terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O físico Stephen Hawking afirma não existir Deus. Ora, isso é tão absurdo quanto afirmar que Deus existe. Não sabemos e não temos meios de afirmar uma coisa ou outra. A existência ou não de Deus é um completo mistério. E é justamente nisso que consiste o problema. (Guilherme de Faria)
Dostoiévski colocou na boca de Ivan Karamazov, o intelectual dos Irmãos Karamazov, a seguinte frase perturbadora: "Se Deus não existe, tudo é permitido." As implicações dessa lógica são imensas. Uma delas é que a moral existe fora e acima do homem, pois do contrário a Justiça e o Bem seriam tão relativos que perderiam todo o valor. E nem sequer poderíamos identificar o Mal... (Guilherme de Faria

A Negra da Tarsila (crônica de Guilherme de Faria)



A Negra da Tarsila)

(crônica de Guilherme de Faria)

No ano de 1965 fui visitar uma das minhas tias que estava bastante velha, numa cadeira de rodas e não saia mais para nada. Entro em sua casa no elegante bairro do Pacaembú, povoada de objetos de arte, uma casa estranha em sua arquitetura da década de 20, que me fascinava desde a infância.
Lembro-me sobretudo dos quadros espalhados pelas paredes da casa toda. Na grande sala de jantar, havia várias naturezas mortas, escuras, com grandes tachos de cobre pintados com um realismo notável, de autoria de Pedro Alexandrino, que destoavam da arquitetura da casa. O que me fascinava mesmo, na infância, era um grande quadro da Tarsila, este sim no estilo Art-Déco com faixas de cor paralelas no fundo, representando uma negra com o beiço inferior deslocado, o seio pendente por cima do braço direito dobrado sobre o ventre, sentada no chão com as pernas meio cruzadas. Soube muitos anos mais tarde tratar-se da “ A Negra”, da fase antropofágica da Tarsila, maravilhosa obra, tão importante quanto o “Abaporu”, e agora no acervo do MAC.
Não encontrei esse quadro em sua casa nesta ocasião. Perguntei por ele à minha tia e ela respondeu:

—"Estou meio magoada com a Tarsila. Ela havia me dado esse quadro como presente de casamento. O Vicente não gostava do quadro. Eu também não. Ele implicou com o beiço deslocado e o seio por cima do braço, para dizer o mínimo. Há um ano Tarsila telefonou pedindo o quadro emprestado para uma sua retrospectiva, entreguei-o sem recibo a um portador que ela mandou, e o quadro nunca mais voltou. Mas na verdade, não faço questão, nunca gostei do quadro mesmo!..."

Quase caí para trás. O único quadro realmente bom e valioso e que ainda por cima combinava com a arquitetura de sua casa (ela nem percebia isso), ela o perdera e ainda estava aliviada!
Tarsila sabia o que fazia. Ela teve a chance de consertar o destino, pelo menos desse quadro. Na sua juventude, elegante e rica, presenteara seus quadros freqüentemente a quem não os compreendia ou dava valor. Então ela resgatara a Negra, que voltara ao grande público, vendido ou doado a um importante museu. Não há injustiça no mundo...
Alma Welt não estava no centro do Mundo... Não conheceu platéias nem honrarias. Seus leitores, ela os teve na rede por breves e intensos dois anos, e começavam a crescer. Entretanto não era de periferias, mas lá do verdadeiro fim do mundo, onde o vento sopra sem barreiras, eternamente, cruelmente... Conhecia dentro e fora amplidões que os nossos olhos normalmente desconhecem. Vivendo nas planícies sem fim de seu Pampa amado, conhecia solidões, lonjuras e silêncios que a nós seriam mortais. Também a ela o foram, essa é a verdade... Mas como resistiu! Como derramou versos que encheriam cochilhas não fossem eles represados na Arca de sua Alma, que ora derrama seu conteúdo sobre nós, perplexos, encantados, emocionados com tal dor, alegria e êxtase... com tão grande e trágica beleza! (Guilherme de Faria)
No futuro o homem trabalhará pouco ou nada. Entretanto não será mais livre, teremos ingressado na Era da Robótica, no Império das Máquinas. Na Era do Consumidor Puro, seremos governados pelo Grande Olho Eletrônico. Não mais livres para consumir, mas obrigados mesmo a isso, seremos mais escravos do que nunca. E haja diversão e shows dia e noite, como forma de entorpecimento e direcionamento das massas. Mas... o que digo? Dei-me conta agora de que já entramos nessa era! (Guilherme de Faria)
Tudo é uma questão de vestimenta. O homem de terno e gravata não aceita deixar milhares de alqueires de terras com quem anda nu ou de tanga. A prova disso é que para aceitá-los um pouco, fomos logo dando aos índios nossos ridículos calções vermelhos, chinelos de dedos e bonés. Somos mesmo muito mesquinhos..." (Guilherme de Faria)
Tudo é uma questão de vestimenta. O homem de terno e gravata não aceita deixar milhares de alqueires de terras com quem anda nu ou de tanga. A prova disso é que para aceitá-los um pouco, fomos logo dando aos índios nossos ridículos calções vermelhos, chinelos de dedos e bonés. Somos mesmo muito mesquinhos..." (Guilherme de Faria)
A julgar pelos filmes de ação americanos, a metralhadora é a menos eficiente das armas. Repararam quantos milhares de balas elas disparam contra alvos fixos ou móveis sem acertar uma única bala? Sinceramente... eu diria que os americanos são um povo muito bobo, se eles não fossem tão ricos e não fossem o mais poderoso país do mundo. Aliás, para mim esse é o grande mistério: como um povo tão infantil dominou o mundo dessa maneira... (Guilherme de Faria)
Acho o Natal uma festa muito sanguinária, principalmente para o perú... (Guilherme de Faria)
O chamado "sonho americano" é todo ele dinheiro. Mas não podemos censurá-los por isso: desde o culto do "bezerro de ouro" é esse o sonho de toda humanidade, desde que associamos o dinheiro à liberdade e ao poder. As tábuas da lei foram quebradas antes mesmo de serem observadas. A humanidade cultua o dinheiro, o seu único deus. E na hora final a maioria reza secretamente para ter muito dinheiro no Paraíso..." (Guilherme de Faria)
Muito se fala na religiosidade dos antigos egípcios, de sua espiritualidade. Nada mais falso. A meu ver, os egípcios antigos são o exemplo de maior materialismo que podemos conceber, a ponto de quererem preservar o corpo, isto é, a matéria, a todo custo pelo elaborado embalsamamento e carregar seus tesouros para o túmulo, na esperança de levarem a mesma vida de confortos na eternidade. Um povo sem espiritualidade nenhuma, cujo legado mais durável foi a invenção da cerveja e o mistério da construção das pirâmides. Mas, que engenho e bela arte eles tinham! ( Guilherme de Faria)
Se compararmos o número e a gravidade de coisas idiotas que cometemos ao longo de nossa História, com as inteligentes, criativas e sensatas, teremos que reconhecer, com o saldo final, que o ser humano é pouco inteligente, muito deficiente mesmo... não passamos de débeis mentais. (Guilherme de Faria)
