Quando a minha filha mais nova tinha um ano, sua mãe mudou-se provisoriamente para um apartamento na rua Consolação, entre Oscar Freire e Estados Unidos, enquanto seu irmão, pagando o aluguel usava o jeitoso apartamento dela, na mesma quadra, ali perto, para instalar um pequena firma legendadora de filmes VHS. Entretanto nós é que haveríamos de viver uma pequena história de terror. Logo minha filhinha, bebê, começou a adoecer, misteriosamente, e eu as visitando diariamente no novo apartamento, sentia um clima pesado, mais que uma tristeza, aquilo que chamamos de "baixo-astral". Passado pouco mais de um mês, a coisa se tornando perigosa, o pediatra sem descobrir a causa da doença do bebê, eu comecei a insistir para que se mudassem logo dali, que o apartamento era insalubre de algum modo, embora não apresentasse nenhuma mancha de umidade em parte alguma. Minha ex-mulher, preocupada e sentindo também a atmosfera pesada daquele apartamento, afinal pediu de volta ao seu irmão seu antigo ap e começamos a mudança. Retiramos os móveis, e o apartamento já quase vazio, me ocorreu deslocar um sofá que não era nosso, e que já estava ali no lugar adequado para tal, desde a nossa visita de interessados no aluguel, e no qual nos sentávamos para ver televisão. Demos um grito de susto. Ao deslocarmos o sofá vimos na parede atrás dele, a palavra MORTE, nítida, não pintada, mas em relevo do reboco branco estufado, sem qualquer vestígio da causa, pois não havia mofo ou mancha de umidade. Algo de um sinistro extremo que nos apavorou. Chamamos imediatamente o zelador do prédio, e indignados, mostramos aquilo para ele. O zelador sem surpresa respondeu: "É... aqui morou um um senhor estrangeiro, velho, que mal falava nossa língua, com um sotaque alemão, silencioso, completamente solitário, não era visitado por ninguém. Saía só para comprar comida. Um dia os vizinhos notaram que ele não saía há uma semana, e me chamaram. Batemos, ninguém atendia e afinal arrombamos a porta. O senhor estava morto no sofá havia muitos dias ..." Revoltado, eu indaguei :" E o senhor, por quê não nos contou isso quando viemos ver o apartamento, com criança de colo? E o zelador então, respondeu: " No começo contávamos, depois fomos pagos pela proprietária para não revelar, porque os interessados desistiam imediatamente..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
Retornada ao velho apartamento, minha filhinha recobrou a saúde. Quanto a mim, tive provas de que "há mais coisas entre o céu e a terra..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
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