domingo, 20 de dezembro de 2015

A árvore das bicicletas da minha infância


"Quando eu era um garoto de uns 12 anos, vendo uma porção de bicicletas de outros garotos (nenhum à vista, deviam estar na casa do vizinho) estacionadas sob um grande árvore quase em frente à minha casa, ocorreu-me que seria divertido colocá-las todas penduradas nos galhos da árvore, para causar surpresa e divertimento. Pareceu-me que todos ririam com a graça da cena (eu ainda não pensava em "surrealismo"). Aproveitei a rua estando deserta e com um grande esforço me esfalfei subindo na árvore, alcei e amarrei as pequenas bicicletas com pedaços de cordas, realizando aquela proeza sem que ninguém me visse. Depois entrei em casa e fiquei espreitando pela janela o efeito que aquilo causaria quando os meninos saíssem. Foi uma balburdia! Ninguém achou graça, as mães foram chamadas e a indignação foi geral, às raias do ódio. Eu, escondido, fiquei muito assustado. Uma árvore de bicicletas! Pensava que todos ririam e se divertiriam com a quebra da ordem natural das coisas. Como eu me enganara! Nunca vi um ódio tão grande, as mães e os garotos reagindo àquilo como diante de um crime grave, alguns até chorando. Se soubessem quem fora o autor daquilo, certamente o linchariam, eu senti... Naquele dia, chocado, renunciei ao meu surrealismo latente. O meu bairro, ou o Brasil mesmo, era cartesiano demais, depois eu descobri: herança de Auguste Conte, Ordem e Progresso, ódio à imaginação, mediocridade obrigatória e geral..." (das Memórias de Guilherme de Faria)

Um comentário:

Unknown disse...

Querídissimo amigo Guilherme de Faria mais uma vez estou a apreciar sua arte e a imaginação do grande artista gráfico que es...

Congratulações,mesmo na mais tenra idade esta brincadeira da árvore de bicicletas prova que nos revelamos para a idade adulta aos 12 anos pois esta criativa brincadeira,por ser muito inocente,nunca deveria ter uma reação de ódio e sim de gargalhadas pela piléria que continha...
Paciência,no meu caso também,aos 12 anos já estava a dar os primeiros passos na eletrônica ,minha profissão de vida,pois é precisamos tomar um café juntos de novo e falar sobre arte,vida,criatividade e lamentar a falta de sensibilidade do ser humano que se tornou uma máquina de repetição do óbvio...
Sinto muito!

Aproveitando este espaço estamos, Cida e eu, a desejar boa entrada de ano e
um feliz aniversário que está bem próximo!

Muita saúde,paz,esperança e paciência com tudo e com todos!

Do amigo de sempre

Taglar Dudus