(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os telhados )
Minha mulher insiste em que eu compre um mata-ratos. Não podemos continuar assim, com a casa infestada. É um perigo, ela diz. Ela exagera, naturalmente. Deve haver quando muito um camundongo por aí. Não me incomoda. Mas a ela deixa à beira do terror. É natural, nas mulheres.Façamo-lhe a vontade. Saio hoje para procurar o bendito produto, embora não saiba onde encontrá-lo, não estou acostumado.
Andei bastante por aí, a esmo, e não consegui encontrar uma loja especializada. E os olhares, então, dos balconistas? Chamam o gerente, que por sua vez chama o dono quando este está na casa. Olham-me fixamente, e isso confesso está me fazendo mal. Dão-me vagas indicações, tal firma, talvez, é difícil... Para quê quer o senhor
Um mata-ratos? Quase chegam a perguntar. -Para matar ratos, ora essa! – tenho vontade de gritar-lhes. Mas não vou me deixar alterar por circunstância tão ridícula. E os gerentes, meu Deus! Uns vermes que se põe na frente do balcão com ares de donos, quando deveriam estar atrás, como todo mundo sabe.
Despistam a origem e procedência do maldito mata-ratos, como um verdadeiro complô. Logo pra cima de mim, esse clima. De mim, homem pacato e inofensivo. E digo mais, humanista! Toda a minha vida tenho sido um humanista. E a minha biblioteca está superlotada!
Bolas, deixemos isso para lá. Tenho esperança que a minha mulher desista e esqueça os ratos. Afinal, afora isso, posso dizer que tenho um lar feliz, com as crianças, os cachorros e o papagaio.
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Preciso sair novamente, minha mulher passou uma noite de cão. E eu com ela. Não conseguiu pregar o olho, ouvindo as patinhas e os guinchos dos supostos ratos. Ratazanas, ela afirma. Enormes, devorando tudo. Descendo do forro e se lançando “a uma verdadeira orgia na cozinha”. Ela me fez descer para verificar, armado no mínimo de uma vassoura. Ela jamais saberá que me detive na sala, onde abri um livro, e de onde lhe gritava palavras tranqüilizantes de tempos em tempos.. Amanhã comprarei o veneno. Não resta outra solução. Pelo menos para tranqüilizá-la de vez. Não me entendam mal, quero dizer... acabarei com os ratos quer eles existam, quer não.
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Hoje, após mil e uma peregrinações, consegui uma boa pasta mata-ratos. Graças ao dono de um bar que me deu a dele. Estava bem ansioso para livrar-se do produto, pareceu-me. Prefere ratoeiras, ele disse. São mais seguras e vez por outra apanham um gambá ou coisa que o valha. Não me convenceram suas razões, mas agradeci sua gentileza, ainda mais que o tubo parece novo, não foi sequer espremido e a caixa está perfeita, a bula bem dobradinha dentro.
Meti a caixa no bolso e voltei rapidamente para casa, ansioso por abri-la e desdobrar a bula, coisa que não se pode fazer por aí a esmo, sentado num balcão de um boteco qualquer. Há sempre alguém nos observando nesses lugares. Os bares já não me agradam como antigamente, não posso sequer tomar meus remédios com água mineral, sem perceber que me olham. Já notei mesmo, uma vez, alguém, talvez um policial disfarçado que se abaixou para pegar o papel de estanho das minhas pílulas anti-alérgicas, enquanto eu me afastava. Vivemos numa era inquisitorial, ninguém se iluda. Mas propícia, por isso mesmo, às Grandes Artes e à Filosofia. Como Toledo, de El Greco, se lembram? Como Toledo.
Tranquei-me no quarto e conscienciosamente retiro o tubo da caixa e desdobro a bula. Enquanto leio concentradamente as recomendações e a fórmula, observo o desenho e os dizeres impressos sobre tubo. Uma caveira, meu Deus, e duas tíbias! E um rato, naturalmente, fulminado, de pernas para o ar. Perigo, aqui diz. Deixe longe das crianças e dos animais domésticos. Precauções... veneno violento. Aqui a fórmula: Arsênico, estricnina... Basta, Santo Deus! Não me atrevo a continuar a leitura. Reparo se a tampa plástica está bem apertada. Guardo tudo na caixa novamente e vou ao banheiro lavar as mãos; aproveito para escovar os dentes e fazer um bom bochecho.
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Procurarei um lugar seguro para guardar o veneno, até segunda ordem. Vou trancá-lo à chave na gaveta da minha mesa no escritório. Parece o único lugar privado nesta casa, onde a família, as empregadas, os cachorros, o papagaio e os ratos reinam, absolutamente. Não tenho chave de mais lugar algum, com excessão da porta de entrada, naturalmente, que mantenho trancada a sete chaves. Com todos esses perigos que rondam por aí... na calçada, em frente, na rua atravancada de automóveis que passam em alta velocidade... Devo zelar pelos meus dependentes. Os livros, os cachorros, as empregadas e os papagaios.
É preciso manter tudo sob controle. Assim tudo correu bem até hoje, embora isso me custe um esforço e um desgaste excessivos. Mas um homem é um homem. Deve saber dar ordens ao jardineiro, bem como exercitar os músculos da alma. É isso! Ponham peso, ponham peso! Sou um halterofilista da alma! As responsabilidades quanto mais se somam, mais fortalecem o espírito.
Vou anotar isso no meu caderno de Máximas e Aforismos.
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Hoje à noite quando todos estiverem dormindo, poderei pôr as iscas na cozinha, desde que levante mais cedo que todos amanhã, bem entendido. Um pouco de pasta num pedaço de pão ou de queijo em cantos bem escondidos. Atrás da geladeira. Não! É um absurdo. Não se pode correr um risco desses. As crianças, os cachorros... Não há lugar onde não fucem, não se escondam, não brinquem! Que loucura, Santo Deus, pensar em aplicar essa maldita pasta. É evidente que os acidentes mortais começam por imprudências como essa. Não pensar nos outros, eis todo o perigo. Minha gaveta... É claro que não é um lugar seguro, o móvel pode ser vendido, a gaveta aberta. Entre o fundo e a gaveta... Não. Bem se pode imaginar esses móveis sendo desmontados por restauradores, no espólio das famílias. Sabe-se lá onde vão parar as coisas! Nada nos pertence no plano material. As casas, as cadeiras e as estantes estão perpetuamente em trânsito de família para família através dos anos, das gerações. Tenho bastante conhecimento da vida para prever o itinerário de uma mesa de escritório. De uma mesinha de cabeceira, até mesmo.
Vou escondê-lo atrás de um livro na estante, bem no alto. Do meu livro de máximas, ou do Rabelais, por exemplo. Ninguém aqui lê o Rabelais há séculos. Não, não posso. Uma empregada pode cismar de desempoeirar justamente esses livros, os mais bem fornidos em segredo e poeira. Encontra a pasta... Sabe-se lá que idéias podem se passar na cabeça dessa gente. Uma tentação, um mau pensamento... Nunca sabemos a quantas andamos com as empregadas. Elas sempre nos odeiam, certamente. Têm lá os seus motivos para isso. Todos os salários são insatisfatórios. Além disso somos sempre mais odiados quando pagamos do que quando somos pagos. As revoluções começam assim. Haja vista...
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Estou desesperado. Devo livrar-me dessa ameaça o quanto antes. Ah! o vaso sanitário... Uma boa descarga. Não, não é seguro. Muita coisa já voltou de lá, é sabido. Os meandros hidráulicos de um vaso sanitário, quem os conhece?
Imagino bem suas curvas falsas como de certas mulheres, suas armadilhas, seus mecanismos de defasagem e devolução. Estive para sucumbir certa vez, ao cochilar sobre o vaso. Fui despertado, felizmente pelo grugulejar do monstro, sentindo as polpas frias. Não se pode confiar nesses aparelhos, humanizados pela nossa longa e confidente convivência.
Além do mais, os esgotos, aonde vão parar? É evidente que um tubo destes, desembocando num rio da periferia, possivelmente flutuariam sendo pescado pelos moleques. Passaria fatalmente de boca em boca como pastas de dentes ou geléia. Esses meninos são loucos por pastas de dentes, comem-nas instantâneamente!
Vou sair à rua e livrar-me dele. Não posso devolvê-lo, despertaria suspeitas. Que devolve um veneno violento? Além do mais já não me lembro do bar onde mo passaram... Ah! O infame! Estou sendo usado, é evidente. Quem presenteia o seu próprio veneno? E ainda por cima com aqueles ares de de generosidade e desprendimento. Oh! Meu Deus!...
Estou andando há horas pelo bairro todo e não vejo onde possa jogar o maldito. Trago-o bem embrulhado no bolso do paletó, disfarçando o volume com a mão. Entretanto sei que me olham, não posso sequer sacá-lo sem ser notado. Fazê-lo escorregar para uma lata de lixo... Não! Os cachorros vira-latas e os mendigos não o deixariam escapar!
Estou cheio de sobressaltos, ziguezagueando pelas calçadas, preciso disfarçar. Como pude sair à rua com um troço deste. Quisera estar em casa, imediatamente. Afastei-me muito! Passei por uns terrenos baldios... Nem pensar neles! Todos os vagabundos, gatos e malfeitores têm neles suas bases. Cairiam sobre o veneno como sanhaços, eu sei. Preciso chegar depressa, mas não posso correr, seria perseguido e cercado em segundos. Que agonia!
Pronto, estou em casa. A porta bem trancada. Estou inundado de suor. Vou tomar um banho e dormir. Mas não me separei dele! Dormirá comigo, no bolso do pijama. Não pregarei o olho, já sei. Se adormecer, vou amassá-lo, rompê-lo: CONTAMINAREI A CAMA TODA!
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Passei uma noite terrível. Minha solidão aumentou devastadoramente. Não posso partilhar minha carga com ninguém aqui. Foi-me dada esta missão, a mim, que sou o homem da casa. Meu silêncio cresceu e já não encontro apoio ou desabafo pois devo manter as aparências para não assustar ninguém. Pobres frágeis criaturas...
Perambulo pela casa, o veneno no bolso. Não posso continuar assim. Sou muito lúcido para expor-me aos perigos de uma... distração!
É isso! Sei alguma coisa sobre a nossa vida inconsciente. Ou melhor, não sabemos nada. Pressentimos e convivemos com ela à distância da espessura de um vidro. A vitrine do Sonho... Ela nos dirige às vezes, e nos ironiza. Está sob nós como a segunda camada da pele. E não sabemos quando somos nós ou ela. Como posso responsabilizar-me até o fim?
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Esta noite sento-me à escrivaninha e escrevo. Dói-me a cabeça e a dor moral é maior. Tenho os olhos enevoados e escrevo. Minha resignação está ainda em carne viva, “Não culpem ninguém”... “ A mim coube a responsabilidade pela segurança de todos”...” Só faço questão absoluta da cremação”...
Aperto o tubo que ergo na mão esquerda convulsa... SOU O GUARDIÃO DO VENENO PARA TODO O SEMPRE!
FIM
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
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