quarta-feira, 25 de maio de 2016

Viagem ao Ecuador


"Em maio de 1986, estando eu muito ativo nas litografias no ateliê Ymagos, em São Paulo, fui convidado pela Sônia Sanchez (atualmente Sônia Zanchetta) uma brasileira casada com um ecuatoriano, que residia em Quito e era presidente de La Associación de Damas Brasileñas em Ecuador, ligada à Embaixada Brasileira, para realizar uma exposição individual das minhas litografias que ela organizou no "Colegio de Arquitectos de Pechincha" (bairro próximo do vulcão desse nome, ao pé do qual se situa a cidade de Quito). Descendo de avião, perigosamente, quase esbarrando nos picos dos Andes me vi numa encantadora cidade colonial preservada, cujos museus, igrejas e monumentos me fascinaram pela sua riqueza em duas vertentes culturais: a colonial, espanhola barroca e religiosa da "escola quiteña" dos séculos XVI, XVII e XVIII , e por outro lado, a vertente Inca e de inúmeras culturas nativas muito mais antigas, pré-colombianas, prolíferas em cerâmicas deslumbrantes, que brotavam da terra como raízes e se espalhavam pelas casas de inúmeros colecionadores e eram, apesar de proibição estatal, contrabandeadas como tesouros por colecionadores da Europa e Estados Unidos, aos milhares. Fui recebido por Sonia e seu marido Fausto Sanchez, casal jovem, de uma simpatia e hospitalidade extraordinárias, ela muito ativa culturalmente na cidade, trazendo e hospedando artistas do Brasil, apresentando a arte brasileira, e ele, um engenheiro e montañero (alpinista andino) extremamente solícito e engenhoso, que, eu chegando, emoldurou pessoalmente, com as próprias mãos, todos os trabalhos que levei comigo para a exposição, uma centena de desenhos e litografias (!!). O ilustre casal me hospedou em sua encantadora casa numa pequena vila charmosa em que havia também, algumas casas adiante, uma pequena e linda Casa de Chá, o "Bangalô", montada em sociedade por Sonia e Tuca Guerra, outra brasileira, em que diariamente, na "happy hour" se reuniam jovens artistas de Quito, entre eles o jovem Jaime Zapata, pintor extraordinário, atualmente célebre no Ecuador, e a encantadora e jovem escultora Patricia Morales Parra, e o casal simpaticíssimo Gerardo Guerra (hoje excelente pintor) e Tuca para conversar, rir e cantar ao som do violão de um jovem músico e cantor excelente que me iniciou nas canções de Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, velho índio da província de Tucumán, que conquistara o mundo e consistia ele próprio num ícone folclórico e popular amado pela América Latina inteira através da voz poderosa de Mercedes Sosa. Ali eu ouviria pela primeira vez a inesquecível canção "Luna Tucumana", uma das fontes da minha inspiração gaúcha da futura Alma Welt minha suprema criação artística e poética... " (das Memórias de Guilherme de Faria) 

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