(conto de Guilherme de Faria, do livro O Navio sob os Telhados )
“Life, my friend, is the Nightmare...”
Cheguei esta madrugada carregando minha pequena valise. Como é gratificante retornar de uma bem sucedida viagem, entrar no edifício, tomar o elevador deserto e, chegando ao meu andar, abrir a porta e penetrar no aconchego do lar. Só me decepcionou não encontrar minha mulher e meus filhos no apartamento. Cheguei cheio de saudade e de uns poucos pequenos remorsos, é verdade... Afinal vocês sabem, trabalho é trabalho, a morte é certa, e o que tem de ser feito, tem de ser feito.
Trato de abrir minha maleta e vestir logo meu pijama. Com certo enternecimento, confesso, visto o paletó e as calças vermelhas com estas pintinhas brancas. Foi-me dado por ela, Elisa, minha amada esposa, que aguardarei impaciente, pois deve estar na casa de algum parente, logo chegará. Quero fazer-lhe uma surpresa e não comuniquei a ela o dia e a hora da minha chegada.
Epa! Não estou reconhecendo meus objetos! Nem esta cama. Acenderei todas as luzes. Meu Deus, este não é o meu apartamento!
Não é possível, ou se parece comigo. Errei de andar!
Devo sair imediatamente. Vejamos, onde está a porta de entrada. Na sei mais! Ouço, risos! Mas de onde vêm? Ah! Uma escada, só me resta ir em frente, descer por ela, não posso ser encontrado aqui, assim, não tenho outra saída..
Oh! Santo Deus, estou num duplex. Entrei pelo andar superior! Nunca soube que houvesse disso neste prédio. –Senhoras, senhores, mil perdões. Desculpem-me, não me olhem assim, acabo de entrar por engano, sou morador de um andar acima neste mesmo edifício, não me conhecem? Deixem-me explicar. Não quero atrapalhar a festa. Quero dizer, os senhores estão chegando de alguma, não é mesmo? Estão alegres, graças a Deus, já compreenderam meu equívoco. Não, obrigado, senhorita, é muita gentileza a champanhe. Mas veja, acabei de chegar de viajem, e... amanheceu já. Sim, a senhorita é gentil. Não precisa se incomodar me conduzindo ao meu andar. Pode ser comprometedor para a senhorita. Quero dizer, estou nestes trajes íntimos, desculpe, quero dizer... Sim, por aqui... compreendo. Bela piscina a senhorita tem! Mas a senhorita não deve deixar seus convidados. Faz questão mesmo? A senhorita, permita-me dizê-lo, tem um sorriso irônico, não? Deve ser muito bem humorada. Esta situação não a constrange... Sim, entendo, por aqui, este corredor. A senhorita está quase me amparando com o seu braço, agradeço. Assim, descalço... pisando em ovos, não é mesmo? Ho, ho!... Como poderei lhe agradecer? Servir-lhe-ei um café no meu apartamento, aceita? Ah! meu Deus, ainda há gente compreensiva neste mundo. Mas , senhorita, estamos num jardim a céu aberto. Não entendo como chegaremos ao meu andar por aqui. Este portão? Ah! Sim, obrigado. Espere, não me empurre. Senhorita, SENHORITA! VOCÊ ME EMPURROU NA RUA, DESGRAÇADA! Estou na caçada, na rua dos fundos! ABRA, SENHORITA! Que significa isso? Não sou nenhum ladrão, juro! Jogue minha maleta, pelo menos! Ficou aí no andar de cima. Pelo amor de Deus! Ah! maldita... e gargalha ainda por cima. EXIJO QUE JOGUE MINHA MALETA POR CIMA DO MURO. SE NÃO, SERÃO OS SENHORES OS LADRÕES, OUVIRAM? Malditos. Não adianta, este portão não abriria nem a maçarico...
Tenho que sair daqui e encontrar a entrada do prédio. Que rua seguir, meu Deus? O caminho mais curto... Que vergonha! A rua já está começando a se movimentar. Olham para mim. Vou disfarçar, fazer-me invisível à custa de naturalidade e descontração. Ouvi isto certa vez. Mas conseguirei? Não é do meu feitio. Não agüento, sou assim, quê posso fazer?
Espere aí! Que escândalo é esse? E não é comigo... Um camburão de polícia! Prendem prostitutas! Que algazarra! Como poderei passar por eles? Não posso recuar agora. – Ei! Espere, Elisa! Larguem-na, miseráveis! Essa é minha esposa. Elisa! O que está acontecendo? Não senhores, não permito, entro junto, daqui não saio. Essa é a minha mulher! Deve haver um engano. Larguem-na, abram esta porta! Vamos ficar aqui mesmo ou em qualquer lugar, mas não me separo dela! Elisa, olhe para mim. Fiquem quietas, senhoras, parem de rir e de gritar. Tenham compostura. Elisa, que há com seu rosto? Está todo inchado! Seus dentes, meu Deus, todos quebrados! Já sei, você quis me vingar, atracou-se com aquela maldita, deu-lhe uma boa surra. Eu sei, Elisa, você faria isso, sim! Mas pobrezinha, o seu rosto, Elisa, o que há, que riso é esse? Você zomba de mim... Não ! Não! NÃO É VOCÊ! NÃO É ELISA! Enganei-me, meu Deus. Mais uma vez. Parem o camburão, quero descer imediatamente, abram esta porta! Não me belisquem, senhoras. Senhor Guarda, pare o carro, ouça-me! Não senhor. De pijama? Na rua? Não... Atentado ao pudor? Mas senhor... Tarado? É um engano, eu lhes juro, posso provar quem sou. Levem-me para minha casa. Mostrarei meus documentos. Estão na minha mala de viajem. Não os tenho aqui... Esperem, voltem! Posso explicar tudo. Parem, senhoras. Solte meu pijama. É de bolinhas mesmo, e daí? Não me toquem, senhoras, nunca lhes dei essa intimidade. Não ousem. Não ousem me beijar, LARGA! LARGA! Senhor Guarda, faça alguma coisa! Está bem, vamos à delegacia. Muito bem. Lá saberão tudo! Provarei tudo e terão que pedir desculpas. Alguém terá de fazê-lo.
Chegamos? Não empurrem, posso caminhar sozinho. Não sou nenhum marginal. Por quê aqui? Com toda essa gente, esta sala enorme... Não poderiam poupar-me isso? Terei que esperar muito? Aqui, no meio dessas mulheres e desses... Olhem, o Delegado, os senhores Investigadores, estão todos aqui mesmo, nas mesas. E não posso falar ao delegado imediatamente? Está bem, fico calado. Que lugar confuso, Santo Deus. Hem? Nada, não falei nada. Estou esperando, como vê...
Que vexame! Ser olhado com desprezo pelos mais desprezíveis cidadãos. Não me tinha ocorrido esta possibilidade. Vanitas, vanitatis... Miséria, eu filosofando! E de pijama. Sou um ser decaído, está na cara, fora da hora e do lugar... Vingam-se, fatalmente. É só isso que querem. Espreitam como répteis pela nossa queda. Nós, os burgueses, não é mesmo. Não sou um Diógenes, não quero um tonel. Quero minhas calças e meu apartamento. Parem de me olhar, malditos! Não estou nu. Tenho este pijama sobre o corpo, não vêem?
De bolinhas, de bolinhas! Ah! a desdentada , como pude confundi-la, meu Deus. Dentes podres. Olhos pisados. Arre! Por que olham sempre para baixo? Minha braguilha... Está fechada. Sempre esteve fechada, pelo menos isso. Ah! o botão está aparecendo, maldito, é isso! Não mereço! Não mereço isso tudo! Até ontem eu estava tão digno... Mas não! Não me vencerão pelo pijama! Prometo a mim mesmo que...
Como, senhor? Vou ser atendido. Atendido não? Interrogado? Mas... ali? Sim, com licença. Mas estão todos os Investigadores em torno da mesa... O Delegado, na cabeceira... Mas senhores, por que esta reunião geral. Desculpem-me. Está bem, só respondo... compreendo. Sento aqui nesta cadeira, longe da mesa? Mas senhores, não estou em julgamento... Estou?
Bem, senhores, entrei no apartamento errado. Sou morador daquele prédio. Não, não. É fácil verificar.... meu apartamento é no terceiro andar. De pijama? Troquei-me antes de perceber. Não acreditam? A moça ofereceu-se para me conduzir ao meu apartamento. É verdade, juro. Oferecer-lhe-ia um café. Não! Não tive nada com a moça, mal a vi. Ela me empurrou na rua. De maldade, sim, de maldade. Minha mala, meus documentos estão lá no andar de cima. Sobre a cama. A cama? Não, não estive nela. Mas, senhores, onde querem chegar? Estupro? Não a violentei! Que é isso? Não tive relações com a moça. Onde me levam? Não acreditam numa estória dessa? Mas que estória? Quem faria isso de pijama? Não! Não invadi aquele apartamento de pijama. Não premeditei, não premeditei nada. Senhores , aonde me levam? Quê? Recolher material? Sentar-me aqui, meu Deus, que horror... Isto parece um banco de tortura, tão complicado... Baixar a calça? Senhores, que ignomínia! Recuso! Recuso-me, não posso. Quê? Não, está bem. Prefiro sentar-me nesta coisa ignóbil. Ma senhores, isto está limpo? Tenho que sentar-me nu aqui, na frente de todos? Mandem sair as mulheres e esses... N/ao? Está bem. Não me aperte. O senhor está apertando meu pênis. O que vai fazer? O senhor está me machucando. Tem prática de quê? Esperma Recente? Senhor, não adianta espremer. O senhor está vendo? Está forçando. Que horror, meu Deus. Não, é urina, um pouquinho de urina. Isso mesmo. O senhor me espremeu muito, o que quer? Urina mesmo. Para o laboratório... Ah!... pois bem, vai ver. Agora o senhor verá. Exame de urina, sim senhor... e grátis, vai ver. Está bem, calo-me, mas vai ver. Oops!...
Que agonia!... Quanto tempo devo ainda esperar? Pelo menos posso vestir as calças do pijama? Oh! meu Deus! O que houve com o mundo? Devo estar no Inferno. É isso! Morri! Estou morto. A morte deve ser isso. A gente sente, o corpo é o mesmo, a mente também. Se não, por que seria o Inferno? Não adianta filosofar. Nunca saberei de que lado estou. É isso , nossa vida é oscilante, dos dois lados da linha. Hoje no Inferno, amanhã fora, depois novamente, nunca se sabe bem que lado é qual... Filosofando... Baboseira. Paciência, hei de sair daqui. Sou inocente. Sou inocente.
Ah, senhor, chegou o resultado. Como? Confirmaram minha estória. Estou livre. Por incrível que pareça, o senhor diz... Claro. Oh! meu Deus, ainda existe justiça neste mundo. Eu sabia. Eu sabia. Não disse? O senhor verificou tudo. Tim tim por tim tim. O senhor está espantado? Mas o que há de espantoso num homem honesto, embora de pijama, não é mesmo? Não quer saber mais de conversa? Está cheio... Está bem. Mas o senhor viu, não viu? Talm com lhe contei.sim, saio, saio. Por aqui, está bem. Estou livre. Posso ir para casa. O senhor vai me levar, naturalmente. Não? Mas... essa escada, dos fundos... Pelo quintal? Ah...
Senhor, que horta estranha é essa aí em baixo? Uma horta aqui, nos fundos da delegacia? As couves e repolhos parecem boiar numa... massa infecta... Hobby do delegado? Ora, vejam só. Como? Os esgotos das celas deságuam aí nesses canteiros? Ah... depois as verduras são servidas aos presos... Aqui ninguém come de graça... compreendo. É uma invenção engenhosa, não há dúvida... O moto-perpétuo, hem, o delegado descobriu o o moto perpétuo, não é isso? Opa! Este corrimão está solto. Oh! Segure-me! Oh! Não. Não. Não!
A grade estava podre! Estou atolado! Não enxergo nada. Oh! Não... Estou enlameado de... merda. Meu Deus! EXIJO QUE ME PRENDAM!TENHO QUE IR PARA UMA CELA! COM MUITA ÁGUA! PRECISO LAVAR-ME! EXIJO SER PRESO. NÂO SAIREI ENQUANTO NÂO ME LAVAR E VESTIR! E...QUE MINHA FAMÌLIA VENHA ME BUSCAR, NA CELA! NA CELA. EXIJO! Não? Como? Não posso? Sou um maldito inocente? Desastrado? MAS EU EXIJO!!! Não? Cometerei um crime. Qualquer um. Já cometi, veja: amassei as couves do delegado! Arrancarei as couves do delegado! Veja! Veja. Mais! Mais! Pronto. Não! Não me empurre. Para onde? Esse portão? Oh! Não me empurre com essa vassoura. Deixe-me ficar. Tenho de ser preso. Preciso me lavar. Não feche. Pare, por favor. Não feche! Abra essa porta. Abra! O SENHOR ME JOGOU NA RUA! MEU DEUS, ESTOU NA RUA! NA RUA! NA MERDA! E DE PIJAMA!
FIM
1976
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
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