sábado, 27 de outubro de 2007

A Fênix consumida (conto de Guilherme de Faria)

(do livro O Navio sob os Telhados, escrito em 1975)


O telefone toca em meu ateliê . Apresso-me a atender, visto que a solidão e o isolamento me pesam nestes últimos meses após o término de meu casamento. Sinto-me, perdoem-me o lugar comum, “um cão sem dono .” Estou tremendamente necessitado de companhia feminina. As mulheres, espelho perfeito da alma, equilibram-me a personalidade, adoçando-me a voz e os gestos que, isolados, tendem a ficar estridentes e duros. Bem, vocês sabem...
Para minha imensa surpresa, é Helga ao telefone. Minha querida Helga, amor da minha adolescência , que eu não vejo há vinte e cinco anos. Não esperava jamais que me procurasse. Nada soube dela, de sua vida e amores, após a perda que me infligiu aos dezessete anos, quando abandonado por ela, minha namorada, entrei em profunda melancolia que durara exatos trezentos e sessen ta e cinco dias e quatro horas.
Combinamos encontro no Trevo. Passo um pente nos cabelos que percebo já grisalhos nas têmporas e em expectativa confiante, alegremente pego o elevador, que baixa juntamente com minha memória ao momento do nosso encontro na escola, jovens e inseguros que éramos, num reconhecimento imediato, seguido de crescente paixão de minha parte, pelo menos. A jovem extraordinariamente bela, muito branca, loura, de olhos verdes rasgados, voz sumida e macia, muito suave, pousara os olhos sobre mim e pondo a mão em meu braço, dissera algo que não me lembro mas que ressoa na memória como: “agora não vamos mais nos deixar...” É claro que não deveria ser isso, mas...
Ficávamos em suave idílio pelos corredores da escola, no pátio, na sala de aula, passando bilhetinhos um para o outro. Olhos se procurando a todo momento.
Um dia um professor fez-nos levantar e galantemente dispensou-nos do resto da aula, como um consentimento respeitoso diante de seu reconhecimento da evidência de um fenômeno amoroso raro, naquela escola: uma paixão de adolescentes, que se destacava por uma intensidade pura e romântica. Saímos de mãos dadas, acompanhados de risinhos dos colegas, que não nos pareceram desrespeitosos mas quase ternos. A paixão e a beleza contaminam, atenuadamente, já notaram?
Sento-me à mesa do restaurante e logo em seguida a vejo entrar Era ela! Imediatamente a reconheci em todo o esplendor original. Continuava lindíssima. Abracei-a, segurei-lhe a mão e não mais a desprendi. Olhos nos olhos, “sopramos a antiga chama”, perdoem-me o romantismo gasto. Imediatamente incendiamo-nos e a paixão estava presente novamente. Confessou-me o seu recíproco sentimento de perda ao nos separarmos na escola, sentimento que segundo ela, perdurara. Tudo isso surpreendeu-me muito, pois julgava que ela me deixara por súbito desamor, por alguma incongruência, por falta de verdadeira reciprocidade de sua parte. Enfim, eu sofrera como um cão, frustrado em minha paixão, que acreditei solitária. Que grande mal entendido!..
Levantamo-nos e deixamos o restaurante onde sou muito conhecido e pareceu-me ser seguido por olhares de aprovação dos garçons e do gerente. Já estávamos levitando.
Fomos direto para o meu studio, onde jogamo-nos na cama nus e possuímo-nos ardentemente pela primeira vez. Seu corpo me pareceu deslumbrante , muito branco. Seu sexo, ligeiramente avermelhado como uma boca, encimado por pentelhos dourados, visto que ela era loura verdadeira. Penetrei-a lentamente, pois ela dizia estar “muito fechadinha”, desacostumada (estava viúva há uns dois anos), segundo me contou. Pediu-me que fosse demorado, porque gostava de ficar num estado de “pasta ”, expressão que não me agradou, mas que logo incorporei.
Depois disso, novos encontros, telefonemas, paixão galopante, pacto, planos juras, reencontro total.
Combinamos viver juntos em sua cidade. Ela me apresentaria seus filhos adolescentes. Eles me “amariam”. Nós nos “casaríamos” pela aprovação de todos os seus amigos e parentes. Tinha uma mãe aristocrática segundo me pareceu pela descrição que me fez. Deveria usar chapéus de abas larguíssimas, com véu sobre os olhos e fumar de piteira, segundo imaginei, e essa nos daria a sua benção, estendendo-me a mão enluvada para que eu a beijasse.
Fiz as malas. Minha querida faxineira, preta velha que eu “herdara” da minha ex mulher, pois ganhara sua preferência na partilha, abanava a cabeça, desconsolada. Dizia que eu estava bobo, que era muito precipitado, que eu esperasse um pouco. Entendi mal e disse-lhe que não se preocupasse, que seu salário, estava garantido e que ela continuaria no meu apartamento-estudio, porque eu viveria cá e lá, pôr motivo de trabalho. Na verdade eu já imaginava uma nova vida, vibrante, idílica, num outro mundo, para mim desconhecido, mas que não me assustava. Estava confiante e decidido.
Chegando em sua cidade, tudo me pareceu belo e agradável. Recebeu-me esfuziante e logo me apresentou seus amigos. Todos pareciam encantados conosco e com a nossa história. Ela não se cansava de contar o nosso “reencontro”, com a voz e o olhar de uma menina deslumbrada. Os amigos e parentes dela recebiam-nos com aquele misto de admiração e complacência, que os apaixonados despertam nas pessoas.
