sábado, 12 de dezembro de 2015

A secreta razão dos meus nus


"Uma vez, numa entrevista, me perguntaram o porquê da recorrência obsessiva da figura feminina no meu desenho. Na ocasião respondi de maneira genérica, atribuindo à tradição clássica, etc... Mas devo, a esta altura da vida, revelar uma razão mais íntima: três meninas que havia no quarteirão da minha infância urbana, paulistana, que brincavam delicadamente de "amarelinha", na calçada oposta, frente à minha casa, e cuja beleza e feminilidade vi crescer até uma sofisticada adolescência dos anos 60. Que diferença da grosseria dos moleques meus companheiros, brutais no seu machismo instintivo ou incentivado, que me repugnava! Comparativamente, as meninas me pareciam seres superiores, divinos, e essa impressão permaneceu no meu espírito até hoje. Mas por quê o nu?(me perguntariam). Por quê não meninas mesmo, com seus vestidinhos até os joelhos e seus sapatinhos de fivela e verniz, como o faria, por exemplo, o Portinari? Ah! Talvez por causa da maldita libido, que tantos problemas haveria de me causar... Entretanto, reparem: as meninas puras estão lá, nos meus desenhos, veladas pela sua própria e casta nudez, que o meu olhar adulto não logrou profanar..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

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