quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O perfume

"Quando eu era garoto, na minha Alameda Lorena, tão pacata, a rua já de asfalto (um carro a cada meia hora) era o nosso playground (expressão que nem havia). Ali, entre os jogos de rua dos meninos, patinação, hókei de bicicleta, queimada, jogo de taco, pique, acusado, carrinhos de rolemã na ladeira da Eugênio de Lima, as meninas de vestidinho e sapatos de fivela, brincando na calçada seus jogos graciosos de palmas e versinhos... de repente, surgiu uma menina, linda, a mais bela, modelada no primeiro jeans colante americano, coisa nunca vista. Apaixonei-me imediatamente e assim passei sofrendo todo o resto da minha infância. Muitos lances aconteceram, eu sempre escondendo por timidez a minha paixão. Um dia no primeiro bailinho de aniversário em sua casa, a maior do quarteirão e a única rica, nós ainda crianças, ou pré-adolescentes (expressão que não existia), ela, mais avançada, me tirou para dançar, e assim juntos, muito próximos, num bolero ou fox-trot, eu rocei com os lábios a sua testa muito branca e senti o perfume delicioso, natural, de sua pele. Esse perfume se entranhou em minhas narinas deslumbradas e no meu espírito para sempre. Ainda hoje o sinto quando penso nela. E volto àqueles momentos, como o fez o cheiro das "madelaines" para Proust, na Procura do Tempo Perdido. Mas devo dizer que é o único perfume que ainda sinto, com as minhas narinas estragadas como sequela de anos de tabagismo e depois anos de vasos-constritores, para poder dormir. Não tenho mais olfato, não sinto cheiro algum, somente, e repentinamente, quando menos espero, o perfume da pele do meu eterno amor infantil..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

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