quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A roda do amadurecimento

"Vou lhes contar uma estória. Em 1980 eu estava no auge do sucesso em minha carreira iniciada em 1962, e ganhando muito dinheiro. Mas,sendo um bebedor e fumante inveterado desde os 14, tinha, subjetiva e emocionalmente, chegado ao "fundo do poço". Entretanto, sentindo a loucura se aproximar, recusei uma gloriosa pecha de "maldito" que já se delineava num breve futuro e renunciei à vertiginosa autodestruição que provavelmente me celebraria como mais um jovem herói ou mártir da arte da minha geração. Tendo visto de perto "a goela do lobo", apavorado, parei subitamente de beber e fumar, e numa súbita espécie de iluminação abandonei toda a boemia que tanto me seduzia desde adolescência. Passei a viver desde Abril de 1981 uma vidinha pacata, sem festas, libações nem delírios, e descobri que não precisava de nada, nenhuma gota, nada de paraísos artificiais para continuar criando. A vida ficou muito melhor, todos os conflitos íntimos da minha louca juventude cessaram ou foram me deixando... e a roda do amadurecimento, estacionada desde os 14, recomeçou com atraso a girar lentamente. Agora, emocionalmente devo estar com uns 30... e minha imaturidade passa quase despercebida." (das memórias de Guilherme de Faria)

Nenhum comentário: