"Minha vida interior pouco deve a um Brasil real. Por dentro vivi sempre num mundo literário clássico, profundamente europeu em sua essência de séculos, mas sem descartar as fabulosas estórias do Gênesis bíblico e dos Evangelhos. Me emocionei e me identifiquei totalmente com as biografias, romanceadas ou não, dos grandes mestres da pintura europeia, da Renascença para cá, dos trágicos sofredores aos aparentemente triunfantes, descontado o final sempre patético, comum a quase todos nós. O mundo da Arte sempre me pareceu senão o mais real, o mais legítimo. Entretanto, garanto que tenho bastante senso da realidade circundante, no caso triste e até sórdida, do meu país. Tenho "os pés na terra" o suficiente para sofrer pelo nosso Brasil e sua horrível degradação política, econômica e educacional. Pinto, escrevo e falo como se estivesse num país de cultos e letrados e como se todo mundo pudesse me entender. Mas, uma curiosidade: todas as vezes que conversei, sem concessões de linguagem ou postura, com populares, isto é, pessoas simples do povo, percebi que me entenderam perfeitamente e mais: me agradeceram com tocante sinceridade. Também há quem diga que captei a essência poética do nosso povo do sertão ao compor os meus cordéis de inusitado cunho sertanejo, já que nada levaria a crer que tal coisa pudesse brotar de um pintor e poeta urbano como eu, criado e vivendo à beira de uma prosaica rua Augusta, como se às margens de um rio inglório e banal, e não "do Urucuia onde tanto boi berra" *. Se tenho algo a dizer de mim como artista, de maneira resumida e sintética, agora que me aproximo da fase final, eu direi: dediquei minha vida à beleza da Verdade Poética universal do ser humano e da natureza tal como intuí sem um respaldo palpável do meu entorno, senão da própria Arte que os grandes mestres me apresentaram pelos livros e pelos Museus. E afirmo: um único grande quadro observado com infinita admiração por horas ao vivo, ensina a pintar a quem deseja isso acima de tudo. Assim também um único grande livro lido, relido e amado, ensina a escrever uma alma apaixonada pela vida... e temerosa da Morte."
(das Memórias de Guilherme de Faria)
(das Memórias de Guilherme de Faria)
Nota
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
..."do Urucuia onde tanto boi berra" frase recorrente do monumental romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário