
22/05/2007
Considerações sobre a posteridade da poetisa e musa gaúcha
Passados cinco meses do seu falecimento, arrisco-me a fazer algumas considerações e prognósticos sobre a posteridade e permanência do fenômeno Alma Welt, a grande poetisa gaúcha, inspirada intérprete da alma e cenário de sua terra natal, o Pampa, e sobretudo de sua própria vida de poeta amorosa, confessional, lírica e apaixonada. Ninguém mais do que eu pode testemunhar sobre ela, pois me orgulho de ter sido o primeiro a descobri-la, quando estava aqui em São Paulo, auto-exilada (como ela dizia) pela morte de seu querido pai, que ela chamava o “Vati”, e que tanto ela celebrou nos seus textos e poesia, com aquela nostalgia que nos comovia por sua dor e beleza incontestáveis e universais.
Sim, eu descobri, incentivei, prefaciei, ilustrei a lancei a gloriosa poetisa, consciente de ter nas minhas mãos um fenômeno raro: uma alma lírica que conseguia ser ao mesmo tempo que uma grande amorosa e uma pensadora de rara lucidez (vide seus pensamentos no Leia Livro), características em geral contraditórias ou antagônicas. Mas eu que privei de sua intimidade por algum tempo, seduzido, é verdade, inebriado e prosternado, por assim dizer, aos pés da beldade, pude contudo observá-la e analisá-la (aceditem!) malgrado a paixão que não pude e nem quis evitar, pois como sabem, mesmo sob o prisma puramente físico Alma era a mais bela mulher que meus olhos puderam contemplar nesta vida. Sua beleza resplandecia, pois a par de uma anatomia privilegiada, vinha também de dentro, tinha respaldo numa alma límpida e pura, elevada e bafejada pelas Musas, ela que se tornou por si mesma uma musa do Pampa, de sua terra e contexto excepcionais, já que filha de um estancieiro e vinhateiro, que era ao mesmo tempo um médico e um pianista, um homem culto, às raias da erudição, detentor de imensa biblioteca clássica dentro da qual ele criou sua filha predileta em contato com os deuses, os da Arte, da Literatura, da Música, da Poesia e... os outros, aqueles do Olimpo e também os do Walhalla, de sua origem germânica. Mas foi sobretudo no caldo de cultura do grande romantismo alemão, de Goethe, Schiller, Hoffmann, Holderlin, até chegar em Nietzsche e Rainer Maria Rilke, que ele alimentou a sua obra-de-arte viva: sua filha que ele considerava um presente dos deuses e que a eles deveria ser devolvida. O cirurgião-estancieiro-pianista Werner Fiedrich Welt educou sua filha como uma pequena pagã, longe o quanto possível da influência de sua esposa católica, Ana Morgado, numa experiência perigosa de criar um ser sem o senso do pecado original, livre e sem preconceitos, feita para o amor e a entrega, sem medo do sexo, e mesmo celebrando-o a cada nova “aventura”, como um dádiva dos deuses. Confesso que isto me deslumbrou e viver a minha descoberta artística, ao mesmo tempo como paixão e fruição por pelo menos um ano da carne deslumbrante de um ser de feminilidade gloriosa e poética, de beleza divina, marcou–me para o resto dos meus dias, a mim, que já não era um garoto, mas sim um homem maduro, no começo do envelhecimento que todavia foi estancado por essa experiência maravilhosa. Já narrei nosso encontro em crônicas que publiquei no Recanto das Letras, e que foram apagadas, quando fomos, eu e ela expulsos daquele site, por intriga de invejosos, que tomaram como notícia falsa o anúncio do suicídio da nossa Poetisa.
Pessoas quiseram acreditar, talvez por defesa, que Alma era apenas ( ! ) um heterônimo meu, já que percebiam a nossa estreita ligação, e a paixão com que eu a celebrava e celebro nos meus textos a seu respeito. Entretanto devo dizer que não poderia haver maior honra do que me atribuírem a autoria de seus textos e até da criação dessa Musa pampiana (eu que sou um paulistano empedernido e enraizado!). Quem me dera possuir o talento transcendente de minha adorada Musa, que iluminou quase tardiamente minha vida de artista plástico e cordelista, no ocaso do meu percurso! Mas que injeção de ânimo (ou deveria dizer de Anima), de entusiasmo, de rejuvenescimento mesmo, esse encontro providencial me causou! Por um ano inteiro privei de sua companhia, de seu carinho, de seu amor e paixão, e porquê não dizer: do seu corpo deslumbrante e miraculosamente branco que era uma festa de prazeres e de fruição estética, como quem se deita com uma deusa, a própria Vênus (perdoem-me talvez o acesso de parnasianismo... ) Sim, quem amou e foi amado um dia por essa diva, quase não tem mais o direito de continuar a viver, senão em memória, em nostalgia, saudade e dor. Todavia, devo reconhecer que ela se deu a mim por generosidade e até por gratidão, e eu deveria, pois, me envergonhar de não ter podido abrir mão de tão imensa dádiva, pois percebo que o amor maior de sua experiência paulistana foi a modelo Aline, que ela celebrou em versos imortais. Também a jovem Andréa, com quem manteve um uma correspondência amorosa-virtual alucinante, do qual ela publicou algumas cartas belíssimas, que constituem um verdadeiro romance epistolar erótico–digital, por e.mail, que espero ver um dia publicado completo em livro, para deleite de seus leitores e admiradores. E finalmente o último grande amor de Alma, por uma sua aluna, que mereceu dela um maravilhoso “Drama lírico em 42 sonetos(cenas) e três Atos”, que ela titulou “Sonetos a Mayra” ( não sabemos se é o nome verdadeiro da pequena musa de nossa Musa), que eu ilustrei fartamente e espero conseguir editor. Alma nessa obra, como já era característica sua conta uma estória de amor através de um ciclo de sonetos curiosamente narrativos, de extraordinária pungência e inspiração lírica, cheios de paixão e erotismo. Confesso que a principio quase me causou despeito, por não ter merecido na nossa relação algo assim, uma obra equivalente que evocasse ou celebrasse de tal maneira encantadora o nosso relacionamento, e então pus-me eu mesmo a narrá-lo em algumas crônicas que publiquei naquele Recanto e aqui no nosso LL e que reconheço não lhe fazem justiça, pois estão longe do seu estro magistral, de poetisa predestinada à glória imortal.
Agora paira um silêncio misterioso, eu sinto, sobre a querida Musa Pampiana. Não temos senão raros comentários aos seus textos aqui no Leia livro, embora possamos perceber pelo registro de acessos diários nos tópicos de seus textos no Google, que ela continua imensamente procurada e lida. Mas, por quê, eu pergunto, não a comentam, ela que foi tão louvada no RL ? Um silêncio recente pesa talvez sobre os mortos. Eu mesmo quase não ousava mais escrever sobre ela, mas como a uma criatura sagrada que não se pode nominar em vão...
Perdoe-me, Alma, o meu longo silêncio de cinco meses, desde que nos deixou perplexos, chocados e inconformados. A sua morte deliberada, desesperada talvez, soou como uma bofetada em nossa face. Não se importava, perguntamos então naquele momento, com o nosso amor, com o nosso misto de carinho e reverência, com a nossa admiração? Como pôde partir sem um adeus, sem um bilhete aos seus leitores, aos seus admiradores e amigos? Bem... alguns de seus últimos sonetos, agora vemos, já indicavam o seu propósito, como o celebrado "A Carruagem". Ficamos perplexos e logo... revoltados. Você foi, como punição, expulsa póstuma e imediatamente, com imenso escândalo, de um site que a consagrou (e eu contigo). Logo percebi que acompanhá-la no seu relativo exílio literário era também honra e destino: não deixaria jamais a minha deusa, a pequena grande Alma, a poetisa maior que me fez cativo para a eternidade. Estarei aos seus pés, como diria a outra, Ana Cristina César, para sempre esperando, esperando um retorno, um aceno, até o fim do meu próprio exílio nesta terra, nem que seja como o que Lúcia, sua devotada irmã, testemunhou e me contou, lá no seu verde Pampa, em torno ao casarão: seu lindo e translúcido espectro vagando, vagando e nos chamando a acompanhá-la...
Aonde, Alma? Aonde?
______________________________
A Carruagem
(útimo soneto escrito por Alma Welt e publicado no seu site, ora estranhamente cancelado. )
Um piano toca no salão!
Ah! E não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long-play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver que agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo, que eu irei
Quietinha, assim na carruagem!
19/01/2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário