
28/01/2007
Há uma semana, estabeleceu-se dentro de um conhecido site literário da Internet uma curiosa polêmica. Tudo começou quando foi publicado, na página da poetisa Alma Welt, um anúncio fúnebre supostamente colocado por sua irmã Lucia Welt Valber, que descrevia a morte, por suicídio, com detalhes de um caráter romanesco e ao mesmo tempo surrealista, com lances bunuelescos, da querida poetisa gaúcha, lá na sua estância no extremo sul do país, por volta de meio-dia do sábado dia 20 de janeiro. Houve uma imediata avalanche de perplexidades, condolências, e também sofrimento real por parte dos verdadeiros fãs. Mais de 200 mensagens, muitas delas insistindo num desmentido tal a surpresa e inconformidade de seus adimiradoras de primeira hora. Mas logo começaram as suspeitas, as insinuações, os venenos e as calúnias. Uma parte crescente de manifestantes protestava contra a notícia “falsa”, pois "se teria descoberto" que Alma Welt era o pseudônimo de alguém e que portanto o seu suicídio seria uma falsificação, ou uma “farsa”(assim consideraram essas pessoas) tanto mais que sob pressão, os editores do site, publicaram no cquadro de avisos a nota de “notícia falsa”. Logo criou-se uma animosidade fantástica, num verdadeiro fenômeno de “joga pedra e outras coisas na Geni”. Esqueceu-se depressa da obra genial da “guria” dos pampas que encantou e instruiu milhares de pessoas durante sete meses e mais de 12.000 leituras computadas através das páginas daquele site, bem como outras tantas deste nosso Leia Livro. É preciso dizer , que eu, que acompanhei o caso de perto, por ser o amigo de Alma que a descobriu no seu exílio paulistano, reparei que as pessoas que manifestavam indignação, por vezes furibunda, não eram os seus leitores habituais, muito menos os seus comentaristas, com exceção de alguns que deixaram cair as suas máscaras, revelando o seu veneno e sua inveja. Tratava-se da habitual revoada de abutres.
Para começar, é preciso que se esclareça o seguinte: as pessoas parecem fazer uma confusão entre os conceitos de pseudônimo e heterônimo. Pseudônimo é um falso nome (como a palavra indica ) atrás do qual o autor se esconde para preservar o seu anonimato pessoal, ao passo que heterônimo, fenômeno bem mais raro, é uma verdadeira entidade espiritual, pois trata-se de um “autor “, com nome, personalidade, biografia e estilo próprios, que se manifesta através do escritor de cuja mão se serve. É quase como uma psicografia, embora não seja o mesmo fenômeno. E é certamente bem mais rara a incidência de casos respeitáveis de heterônimos na História. Ouso dizer que o caso Alma Welt seria um dos mais belos exemplos desse fenômeno, se fosse constatado de maneira cabal tratar-se mesmo de um heterônimo. Porquê digo isso? Porque o nome Alma Welt está respaldado por uma imensa obra literária na sua maioria inédita, mas que pode ser acessada em grande parte, atualmente neste próprio Leia Livro, já que a “guria” foi absurdamente expulsa do outro site a que me refiro. Nunca se viu na História da literatura um caso como esse: um heterônimo ser expulso por, supostamente, pela boca ou palavra de um outro heterônimo, sua própria irmã, ter-se comunicado aos leitores o seu suicídio, descrito com detalhes, aliás de incrível beleza romântica e romanesca, como era sua vida mesma, naquele pampa, no seu casarão, naquela estância gaúcha cercada por um raro vinhedo. É preciso que ressaltemos que a poetisa, acabara de produzir nos últimos trinta dias, 166 sonetos de altíssima qualidade, da sua série pampiana que estavam encantando e entusiasmando seus leitores. Tratava-se uma verdadeira erupção de inspiração, de grande estro reconhecido, pois todos os sonetos tinham encanto, originalidade e imensa beleza, que formavam um conjunto grandioso que esperamos ver e degustar em livro. A “guria” chegava a ser camoniana em alguns momentos, não fosse a intensa verdade de sua própria personalidade feminina e encantadora e seu acento gauchesco em muitos casos. Não é preciso dizer que eu, que já a vinha prefaciando e ilustrando, já me apressei em ilustrar com desenhos coloridos essa série magnífica de sonetos para apresentá-la, com a anuência da família da poetisa, a uma boa Editora. E ademais é preciso considerar que um pseudônimo, se fosse o caso, assim como nasceu, cresceu, tem u ma família, memórias, amores sofrimentos, uma casa , uma estância, cavalos e cachorros ,se correspondeu com amigos e fãs, angustiou-se... teria o direito de se suicidar.
No passado houve casos interessantes de pseudônimos que ficaram célebres, e não me refiro somente ao caso até batido do grande Fernando Pessoa, com seu Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, e Ricardo Reis, entre outros menos citados. Notem que o poeta escrevia prefácios descrevendo como teria, por exemplo, conhecido o engenheiro e poeta Álvaro de Campos na casa do amigo comum e pintor Almada Negreiros, e que teria dito isso e isso, e que aquele teria respondido tal e tal , etc.
Há, também , por exemplo, o caso do escocês James Macpherson(1761-1769), com seus "Cantos de Ossian", que foi lançado como uma grande descoberta “arqueológica”, de um livro de sagas e poemas de um bardo celta da antiguidade, escrito em gaélico, e que traduzidas para o inglês encantaram o mundo romântico daquele final de século XVIII, se tornando o livro preferido de Goethe que o cita e até transcreve longas passagens no seu célebre “Os sofrimentos do jovem Werther”, quando o jovem poeta os lê junto com a sua adorada Carlota. É preciso também mencionar que essa obra apócrifa, se tornou o livro de cabeceira do imperador Napoleão Bonaparte, que até encomendou a Ingres uma grande tela alegórica denominada “O sonho de Ossian”, que representa o bardo adormecido sobre sua harpa celta, com as Valquírias assomando no fundo nebuloso. Mas diga-se de passagem que não se trata de uma boa tela do mestre Ingres ( e isso é um outro problema crítico).
Queria finalmente lembrar também o caso “Les Chansons de Bilitis” livro de poemas de caráter sáfico, primoroso, uma verdadeira obra-prima da poesia amorosa, que o poeta francês Pierre Louÿs,do final do séculoXIX, fez passar por uma descoberta arqueológica, que ele teria traduzido do grego antigo, uma série de poemas líricos, escritos por uma cortesã de nome Bilitis, da cidade de Mitilene, a mesma da grande Safo, na ilha de Lesbos, e dirigidos a uma sua amada. O livro foi saudado como uma grande obra da poesia lírica grega, até que finalmente se descobriu que tinha sido escrita pelo próprio Pierre Louÿs. Mas aí a obra já estava consagrada e só acrescentou glória póstuma ao poeta francês. É preciso lembrar, também, que o chamado “succès d’escandale” , como dizem os franceses, sempre consagrou obras de glória duradoura, pois causaram justamente esse escândalo por sua natureza revolucionária ou de vanguarda. Haja visto um outro exemplo disso: a estréia do ballet "Le Sacre du Printemps" (A sagração da Primavera) de Igor Stravinsky , em 1913 em Paris, com coreografia também revolucionária do grande bailarino Vaslav Nijinsky , e que dividiu a platéia numa batalha tão violenta, em que eram arrancadas e atiradas até as poltronas do teatro, e que precisou a intervenção da polícia e o fechamento do mesmo.
Agora nos vemos diante dessa espécie de escândalo com dois partidos se formando, na discussão: ALMA WELT EXISTE?... ALMA WELT NÃO EXISTE? Chega a ser divertido e absurdo. Então não existe, por si só, uma obra verdadeira, imensa, prolífera, que conta inclusive com um belíssimo livro de contos já publicado, por uma editora de São Paulo e que foi saudado como uma grande obra literária pelo consagrado e grande poeta paulista Paulo Bomfim, que inclusive escreveu um belo prefácio poético para a próxima obra da gaúcha a ser publicada em livro? Também o grande bibliófilo e escritor Dr. José Mindlin, batalhador pela cultura, telefonou-me há dois anos atrás para procurar e saudar a escritora que eu tinha descoberto e que ele tinha lido e admirado.
Diante disso tudo me parece quase supérflua a discussão sobre a existência "em carne e osso", da nossa querida escritora. Sua obra existe e começa a alçar um belo vôo, que os invejosos e mesquinhos não conseguirão tolher. Alma Welt existe? Alma Welt está morta?
Longa vida para Alma Welt!
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