sábado, 22 de abril de 2017

O POETA (das Memórias de Guilherme de Faria)

Dentre os inúmeros episódios marcantes da minha juventude, já bem adentrado na fase profissional como artista, um deles eu hesitei rememorar aqui por escrito, até agora, devido a fatores de escrúpulos de intimidade, de dramaticidade, e porque um dos protagonistas ainda vive. Entretanto, resolvi narrá-lo agora porque me convenci de que não citando nomes de pessoas vivas, temos o direito de divulgar nossas memórias sem consultá-las, tanto mais que a intenção é enaltecê-las, e não denegri-las.

Em 1970, estávamos no auge do regime militar no Brasil, e eu, casado com a que viria ser mãe de três dos meus filhos, morava numa vila em plena rua Augusta, e pintava e desenhava intensamente para realizar uma exposição marcada para dali a dois meses na Galeria Portal, que ficava na Avenida Paulista. Neste período surgiu em meu ateliê, trazido por um amigo comum, um poeta talentoso, ainda jovem mas dez anos mais velho que eu, que muito falante e interessante passou a vir todos dias passar muitas horas falando, muito exuberante e confessional, enquanto eu pintava para a exposição. Ele era engraçado e agradável, ele logo se tornou muito amigo meu e de minha mulher, a Elisa (que esperava nosso primeiro filho). Dois meses se passaram e tendo os quadros ficado prontos, na véspera do vernissage ele saiu tarde de minha casa combinando de nos vermos no dia seguinte na Exposição. Chegou o grande dia, ele não apareceu em casa e nem de noite durante o vernissage, que foi um sucesso de público e de crítica. Estavam todos lá, artistas conhecidos, amigos, jornalistas e o publico usual, sem faltar as indefectíveis e lindas "marias-vernissages". Estava "todo mundo" lá, com exceção do meu novo amigo poeta. Acompanhado de minha mulher, eu estranhei e comentei com ela, mas entretidos com os convidados, deixamos passar... O que teria acontecido?
No dia seguinte ao vernissage o poeta também não apareceu. Nós, minha mulher e eu, estranhamos, mas não fizemos muita questão, pois estávamos necessitados de sossego e privacidade, após tanta sociabilidade um tanto forçada, contrária ao meu temperamento recluso, de poucos amigos. Entretanto, todos os dias nos lembrávamos dele, o poeta estranhamente ausente desde o dia da inauguração. Eu ia todos dias à Galeria Portal conversar com os visitantes e ficava sabendo que o poeta não aparecera lá em nenhum horário. Passada uma semana eu comecei a telefonar para o pequeno hotel na "boca do lixo", na rua Aurora, no centro da cidade, em que ele nos dissera que morava há meses, cujo nome nos dera e do qual descobri o telefone na lista.
Eu passei a telefonar uma vez por dia e era sempre atendido por uma mesma voz, de um porteiro que me pedia pra esperar para ele ver se o poeta estava no quarto, e logo voltava para comunicar que não, não se encontrava no hotel naquele momento. Aquilo era muito suspeito... Por quê meu amigo nunca estava no hotel se não tinha feito um check out, pago a sua conta, ido embora? Por quê simplesmente nunca se encontrava? 

