quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A Herdeira de Rivera (crônica de Guilherme de Faria)

(Crônica sobre fatos absolutamente verdadeiros escrita em 1965, e que faz parte do meu livro inédito entitulado "O Navio sob os Telhados")



Recebo em meu ateliê uma moça que foi notícia em todos os jornais e revistas alguns meses atrás.
Ela entra com um minúsculo chiuáua parecendo um mosquito, com grandes olhos assustados, debaixo do braço, como um apêndice saindo-lhe das costelas. Cumprimenta-me rapidamente e logo diz, como crítica, tentando ser sofisticada:
— Seu ateliê é muito arrumadinho, não tem aquela bagunça maravilhosa e a sujeira que vi nos dos outros artistas.
Considerei a frase antipática, mas logo percebi tratar-se de uma moça simplória que não estava à altura de suas próprias circunstâncias.
No entanto não podia ficar sem resposta e, fazendo um esforço para não parecer blasé, disse-lhe com candura:
— Leonardo da Vinci, que sempre me inspirou como figura, diante de um Michelangelo sujo de pó de mármore e vestido com um burel disse: “A pintura é uma arte limpa. Pinto sempre com as minhas melhores roupas”.
A visitante piscou um pouco, ficou um segundo com o olhar parado e logo pudemos entabular uma conversação. Eis sua história somadas as notícias do jornal aos relatos de sua viva voz.
Era uma moça comum, da classe média, interiorana. Morava em Taubaté, onde crescera e fora criada mais pela sua avó do que por sua mãe. Sua mãe tinha traços nitidamente mestiços e sua avó era completamente índia. Ela própria herdara esses traços que a desagradavam na infância, por um certo preconceito seu e das outras crianças. Todavia tinha sido uma criança comum, normal mesmo. Sua mãe morreu-lhe cedo, ainda na infância. Mulher estranha, triste, era exótica em sua beleza morena mas nitidamente estrangeira. Sua avó então a criou naquele pequeno sobrado geminado, que continha um inesperado sótão.
Afinal, no leito de morte, a avó chamou a menina e disse: “Cristina, devo revelar-lhe um segredo, talvez um tesouro a que você tem direito. No quarto de costura, aqui em cima tem uma pequena escada levadiça que nós nunca baixamos. Agora você o fará. Suba por essa escadinha e encontrará uma pequena porta que dá para o sótão da casa, na verdade um pouco mais que um simples forro, empoeirado. Ali você encontrará uma grande arca, abra-a com alguma ferramenta, pois está trancada a chave, que se perdeu, mas com cuidado para não danificar nada. Nela está a sua herança, o tesouro que poderá mudar a sua vida”.
Pouco depois de ter dito isso, a velha índia entrou em agonia e morreu. A moça, minha visitante, refreou a curiosidade, chorou muito, velou o cadáver da avó, recebeu as poucas visitas no velório e, depois do enterro, foi àquele quarto, baixou a escadinha, na qual pouco reparara em sua infância medíocre, e subiu-a em grande expectativa. Entrou no sótão escuro e empoeirado, encontrou uma lâmpada pendurada com um interruptor no bocal e, acendendo-a, viu-se diante da misteriosa arca, de aspecto colonial. Estava fechada, teve de arrombá-la com um cano de ferro improvisado em pé de cabra, com um esforço que lhe consumiu vários dias. O mistério e sua curiosidade cresciam. Afinal, conseguiu e, perplexa, encontrou dentro uma pilha de papéis, de vários tamanhos. Eram aquarelas e desenhos que lhe pareceram toscos e muito exóticos, se bem que essa palavra não lhe ocorreu. Era uma moça demasiado simples e comum.
Havia também algumas pinturas sobre telas sem chassis, enroladas. Como não encontrou dinheiro, ouro ou qualquer coisa assim, decepcionada, desceu e ficou de olho parado dois dias. Depois contou a uma amiga mais esperta o acontecido e esta lhe aconselhou a procurar o velho pintor Clovis Graciano, que tinha ateliê na cidade. Ela o fez e, para sua surpresa, depois de algumas perguntas, o pintor ficou muito excitado e curioso. Foram juntos ao sótão. Clovis Graciano, folheando os desenhos e desenrolando as telas à luz mortiça da fraca lâmpada do sótão, estava estupefato, não podia crer no que via. Disse: “Menina, você não imagina o que tem aqui. Estas são obras originais e inéditas do grande Diego Rivera, pintor maravilhosos, afamadíssimo, que é uma espécie de Picasso do México. Como isto veio parar aqui?
