clima pesado, mais que uma tristeza, aquilo que chamamos de "baixo-astral". Passado pouco mais de um mês, a coisa se tornando perigosa, o pediatra sem descobrir a causa da doença do bebê, eu comecei a insistir para que se mudassem logo dali, que o apartamento era insalubre de algum modo, embora não apresentasse nenhuma mancha de umidade em parte alguma. Minha ex-mulher, preocupada e sentindo também a atmosfera pesada daquele apartamento, afinal pediu de volta ao seu irmão seu antigo ap e começamos a mudança. Retiramos os móveis, e o apartamento já quase vazio, me ocorreu deslocar um sofá que não era nosso, e que já estava ali no lugar adequado para tal, desde a nossa visita de interessados no aluguel, e no qual nos sentávamos para ver televisão. Demos um grito de susto. Ao deslocarmos o sofá vimos na parede atrás dele, a palavra MORTE, nítida, não pintada, mas em relevo do reboco branco estufado, sem qualquer vestígio da causa, pois não havia mofo ou mancha de umidade. Algo de um sinistro extremo que nos apavorou. Chamamos imediatamente o zelador do prédio, e indignados, mostramos aquilo para ele. O zelador sem surpresa respondeu: "É... aqui morou um um senhor estrangeiro, velho, que mal falava nossa língua, com um sotaque alemão, silencioso, completamente solitário, não era visitado por ninguém. Saía só para comprar comida. Um dia os vizinhos notaram que ele não saía há uma semana, e me chamaram. Batemos, ninguém atendia e afinal arrombamos a porta. O senhor estava morto no sofá havia muitos dias ..." Revoltado, eu indaguei :" E o senhor, por quê não nos contou isso quando viemos ver o apartamento, com criança de colo? E o zelador então, respondeu: " No começo contávamos, depois fomos pagos pela proprietária para não revelar, porque os interessados desistiam imediatamente..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Sonetinho de Alcaçuz (de Guilherme de Faria)
O mundo sempre deixa para trás
As hordas de bandidos de capuz,
Outrora residentes de Alcatraz
Agora residentes de Alcaçuz.
Na ilustre esteve preso o Al Capone
Por um contador que era alcaguete,
E deu com a língua ao telefone
Ou enquanto comia um espaguetti...
Cada povo tem a Alca que merece,
Substâncias alcalinas e alcaloides
Substituem do povo o pão e a prece.
E vemos uma enorme decadência,
Continuamos cada vez mais debiloides
Mas os mesmos infelizes em essência...
.
10/02/2017
As hordas de bandidos de capuz,
Outrora residentes de Alcatraz
Agora residentes de Alcaçuz.
Na ilustre esteve preso o Al Capone
Por um contador que era alcaguete,
E deu com a língua ao telefone
Ou enquanto comia um espaguetti...
Cada povo tem a Alca que merece,
Substâncias alcalinas e alcaloides
Substituem do povo o pão e a prece.
E vemos uma enorme decadência,
Continuamos cada vez mais debiloides
Mas os mesmos infelizes em essência...
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10/02/2017
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