Uma tarde eu estava almoçando com Elisa num restaurante da Augusta e num repente resolvi telefonar dali mesmo para o hotel. Comuniquei o meu desassossego à minha mulher, levantei-me e fui ao balcão pedir para usar o telefone. Liguei e a mesma voz repetiu que o poeta não se encontrava no quarto. Eu ia desligar quando o porteiro continuou, baixando a voz, e em surdina disse: "Eu já conheço a voz do senhor que sempre procura pelo seu amigo... Mas eu não podia falar porque o gerente proibia e estava sempre por perto... Olhe, foram "os home" que levaram o seu amigo..."
Eu pus a mão na cabeça,TINHAM SE PASSADO DEZ DIAS! Urgia fazer alguma coisa!
Logo me veio à cabeça a ideia de procurar um poderoso advogado que me recomendaram em 1965, e que naquela ocasião procurei para conseguir um porte de arma pois estava sendo perseguido por um maníaco que me agredira gravemente a mim e minha segunda mulher, num episódio um tanto sórdido que um dia contarei. Esse advogado era o dr. Idel Aronis (agora falecido há muitos anos), que logo simpatizara comigo e tendo ouvido minha estória me apresentou e me recomendou a um delegado (também já falecido) que era irmão do pintor Clovis Graciano e que tendo portanto um irmão artista famoso, tinha simpatia pelos pintores. Este delegado me concedeu porte de arma para mim e minha mulher, compramos revólveres numa loja com permissão e andamos armados por pouco tempo, em segurança em plena época da ditadura! Mas isso é uma história que contarei noutra oportunidade. Pois bem, fui procurar o dr Idel e contei-lhe o que acontecera com o poeta meu amigo. Ele me perguntou se meu amigo revelara simpatias comunistas, se era doutrinário, etc. Eu respondi que o poeta era de esquerda, mas sonhador e ilusionista era extremamente "gauche" na vida, muito mais no sentido drummondiano do que ideológico. O dr. Idel argumentou que se meu amigo fosse "quente" como os militares costumavam chamar os suspeitos de militância socialista armada, ou "terroristas", até a mãe dele poderia não estar sabendo, dado o código de silêncio que imperava entre "eles" (a propósito, o poeta era órfão de pai e mãe e não tinha nem família). Então eu descrevi mais detalhadamente a personalidade do meu amigo e as características psicológicas que me faziam ter certeza ser ele um indivíduo incapaz de ação. O dr Idel, refletiu e disse: "O que você diz, Guilherme, faz sentido e por isso vou tentar salvar o seu amigo, mas lhe advirto que já interferi e tirei muitos das garras do DOPS e eles se aborreceram e já quase me deram um basta. Eles devem estar interrogando o seu amigo e se ele for "quente", nada poderei fazer. Entretanto, pelo que você me disse, acho que há uma chance. Se ele não for um militante clandestino, eles estarão torturando seu amigo psicologicamente, não fisicamente. Os intelectuais resistem menos à tortura psíquica que os mais simples... Vou localizar onde seu amigo está preso e em breve me comunicarei com você dando uma posição. Aguarde."
Nos despedimos, eu com o coração opresso, mas com alguma esperança, e fui pra casa fazer o relatório dessa entrevista à minha mulher, que esperava em angustiado suspense.

No dia seguinte já recebia eu um telefonema do Dr Idel, dizendo: "Guilherme, já localizei o seu amigo. Você tinha razão. O seu amigo estava no DOPS . Esteve sendo interrogado mas não chegou a entrar no pau. Felizmente você me procurou a tempo, pois amanhã ele começaria a ser torturado para valer, no pau de arara. Mas eu conhecia o delegado do caso, fomos colegas na São Francisco e eu cheguei abraçando-o: "Como vai a família?!" Então contei-lhe o que você me disse sobre o poeta, sem citar seu nome, Guilherme, claro. Você tinha razão, o que aconteceu foi o seguinte: seu amigo foi a uma festa num apartamento e falou a noite toda com um rapaz desconhecido, e falou muito sobre política, teorias, ideais, etc. O rapaz só ouvia. Passado uns dias o rapaz desconhecido foi preso numa Operação Bandeirante, que fechou uma rua e pego dentro de um Volkswagen encontraram folhetos doutrinários, armas e coquetéis Molotov no carro. E encontraram com ele uma agenda em que estava escrito: "Em caso de necessidade procurar o... ( o nome e sobrenome do seu amigo) que é um bom camarada", e continha o nome do hotelzinho. Os policiais foram lá prenderam o poeta em seu quarto e aprenderam todos os seus livros, um deles publicado, e seus manuscritos, que estão avaliando. O tal rapaz militante está sendo desde então "interrogado" e sob tortura não comprometeu o seu amigo. O poeta está agora recomendado por mim e não vão mais encostar a mão nele, o delegado me prometeu. Ele vai ser acareado com o militante, e este, confirmando sua inocência, ele será solto. Você e sua mulher fiquem tranquilos, é coisa de só mais alguns dias. "
Passada mais uma semana o poeta de repente apareceu em casa. Estava acabado, muito magro, com profundas olheiras, os olhos muito parados, a fala mais lenta. Nós o abraçamos aliviados, mas impressionados... Entretanto não tardou a narrar em detalhes sua aventura. Ele contou:
"Eles invadiram meu quarto no hotel e com violência me levaram com meus livros e manuscritos. Me encapuzaram e me jogaram num carro. Rodaram por quinze minutos e depois, me retirando ao trancos do carro me conduziram por compridos corredores. Retiraram meu capuz me jogaram numa solitária escura, sem nenhuma janela. Na penumbra tentei distinguir os detalhes do "ambiente". Eu estava apavorado, claro. Mas pensei : " Vou ficar aqui talvez por muito tempo. Preciso fazer algo, senão vou enlouquecer." Então, procurei nos bolsos alguma coisa e só encontrei um maço de cigarros vazio. Dobrei-o meticulosamente muitas vezes e fiz com ele um papelote, quase um origami. Peguei uma ponta solta de um fio da meia e puxando-o desfiei uns 50cm. Cortando o fio com os dentes, amarrei o papelote, e ficando de pé no leito de cimento, prendi a outra ponta numa pequena rachadura no teto, fazendo uma espécie de móbile. Então, comecei a examinar a cela na penumbra, olhando muito de perto as paredes cobertas de inscrições, rabiscos e desenhos, alguns feitos provavelmente com sangue, eu percebi. Nada alentador. Decorada a minha cela, sentei-me no chão em posição de lotus e tentei meditar..."

"Passados uma meia hora, abriu-se subitamente o postigo, uma fresta estreita na horizontal na porta de ferro, e apareceu o rosto de um velhote de grandes bigodes de foca, com olhinhos maliciosos mas não maus, até humanos, eu percebi. Por alguma razão eu me senti em boas mãos. Ele me olhou um pouco e perguntou: "Hei, rapaz, porque é que você está aqui? O que é que você fez?" E eu: "Nada. Não fiz nada. Acho que é porque sou poeta... " Ele fechando um olho exclamou: "Poeta? Hiiiii..." E fez jocosamente aquele gesto obsceno com as mãos: top top. Fechou o postigo. Dali a uns segundos abriu novamente o postigo e perguntou: "Poeta, está com fome?" Surpreso eu respondi: "Estou." Ele fez um gesto de espera, com a palma da mão. Fechou o postigo. Passados uns cinco minutos, abriu-se novamente o postigo e o velho me passou pela fresta, com alguma dificuldade, um caprichado sanduíche de presunto, queijo e tomate, atravessado carinhosamente por um palito com uma azeitona espetada em cima. Deduzi que fora coletado aos poucos com contribuições das celas ao lado. Agradeci ao meu bom carcereiro e comi com prazer. Voltei a meditar, agora com alguma esperança... "
Passados mais um alguns minutos, uma voz no corredor gritou alto: "HEI, VOCÊ AÍ NO FUNDÃO! QUEM É VOCÊ? Eu respondi também gritando: "EU? SOU UM POETA!" Uns poucos segundos e novo grito: "POETA! MANDA O POEMA! " Comecei a declamar alto um poema meu:

"Sou um poeta, vago-simpático

meio lunático, psicopático;

sou um poeta de um povo angélico

triste, famélico psicodélico.

Sonho em colorido meu povo sofrido

ganhando um estojo de tintas berrantes

e o que era antes miséria e desgraça

renasce com graça coberto de flores.

Todo mundo pintado, contente da vida,

de fantasia o ano inteirinho..."

..................................................

E continuei declamando o poema até o fim. Quando terminei fez-se um silêncio de alguns segundos e começaram estalidos de dedos, ritmados, como uma ovação em código, crescente, longamente.... e um grito: "BRAVO, POETA!"

As lágrimas me começaram a escorrer..."
................................................................
Passado o dia e uma das mais negras noites da minha vida, na manhã seguinte a cela se abriu, vieram me buscar para interrogatório. 


