"Naqueles dias de 1974, já de volta a São Paulo com a família, eu trabalhava muito em minhas telas e desenhos e começara a fazer litografias no ateliê Ymagos-Glatt, realizando diversas exposições pelo Brasil afora, principalmente das minhas litos. Eu tinha que transportar grandes quantidades de gravuras e desenhos emoldurados de um lado para o outro e para isso contratava os serviços de um motorista de uma perua Volks de fretes e seu ajudante carregador, um pretinho pequeno e franzino mas que carregava pesos enormes para minha aflição, sem se queixar. O motorista e dono da perua, seu Odair, era fumante inveterado, homem esverdeado e vincado pelo vício e do qual fiquei amigo o suficiente para ele me contar o que sentia por sua esposa. Ele dizia: "Seu Guilherme, eu tenho um ódio pela minha mulher, seu Guilherme! Mas um ódio!... " E eu então perguntei: "É sua ex? Você tem que vê-la muito? "Não, seu Guilherme. Mora comigo há 35 anos e faz pelo menos uns 34 que eu odeio ela..." Eu fiquei perplexo e tornei a questionar: "Mas como você consegue... na mesma casa... vocês se falam?" - "Não, a gente não se fala uma palavra faz pelo menos uns trinta anos, mas ela deixa a casa limpa e arrumada, a minha roupa lavada e passada para o dia seguinte, a minha janta pronta e se recolhe ao seu quarto... ".
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
Diante dessa revelação achei melhor mudar de assunto, pois estava diante de um caso de profundo amor e dedicação feminina, coisa que sempre me impressionou.
O caso do valente carregador:
Perguntei ao motorista: "Seu Odair, e aquele ajudante pretinho que o senhor tinha... não o vi mais com o senhor... O senhor o despediu?" -"Morreu, seu Guilherme..."- " Que pena, seu Odair! O que aconteceu? Ele me parecia mesmo muito franzininho... Mas sorria e parecia muito alegre. Me impressionava. Como foi que ele morreu?."- "Pois é, seu Guilherme,.. Morreu bem o Capilé... sentadinho com a mulher e os cinco filhos, no barraco, todos juntos no sofá esfarrapado vendo televisão. De repente, como um passarinho." Fiquei mudo, mais uma vez, agora vendo claramente em minha mente aquela cena, que me fazia perceber a relatividade de tudo em nossas vidas, principalmente a da felicidade, mistério mais profundo do que a dor e a pobreza humanas..." (das Memórias de Guilherme de Faria)
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