"Alma Welt, a morte no Pampa" - óleo s/tela de 2007, de Guilherme de Faria, coleção do autor.
Prefácio aos Contos Secretos, de Alma Welt (por Guilherme de Faria)
Estamos diante de uma coletânea inusitada de contos, que constituem, surpreendentemente, as memórias de uma verdadeira “Casanova de saias”, como alguém de referiu à autora num conto dela mesma. Mas, o quê significa isso? Uma autora, jovem e bela mulher que tem a coragem inaudita de confessar com detalhes sua vida amorosa e sexual de artista, intensa, erótica e romântica a um só tempo, de uma maneira sensível e encantadora conquanto explícita, sem peias, sem falsos pudores. Nunca se viu isso antes na estória da literatura. Tanta liberdade erótica nas narrativas de uma mulher a respeito de si mesma. Devemos nesse ponto lembrar Anaïs Nim que embora grande escritora não chegou tão longe no âmbito confessional pois suas narrativas propriamente eróticas se referem mais a personagens ficcionais de sua criação, exceção feita à belíssima insinuação, no seu diário, à uma cena de Anaïs na cama com June, que afinal frustra o leitor, pois é interrompida por um conflito insurgente e insolúvel. Parece, também, que aquela diva (June) nunca se conformou com o tom usado por Henry Miller para descrever suas relações na cama ou fora dela, pois romântica, queria ser uma musa celebrada em termos delicados e “ideais’, coisa alheia ao espírito cru e existencial de Henry.
Mas nossa autora, Alma Welt, bela gaúcha de destino privilegiado pois criada numa “estância” e filha de um “livre pensador” muito culto, libertário e ao mesmo tempo cultor do romantismo alemão, Werner Friedrich Welt, que ela chama carinhosamente de Vati (pronuncia-se Fáti, papai ) constitui um caso único, ao meu ver, de autora jovem, com essa coragem confessional que não exclui detalhes, nada esconde e ainda assim consegue escapar da classificação de “pornografia”, palavra ainda hoje carregada de uma pecha “maldita”, senão pejorativa e desmerecedora. Como consegue ela tal proeza? É simples, no entanto, a explicação: por causa de uma insólita “pureza” ou candura inesperada numa mulher tão inteligente e culta. Essa mesma pureza que ela atribui, com certa originalidade, ao nosso conhecido Casanova, na dedicatória deste seu livro, em forma de trovas dirigidas a alguns famosos eróticos do passado. A propósito, a chave para o desvendamento desse verdadeiro enigma, a própria autora fornece esparsamente nalguns textos: sua relação incestuosa com seu irmão, descoberta de forma traumática por sua mãe, Ana Morgado, já falecida. No conto intitulado “O que falta dizer”, Alma revela um episódio que nunca uma moça, na estória da literatura, ou (se isso houvesse) na “história dos divãs de psicanalista”, jamais narrou. Um pequeno fato que seria escabroso, não fosse a já citada candura lúcida da autora. Mas é preciso lembrar que Alma é uma poeta, ou “poetisa” como ela prefere ser designada, e isso explica alguma coisa. Os poetas têm, queiram ou não, uma tensão de beleza na sua abordagem do mundo. A própria Alma cita num destes contos, o famoso verso de John Keats, da “Ode a uma Urna Grega”: “A verdade é a beleza; a beleza, a verdade. Isso é tudo o que há para saber”. Como herdeira legítima do romantismo europeu, Alma não poderia deixar de citar esse verso exemplar.
Está se vendo que detectei uma grande pureza nesta autora erótica, e que estou encantado por isso mesmo. Por outro lado suspeito que isso constitui seu próprio “pathos” e o problema para uma aceitação da autora nas classes chamadas burguesas. Pois me parece que a burguesia hoje em dia constitui-se precisamente disso: uma mente conservadora e hipócrita que é capaz de assimilar a própria pornografia, pois essa não exclui a chamada má consciência em relação ao sexo, que é sua mais renitente característica. Uma moça que confesse com tal pureza, e, portanto, com extrema liberdade, tudo sobre sua intensíssima vida sexual que não exclui pequenas perversões, tem ainda o poder de escandalizar! E não me refiro aqui à sua evidente bi-sexualidade, que não deve assim ser simplesmente classificada, mas jogada na conta de sua celebrada liberdade. Refiro-me, sim, a uma dose de sado-masoquismo, que a autora mesma se atribui, e cuja raiz encontra-se no trauma causado por sua mãe ao descobrir o incesto de sua filha. Alma consegue superar o trauma por catarse, ou seja, não se reprimindo ou cerceando a sua sexualidade mas exercendo-a de forma intensíssima e desabrida, tornando-se até mesmo uma sedutora e colecionadora de casos amorosos ardentes, embora sua grande paixão se concentre em dois personagens reais de sua memória: seu irmão Rôdo e a jovem modelo paulistana Aline, por quem sua paixão atinge um timbre por vezes comovente (vide o conto “Tudo o que faremos quando voltares”, verdadeiro poema em prosa, de grande exaltação amorosa.)
A nota masoquista, visível por vezes em seu texto, é perturbadora, concordo, e levou a autora ao que parece a situações de uma exposição, ou vulnerabilidade, que acabou precipitando o estupro, pelo menos três vezes ao longo de sua jovem existência, a julgar, pelas narrativas no seu romance autobiográfico, e evocadas dolorosamente, aqui e ali nos seus vários livros de contos. Alma parece acreditar que os leitores não têm rosto, que nunca terão, e que por isso ela pode confessar tudo, como num divã de psicanalista, coisa improvável, senão perigosa. Entretanto, Alma aparece lidar com esses fatos em sua vida, desafiando-os e às suas conseqüências, por meio da confissão impudica e naturalista. O resultado dessas violências na vida da autora, pode, por isso mesmo, ser detectado por essa sua forma de tratar o sexo, que, sob uma capa de naturalismo, incluiria um certo “desafio” denunciador do próprio trauma. Nisto consiste o “pathos” weltiano, a que já me referi.
Alma Welt me comove, pois, para além da dor implícita e subjacente a isso tudo, está seu amor à beleza e ao próprio amor. Mas o importante, numa escritora como ela, é que esse amor se revela na beleza estética de sua escrita e na profundidade sutil de sua visão de mundo, que inclui um toque, digamos, filosófico, de cunho panteísta, que corrobora a tese de sua candura. Alma parece se considerar, de boa fé, uma espécie de feiticeira ou druidisa, a julgar por certas passagens, principalmente de seu romance “A Herança”, de grande beleza, uma saga de família, passada em sua estância no Sul, em pleno Pampa evocado com grandeza telúrica.
Mas voltemos a este livro de contos. Por quê “secretos”? Talvez porque a autora também considere que essas coisas normalmente não se contam, são mais que confidenciais, e por isso mesmo, haja certa originalidade em publicá-las, embora, para além do caráter confessional, também uma qualidade literária evidente e aliciadora.
Mas, alguém perguntaria ao final da leitura deste volume, essas coisas realmente aconteceram, são pessoas e fatos reais da vida da autora? Suspeito que sim. Através da pouca convivência com a poetisa, que ela me permite na qualidade de seu descobridor, prefaciador e em certa medida seu ilustrador, embora seja ela mesma artista plástica, tenho a impressão de que é tudo verdade. Fatos reais, acontecidos, fruídos e assimilados por uma sensibilidade comovedora.
Por outro lado, não podemos descartar o poderoso subjetivismo do Artista. Onde termina o sonho, onde começa a realidade? Existe essa fronteira? A própria Alma nos adverte que não, ao citar outro grande romântico, Novalis:
“A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro.”
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