sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Quando eu era jovem frequentava bares, festas e joguei muita conversa fora, embora só me sentasse com artistas e intelectuais. Mas beberrões que éramos, acabávamos nos perdendo em delírios e na névoa alcóolica que se seguia. Quanta vaidade, quanto desespero... Quanta dissipação, como diriam os antigos! Aos poucos, a mente encharcada pelo álcool começou a reclamar e vieram os problemas psíquicos, as depressões, mas sobretudo as angústias. Devo confessar que nesse processo, destruí quatro casamentos. No final de 1976 me internei espontaneamente, contra a vontade da minha terceira esposa, que não via razão para isso (!!), embora, sofredora sem o reconhecer, já tivesse derramado garrafas inteiras na pia. Era eu que não me aguentava mais... Depois de mais duas internações, finalmente aprendi a lição e em Abril de 1981 abandonei definitivamente a bebida e o cigarro, tabagista que também era... Começava uma nova vida, em que, com surpresa notei que não precisava de nenhum aditivo, e que meu desenho, meu traço já consolidado e até precocemente consagrado, nem sequer mudou de qualidade, expressão ou timbre. Como um último baluarte, minha arte não havia sido atingida, e eu não havia comprometido minha reputação, por incrível que pareça. Ao artista se perdoa muita coisa... Quando me confrontei mais tarde com minhas ex, ouvi de cada uma delas (acreditem se quiserem): " Ora, você não é alcoólatra... Você não bebia tanto assim!" Pobres mulheres maravilhosas! Não faziam e não fazem a menor ideia do que é a trajetória interior desastrosa do seu bêbado amado..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

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