Uma das coisas mais espantosas, verdadeiras, e cruéis que vi e ouvi na televisão (e eu mal acreditava nos meus olhos e ouvidos) foi um repórter americano entrevistando um índio pele-vermelha numa reserva (há duas décadas atrás). O repórter disse ao índio: " Vocês devem ter muito ódio e ressentimento pelo que fizemos a vocês, com todos os massacres, torturas, injustiça e roubo de suas terras que nós brancos cometemos, não?" E o índio calmamente respondeu: "Bem... durante algum tempo, sim. Mas, pensando bem, nós já estamos vingados: NÓS ENSINAMOS O BRANCO A FUMAR..." (Guilherme de Faria)
Se os homens se matassem simplesmente com o cigarro, o álcool e as drogas, não deveríamos nos importar muito, pois seria uma maneira eficaz de assegurar um relativo equilíbrio demográfico. É preciso que milhões de pessoas morram todos os anos para que não haja uma mortandade ainda maior pela fome no mundo (que apesar dos massacres pelas guerras, drogas, cigarro e álcool, está havendo). O problema é que os dependentes químicos aborrecem! Ah! Como chateiam os outros, como enfernizam a humanidade com suas manias, repetições, obsessividade e insensatez. Ah! A chatice! A única coisa realmente imperdoável!... (Guilherme de Faria)
O mundo poderia ser tão bom se o homem fosse um ser inteligente!... (Guilherme de Faria)
Um homem inteligente se interessa por absolutamente tudo o que concerne ao humano, ao planeta, aos animais, às plantas, aos astros, ao Universo, a tudo... Não acredito, por exemplo, na inteligência de alguém que nunca se perguntou qual a lei de física que rege o ato de se martelar um prego na madeira (Terceira Lei de Newton, lei de ação e reação). (Guilherme de Faria)
Quando o grande William Turner estava bem velho, agentes da Corôa Britânica foram à sua pequena e modesta casa na beira do Tâmisa portando alguns milhares de libras para adquirirem para a coleção real o seu grande quadro entitulado "Dido Construindo Cartago", de sua fase inicial, que ele havia exposto com grande sucesso na Royal Academy 50 anos atrás, quando tinha influência ainda do pintor francês Claude Lorraine, que ele muito admirava. Turner disse aos agentes: "Poupem os dinheiros públicos" e mostrou a eles o seu testamento que doava à nação toda a sua obra, acumulada, colecionada e frequentemente rematada por ele em leilões de espólio de famílias nobres. Os agentes admirados se retiraram. Pouco anos depois Turner faleceu e os agentes voltaram para fazer o inventário das obras da coleção do mestre (hoje na Tate Gallery). Eles entravam e saíam perplexos, abanando as cabeças. "Nunca vimos algo assim antes"- eles diziam- "desde o desenterro de Pompéia!" Uma camada de dez centímetros de poeira cobria tudo dentro da casa. Milhares de telas, cadernos, álbuns, aquarelas soltas, tudo, tudo coberto por uma camada de pó de mais de cinqüenta anos! Nunca Turner permitiu que uma empregada passasse um pano ou espanador em nada. Moral da estória? Não tem moral, é apenas uma curiosidade sobre as idiossincrasias de um gênio... (Guilherme de Faria)
Não temos tempo suficiente na vida para adquirir sabedoria. Por isso os sábios são poucos. Mas talvez a maioria de nós não esteja interessada em ser sábia porque não sabemos para quê isso serve. É o utilitarismo de nossa época que faz da sabedoria uma coisa tão rara. Um exemplo: um americano típico diria para um sábio ou mesmo um mero intelectual: "If you're so smart, why ain't you richer?" (Guilherme de Faria)
Posso congratular-me comigo mesmo: persegui meus sonhos de criança com persistência ímpar. Não os atingi a todos, mas o caminho que eles me fizeram percorrer revelou-se fecundo e surpreendente. Percebi que o destino é o caminho e não a chegada, que diminuiu consideravelmente de importância. Passei a vida desenhando, pintando, escrevendo, declamando e palestrando. Um entre milhares que também o fizeram. Mas não disperdicei meus dias em trabalhos inúteis ou estéreis, somente me ocupei do que amo: a sagrada Arte, que me comove e reverencio como nos primeiros dias... (Guilherme de Faria)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Negra da Tarsila (crônica de Guilherme de Faria)


