sexta-feira, 14 de setembro de 2018

LEMBRANÇAS DE JUVENTUDE


Em Julho de 1974, eu recém-retornado de Olinda PE onde vivera por três anos com minha quarta mulher Elisa (e onde nasceram dois dos meus cinco filhos), o cantor e compositor Raimundo Fagner apareceu junto com a Amelinha, cantora e sua companheira na época, na minha Exposição individual de pinturas da minha fase baconiana, na Galeria Arte Global (da Rede Globo). Fagner estava no início de seu sucesso tendo uma composição sua sido gravada pela Elis Regina. Ele gostou tanto da minha arte que me declarou isso e em seguida anunciou alto que queria me homenagear cantando duas músicas suas, e o fez ao violão no meio da Galeria em pleno vernissage. Me lembro bem que ele cantou maravilhosamente "Baton Moderno" (impressionante) e "As Velas do Mucuripe"( linda, recém-gravada pela Elis). Foi muito aplaudido por todos, e entusiasticamente por mim, claro. Uma hora depois me chamou de lado e disse: "Guilherme, aqui está cheio de burguês, você não quer sair conosco, que queremos cantar mais para você?" Topei imediatamente, claro, lisonjeado, e saí da Galeria com eles, abandonando os últimos visitantes, pegamos um táxi e tocamos para o centro, onde, num prédio decadente, ele abriu a porta de um ap decrépito, sem móveis e sem luz, pegou na caixa de fusíveis um toco de vela e sentou-se com o violão numa poltrona esfarrapada ( a Amelinha sentou-se no braço da poltrona) e eu, na frente deles num banquinho de três pernas, e cantaram para mim, na penumbra, o repertório maravilhoso deles. Lembro-me bem do deslumbramento que fiquei com a Amelinha cantando "Mulher nova, bonita e carinhosa" (... faz o homem gemer sem sentir dor") . No dia seguinte os dois apareceram no meu ateliê na rua Alves Guimarães, em Pinheiros, e mostrei a eles meus desenhos (se bem me lembro presenteei a eles dois desenhos meus). Depois foram embora e nunca mais os vi. Mas acompanhei a gloriosa carreira deles à distância. Saudades...
 (das Memórias de Guilherme de Faria)

Nenhum comentário: