Estávamos em 1968, e havia no ar uma revolução social dos costumes e do comportamento jovem. Eu como artista em lenta ascensão, livre do meu primeiro "casamento" fracassado por imaturidade, confesso aproveitava ao máximo as oportunidades amorosas e sexuais que se me apresentavam. Num certo momento, conheci na casa do meu marchand italiano Baccaro, uma garota linda que me pareceu deslumbrante por suas pernas compridas, fora do padrão brasileiro de então. Era do Sul, de Santa Catarina, e seu sotaque também me encantava. Imediatamente passamos a noite juntos e no dia seguinte ela me levou para a sua casa em Florianópolis (fomos de ônibus, claro). Chegamos de noite. Era uma casinha de madeira com um sótão encantador, e depois dela me apresentar apressada e impacientemente sua mãe, uma mulher simples com cara de camponesa alemã, subimos para aquele sótão e lá ficamos numa farra inebriante para mim, sem descer até o dia seguinte, quando acordei nos seus braços com o som de uma verdadeira música vocal que vinha lá de baixo, da cozinha. Era um uma espécie de monólogo ou relato, na mais bela voz e sotaque que eu jamais ouvira. Fiquei tão curioso que me desvencilhei dos braços de minha jovem amante e vestindo-me apressadamente desci daquele sótão e me deparei com uma empregadinha muito branca, jovem, que falava com a sua patroa. Elogiei tanto o seu modo de falar, seu sotaque, verdadeira música para os meus ouvidos, que, surpresa, ela me informou ser descendente de portugueses açorianos. Muitas décadas depois, eu iria emprestar esse sotaque à minha suprema criação, a poetisa Alma Welt, por conta de sua ascendência açoriana materna, conjugada com as compridas pernas alemãs de seu lado paterno...
Mas, como acabou a minha aventura catarinense? Pateticamente... Convidado a sentar na mesa da cozinha para o café da manhã antes que minha namorada descesse, a senhora, em lágrimas, começou a me implorar pela sua filha: "Casa com ela, meu filho, casa com ela! Tu pareces ser um bom rapaz, educado! Pelo amor de Deus, casa com ela!" Eu, constrangidíssimo, me vi numa situação inusitada, isto é, verdadeira, diante do sonho falso em que estava vivendo. Percebi, num átimo, que a revolução dos costumes não atingira todo mundo, isto é, a geração dos nossos pais... e como os fazíamos sofrer! Respondi à senhora que me agarrava as mãos implorando que "salvasse" sua filha "perdida": "Senhora, eu amo sua filha e casaria se pudesse, mas sou casado, isto é separado, não posso me casar mais (era verdade)..." A senhora ficou perplexa, desolada, tanto mais que para ela, vivermos juntos eu e sua filha, em pecado, não seria solução. Minha jovem "hospedeira" desceu do sotão pela escadinha de madeira, nesse momento, fuzilando com o olhos sua mãe "intrusa", que abaixando os olhos recolheu as mãos que agarravam as minhas. Não preciso nem contar como dali por diante, envergonhado, eu só pensava em cair fora, me desvencilhar daquela relação perigosa, ameaçadora da minha liberdade recém conquistada. Fiquei subitamente consciente de estar no fio de uma lâmina, na fronteira de dois mundos... e o mundo velho sofria por nós, pelos jovens afoitos que nós éramos, ávidos de vida e de prazeres, pisando nas velhas cabeças... almejando um paraíso duvidoso, que parecia agora ao nosso alcance...
( das Memórias de Guilherme de Faria)
( das Memórias de Guilherme de Faria)
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