quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A vida em arte

"Minha vida se passou inteira no âmbito da minha própria arte, quero dizer, que fora dela nada do que vivi faz sentido, nem mesmo meu encontro com as mulheres da minha vida, que sofreram muito justamente por isto. Agora que envelheço e me torno tardiamente mais humano, queria pedir sinceras desculpas a todas elas pela minha inconstância na época, meus tormentos, minhas neuroses e sobretudo pela minha incapacidade de fidelidade. Entretanto percebo, até com certa surpresa, que elas já me perdoaram e quando eventual e raramente as reencontro, o olhar terno delas sobre mim me comove, e que através do velho artista de cabelos e barba branca que me tornei, parecem estar ainda enxergando aquele jovem belo e atormentado que eu fui um dia, mas cuja aura de artista verdadeiro as conquistou. Se elas soubessem que eu sinto tanto... e que queria que tivessem sido felizes comigo, como talvez o foram com os que me sucederam, e que envergonhado reconheço que nisso eu redondamente fracassei... Elas mereciam muito mais, jovens, belas e, afinal, cândidas mulheres da minha vida..."
(das Memórias de Guilherme de Faria)

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