terça-feira, 30 de maio de 2017

"Seis graus de aproximação" (crônica de Guilherme de Faria)


Ontem foi aniversário do meu filho mais velho, que passo meses sem ver. Encontrei-o por acaso na rua Augusta, quando eu saía de uma farmácia e ele estava com sua mãe, uma "ex", mãe de três dos meus filhos, e que há muitos anos eu não via. Foi perturbador, emocionante. Os dois sempre tiveram uma relação tumultuada, e vê-los juntos se dirigindo a um cinema, provavelmente na Paulista, foi comovente... Eles estavam adiantados para o horário da sessão e pudemos conversar por uma hora, de pé na frente da Farmácia. Naturalmente começamos a conferir episódios do nosso passado e me dei conta de como nossas visões dos acontecidos não conferiam, a não ser em poucos detalhes mais superficiais. A realidade é subjetiva, assim como os espelhos. Entretanto eu pude ver através de sua pele sofrida, a jovem, quase adolescente que ela fora, e sua beleza, que eu ainda reconhecia, apesar de tudo. Meu filho, cuja barba começa a branquear lembrou episódios de nossa relação em sua infância, que não me desabonam, e que arrematou me abraçando. Nessa noite custei a dormir, revisando cada minuto de nossa conversa a três. Num certo momento, meu filho tirou de uma sacola os livros que sua mãe lhe dera há pouco, como presente. Tratava-se das Crônicas Completas de Rubem Braga, e ele perguntou se eu o havia conhecido e lido, e se gostava. Sim, eu havia lido algumas num passado remoto, e que mal me lembrava. Quanto a se o tinha conhecido pessoalmente, eu lembrei: "Esse é mais um de que eu tenho pelo menos dois dos "seis graus de aproximação" (possíveis entre todos nós no mundo, teoria matemática ou espiritual, em que acredito). E recordei: " No começo dos anos 90, eu estava com o pintor Siron Franco, saindo da gráfica Ymagos onde ele fora fazer uma litografia para lançar na exposição da novas maravilhosas pinturas que ele estava para inaugurar na Galeria Paulo Vasconcelos. Assim que chegamos na Galeria ele ligou interurbano para o Rubem Braga seu amigo, no Rio, para comunicar e convidar para a sua exposição. A certa altura de sua breve conversa, ele disse: "Advinha com quem estou agora aqui na galeria? Com o Guilherme de Faria! " Esperou um segundo e tapando o bocal me disse: "O Rubem disse: "Aquele, das peladas? Pergunta a ele se ele ........ essa mulherada toda?" Eu soltei uma gargalhada, perdoando, no ato, a vulgaridade jocosa típica do carioca, talvez lisonjeado pelo grande cronista conhecer minha arte.
Afinal o Rubem Braga não tinha como saber que eu jamais tivera modelos, e que desenhava e pintava de imaginação, ou simplesmente a minha própria anima, o que, na verdade, não me poupou de grandes problemas com as mulheres.
Olhei minha ex mulher, e ela abanava a cabeça...
(Guilherme de Faria)

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