Seus filhos: umas “gracinhas”, pareceu-me. Belos adolescentes, duas meninas que faziam doce num tacho, fios de ovos louros como seus cabelos e um rapaz de dezessete anos, alto como uma porta, também louro como um viking, que dava saltos e mergulhava de peito, deslizando no assoalho do apartamento, treinando ininterruptamente o vôlei. Aceitaram-me logo com simpatia. As meninas me cercaram fazendo perguntas doces, nada incisivas. Estavam felizes pela mãe. Tudo muito bom...
Helga então levou-me a conhecer sua mãe. Não precisou apresentar-nos: nos já sabíamos tudo. Pareceu-me exatamente como eu a imaginei, só que mais aristocrática ainda, de uma maneira positiva, “nobre”. Beijei-lhe a mão como eu ensaiara antes na imaginação. Tudo se encaixava...
Após alguns dias em sua cama, com a aceitação dos meninos, ela manifestou o desejo de mudar-se comigo para outro apartamento, para ficarmos mais à vontade e deixar os filhos adolescentes reinarem naquele. O viking, por exemplo, mergulhava cada vez mais a toda hora, dando-nos sustos. E as meninas começavam a engordar a fios de ovos, digo, a olhos vistos.
Ela já encontrara um ap vazio, alguns andares acima. Espaçoso, branco como a virgindade, bem pintado, pronto para receber-nos. Assim ela poderia viver seu grande amor e vigiar os filhos ao mesmo tempo. Afinal, era uma mãe exemplar...
Procuramos a proprietária do ap vago, que morava no mesmo prédio. Uma velhinha simpática, que nos recebeu com carinho, no mesmo diapasão da simpatia geral, e quase adotou-nos como avó. Faria um grande desconto no aluguel, pois fazia questão de alugar para nós, um casal tão abençoado e iluminado. Saímos radiantes , elogiando a velhinha.
Passaram-se alguns dias. Foi marcado o dia e a hora de assinar contrato na Imobiliária. A proprietária já se entendera com o advogado ou corretor dessa firma, que estava nos esperando lá, no centro da cidade. Alguma coisa toldava o olhar de Helga. Estava nervosa. Parece que tivera uma ligeira discussão azeda com o advogado, ao telefone. Este não estava disposto baixar o aluguel achando que nós seduzíramos a sua cliente aproveitando-nos da sua idade avançada e de sua ingenuidade.
Helga entrou tensa na sala. Aquele homem ameaçava sua felicidade, pois o aluguel ficaria inacessível. A funcionária atendente correu a chamar o corretor que apareceu na sala do outro lado do balcão de atendimento. Imediatamente algo aconteceu.
Olhei seu rosto, o do advogado corretor, e vi nitidamente a cabeça rosnante de um lobo, os grandes caninos à mostra na bocarra arreganhada. Mas é preciso que eu diga: não era “como um lobo”, mas “o’’ lobo mesmo, real como uma alucinação. Voltei os olhos para Helga, e oh! horror! Abominação! Oh! mistérios desconcertantes da minha vida! Sua cabeça era a de um Javalí ! Enorme, com os grandes dentes de baixo saindo recurvos dos lados do focinho. Os olhinhos pequenos, vermelhos, faiscando sobre as bochechas enxundiosas, as cerdas eriçadas, rosnando em dueto temível, como uma gorda Walquíria wagneriana diante de um Wolfried.
Sentí-me transfigurar imediatamente numa parede de gelo entre eles dois. Só assim aquilo cessaria, pensei eu. Pelo meu silêncio glacial, pela minha inércia e neutralidade extremas, lançando uma muralha sobre a linha do balcão que separava os dois inimigos constrangedores.
Saímos logo dali. Não houve acordo. Eu estava confuso, consternado e mantinha a cabeça baixa no elevador. À saída, Helga virou-se para mim em pânico, quase gritando:
-“ O que aconteceu?! Você não me ama mais. Seus olhos mudaram! Eu vejo! Que sucedeu? Oh! Meu Deus, você não está mais apaixonado por mim. Eu te perdi! Eu te perdi !” - Ela quase gritava , chamando a atenção dos passantes.
Imediatamente olhei-a nos olhos e oh! seus cabelos louros tinham se tornado brancos. Seus verdes olhos pareciam aguados e pequenos, espremidos na gordura do rosto. Olhei-a inteira e diante dos meus olhos a celulite tomou-a dos pés à cabeça. Toda ela se derretia diante de mim. Gorda, gasta, infeliz, em sua bulemia revelada.
Eu estava consternado, envergonhado e confuso. Baixara os olhos, queria pedir desculpas. Balbuciei algo sobre um cheque afetivo sem fundos que eu sem querer lhe havia passado, mas a imagem infeliz só piorou as coisas. Tentei por outro lado, revelando meu alcoolismo longamente detido, que nos pregara uma peça. Eu devia estar numa bebedeira seca, eu não merecia confiança, era culpado. Não havia nada de errado com ela.
Tudo era inútil. O fenômeno realmente acontecera. Minha mente e meus sentidos me haviam ludibriado antes, mas caíra-me o véu dos olhos e agora o real se havia reinstalado em toda a sua crueldade. E isso eu não poderia dizer-lhe jamais.
Gaguejava desculpas e só queria safar-me dali, sair de sua presença para sempre e refugiar-me no meu pequenino ateliê de onde não sairia mais. Pagar-lhe-ía uma indenização por danos e perdas afetivas. Mandaria um cheque todo mês para pagar-lhe aquele aluguel para que ela pudesse ter seu studio, a salvo das pequenas doceiras dos cabelos de fios de ovos e do Viking mergulhador de assoalho.
Mas estava tudo perdido para nós. A Fênix consumira-se para sempre.

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