A Negra da Tarsila
(crônica de Guilherme de Faria)

No ano de 1965 fui visitar uma das minhas tias que estava bastante velha, numa cadeira de rodas e não saia mais para nada. Entro em sua casa no elegante bairro do Pacaembú, povoada de objetos de arte, uma casa estranha em sua arquitetura da década de 20, que me fascinava desde a infância.
Lembro-me sobretudo dos quadros espalhados pelas paredes da casa toda. Na grande sala de jantar, havia várias naturezas mortas, escuras, com grandes tachos de cobre pintados com um realismo notável, de autoria de Pedro Alexandrino, que destoavam da arquitetura da casa. O que me fascinava mesmo, na infância, era um grande quadro da Tarsila, este sim no estilo Art-Déco com faixas de cor paralelas no fundo, representando uma negra com o beiço inferior deslocado, o seio pendente por cima do braço direito dobrado sobre o ventre, sentada no chão com as pernas meio cruzadas. Soube muitos anos mais tarde tratar-se da “Negra”, da fase antropofágica da Tarsila, maravilhosa obra, tão importante quanto o “Abaporu”, e agora no acervo do MAC.
Não encontrei esse quadro em sua casa nesta ocasião. Perguntei por ele à minha tia e ela respondeu:

— Estou meio magoada com a Tarsila. Ela havia me dado esse quadro como presente de casamento. O Vicente não gostava do quadro. Eu também não. Ele implicou com o beiço deslocado e o seio por cima do braço, para dizer o mínimo. Tarsila telefonou pedindo o quadro emprestado para uma sua retrospectiva, entreguei-o sem recibo a um portador que ela mandou, e o quadro nunca mais voltou. Mas na verdade, não faço questão, nunca gostei do quadro mesmo...

Quase caí para trás. O único quadro realmente bom e valioso e que ainda por cima combinava com a arquitetura de sua casa (ela nem percebia isso), ela o perdera e ainda estava aliviada!
Tarsila sabia o que fazia. Ela teve a chance de consertar o destino, pelo menos desse quadro. Na sua juventude, elegante e rica, presenteara seus quadros freqüentemente a quem não os compreendia ou dava valor. Então ela resgatara a Negra, que voltara ao grande público, vendido ou doado a um importante museu. Não há injustiça no mundo..."

PAGU, UMA GAFE (crônica de Guilherme de Faria)


PAGÚ, UMA GAFE
(Crônica de Guilherme de Faria)

Num período de minha vida, ao redor dos quarenta anos, quando entre casamentos eu costumava almoçar no apartamento de minha mãe, com prazer pois conversávamos fartamente sobre Literatura (ela era muito letrada em geral, mas principalmemte em literatura acadêmica francesa, que ela lia sempre no original, claro), enquanto esperava o almoço, tocou a campainha e eu atendendo, fiz entrar uma senhora de meia idade, amiga de minha mãe, de aspecto imponente, aristocrático. Enquanto esperávamos na sala, minha mãe na cozinha acabava de preparar o almoço, depois de interromper o seu trabalho para receber a amiga, e nos apresentar com as palavras: "Olhe, Guilherme, ela é sobrinha da nossa ilustre Tarsila do Amaral!" Eu, então, pensando ser a propósito, para puxar conversa comecei a falar sobre a maravilhosa biografia da Pagu, do Augusto de Campos, que eu estava lendo, entusiasmado com aquela figura hoje lendária do modernismo, uma pioneira da emancipação feminina, linda moça de origem operária que se torna mulher do Oswald de Andrade depois que este deixou a Tarsila, e se torna jornalista, comunista, uma das Musas do Modernismo, vai presa, se exila e se torna amiga do último Imperador da China com quem passeava de bicicleta dentro dos muros da Cidade Proibida, e termina a vida escrevendo crônicas estupendas sobre o Movimento Surrealista e o teatro de vanguarda mundial, em jornais de São Paulo...
De repente, logo de saída sou interrompido pela tal senhora, subitamente transtornada, tremendo, colérica, com o rosto vermelho, com o dedo em riste, quase gritando com fúria sagrada:

- "Aquele homem horrível, Oswald, grosseiro, que trocou uma RAÍNHA (!!!) como a Tarsila, por aquela mulherzinha vulgar! Tarsila era um rainha!!" (ela repetia com ênfase, prestes a ter uma apoplexia).

