Nesta minha Oscar Freire envelheço e por causa da Internet não posso dizer como Mario de Andrade da sua Lopes Chaves, que "nem sei quem foi"... Entretanto me acompanha igual perplexidade, não tanto pela lenta metamorfose das paredes, das vitrines e das calçadas, mas pelo visível envelhecimento dos seguranças dessas lojas, que me denunciam o meu próprio envelhecimento. Também o desaparecimento de certos personagens, como o meu vizinho de meia idade, homem baixinho e gordo, que por longo tempo empurrou a cadeira de rodas de um seu decrépito e visivelmente atrabiliário irmão, até que desapareceram, quase imperceptivelmente, a cadeira e o irmão. Então fui interceptado na calçada durante anos pelo baixinho (que também envelhecia lentamente) com seu andar lento e pesado, com uma indefectível bolsa estilo anos 60 a tiracolo, para me mostrar um caderninho sem pauta onde ele aplicadamente desenhava mal e escrevia coisas que, cheio de deferência, me chamando de "professor", submetia à minha constrangida apreciação. Também ele sumiu, afinal, um dia, e fiquei sabendo pelo meu envelhecido porteiro, que o baixinho se deteriorara de uma maneira terrível, se desfazendo aos poucos, literalmente, em pedaços... Assim também as notícias de falecimentos de artistas de minha geração, que se vão inexoravelmente, dois ou três por ano, e são lembrados com respeito nos dois ou três primeiros meses... Tudo passa, "o tempo voa" e nos agarramos na aba de sua velha casaca, ou simplesmente desenhamos nos nossos caderninhos sem pauta, para mostrar aos nossos vizinhos, os outros seres humanos, para que aprovem, talvez para que se lembrem um dia, de nós....
quarta-feira, 22 de março de 2017
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