Fui levado a uma sala que não era propriamente a sala de tortura que eu imaginava e temia. Não. Era a própria sala do delegado sentado à sua mesa, com uma cadeira na frente dela onde fui "convidado" a sentar a um gesto seu. Em cima da mesa estavam meus manuscritos empilhados e um exemplar do meu livro de poemas publicado, no centro, em frente ao delegado. Havia um ventilador à sua esquerda e até mesmo uma estante de livros atrás, com muitos volumes. Ao meu lado permaneceu de pé um agente carrancudo, homem enorme, verdadeiro armário. O delegado me olhou longamente, com ar de enfado, com os cotovelos na mesa, as mãos postas. Depois de um silêncio que me pareceu muito longo, ele falou:
"Então você é o poeta, hem!... Hummm... não tenho paciência, não vou perder meu tempo. Sabe o que a gente faz com poetas aqui? Não? A gente enterra aqui mesmo no quintal e cimenta. Tá cheio de poetas por aqui... Bem, vamos ver o que o poeta escreve... (abriu o livro numa determinada página que me pareceu marcada com um tira de papel) e leu:
"... o poeta leva seu cão raivoso a passear" . Ah! Ele gosta de passear com o cão raivoso! Sargento! Vamos buscar o nosso cão, que é bastante raivoso para eles darem um passeio! Não? Não. Acho que não dará certo... Esse passeio fazemos às vezes e não acaba bem, faz muita sujeira... Vejamos, outra poesia (abriu noutra página):
"Caminho contra o vento e a porrada do sargento... "
Ah! (exclamou o delegado) "Ele caminha contra o vento! Sargento, liga o ventilador e arma a porrada. O poeta vai caminhar contra! "
O sargento ligou o ventilador e ergueu o braço e o enorme punho fechado no ar."
"Fui levado a uma sala que não era propriamente a sala de tortura que eu imaginava e temia. Não. Era a própria sala do delegado sentado à sua mesa, com uma cadeira na frente dela onde fui "convidado" a sentar a um gesto seu. Em cima da mesa estavam meus manuscritos empilhados e um exemplar do meu livro de poemas publicado, no centro, em frente ao delegado. Havia um ventilador à sua esquerda e até mesmo uma estante de livros atrás, com muitos volumes. Ao meu lado permaneceu de pé um agente carrancudo, homem enorme, verdadeiro armário. O delegado me olhou longamente, com ar de enfado, com os cotovelos na mesa, as mãos postas. Depois de um silêncio que me pareceu muito longo, ele falou:
"Então você é o poeta, hem!... Hummm... não tenho paciência, não vou perder meu tempo. Sabe o que a gente faz com poetas aqui? Não? A gente enterra aqui mesmo no quintal e cimenta. Tá cheio de poetas por aqui... Bem, vamos ver o que o poeta escreve... (abriu o livro numa determinada página que me pareceu marcada com um tira de papel) e leu:
"... o poeta leva seu cão raivoso a passear" . Ah! Ele gosta de passear com o cão raivoso! Sargento! Vamos buscar o nosso cão, que é bastante raivoso para eles darem um passeio! Não? Não. Acho que não dará certo... Esse passeio fazemos às vezes e não acaba bem, faz muita sujeira... Vejamos, outra poesia (abriu noutra página):
"Caminho contra o vento e a porrada do sargento... "
Ah! (exclamou o delegado) "Ele caminha contra o vento! Sargento, liga o ventilador e arma a porrada. O poeta vai caminhar contra! "
O sargento ligou o ventilador e ergueu o braço e o enorme punho fechado no ar.
Eu gelei. Fechei os olhos. Mas nada aconteceu. Abri os olhos e acho que os arregalei. O delegado soltou uma gargalhada sinistra enquanto o "sargento" voltava lentamente à sua posição normal, de braços cruzados, ao meu lado. O delegado estancou de súbito a sua risada e, sem transição, fechou a cara. Disse: "Chega! Já cansei. Tire esse cara daqui. " E fui levado de volta, quase arrastado.
Entretanto, Guilherme, não me levaram para o "fundão", mas para uma grande cela coletiva, onde estavam os "companheiros", já bastante ambientados e organizados, com regras de convívio coletivo, turnos alternados de usos das melhores camas, e até um fogãozinho jacaré onde eles mesmo faziam comida! Era a cela dos "cabeça", os intelectuais. Me receberam muito bem, com muita camaradagem, como se eu fosse um ativista como eles. Faziam muitas brincadeiras uns com os outros e riam muito. Dai pra diante a coisa melhoraria um pouco, se não fosse o fato de, de vez em quando virem agentes armados buscar algum companheiro, que não voltava mais. Nessas ocasiões se fazia um protesto ruidoso e depois um silêncio na cela que durava uma hora. Mas quando se sabia que um companheiro era buscado para ser solto (não sei como eles sabiam distinguir isso) , quando este se despedia emocionado, de todos, abraçando cada um, saía acompanhado de um alto coro de todos, cantando os versos imortais de Caymmi :