Eu devo ter empalidecido, envergonhadíssimo com a minha gafe e não falei mais nada, tão constrangido que, por minha vez, desconcertei a furibunda senhora paladina de sua tia, a grande Tarsila. Não havia mais ambiente e a senhora tratou de desculpar-se mas somente por não poder ficar para o almoço, o que a minha mãe, vinda da cozinha, muito lamentou, conduzindo-a até a porta, pedindo desculpas...

Meditando sobre este episódio algum tempo depois, dei-me conta da imensidão dos preconceitos sociais da época de nossas mães e avós, e mais admirei a Pagu e a grande Tarsila, por suas atitudes pioneiras, revolucionárias, as duas afrontando o ambiente elitista e tacanho que dominava a nossa Arte naquelas primeiras décadas do século, uma pelo lado de dentro da aristocracia e a outra pelo de fora. Duas heroínas...

14/12/2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma Temporada no Inferno (crônica de Guilherme de Faria)

Quando eu era um garoto de uns doze anos, tendo me tornado um pequeno rato de biblioteca e estando um tanto franzino, minha mãe decidiu me enviar para uma colônia de férias para me "enrijecer". Escolheu o "Paiol Grande" uma instituição tipicamente americana, embora fosse de padres católicos de origem canadense. O diretor do Paiol era o Father Leising um padre dos Oblatos de Maria Imaculada ( estranho... nunca me ocorreu descobrir o que é "oblato"). Também não me lembro de jamais ter visto o father, mas sua presença era sentida, não sei porquê. Mas o que quero contar é como tive um encontro desastrado com a cultura americana, que quase conseguiu apagar o encantamento que eu tinha com o cinema de Hollywood e suas estórias, musicais e estrelas maravilhosas. Nos primeiros dias fui escalado para uma excursão a cavalo que durou dois dias de sofrimento sacolejando por campos e montanhas no lombo daquele animal com que eu nunca antes tivera contato. Passei fome, frio, e sobretudo um imenso cansaço e dores no corpo todo, sobretudo nas pernas. Quando afinal chegamos de volta ao acampamento, todo de chalés (o meu era no alto do morro), apeando eu mal podia me manter de pé, caminhava cambaleando e ao começar a subir a ladeira perigosamente próxima de um campo de futebol americano onde estavam jogando os garotos americanos que nunca se misturavam conosco (os brasileiros) e mal os avistávamos, resvalei na borda escarpada do campo e caí dentro dele. Imediatamente me tornei alvo dos Yankes, que vieram na corrida e se atiraram em cima de mim aos montes, embolados, sempre gritando naquela algaravia enrolada, incompreensível. Eu tentava levantar e correr graças à adrenalina que explodiu, mesmo com aquelas dores que mal me permitiam andar. O garotos, extremamente fortes, de pulsos grossos como os tornozelos, louros, ruivos e sardentos, verdadeiramente selvagens, se divertiam em me perseguir e derrubar-me de borco agarrando-me pelas pernas e amontoando-se sobre mim. Eu tentava galgar o barranco mas ele me arrastavam para baixo, sempre gritando coisas das quais eu só distinguia: "Kill him! Kill him!"
Só me soltaram quando eu, desesperado, lutando que estava pela minha vida, virei-me para trás e gritei entre dentes, guturalmente, com um esgar de fúria e desespero:" LARRRRGGAA!" Me lembro do olhar de espanto do último que ainda me agarrava, e que me largou e ficou me olhando de mãos na cintura.
Eu afinal saí do território mortal deles, sem mais olhar para trás. E subi mancando e cambaleando para o meu chalé para afinal cair na cama, absolutamente exausto e moído.
Essa experiência me deu uma amostra muito clara de uma faceta da cultura americana que me faria preferir continuar sonhando com os filmes de Hollywood e nunca almejar conhecer aquele país ao vivo, mesmo acaso fosse convidado um dia.

