sábado, 6 de outubro de 2007

Festa do Divino (de Guilherme de Faria)


O Vale - óleo s/ tela de 50x60cm de Guilherme de Faria, coleção Flávio Pacheco, São Paulo.

Festa do Divino

(Conto sobre fatos autobiográficos e pertencente ao meu livro de contos inédito entitulado "O Navio sob os telhados", escrito entre 1965 e 1975)

Estou andando há horas pela estrada. Deixei o ônibus numa encruzilhada, pois a aldeia para onde me encaminho é tão isolada que não há condução pública para ela. Temo que caia a noite e me pegue em meio à caminhada, perdido nesta região estranha para mim. À medida que avanço, pareço recuar no tempo. Pastos, árvores, um belo vale, tudo muito deserto, e uma neblina que já começa a descer ao entardecer. Muito ao longe ainda posso perceber uma colina encimada por uma aldeia com a igreja matriz, maior, bem no topo, mas sem a distinção de tons, parecendo que aldeia e igreja brotam do relevo da colina como um acidente natural dando-lhe o aspecto misterioso de uma ruína.

Acelero o passo para que a névoa da noite não me pegue na estrada. Algumas horas depois subo a encosta da colina em direção à aldeia. Estou tomado pela obsessão desse encontro há algum tempo.

Tudo começou há seis meses, quando em desespero, mandei Ana embora. Ou melhor, deixei-a ir com o poeta que a cortejava, embora nitidamente todo o seu ser pedisse que eu a reclamasse, que lutasse por ela, que a reivindicasse. Não pude. Eu estava esgotado. Meu navio fazia água. Naufragando eu tratava de pegar um pequeno bote salva-vidas sem ligar para mais ninguém. Era como se dissesse: “Vá com ele, salve-se. Um dia nos encontraremos”. Ele era o homem do resgate aéreo: seus pais aceitariam sustentá-los, a ele, poeta e sua escolhida, a mulher de outro, desde que ele abandonasse a Poesia e fosse trabalhar com eles ou como eles. Criariam meu bebê como se fosse dele, o filho pródigo que agora retornava. Eu era o jovem pintor, paupérrimo, em minha primeira falência existencial. Muitas outras se seguiriam. Algumas descidas ao Hades, haveria para mim ao longo de minha atribulada existência.

Naquele momento não podia sustentar ninguém. Pegava madeiras velhas nos terrenos baldios para suporte das minhas pinturas. Fazia com elas, também, móveis: bancos, mesas... a cama. Puxava os encanamentos por fora das paredes, no porão onde habitava, como vísceras à mostra. Eu era o Robinson Crusoe de mim mesmo. Refazia os passos da Humanidade Ancestral. Era preciso fazer tudo com as minhas próprias mãos. Não podia delegar nada. Mais um pouco e eu começaria a caçar ratos para comer. Era preciso. Não havia ainda chegado à era das trocas, muito menos à Era do Dinheiro.

Agora eu caminhava pela ruela, em subida, ao cair da noite, de uma aldeia parada no tempo, com seus habitantes, caipiras parados nas portas e janelas para me ver passar, estranho para eles, com meus cabelos e barba compridos, imagino. Seus olhares inescrutáveis, não revelavam nada, muito menos qualquer simpatia. Eu caminhava como o forasteiro que chega, mas contrafeito, tentando manter o passo seguro, observado de janela em janela até chegar a uma casa com a tabuleta “Pensão”, no fim da rua por onde entrara e bem perto da matriz no alto do morro. Entrei numa casa escura, térrea, de teto muito alto, iluminada com lâmpadas fraquíssimas, de uma tristeza e vazio atrozes, parecia-me. Registrei-me. Entrei no quarto e preparei-me para enfrentar a noite, em busca do amanhecer, para então procurar a casa de Ana e o poeta.

A insônia se anunciava. Dispus-me a passar a noite em claro, no silêncio aterrador. Na verdade ouvia-se ao longe um tic-tac de um monstruoso relógio de pêndulo, cães ladravam mais longe ainda, sapos coaxavam, mas o silêncio misterioso persistia. Minha mente repassava os últimos tempos de minha convivência com Ana e a intrusão do poeta em nossas vidas. Seis meses depois de tê-los orgulhosamente expulsado de meu quase sórdido porão, eu estava rendido, derrotado pelo remorso e pela saudade. Ana me parecia uma preciosidade perdida, como a melhor parte de mim mesmo que eu deixara amputar. É claro que eu estava doente, de culpa, de solidão, de insuficiência. Mas o amor não é assim mesmo? Ou pelo menos a paixão, que é sempre mórbida e doentia no final...

Depois de horas de tumulto em minha mente, ouvi as doze badaladas. No relógio de pêndulo da Eternidade, talvez? Foi esse o pensamento que tive, acreditem. Um segundo após, um rojão subiu sibilante e estrondou lá fora. Em seguida, novo silêncio rompido subitamente por uma chicotada seguida do chocalhar de uma matraca que soou como o guiso sinistro de uma cascavel. Começara a lúgubre procissão. Vinda de muito longe, subia em caracol, com uma toada ou cantochão fúnebre, sem palavras: óóó, óóó, óóó...que subia e descia na escala musical, de maneira arcaica, monástica, ancestral, como um lamento de morte, de mil carpideiras, mas de vozes masculinas e graves, entremeado nas pausas pelo estalar de um chicote seguido por aquele chocalho da Cascavel do Mundo.

