"Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso, sou doido com todo direito a sê-lo. Com todo direito a sê-lo, ouviram?"
(Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa).
Se a alguém ocorresse perguntar o que ocorreu com a minha produção de litografias, já que foi tão prolífera e de tanto sucesso durante vinte anos, devo contar uma história: No final dos anos 60 se estabeleceu em São Paulo, primeiramente na rua Urano na Aclimação e depois passando para rua Amália de Noronha, em Pinheiros, um modesto ateliê de litografias, com uma prensa antiga e um pequeno estoque de pedras da Bavária, fundado pelo gaúcho Otávio Pereira, que no começo daquela década tinha ido aos Estados Unidos com a intenção de estudar ballet clássico para se tornar um bailarino profissional. Por alguma razão seu projeto não se realizou, e Otávio, para sobreviver, encontrou emprego de granitador e esponjador no Studio Gemini, de Los Angeles, que naquela época estava empenhado na edições dos artistas da Pop Art, como Robert Rauchemberg, Jasper Johns, Frank Stella e outros como o alemão geométrico Albers, tendo como produtor e editor Garo Andresian que depois dirigiu a Gráfica Tamarindo na Universidade do Novo México. O Otávio Pereira, começando como operário, não tardou a aprender o ofício de impressor, que por si mesmo é quase uma arte porque exige uma certa sensibilidade e um apurado senso de cores.
Voltando ao Brasil, em São Paulo, com um pequeno capital, Otávio começou a procurar uma prensa antiga de litografia e um estoque de pedras da Bavária, para fundar seu ateliê de lito, seu novo sonho e projeto. Começaria ali a segunda saga da litografia no Brasil, já que no século XIX teria havido a primeira, com grandes artistas-cronistas de costumes como Jean-Baptiste Debret, e mais tarde Angelo Agostini.
Para manter o seu Ateliê de Litografias, que ele batizou URANO, por causa da rua, Otávio procurava os artistas mais conhecidos de São Paulo e propunha a eles desenharem nas pedras, e ele, com seu primeiro impressor e um *granitador e *esponjador, o jovem Zé Carlos, ex assistente de coveiro, e também Roberto Giarffi, o "alemão", fariam o processamento e a impressão das tiragens que Otávio dividiria com os artistas, já que estes em geral não tinham dinheiro para pagar esse trabalho, nem teriam meios eficientes de comercializá-lo.
Os primeiros artistas brasileiros dessa fase a utilizarem regularmente o ateliê Urano foram a Maria Bonomi, que já era famosa xilógrafa, o Yvald Granato, pintor e desenhista do Rio de Janeiro, que mudara-se para São Paulo e o Rubens Gershman, também do Rio, mas morando aqui naquela época, e o pintor surrealista Otávio Araujo, Tomoshige Kusuno e outros. Então a gráfica mudou-se para a rua Amália de Noronha, em Pinheiros .
Os artistas dividiam as pequenas tiragens, e a Gráfica Urano não tendo um mercado estabelecido para essas espécie de gravuras vivia na corda bamba, endividada e à beira da falência, principalmente por Otávio ser mais um artista do que um empresário. Então, o quê fazer?
Então Otávio conheceu o empresário Fernando Silva, baiano elegante, culto e rico, colecionador de arte, que morava numa mansão do Jardim Europa, cheia de quadros, e, à propósito, casado com uma linda americana loira natural de olhos verdes amendoados, Katrin, de quem, encomendado por ele pintei um belo retrato a óleo (episódio curioso que um dia contarei em detalhes). Fernando seria o primeiro financiador da gráfica do Otávio mas por poucos anos. Foi nesse tempo o primeiro contato que tive com a Urano e o Otávio, por volta do ano de 1968.
Durante o vernissage de uma exposição individual dos meus desenhos na Galeria Cosme Velho na Alameda Lorena, Fernando e Otávio apareceram e começaram a me "cantar" para fazer litografias na gráfica deles. Tentavam me seduzir dizendo, por exemplo: "Seu desenho tem vocação litográfica, Guilherme. Veja estas aguadas de nanquim, estas texturas... você pode conseguir esses efeitos na pedra, usando "touche" magro, de água (uma espécie de nanquim litográfico), fazendo um "lavis" para essas transparências. E você terá seu desenho multiplicado pela tiragem em edição, e ganhará muito mais dinheiro..." ( Ah! o canto das sereias!... )
Um dia, durante temporada daquela exposição, aceitei ser levado por eles até a Urano, onde eles já tinham uma pedra preparada para mim sobre a mesa. Me deram o touche e eu com o meu pincel de desenho fiz rapidamente um desenho sobre a pedra. Eles correram a processá-la e a tirar uma única prova para me seduzir. Realmente ficou muito boa mas não foi feita tiragem porque eu ainda não estava disposto a me dedicar àquilo. Onde andará aquele exemplar único de minha primeira lito?
Entretanto por incompetência administrativa ou por falta de mercado, a gráfica Urano começou a dar prejuízo e o Fernando Silva desfez a sociedade e abandonou o negócio na mão do Otávio, que endividado faliu, e a prensa e as pedras foram confiscadas pelos credores.
Foi então que o Granato lembrou-se de um colecionador seu amigo do Rio, o Elsio Motta, ex oficial da Marinha que tinha se mudado para São Paulo onde acabara de deixar as Indústrias Pignatari onde ocupara um cargo executivo e saíra com um pequeno capital de indenização que pensava em investir num negócio. Granato apresentou o Elsio ao Otávio e os dois fizeram sociedade na Gráfica que passou a se chamar Ymagos ( que significa Imagem em grego). Elsio pagou as dívidas da gráfica e resgatou a prensa e as pedras. Começaria a nova e grande fase da Gráfica que aos poucos compraria mais prensas e mais pedras da Bavária (chegando mais tarde a importar algumas bem grandes, que vinham de navio). Logo acrescentaria uma molduraria para ter mais autonomia e se chamaria Glatt -Ymagos (Glatt significa vidro em alemão).
Então, em 1970, esta nova dupla apareceu na minha nova exposição de desenhos na Galeria Cosme Velho e renovou seu canto de sereia. Mas eu continuava refratário a essa técnica, pois estava empenhado nos meus desenhos e na pintura a óleo em que eu começara uma nova fase que chamei de "baconiana", já que tinha uma visível influência do pintor inglês Francis Bacon que me impressionara muito. Então, em 1971, casado (pela quarta vez) com Elisa Nazarian (que muitos anos mais tarde, depois de separados, se tornaria notável escritora com vários livros publicados), perdemos nosso primeiro filho com um mês e dez dias e, traumatizados, aceitamos um convite do meu amigo e marchand Giuseppe Baccaro, que solidário, nos convidou para nos mudarmos para Olinda PE, onde ele estava morando, me oferecendo um casarão colonial maravilhoso que ele restaurou pensando em nós, na rua de São Bento, para morarmos gratuitamente e instalar meu ateliê para continuar pintando num novo cenário, belíssimo, que ajudaria a curar nossa depressão. Santo Baccaro! Que saudade desse grande amigo da minha juventude! .
Em 1974 voltei com a família (minha mulher e meus filhos Tamayo e Rhena, que nasceram em Recife) para a minha São Paulo definitivamente, inaugurando em Julho minha exposição individual de óleos da minha "fase baconiana" na Galeria Arte Global, da Rede Globo de Televisão, na Alameda Santos. Durante a montagem ali chegou a dupla Elsio Motta e Otávio, novamente, que tendo proposto à direção da Galeria que lançasse a cada exposição uma litografia do expositor para oferecer um produto mais barato e acessível ao público comum, já que os quadros, pelos altos preços só eram acessíveis a uma elite econômica. A proposta pegou, e eu fui o primeiro a ser envolvido e não tive escapatória. Assinei o contrato triangular para uma edição de lito a ser lançada na minha exposição de pintura, quase como um brinde, baratíssima, praticamente de graça. Fui à gráfica, e tentando evitar concorrência com meus próprios desenhos de nus, lancei sobre a pedra, a pincel e touche, um desenho de um touro das cavernas, em preto e branco, com uma segunda impressão, uma mancha vermelha no peito do animal. Foi um sucesso fenomenal! Tiramos uma edição de 100 exemplares, que eram vendidos na galeria durante a exposição, tão barato que as pessoas tinham direito a adquirir somente uma, colocando seu nome num livro. Acontece que as galerias enviavam funcionárias que compravam e voltavam com outros nomes e no final a galeria liberou e elas saíam com diversos rolos debaixo do braço. O meu touro começou a aparecer à venda nas galerias a preços bem maiores. O público incrivelmente reconhecia meu traço mesmo numa figura de animal e não somente nos nus que me haviam consagrado. Percebi que o mercado tinha fome desse tipo de produto de arte, mais acessível e democrático. Então me rendi e disse ao Elsio e ao Otávio: "Enfileirem dez pedras que vou lá lançar dez imagens de uma vez, em poucos minutos". Como? (eles se espantaram). "Sim" - eu disse- "Vocês me viram desenhar o touro. Meu desenho é zen, gestual , instantâneo, com a mente em branco, ao nível dos reflexos. Aprendi a desenhar a pincel, vendo uma certa cena de filme de esgrima samurai, da vida do *Myamoto Musachi. Tanto faz lutar contra um antagonista como contra uma academia inteira. Enfileirem dez pedras e me deem dois minutos, me observando". Eles retrucaram: "As mesas não são tão longas, cabem cinco pedras. Serve?" Sim, vamos lá!" - eu disse.
Logo eu estaria assinando as primeiras cinco edições de litos com os meus nus da fase dos corpetes, semelhantes aos meus desenhos originais da fase de sucesso nascida em 1964.Desde o princípio Elsio contaria com a preciosa colaboração de sua paciente esposa Anália (a Analita) que faria a limpeza e supervisão de milhares de tiragens inteiras e de sua filha Patricia Motta, a herdeira da Ymagos e sua única grande diretora e impulsionadora nas últimas décadas.
Começou assim a festa da gravura que para mim durou vinte anos (de 1974 a 1995) e quase mil edições.
Muita coisa ocorreu durante esse período, claro, referente à fase das litos, que aos poucos contarei futuramente.
FIM
Notas
* "granitador" é uma operário que lixa as pedras litográficas com um pó carborundum (um esmeril com diferentes números de grão de polimento ), com água, e girando uma pedra sobre a já desenhada e editada, com a mão ou com um rebolo elétrico com outra pedra de lito com a face lisa para baixo, sempre com o pó de esmeril , gastando uma fração de milímetro para a pedra ficar pronta para se fazer um novo desenho por outro artista ou pelo mesmo. As pedras são de uso comum aos diversos artistas, e a cada tiragem a matriz tem que assim ser limpa e quase polida para um receber um novo desenho com materiais gordurosos.
Quanto ao * "esponjador", é um operário que fica do outro lado da prensa, oposto ao do impressor, esponjando a pedra desenhada já preparada quimicamente com uma mistura de goma arábica e ácido nítrico e com o pigmento preto dos crayons litográficos já lavados por um solvente, e assim o desenho ficando só como um fantasma de gordura. para manter a pedra úmida por igual por causa da goma arábica que não sai com o solvente, para o impressor passar varias vezes sobre a pedra o rolo entintado. A água repele gordura e gordura atrai gordura. Assim, a superfície úmida repele a tinta do rolo e não se suja, e onde o artista desenhou, a gordura saponificada pelo acido nítrico atrai a tinta do rolo e o desenho aflora entintado. Coloca-se o papel por cima, depois uma placa fórmica engraxada por cima da folha e desce- se a alavanca da ratora da prensa e o impressor gira a manivela, a mesa corre sob a ratora, sob enorme pressão. Levantas-e a ratora e puxa-se a mesa que corre solta de volta. Tira-se a placa de fórmica e depois com dois dedos levanta-se por uma ponta da folha delicadamente com o primeiro exemplar impresso. Repete-se este processo quantas vezes for a tiragem combinada.
*Myamoto Musachi. - foi o maior samurai do Japão, histórico, real, mas que se tornou quase mítico, criador do "estilo duas espadas". Os japoneses fizeram inúmeros filmes sobre sua vida e seus inúmeros duelos que se tornaram lendários (na verdade bem documentados). A visão de uma determinada cena de esgrima samurai, na forma de koan (pequena fábula zen) em um desses filmes me produziu um "satori" ( espécie de iluminação que me ensinou a desenhar com um pincel nacional longo, da Tigre, de poucas cerdas muito longas, finíssimo, na vertical como um calígrafo japonês produzindo as linhas moduladas que sugerem os volumes, eu de pé, gestualmente, com a mente em branco, ao nível dos reflexos do espírito. O desenho nasce fluido e espontâneo, frente aos olhos dos espectadores, perfeito, sem modelo nem esboços, retomadas ou rasuras, definitivo, sem nunca perder uma folha do precioso e caro papel Shoeller alemão.
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