domingo, 4 de fevereiro de 2018

O direito de ser pobre



"Vou lhes confidenciar, meus amigos, algo que pode causar estranheza, ou mesmo incredulidade: Apesar de quando jovem pintor razoavelmente reconhecido, ter sido considerado bonito, eu prefiro muito mais a minha atual condição de velho cheio de mazelas físicas e até mesmo um certo e preocupante declínio da visão. Absurdo? Por que? Porque quando jovem eu sentia um desconforto existencial permanente, como se não coubesse bem na minha pele. Sempre sonhei com ser um velho pintor consagrado e afinal livre das obrigações de lutar desesperadamente e vencer... e devido a um desesperado e renitente sentimento de solidão, ter me levado a arcar com responsabilidades de marido e pai, muito maiores que as minhas forças ou capacidade. Na verdade tudo o que eu queria era ser um artista, um pintor, e secretamente também um escritor. Resultado: fracassei em tudo mais: como pai, marido (não conseguia ser fiel) e provedor (fui à falência financeira ainda na pré-adolescência dos meus filhos). Entretanto, agora, já há duas décadas me sinto livre, mais leve por dentro, embora muito mais pesado por fora, respiração deficiente, uma catarata operada e uma próstata ameaçadora. Adquiri finalmente o sagrado direito de ser pobre. Sinto como se não pudessem me cobrar mais nada, embora alguns filhos ainda o façam de longe, presos, uns, num ressentimento triste, talvez legítimo. Apesar de tudo, garanto: é tão bom poder somente pintar, e purgar na escrita os erros da juventude, redescobrindo seu sentido e até mesmo sua poesia, então passada despercebida ou negligenciada em sua beleza e plenitude. Compreendo agora a afirmação do Riobaldo, narrador, já velho, cheio de espantosas memórias, no Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa: "....mas, juventude, é tarefa pra mais tarde se desmentir..."


(das Memórias de Guilherme de Faria)

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