Eu estava arrepiado, diante da janela fechada. Imóvel, cheio de terríveis presságios. Ao mesmo tempo, curioso, entreabri a veneziana enquanto a procissão passava em frente à minha janela. Pude ver as tochas e os capuzes cônicos altíssimos, os rostos todos cobertos por máscaras trágicas. E o chicote comprido na mão de um deles, que comandava as pausas e o chocalhar das matracas. Os encapuzados, flagelavam-se constantemente e tinham as costas nuas cobertas de sangue. Aterrorizante. Era a noite que antecede a Festa do Divino, depois eu soube.

Durante toda a noite ouvi o cortejo circular pelas ruelas da cidade, subindo e descendo em espiral.

Ainda antes do amanhecer, o lamento distanciou-se abandonando a colina. Resolvi deixar o quarto e subir. Ao lado da Matriz escura, ainda em trevas com os primeiros albores muito longe no horizonte circular, encontrei um mirante natural, uma espécie de pequeno campo no topo da colina. Fiquei ali, de pé, olhando, olhando, fazendo a vista acostumar-se à escuridão para perceber as menores cintilações ou insinuações do branco das coisas deste mundo, fantasmagóricas e lívidas, antes de se colorirem com a chegada plena do sol.

A névoa enchia todo o vale, como um verdadeiro oceano de brumas. Os picos que circundavam o vale, começaram a aparecer, como ilhas no mar branco. Infinitas ilhas flutuantes. A bruma baixava lentamente, milimetricamente. Demorou uma hora para descer ao sopé das montanhas, afinal, cobrindo rasteiramente o vale, até deixar aparecer rios, várzeas, plantações, árvores, pastos e gado esparso. Um cão corria, muito ao longe, eufórico. O sol surgia por trás das montanhas e quando seu disco se destacou por inteiro, rojões partiram, sobressaltando-me. O ar se enchia de alegres estrondos, saudando o Divino Espírito Santo.

Dirigi-me para a casinha cujo número eu levava comigo no bolso. No caminho reparei na comprida mesa, de dezenas de metros, armada ao longo da rua, que serviria para um grande banquete popular, comunitário, do qual, certamente eu não participaria.

Com o coração ansioso e opresso, bati na porta rústica. A voz de Ana se fez ouvir através, perguntando quem era. Hesitei um pouco, antes de responder, emocionado.

Sua voz remeteu-me ao passado, ao momento em que fui buscar nossa filha na casa da avó materna, que assustada, tinha antes se recusado a entregar a criança à própria mãe. O poeta pedira-me que eu resgatasse minha filha para entregá-la à mãe e a ele, para que pudessem partir. Cheguei com o pequeno caminhão de mudanças e fui bem recebido pela mãe de Ana que como uma leoa avó, só entregaria o bebê a mim: o pai.

Disse-lhe que a casa estava pronta( o meu porão, se ela soubesse, nunca habitável ) e que viera buscar as coisas do bebê e as de Ana. Fiz a mudança da tralha toda, enchi o caminhão, encimando tudo com a banheirinha do bebê, e então ela me entregou a criança, com mil recomendações: - “ Vida nova, hem! Juizo! Felicidades pros três! Cuide bem delas!” – ai de mim!..

Parti. Na próxima esquina o poeta esperava por mim, como combinado. Desci do caminhão com meu bebê nos braços. Entreguei-o solenemente a ele. Apertamo-nos as mãos num shake-hands viril e cúmplice. Não dissemos uma palavra. Ele subiu no caminhão e partiu com ela nos braços.

Ana abre a porta, agora, seis meses depois, cheia de surpresa . Não me esperava jamais. – “Você?”

Passei direto por ela e instintivamente achei o quarto de Fedra. Olhei-a atentamente, acordada em seu berço. Como era linda essa criança!... Como isso me comovia agora, apesar de eu já ter tido essa impressão quando do seu nascimento. Seus olhos azuis claros, sua cabecinha perfeita, com o sedoso cabelinho louro... e seus lábios, cheios, marcantes, perfeitamente delineados. Tirei-a do berço e abracei-a ao colo. Minha filha assustou-se e começou a chorar. O choro inquietante dos bebês... dolorido e desconcertante. Não me reconhecera. Ana gentilmente retirou-me a bebê dos braços e a repôs no berço com palavras doces e um suave schhhh... A seguir convidou-me a conversar na cozinha onde prepararia a mamadeira da manhã. O poeta não estava em casa, felizmente.

Olhei-a de perfil diante do fogão. Seu lindo perfil, tão querido... Tudo em volta, tão singelo, a casinha funcional, cotidiana. As mamadeiras sobre a pia. Cada coisa em seu lugar. Doía-me o peito. De repente, percebi o mais terrível. Seu ventre me pareceu bastante proeminente. Ela estava grávida!

Eu chegara tarde demais. Ana estava irremediavelmente perdida para mim.

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( de “O Navio sob os Telhados”, livro de contos de 1965-1974)

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