Diante de seu silêncio, Graciano olhou bem a moça e logo deduziu algo. Perguntou por sua mãe e, após uma enquete verbal, disse-lhe: “Minha filha, sua mãe é mexicana. Deve ter sido muito próxima de Diego Rivera. Desculpe-me, você conhece seu pai? Sua mãe vivia sozinha aqui com você e sua avó? Bem, vamos revirar os guardados de sua avó. Talvez achemos pistas”.
Dito isso, Clovis e a moça passaram dias revirando as gavetas, arcas e armários que existiam pela casa. Após uma grande pesquisa, olhando fotos, álbuns de família, recortes de jornais e alguns livros em espanhol, Clovis chegou à seguinte conclusão: a mãe de Cristina tinha sido uma mulher belíssima na juventude e fora uma das inúmeras modelos e amantes de Diego Rivera (o grandalhão e gordo pintor, feio como um grande sapo, era irresistível às mulheres, por seu radioso talento e seu charme indescritível). Rivera, como era seu costume, ao longo de sua relação com a moça, que ele deve ter amado, presenteou-a com inúmeros desenhos, aquarelas e algumas telas, tendo notadamente, em muitas dessas obras, a própria amante como modelo. Mas havia muitas outras de interesse mais geral, como cenas mexicanas típicas, algumas épicas e até desenhos eróticos. A mãe de Cristina escondera isso tudo cuidadosamente, mesmo quando, caso terminado, se afastou do pintor e casou-se mais tarde com alguém que Cristina nunca conheceu, nem ouviu falar por alguma secreta razão. A mãe tinha vindo parar com a criança de colo no Brasil, por razões desconhecidas, junto com a avó materna da criança, estabeleceram-se em Taubaté, onde criaram a menina com simplicidade e esforço, mas com alguns recursos misteriosos, segundo pareceu ao pintor Graciano.
O pintor entrou em contato com jornalistas e deu a espantosa notícia que repercutiu em todas as revistas e jornais importantes do país. Contactou também a galeria da velha marchand sua amiga, em que eu coincidentemente fizera minha estréia. Assim eu conhecera Cristina durante a montagem da exposição de Rivera.
A notícia estourou como uma bomba no marasmo cultural daquela época, no que se referia a eventos internacionais entre nós. Resultado: o governo mexicano, através de sua embaixada, diante da notícia sensacional da história do tesouro de Rivera que ia ser vendido no Brasil, fez uma tentativa frustrada de embargar as obras e confiscá-las, alegando pertencerem ao patrimônio histórico e cultural do México. Não pegou. Juridicamente, legalmente, as obras eram da pequena herdeira, que os jornais tentaram glamourizar, mas sem grande sucesso, pois o fato transcendia em muito a personagem secundária e opaca.
Entretanto aconteceu um fato romanesco, pois a estréia da exposição que atraiu os maiores compradores brasileiros e internacionais (vieram do México e dos Estados Unidos grandes colecionadores de Rivera), Cristina recebeu uma carta proveniente da cidade do México, que dizia espantosamente alguma coisa como isso (em espanhol, é claro):
Minha filha desconhecida. Sou fulano de tal, seu pai verdadeiro. Tinha perdido a pista de seu paradeiro, quando o destino nos separou e todos esses anos me perguntei onde estaria o pequeno bebê que vi poucas vezes nos braços de sua mãe. Quero abrir-lhe meus braços, minha pequena, minha filha agora reencontrada. Venha ao meu encontro aqui, nesta casa que será a sua, nesta Cidade do México. Eu já lhe quero bem, e lhe aguardo.
Seu pai,
Fulano de Tal
Ministro do Comércio do Governo do México
Rua tal, número tal, telefone etc.

Cristina ficou curiosa e esperançosa. Como toda moça, sempre sonhara com um pai. Lá foi ela para o México com uma pequena fortuna da venda das obras da Exposição que fora um sucesso.
Na Cidade do México, tendo avisado ao pai o dia e a hora de sua chegada ao aeroporto, foi recebida por um motorista uniformizado e com uma tabuleta na mão com o nome de Cristina, e uma multidão de fotógrafos e jornalistas, em meio ao espocar dos flashes. Com dificuldade, diante do empurra-empurra e dos microfones e gravadores, na tentativa de entrevistá-la, falou algumas bobagens, pois era na verdade bastante tola. Entrou num Rolls Royce maravilhoso, que partiu em correria para despistar os paparazzi mexicanos.