Mas a verdade é que minha mãe tinha razão: ao final daquelas sofridas férias de um mês, na minha temporada nada rimbaudiana no inferno, eu tinha enrijecido um pouco... E voltei botando banca nos jogos de rua do meu quarteirão.

São Paulo, 13/12/2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Segredo do Artista (de Guilherme de Faria)

Vou revelar um segredo: Começando bem cedo na vida a desenhar, pintar e escrever, vacinei-me contra os excessos da admiração a outros artistas. Elegi minha própria arte desde o começo como a que eu mais amaria e admiraria através da vida. Agora, depois de milhares de obras, eu concluo que com tal atitude eu descobri o segredo de ser artista. Consiste nessa espantosa escolha e certeza: a de que a tua arte é imprescindível e definitiva. Se não pensares assim, não serás um artista, mas um simples admirador ou imitador. (Guilherme de Faria)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A reação de Machado Guerreiro (de Guilherme de Faria

Toda família tem seus códigos particulares, suas brincadeiras próprias de que nos lembramos para o resto da vida com carinho. Quando eu era criança, uma vez, meu pai sendo médico hematologista, cientista de laboratório, conversando com minha mãe à mesa do jantar citou uma certa "Reação de Machado Guerreiro". Eu, suscitado pelas palavras em que vi uma cena "viking", dei uma risada tola, repetindo "machado guerreiro"... Meu pai imediatamente me apontou o dedo repetindo essas palavras caricaturalmente entre falsos risos entrecortados e voz de débil mental: "machado guerreiro... hehehe...", no meio das risadas dos meus irmãos e até de minha mãe . Fiquei envergonhado mas ao mesmo tempo achando mais graça ainda. Nunca mais esqueci do que se tornaria um bordão repetido com dedos apontados cada vez que algum de nós dizia uma bobagem à mesa. Meu pai, nivelando-se jocosamente a mim numa tolice, incentivou meu senso de humor autocrítico para o resto de minha vida... (Guilherme de Faria)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Onde os ciprestes se juntam (para Amy Winehouse)
(de Guilherme de Faria)


Onde os ciprestes se juntam
e ao vento gelado das cidades do norte
se curvam
onde os corvos revoam crocitando
agourando a vida dos homens
desde sempre
Onde os relógios batem horas em salas tristes
Amy Winehouse ainda vacilante desfila
e ondula seu corpo esguio
maltratado pela auto-mutilação
de suas feias tatuagens
na sua brancura outrora imaculada
tão cedo rejeitada
de volta ao negro
ela voltará sempre
com sua voz negra do melhor do blues
e da alma
Amy voltará sempre
e com ela conviveremos ainda
por muito tempo
por amor à sua doçura invencível
sua expressividade trágica
indisfarçada
e para sempre legada
à nossa própria tragédia de viver.

Amy
quê dizer?
senão que te amamos
e quiséramos abraçar
teu corpo martirizado
e juntar com a mão
sobre teus apliques e desajeitados cabelos
tua linda cabeça ao nosso ombro
como o faríamos a essa girl
que bem sabemos
foste e serás
agora para sempre
de volta ao negro
mas também
a nós...


27/07/2011

Meu auto-retrato (de Guilherme de Faria)


Auto-retrato de Arnold Böcklin (grande simbolista suiço)

Meu auto-retrato (de Guilherme de Faria)

O meu auto-retrato imaginado
Seria como o do mestre suíço
Que captou um som meio arpejado
Daquele violino insubmisso

Nas mãos de dedos descarnados
Da fiel companheira de atelier
Desde tempos mal recompensados
Senão pelas delícias de beber...

Mas devo também lembrar o logro
Que fiz à minha acompanhante
Querendo os seus préstimos em dobro

E pra tê-la bem mais tempo do meu lado
Jogando para um tempo mais distante
A paga por seu zelo devotado...