(retrato de Lúcio Cardoso)
Em 1965, estando no Rio de Janeiro em companhia do poeta catarinense Marcos Konder Reis que eu hospedava em São Paulo, fui levado por ele a conhecer o grande escritor mineiro Lúcio Cardoso, seu amigo, autor do genial romance epistolar Crônica da Casa Assassinada, que àquela altura eu ainda não tinha lido. Eu ouvia muito falar do Lúcio Cardoso pelo Marcos e outros amigos literatos. Estórias míticas de desregramento, bebedeiras homéricas e genialidade literária. Lúcio havia sofrido em 1962 um derrame e estava semi-paralisado e com a fala comprometida. Fomos recebidos efusivamente no modesto apartamento, pela sua irmã devotada, Lelena Cardoso, que morava com ele e o cuidava. Pessoas de uma simpatia mineira cativante... Lúcio, tentava falar e emitia sons, com os olhos brilhantes de entusiasmo, e me parecia ligeiramente débil, retardado, pela limitação dos movimentos e da fala, mas também por uma espécie de ingenuidade inesperada que emanava como uma aura, de sua pessoa. Disfarcei o tempo todo o meu constrangimento, imaginando o homem brilhante que ele fora, a julgar por sua lenda que incluía até mesmo um amor platônico por parte da Clarice Lispector. Ele arrastava uma perna pela pequena sala procurando coisas para mostrar, e o mais embaraçoso é que a mão perdida pendia na ponta do braço direito duro esticado, retorcida para dentro, colada na sua braguilha. Eu desviava os olhos, sorrindo o tempo todo, fingindo não prestar atenção aos detalhes constrangedores. Mas a simpatia e o acolhimento cordial ao visitante novato que eu era, apresentado como uma revelação de desenhista pelo Marcos, ajudavam a atenuar meu mal estar. Mostrei, a instâncias do poeta meu amigo, meus desenhos que eu carregava pra todo lado no Rio, numa pasta. A acolhida foi entusiástica, cheia de elogios, e eu ofereci ao Lúcio o desenho que mais o entusiasmou. Logo ele quis me mostrar suas pinturas festejadas, de paisagens indistintas e coloridas que fazia a óleo diretamente com os dedos da mão esquerda, sobre papel, e me ofereceu a menor, bem pequena, que modestamente escolhi. Depois do cafezinho mineiro fomos embora com calorosas despedidas, e eu fiquei com uma impressão vaga, decepcionada, de ter chegado muito tarde na casa de um gênio perdido, como quem visitasse Nietszche, louco de sua sífilis terminal, acolhido por sua irmã Elizabeth. A lembrança da irmã simpática e natural, acolhedora e bem mineira, se sobrepunha na minha memória, e eu olhando de vez em quando aquela pequena paisagem de montanha mineira, quase abstratizada, procurava um vago lampejo da mente brilhante que se perdera pelo seu próprio "desregramento" rimbaudiano "de todos os sentidos", no qual, na verdade eu mesmo estava mergulhando, talvez não com tanta ferocidade como atribuíam àquela sombra do homem que já era uma lenda da nossa literatura..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

2 comentários:
Querido amigo Guilherme,
Como sua vida nas artes tem uma riquesa de momentos verdadeiramente mágicos e que figuras impressionantes cruzaram o seu caminhar estético.
Congratulaçoes!
Do amigo de sempre
Taglar Dudus
Obrigado, amigo Dudus! Grande abraço!
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