O carrão entrou por bairros cada vez mais caros e elitistas, até entrar numa zona de absoluto esplendor, onde não havia menos que palácios em grandes áreas arborizadas. Parou diante de um verdadeiro castelo ou palácio real. Cristina saltou do carro e foi recebida por um mordomo diante de uma porta portentosa no alto de uma breve mas larga escadaria. Entrou por um vestíbulo colossal, salões, salas etc., até um escritório biblioteca, onde a esperava, disfarçando-se de ocupadíssimo, um homem alto, aristocrático, num terno maravilhoso, bem conservado, de têmporas brancas e um bigode aparado, nada mexicano. Abriu-lhe os braços exclamando: “Bien venida a su casa, hija mia”, ou coisa que o valha.
Bem, não vou me estender mais nos detalhes dessa novela mexicana. O fato é que Cristina ficou ali e se passaram vários meses em que viu-se no meio de regras e horários muito rígidos, em meio a governantas soturnas, preceptoras, estudos e orações obrigatórias, uma multidão de empregados, muito poucos de origem índia verdadeira. Parecia estar na Inglaterra, não fosse a língua espanhola vigente.
Um dia, afinal, não agüentando mais essa regime, a pequena prisioneira, que tinha sido criada como uma típica moça de cidade de interior brasileiro, resolveu dar uma escapada. Conseguiu descer do carro em meio a uma rua movimentada no caminho da escola e fugiu do motorista, enveredando por uma colorida e fascinante feira popular. Os índios feirantes, em suas roupas coloridas, a atraíam. Diante de uma barraca, foi abordada por um jovem, uma espécie de hippie, brasileiro por coincidência, e, cativada por sua simpatia e afinidade, convidou-o a tomar chá com ela no palácio, com a intenção de diverti-lo e deslumbrá-lo. Voltou com ele para o carro, onde o motorista a esperava preocupado. Não o deixou manifestar-se ao ver-lhe a cara perplexa diante do hippie colorido e molambento, e com um gesto e palavras imperiosas de comando, ordenou-lhe tocar para o palácio.
Bem, vou encurtar a história. Não entrarei em detalhes quanto às reações do rapaz, muito natural e nada deslumbrado na verdade, como autêntico hippie contestador que era. Só preciso descrever a reação do pai de Cristina, o ministro que, voltando inesperadamente para casa, deparou-se com o casal sentado no chão em posição de lótus, tomando chá um em frente ao outro, rindo descontraidamente e palrando agradavelmente, na maior inocência.
O ministro, vermelho, indignado, espumando de cólera, despejou uma catilinária castelhana de fazer tremer as colunas senhoriais do pórtico de seu palácio. Coisas como: “Indigna! prostituta maldita! Como ousas profanar o meu lar trazendo um mendigo maltrapilho e colorido para dentro destas austeras paredes etc. etc.” Não preciso dizer mais nada, vocês podem imaginar a cena.
O que vocês não poderiam imaginar, foi a reação dos dois, que caíram na gargalhada e, dando de ombros, saíram galhardamente de mãos dadas, como uma intervenção pop no meio de um dramalhão mexicano. Quero somente ressaltar com uma pincelada o rosto quase apoplético em vias de um estouro, à beira de um enfarte, do pomposo ministro anacrônico e extemporâneo. Ufa!! Chega!
Cristina deu as costas a isso tudo e foi viver com o hippie, esbanjando e queimando rapidamente sua pequena fortuna. Os últimos mil dólares foram gastos na compra do cachorrinho chiuáua despelado e degenerado de tanto purismo racial, sintomaticamente simbólico do fechamento de uma etapa de sua vida que não a marcaria quase nada, por inconseqüente e fútil que era. Agora me visitava com o infeliz cachorro trêmulo que não saía do seu colo.
Percebi que a moça mergulhava lenta mas inexoravelmente na obscuridade e anonimato que a esperavam como condição natural de sua natureza medíocre (Deus me perdoe).
Essa bizarra aventura me fez meditar sobre os estranhos “cacos” (no sentido teatral da palavra) que se intrometem no destino singelo das pessoas comuns, que não atinam sequer com o surpreendente, o surreal, o extraordinário, o romanesco de um capítulo insólito nas suas vidas despretensiosas.
Estendeu-me a mão em despedida, dizendo:
— Gostei da sua pintura, mas é muito limpinha e você precisa bagunçar mais o seu ateliê, foi assim que eu vi na Cidade do México.
Sorri e apertei-lhe a mão carinhosamente, porque ela, de um jeito ou de outro, tinha me presenteado com uma fábula. Meu precioso tempo estava pago. Não estou muito certo, neste caso, quanto ao dos meus leitores.

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