"Minha jangada vai partir por mar,
Vou trabalhar meu bem querer.
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
um peixe bom eu vou trazer.
Meus companheiros também vão voltar
e a Deus do céu vamos agradecer.. "



Era de chorar, Guilherme. Pelo menos eu chorei, da primeira vez que aconteceu...
Um dia me buscaram, eu não sabia para quê, temi o pior, mas fui apenas colocado na frente de um rapaz que reconheci com dificuldade ter conhecido superficialmente numa festa. Ele estava quase irreconhecível, com o rosto coberto de hematomas. Mas fomos apenas acareados e o rapaz declarou ser eu inocente, apenas tendo tido um papo superficial comigo naquela festa, sem nunca mais termos nos visto. Fui levado de volta à cela coletiva, e não soube mais daquele pobre rapaz.
Assim se passaram muitos dias, perdi a conta, depois soube que foram apenas dez. Chegou o dia em que me buscaram na cela e para minha própria despedida emocionada os companheiros entoaram em coro os versos do pescador...
Fui libertado e não acreditava... Como? Devolveram até meus livros e manuscritos, e voltei para o meu hotelzinho espelunca. E fiquei sentado na cama, atônito por um dia inteiro, me pareceu. Então me lembrei de vocês, meus amigos, e estou aqui... " 



Elisa e e e ficamos tremendamente impressionados com a narrativa do nosso amigo, e emocionados, claro. Então eu disse a ele:
"Olhe, você não sabe mas foi salvo e solto pelo advogado dr Idel Aronis, e nós temos que ir lá, juntos, agradecer a ele. Ele vai ficar muito contente com isso e em conhecer você pessoalmente, garanto. ´Vou telefonar para ele para marcarmos hora. Pode ser?
O poeta ficou surpreso, entendeu naquele momento porquê foi solto. Ficou perplexo e disse: "Sim, claro, vamos lá logo, o mais cedo possível. Eu não sabia... "
E ficou me olhando, constrangido... me pareceu.
Marcada a hora por telefone com o dr Idel, nos encontramos no dia seguinte, os três, na sala dele do seu escritório de advocacia. Foi um momento muito emocionado, em que nós dois fomos abraçados pelo grande advogado, homem alto e forte, que se declarou enormemente gratificado com o desfecho de tudo aquilo, sobretudo com o privilégio, como ele disse, de salvar um poeta.
A propósito, quando procurei o dr Idel, quando me dei conta do perigo que o meu amigo corria, eu lhe disse que não tinha dinheiro para pagar os seus inestimáveis serviços e perguntei se ele aceitaria um quadro meu em pagamento. O dr Idel respondeu: " Claro, meu amigo, eu adoro arte e aprecio muito as suas obras, que noto por aí nas galerias, desde que o conheci em 1965 naquele episódio do porte de arma, que por sinal não sei como acabou, pois você só reapareceu agora, com este caso. Eu coleciono quadros e frequento os leilões da Collectio e quase arrematei um dia uma tela sua lá."


Ouvindo isso eu prometi ao dr Idel Aronis, um quadro a óleo meu em agradecimento. Isto se tornaria um outro "caso", que contarei nas minhas Memórias, certamente, algum dia.
Quanto ao poeta, retomamos a nossa amizade, que a propósito, nunca mais foi a mesma, pois percebi daí por diante, um certo retraimento na atitude do poeta em relação a mim, uma espécie de constrangimento, infelizmente, que não me atrevo a interpretar...
O Poeta fez um grande carreira, se tornou famoso (talvez menos do que merece) e teve recentemente suas Obras Completas publicadas em muitos volumes por uma grande Editora. Está hoje com 80 anos, e permanece muito magro e jovem de espírito. Devo finalizar dizendo que este caso também me foi muito gratificante, tanto mais que se trata de um grande poeta, mesmo, enorme, que escreve em prosa e verso como um deus da escrita. Daqueles poucos que aparecem em cada geração,
 conquanto sua crença idealista num utópico socialismo revele uma certa ingenuidade, o que não chega a ser um pecado num tão grande poeta.


FIM


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